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Sunday, August 18, 2019

"Seu Faleiros, o senhor sempre me tenha muito amor..."



Corpo de Baile não poderia terminar de maneira mais grandiosa: fechando o segundo volume, as duzentas páginas desta obra-prima que é "Buriti". Um romance, de fato. Parece trocadilho trivial, mas este conto / romance só poderia ser assim: grande, grosso, Buriti-Grande, que tudo aqui é fálico.

É aqui que o Miguilim, do conto inicial mais lindo da literatura, retorna, Miguel, moço crescido, formado, em busca (ai) de um amor.

Tudo aqui é fálico.

Os avós de Glorinha, pais de Iô Liodoro, são Vovô Faleiros (é tudo fálico) e Vovó Maurícia, que pedia ao marido: "-- Seu Faleiros, o senhor sempre me tenha muito amor...". Pois bem, esta Vovó Maurícia, que gostava de vinho (de buriti?) é irmã daquela velhinha querida, a Rosalina, Lina, que já aparecera, com destaque, em "A Estória de Lélio e Lina".

E, arrá, a riqueza que é Guimarães Rosa, o mais legal é que Maurícia é... o nome científico do buriti. Tudo fálico, tudo buritis.

O buriti da foto é da Ilha do Combu, em Belém. Logo pertinho tem uma senhora samaúma de muitos séculos. Amei o samaúma, amei o buriti, que estes sempre.

Ponho-me a escrever teu nome / Com flores de chichá



Contei seis chichás aqui no Antigo Zoológico, o Recanto do Trovador, parque tão bonito quanto abandonado e vandalizado. 

Mas resistem os chichás, dois ladeiam o belo portão de ferro da entrada. Chichá-fedorento (sterculia foetida), com fruto de nome xixá, mesmíssima palavra mas de grafia diferente. Em tupi, xixá é "punho fechado". E a florzinha, de fato fedorenta, faz tapetes na terra. Então pode-se reconhecer o chichá pelos tapetes ou pelo cheiro. Ou pelos punhos fechados.

Peguei punhado dessas florzinhas e escrevi o nome do Dante, menino já tão cheiroso (e amoroso e teimoso) que equilibra bem o que de fétido houver no dia




Tuesday, March 12, 2019

Crônicas Amazonenses II :: Buritis


São tantos os buritis no caminho entre Careiro da Várzea e o bravo Rio Tupana, tão enfurnado no meio da mata. Não esperava encontrá-los por aqui, e assim em quantidades, e assim robustos. A diferença é que no norte de Minas ao agrupamento de muitos no terreno onde há sempre alguma água dá-se o nome de vereda, enquanto que por aqui chamam de charco

Quando desci o Rio Urucuia em viagem de 1992 (Buritis-Arinos-Urucuia) para chegar ao São Francisco (São Romão- Guararavacã do Guaicuí-Pirapora), esbarrei em muitas veredas, mas hoje, com tanto eucalipto, cana e soja, elas vão rareando, o que é triste demais.

Ao menos no caminho entre Careiro da Várzea e o Rio Tupana os há a mancheias. E, para glória do Senhor, havia ainda dois em meu hotel.

Me deu saudade de algum buritizal, na ida duma vereda em capim. Saudade, dessas que respondem ao vento; saudade dos Gerais.

Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus-buritizais levados de verdes... Buriti, do ouro da flor 






Saturday, February 02, 2019

No meio do caminho havia uma chuva / De ouro


No meio do caminho havia uma chuva
de ouro
nunca me esquecerei deste acontecimento
eu que já tanto esqueço
na vida das rotinas fatigadas
e retinas semicerradas
nunca esquecerei da chuva de ouro
apontando caminhos
eu que me esqueço
no meio da chuva de ouro

Vimos a árvore tão amarela na van a caminho do passeio que nos levaria a Tule e Herve el Agua. Passamos por dois e já no primeiro perguntei ao motorista / guia pelo nome. No segundo, os gringos atrás de nós é que perguntaram, e eu, cheio de empáfias, antecipei a resposta, todo entendido.

No dia seguinte, um dia inteiro para Oaxaca e, na listinha, encontrar as árvores amarelas.

Só depois descobrimos tratar-se de flores alucinógenas e que poeta de nome Thompson escrevera que "the long laburnum drips / Its jocund spilth of fire, its honey of wild flame!", versos que tanto influenciaram Tolkien.

