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Thursday, February 21, 2019

Os Sapatos da Múmia


Guanajuato lida com seu Museu das Múmias de pelo menos duas maneiras: uma séria, com esclarecimentos históricos e científicos, e outra jocosa, aquela história de múmia como personagem de terror, múmia marvel, essas bobagens. Prevalece, graças, a séria e nem deveria ser de outra maneira, já que aquilo tudo é muito impressionante mesmo.

Ainda durante a visita dois aspectos me chamaram a atenção: as múmias que pareciam gritar como o grito de Munch, e os sapatos de algumas, minoria.

Impossível não lembrar de Nava.  (Que teria corrido para o museu, claro, para depois sofrer com os pesadelos recorrentes e despertar de olhos esbugalhados e banhado de suor em seu apartamento na Glória.)


— Meus amigos! Lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
deste pobre terrível morto,
que vai se deitar para sempre,
calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão
os penetras escorraçados,
as prostitutas recusadas,
os amantes despedidos,
como os que saem enxotados
e tornariam sem brio
a qualquer gesto de chamada.
Meus amigos! Tenham pena,
senão do morto, ao menos
dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
e olhai os vossos também...






Monday, February 04, 2019

Frida : O Coração qual cama de dossel



Tendo Frida Kahlo se tornado espécie de ícone pop mundo afora, não surpreende sua ubiquidade em seu país. Ou seja, a pintora não é dos profetas nunca reconhecidos em sua própria terra, estando presente em todas as cidades mexicanas que visitamos. A casa em que ela nasceu e viveu com Diego Rivera é dos museus mais visitados, e estamos falando da cidade que, simplesmente, é a que tem mais museus no mundo.

A visita à Casa Azul, no delicioso bairro de Coyocán, vale? Por óbvio. Talvez nem tanto pelas pinturas ali presentes, mas por tudo que tem de encantatório e evocativo.

Um pouco como as casas de Neruda (aqui) ou a de Jorge Amado e Zélia no Rio Vermelho.

E é preciso visitá-la, à Frida e à casa, para melhor acercar-se do poema que Marty McConnell escreveu-lhe.


Frida Kahlo to Marty McConnell


leaving is not enough; you must
stay gone. train your heart
like a dog. change the locks
even on the house he’s never
visited. you lucky, lucky girl.
you have an apartment
just your size. a bathtub
full of tea. a heart the size
of Arizona, but not nearly
so arid. don’t wish away
your cracked past, your
crooked toes, your problems
are papier mache puppets
you made or bought because the vendor
at the market was so compelling you just
had to have them. you had to have him.
and you did. and now you pull down
the bridge between your houses.
you make him call before
he visits. you take a lover
for granted, you take
a lover who looks at you
like maybe you are magic. make
the first bottle you consume
in this place a relic. place it
on whatever altar you fashion
with a knife and five cranberries.
don’t lose too much weight.
stupid girls are always trying
to disappear as revenge. and you
are not stupid. you loved a man
with more hands than a parade
of beggars, and here you stand. heart
like a four-poster bed. heart like a canvas.
heart leaking something so strong
they can smell it in the street.











Wednesday, April 05, 2017

Dante e o Museu do Ingá



Acabei de ler que o Museu do Ingá fecharia as portas para o publico "espontâneo", passando a atender apenas a grupos agendados, o que me entristece muito.

Enquanto moramos no bairro, Dante e eu fomos espontâneos bastante frequentes, principalmente nas tardes de domingo de 2012. Ele tinha acabado de conquistar a posição ereta, mas não aguentaria a (pequena) caminhada até lá. Íamos os dois de velocípede ou carrinho.

Ali pensei em muitos poemas que viriam a formar os dois livros lançados no fim do ano. Pensava também na moça que eu acabara de conhecer virtualmente. Ali ele foi à sua primeira exposição. Dali ficaram registros que ora revisito com carinho.









Sunday, February 05, 2017

Crônicas Sul-Africanas IV :: O Museu do District Six



Em 2008, por ocasião de viagem à Holanda, li no Fodor's que, se você tivesse tempo para apenas um lugar em Amsterdã, este deveria ser a casa de Anne Frank. Aquilo, assim colocado, me marcou e ora parafraseio: se você tiver apenas uma tarde ou manhã na Cidade do Cabo, vá ao Museu do District Six, o museu que conta, poética e visceralmente, como 60 mil habitantes de um antigo bairro da cidade foram removidos à força porque o governo do apartheid quis fazer da região uma área exclusiva para brancos. E lá se foram enxotadas 60 mil pessoas, negros e muçulmanos, muitas vezes com uma mala nas mãos apenas. Houve quem resistisse, claro, e tinham água e luz cortadas. As casas também foram demolidas.

Isso me lembrou tanto o Morro do Castelo. Isso me lembrou tanto a gentrificação recente por que passou / passa a Zona Portuária do Rio.


















Wednesday, November 16, 2016

A diferença entre Loneliness e Solitude



Diferenças óbvias como: a primeira é de banda inglesa e saiu em 1970 ao passo que a segunda é de norte-americana de 1971 quase que nem contam, mesmo porque prefiro ver semelhanças aí : bandas anglófonas do início dos 70.


Solitude :

Loneliness :


Wednesday, November 09, 2016

Casa Pentagna em Valença



Ela é conhecida oficialmente por Casa de Cultura Léa Pentagna, mas prefiro chamá-la de Casa Pentagna ou dos Pentagna, de modo que assim abarquemos os irmãos de Lea que também moraram ali.

Foi nesta casa que Lúcio Cardoso começou seu romance Crônica da Casa Assassinada (aqui), mas, embora não seja pouco, identificar o lindo palacete neoclássico como a casa assassinada seria tolo, mesmo porque respiram-se ali vida e beleza, em nada semelhante ao ambiente claustrofóbico, castrador e inóspito do romance do Lúcio.

Impossível escolher o ambiente mais bonito (Casa Cor no chinelo). Os quadros, incluindo o retrato de Léa e o de Vito, são do espanhol Timoteo Pérez Rubio, mas se você olhar com atenção pode se deparar com Iberês Camargos pendurados na sala. Ambos, Timoteo e Iberê, amigos da família.

Resumindo: uma casa-museu viva, exemplo de conservação, e até onde sei, sustentabilidade, a ser seguido por instituições similares Brasil adentro.