Sunday, September 06, 2015

Azulejos no Dia dos Pais

Celino


No Dia dos Pais que passou tive duas sortes grandes. 

Primeira: tentei entrar no Maraca para ver Vasco X Avaí e não consegui. Tudo bem que teria sido legal assistir a uma partida às 11 da manhã, coisa que eu só fizera na época do dente-de-leite do São José, mas para ver o que têm feito com o Vasco, foi melhor ficar de fora mesmo. Segunda: ao ficar de fora, pus-me a perambular pelas ruas vizinhas, pegando a Santa Luiza, que depois vira Dona Maria, chegando quase até o Salgueiro. (Depois ainda voltei tudo para tentar entrar, felizmente sem sucesso).

Pois bem, num trecho ali que ninguém sabe ao certo se é Tijuca, Vila Isabel ou Aldeia Campista, encontrei carrada de paineis azulejares interessantíssimos. Um painel interessantísimo de São Francisco de Paula do Manuel Félix Igrejas (aqui), dois paineis pequenos do Celino (aqui), e cousa que eu ainda não registrara, pelo menos não assim assinado: um certo Osvaldo, de um ateliê Tira-Teima.

De tudo isso, creio que o mais espetacular seja o pequeno Celino, retratando bucólica paisagem inglesa (nada de Alpes aqui) em traços impressionistas quase pontilhistas.

Celino

Igrejas

Osvaldo

Osvaldo

Osvaldo


Saturday, September 05, 2015

Nilton Bravo :: O Inventário do João Antônio

Foto de Sergio Moraes com João na Pça. Tiradentes (o 10?)


Fecha com chave de ouro a exposição "O Rio de Mário, Rubem e João" a reconstituição do que foi um autêntico botequim carioca há uns 40 anos, com seus indefectíveis azulejos azul e branco e o Nilton Bravo de lei, no caso, uma fotografia do ainda hoje encontrado na Adega Flor de Coimbra. E, azeitona preta carnuda da empada, um inventário feito à mão por João Antônio dos Nilton Bravos que ele conseguira reunir, com o nome de "O que efetivamente ainda existe". Gostaria de saber de quando é essa relação e se isso foi publicado em crônica, pois é a mesmíssima coisa que fiz neste post aqui, com resultados porém muito diferentes.

A destacar sua empolgação (que, ouso dizer, a mesma que a minha, a do Rixa e a do Ivo, outros nilton-bravólogos que conheço), revelada nas palavras  "incrível", "belíssimo", "delícia" e "espetacular". A lamentar que do inventário do cronista boêmio não sobre nada, ou menos que isso.

Abaixo transcrevo seu inventário. X e ? entram quando sua letra depois de três doses se torna de difícil compreensão.

O que efetivamente ainda existe


1) Bar Arco do Teles (no Arco do Teles) à Travessa do Comércio, ns, 6-9 painéis retangulares de Nilton Bravo & Pai. São castelos, rios, praias com banhistas, paisagens XX.

2) Rua Adolfo Bergamini c/ Amaro Cavalcanti - (Engenho Novo)

3) Rua Padre Telêmaco, 25 loja B (X) 2 painéis enormes de parede toda - com as X. Ele receita (?): lavar bem com um pouco de sabão de coco, óleo de X, XX e pó secante

4) Açougue - - Ernani Cardoso, 52,  loja X Cascadura - Açougue das Famílias

5) Rua Cãndido Patrício, 1757 (Jacarepaguá)
R. Alfãndega (entre Uruguaiana e Rio Branco)
N.S.  Passos

6) Rua Ci?? Maia, 35 - sobrado - Padaria Célia? (buffet que ?) 2 painéis paisagem e castelo - pintado há 8 anos  e 10 meses, ou 1 ano

7) Rua Barão do Bom Retiro, 67 - 3 (Engenho Novo), bar incrível - pelo clima

8) Rua do Ouvidor, 25 - "Bar Entreposto" - Marina incrível que deve ter sido de Alaor * ALAOR