É um pouco como o jambo (aqui) e os ipês (aqui)














Wednesday, September 26, 2018

Soneto de uma Rima Só para aquele cujo nome não se deve


Fascista distinguível pelo faro
um odor putrefato e nem tão raro
Um ratapulgo imundo e sem preparo
Misógino racista escroto ignaro.

#elenão! Ele nunca! Fique claro
neste soneto altíssono declaro
Se às vezes desanimo, logo saro
e busco forças pro combate amaro.

#elenão! Ele nunca! Fique claro
Portugal aderiu, do Porto ao Faro
não aceitar este destino avaro.

A luta continua, põe reparo
pois tudo que te peço, ó meu caro,
ouve: é jamais votar no              .

Sunday, July 08, 2018

No meio do caminho tinha uma paineira




Cheguei da rua animado para escrever sobre a paineira da Mearim esquina com a Itabaiana. A grande senhora espinhuda, já quase sem folhas, nevava flocos de algodão na quietude da manhã. O chão à sua volta, um tapete de nuvens. Aí veio essa história do Lula, ficamos excitadíssimos aqui em casa, mas agora volto à paineira, agora já noite fresca e ela, árvore sagrada na mitologia maia, ainda lá, uns frutos grandes como abacates, os flocos de algodão em doce voo.

Drummond fez o seu elefante -- massa imponente e frágil -- de madeira, algodão, doçura e paina. Então abaixei-me e catei o que pude da paina no chão. Não para fazer elefante, quem me dera essas habilidades, mas travesseirinhos. Um pro Dante, outro pra Lelê, outro pra Lara. Outro pra Páti, outro pro Francisco.

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos moveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.

< carlos >

Lelê

Páti

Lara

paina

Monday, June 18, 2018

Fazer contigo o que junho / agosto faz com os ipês


Sem medo de cair no clichê: o paulistano é ele tão estressado e ansioso que em sua terra até os ipês-rosa florescem com dois meses de antecedência.

O que invalida poema que escrevi, há coisa de seis anos, inspirado num dos vinte poemas de amor do Neruda:

Fazer contigo
o que faz agosto com os ipês.

Com medo de cair no etnocentrismo, em agosto há mais consolo, que o mês é mais duro

Mas os de São Paulo eram soberbos

Acordamos cedo na manhã de domingo (até as padarias abriam sonolentas) e ouvimos num silencioso Pinheiros chuva improvável de flores

Ah, um Bashô ali









Monday, October 09, 2017

O ipê-branco começou



A companheira está em São Paulo, a irmã em Brasília, a babá doente. Ninguém hoje para ajudar um pouco com o Dante.

Mas meu ipê-branco começou a florir. E meu ipê-branco começou a florir.

Eu achava que ele estava atrasado, mais tímido que de costume, mas não, se a postagem do ano passado foi no final do mês (aqui).

Terceiro movimento, como quis Rubem Alves, terceiro movimento depois do ipê-rosa e do amarelo, terceiro movimento da quarta de Mahler, a única em sol maior.


Thursday, February 23, 2017

Os jambeiros começaram de novo



Fui hoje ao Parque Lage imbuído do único propósito de ter com um jambeiro que eu avistara no dia anterior, de dentro do 439. Achei-o fácil e vi que o poema escrito para ele há cerca de um ano (aqui) continua válido e mesmo insuficiente: é preciso escrever mais. Aliás, encontrei outros oito e, de quebra, uma torre (aqui) e em seguida uma capela de macacos. Colhi uma flor e voltei para a última aula do dia. Enquanto os alunos resolviam questões de prefixos e sufixos, houve quem se encantasse por aquele pequeno milagre rosa.





Monday, October 31, 2016

Terceiro Movimento ::: O ipê-branco do Grajaú



Foi Rubem Alves quem escreveu ::

"Agora são os ipês rosa. Depois virão os amarelos. Por fim, os brancos.
Cada um dizendo uma coisa diferente. Três partes de uma brincadeira musical, que certamente teria sido composta por Vivaldi ou Mozart, se tivessem vivido aqui.
Primeiro movimento, “Ipê Rosa”, andante tranquilo, como o coral de Bach que descreve as ovelhas pastando. Ouve-se o som rural do órgão.
Segundo movimento, “Ipê Amarelo”, rondo vivace, em que os metais, cores parecidas com as do ipê, fazem soar a exuberância da vida.