9) Rua Miguel Couto, 105 - A - Lanchonete Braseiro (?) Dourado Ltda. +- retangular Moça ao lado de casa - gaúcho com chaleira de chimarraõ e churrasco. Nilton Bravo, tel: 49-0614

10 ) Nilton Bravo & Pai - 49-0614 - O + incrível de todos, quase na Praça Tiradentes. Cena de Rio Enorme ??, pega a parede toda. Bar de esquina, também as mesinhas s antigas, algumas de um pé só - Rua do Lavradio, no. 1 bar antigão. Bar 4o centenário

11) Nilton Bravo - retângulo belíssimo. Avenida Passos, 48. Pastel hoje c/ caldo de cana e de pastéis e de um japonês qualquer. Lanchonete Sacramento (?). Por favor não confundir c/ Rua N.S. dos Passos, ali transversal

12) logo ali pertinho, uma delícia de Nilton Bravo, no Bar X do Galo (Rua Gonçalves Lédo, 45) com acento agudo na placa, Um galo branco (X)

13) Absolutamente "Fantástico" - A "Lanchonete Ouro Branco" rua decadentona, escrota e muito X, mista com um Nilton Bravo - só, sem o pai - à Rua Barata Ribeiro, 402 C Barzinho valente

14) Bar tipo lanchonete. Estrada dos Três Rios, 81 - como quem desce para Jacarepaguá. Bar que nem letreiro ou luminoso tem.

15) Rua Paula Freitas, 66-A. Atenção dois crimes em Copacabana. Um painel enorme de uns 3 metros, coberto por garrafas e pacotes de cigarros. E outro com um relógio pendurado no meio dele. Nilton Bravo & Pai

16) Um Nilton Bravo, pequeno e bem conservado no Leme. Café e Bar Recreio do Leme - Rua Gustavo Sampaio, 410-A

17) Nilton Bravo & Pai - fone:49-0614 - Rua dos Inválidos, 188 - Bar Triunfante - um painel enorme de uns 4 metros - Obra prima de cores claras e ingenuidade - água de ?

18) Café Bar Cruz Vermelha - Av. Mem de Sá, 219 - 2 Nilton Bravo - 1 mutilado

19) Lanchonete Festival  - Rua da Alfândega, 69 - Dois Nilton Bravo como se fossem quadros de parede

20) Restaurante Sírio Libanês - Rua Senhor dos Passos, 217 - ESPETACULAR - Um Nilton Bravo enorme, na lateral, forma de retãngulo, com motivos árabes. O mais comprido de todos os que vi.

21) Bar ABC - Esquina da Rua Gomes Freire com Rua da Relação


Monday, August 31, 2015

Na Sala com Astrid



Não não, "Na Sala com Astrid" não é novo pograma de TV que nunca irá ao ar a partir desta quarta-feira. É que revi a poeta Astrid Cabral, que eu conhecera em Chicago em 1986. Lá, na Windy City, frequentei sua casa. Depois tornei a visitá-la no Rio e depois ainda em Brasília.

Passados mais de vinte anos, torno a rever essa mulher encantadora. O post sobre a visita virá em breve. Este aqui é só para falar da sala, onde ela nos recebeu e onde ela, Camila e eu conversamos por boa parte da manhã de agosto.

Não é só pela sala linda dar de frente para o Parque Guinle. Não é só pela sala ser linda. É que nela descobrimos personagens que habitam poemas do Afonso Félix de Sousa, poeta da Geração de 45, de quem Astrid foi companheira por 45 anos. O avoengo e sóbrio e imponente relógio goiano. A gravura de Chagall original.

A linda litografia de Chagall assinada aparece em "Das Escrituras - III ou Termo em que se Ajusta um Lugar ao Sol (ou à Sombra) na Cidade de São Sebastião", último poema do livro Álbum do Rio (1964), lindo e leve todo em octossílabos com rimas nos versos pares que recentemente me inspirou o "Termo em que se Ajusta um Lugar ao Sol nesta Mui Leal Cidade" (aqui), em que repito a estrutura e mesmo alguns versos do Afonso. Pus a epígrafe "E fica ajustado que o bairro" de modo a sinalizar o intertexto. No poema do Afonso e no meu, nada mais que o ditado "Quem casa quer casa", melhor se preenchida pela poesia. Cito as duas primeiras estrofes e a sexta, em que se faz a referência ao Chagall::

E fica ajustado que o bairro
é o bairro de Santa Teresa
e são três quartos e uma sala
bem no meio da natureza

E fica ajustado que a rua
só morre onde nasce uma fonte
a fim de que lembrem que a morte
é mesmo o início de uma ponte

(...)

E fica ajustado que a sala
terá um Chagall na parede
para se a paisagem for pouco
os olhos matarem a sede

Aliás, eu já fizera menção a esse Chagall da Astrid e Afonso num post aqui do blog sobre o Nilton Bravo (ver aqui).

O imponente relógio aparece em "Relógio da Família", do livro seguinte, Chão Básico e Itinerário Leste (1975). Trata-se de poema em decassílabos brancos em que se evidenciam a transmissão material do bem -- o relógio mesmo goiano -- e a angústia pela passagem inexorável do tempo. Relógio e poeta se entreolham e este sabe que seu dia também chegará.

Ê -- vem como quem diz -- E agora? E agora? --
desde as brumas do século passado
até este momento -- agora, agora --
E ele enche o espaço, e a casa e os seus espaços
com secos tiquetaques e indiscretas
batidas, que vai dando e repetindo
-- E agora? Agora.

O mesmo relógio ressurge no poema XXI de À Beira do teu Corpo (ver aqui), a bela e dorida trenodia escrita para seu filho (meu amigo em Chicago) Giles, que precocemente partiu. O relógio, implacável como deus assírio no poema anterior, é aqui domado pelo menino, espécie de menino impossível. Cito o poema em sua inteireza ::

Talvez porque o relógio, coluna sobranceira na sala,
desse a impressão de ser o verdadeiro dono da casa,
ou porque proviesse de vagos bisavós cujos fantasmas
percorrem nosso sangue e nos guiam de algum modo os passos,
ou porque marcasse os segundos em agudos tique-taques,
lembrando-nos a cada instante sermos escravos do tempo
e que o tempo passa e num ponto do tempo a morte nos espreita,
ou fosse apenas porque suas batidas lhe roubassem o sono,
ele parava-o no meio da noite e, apaziguado, dormia.


Sunday, August 30, 2015

Mário, Rubem e João e o Bar Picote

Rubem Braga pintado por Dorival Caymmi


A caminho da linda exposição "O Rio de Mário, Rubem e João", na Mansão Figner no Flamengo, descubro horrorizado que o Bar Picote, um dos mais tradicionais da região, já não existe, virou loja de colchão.

Tenho muitas e boas lembranças do Picote. Muita vez sentei ali depois de comprar CDs de rock progressivo na Halley, loja que, claro, também já não há. Ali sentava para examinar as novas aquisições, ainda arrependido de ter deixado por lá alguma coisa, talvez pelo preço. Passados uns cinco chopes, uma empada e um pastel, ora, mas que sovinice, não está tão caro assim, e essa banda afinal é maravilhosa, e voltava correndo para comprar o CD. Lembro também que ali fiz o pit-stop antes do show do Caravan no Canecão, em 2004.

O Bar Picote já passara por reforma, não era daqueles conservados em formol, e isso me tranquilizava. Era o típico botequim de bairro, bairro da ZS, com mesas disputadíssimas nos fins de semana. O chope era honesto, as empadas e pasteis, idem. Apesar do movimento da Marquês de Abrantes, sentia-se bem ali.

O Bar Picote juntou-se ao Lisboeta, ao Paulistinha, ao Quinta de São Cristóvão (ver aqui), no céu dos botequins. Quem quiser pode agora andar até o Belmonte, o primeiro da rede, na praia, e pagar 85 reais na batata rosti.

Numa cidade dominada por drogarias, igrejas evangélicas, financeiras e lojas de colchão, que Mário Lago, que João Antonio, que Rubem Braga teremos?