Terceiro movimento, “Ipê Branco”, moderato, em que os violoncelos falam de paz e esperança. Penso que os ipês são uma metáfora do que poderíamos ser. Seria bom se pudéssemos nos abrir para o amor no inverno…"


Os rosas registrei-os aqui e aqui. Aquele do Tabladinho desde sempre chamo de meu, pois foi nele que tive minha epifania miguiliana. Mas tem um outro que é muito meu também: plantado tão perto, floresce por último, quando já ninguém espera, nem eu nem o porteiro Valderi. Um dia ou dois dias de glória absoluta, para logo depois se despir sobre o cimento indiferente. Aí, torna a enfiar a mão nos bolsos e vai-se miudamente recompondo, arvrezinha inotável por 363 dias. 

Mas quem viu, sabe e toma por ele amor o ano inteiro.




Sunday, July 24, 2016

República dos Ipês

Grajaú, Araxá


Outro dia recebi 'encomenda' do Carlos Frascari, este a quem invejo por seus conhecimentos e coleção de azulejos. Morador do Estácio, pediu-me que eu fotografasse certo espécime ali do Largo, já que a foto que ele fizera, de dentro de carro em movimento, não ficara grande coisa.

Fiquei todo embevecido, jamais recebera pedido assim. Já me pediram que eu passasse no banco, que eu comprasse água sanitária, que eu entregasse notas, corrigisse as provas, não as faça tão difíceis, diminuísse o ar condicionado, fizesse o exame da próstata, não pedisse outra saideira. Dante me pede que eu empurre mais uma vez o balanço, que eu repita "Fico assim sem você" no youtube, que eu puxe a bicicleta. Fotografar um ipê foi a primeira vez. Lembrei-me de pedido que eu mesmo recém fizera à moça de viagem a Nova York (aqui).

Carlos pediu e como por grande coincidência eu iria mesmo tirar umas fotos ali perto, do grafite em homenagem ao preso político Rafael Braga, fui no mesmo dia. A foto não ficou essas coisas, o céu não ajudou, não sou fotógrafo. Mas gosto de ipês, eles que, segundo Rubem Alves, fazem amor quando o inverno chega. E como este ano eles têm estado particularmente perturbadores, segue pequena coleção.

Catumbi

Grajaú, Malvino Reis
Rio Comprido

Tabladinho

Vila Isabel

Jardim Botânico

O do Estácio

Wednesday, July 20, 2016

O Ipê do Tabladinho



Há coisa de seis anos fiz postagem para ele (aqui) e, relendo-a, assino embaixo de tudo, com exceção do erro de chamá-lo roxo quando até Miguilim o veria rosa. Fosse roxo, lembraria um jacarandá, o que está longe de ser o caso.

É um ipê-rosa aquele defronte o Tabladinho, um dos mais lindos da cidade. Gosto dele em especial porque foi ali que meus olhos pousaram na primeira vez que vestiam óculos em 1992. Como que o alumbramento foi maior, tão fora de si aquele rosa contra o céu de inverno, as abelhinhas miúdas fazendo a farra.

Este ano subi ao Tabladinho de novo, privilégio de que não abro mão, por amor de ter com ele de perto. Nisso Lúcia veio conversar e disse que sua floração em agosto era o modo de desejar a todos um feliz retorno das férias, um feliz segundo semestre, essas coisas que os ipês tentam dizer em agosto, mês geralmente difícil. (Agora faz calor no inverno e o calendário escolar tumultuou-se, mas ele não foge à sua natureza.)

Depois Lúcia disse também, netinha ao colo, filha do meu primeiro aluno Chico, que seu pai, que conheci de relance há muitos anos e que muito encantou-me tomando sua latinha de Brahma Extra, era louco por ipês de modo que hoje descansa na fazenda à sombra de um. Branco. Segundo ela, mais delicado.

Então é isso :: você sobe para tirar fotos de perto do ipê e aprende que o pai da velha conhecida os amava e hoje descansa à sombra de um. Isso tudo antes das aulas, antes do trabalho. É sentir-se menos só. E pensar que também pode ser assim, daqui a muitos anos.