Dois chope e um pastel, please



Saturday, August 29, 2015

Vila da Penha, Vila dos Botequins

Lanchonete Esplendor


Pequena seleção dos registros feitos na incursão à Vila da Penha.

Pela vez primeira saí de casa com mapa, gentilmente elaborado pelo ex-aluno (por três anos) e hoje amigo Daniel, morador de Vila Kosmos, bairro vizinho. Se não encontrei nenhum Nilton Bravo nem a combinação bicolor de azulejos, deparei-me com um monte de azulejos dos anos 70, com um monte de referências ao Vasco, dois botequins do que chamo de-todos-os-times (ver aqui), incluindo a maravilhosa coleção de copos do Rainha dos Caldos, cobogós, azulejos rabos-de-pavão (ver aqui), um Padim Ciço, a camisa do Carlos Alberto Torres autografada, um dono de boteco peruano, os Sãos Jorges de lei. Como cereja do bolo (ou azeitona da empada, ou gema do ovo colorido), a diretoria da Banda Raízes da Vila da Penha. E uma ótima acolhida no Bar do Fernando, no Alan Cardec e no já citado Rainha dos Caldos.

Caminhei tranquilo de Vicente de Carvalho até as franjas de Vista Alegre, que mui provavelmente será o próximo destino, embora a Vila da Penha ainda clame por retornos.

Bar Carecón

Bar do Gil

Bar do Fernando / Menino Jesus de Praga

idem

idem


Bar Rainha dos Caldos

idem




Café e Bar Delmar

Depósito de Bebidas Saint-Germain

Lanchonete Alan Cardec

Lanchonete Esplendor

Super mercadinho Nossa Senhora de Fátima

idem

Thursday, August 27, 2015

Termos em que se ajusta um lugar ao sol nesta Mui Leal Cidade



E fica ajustado que o bairro
Afonso Félix de Sousa 

E fica ajustado que o bairro
Será o bairro de eu menino
o bom e velho Grajaú
pois ninguém foge ao seu destino

E fica ajustado que a rua
sem o ser, tem nome de praça
sendo ponto final de ônibus
não é coisa de muita graça

Mas fica ajustado que o prédio
tem azulejos de Brennand
pernambucano visionário
que transforma a noite em manhã

E fica ajustado que a sala
bem como varanda e os dois quartos
dão para o Pico do Perdido
e desta visão não me farto

E não nos fartaremos nunca
(Papagaio também lhe chamam
Infinito pouso dos olhos
que atiça aqueles que amam)

Fica ajustado que as viagens
se derramarão nas paredes
que assim perpetuam memória
e assim nos fazem novas sedes

Fica ajustado que a cozinha
será o meu e o teu bazar
do curry à moqueca de ovo
do misto quente ao caviar

Fica ajustado que a varanda
será o playground das aves
cigarras são sempre bem-vindas
pra tornar o verão mais suave

Fica ajustado: leis e normas
não irão compor a paisagem
Faremos amor na cozinha
na sala picaremos vagem

Fica ajustado que o menino
irá ocupar todo o espaço
no escritório no chão no teto
irá ele deixar seu traço

Aqui termino. Quem quiser
venha pra cerveja ou café
Todo o referido é verdade
aqui certifico e dou fé.

Wednesday, August 26, 2015

Por isto temia :: acordar em meio à noite



por isto temia :: acordar em meio à noite
e lembrar que já não estás

eu que não tenho calmantes senão o talisker
e não tenho sonhos senão aqueles
que não resistem à vigília ou lucidez

toda noite deito com este temor
que se confirma implacável
acordar em meio à noite
e saber que já não estás
que amanhã não poderei atender a tua ligação
dizendo
Pizzaria Flor do Grajaú, boa noite
para ouvir teu sempre riso
ante a mesma piada de sempre
e que no fim da tarde não virás
ser a alegria do pequeno
e que depois não poderemos com a nossa cerveja
amaldiçoar juntos
todos os médicos do mundo

durante o dia desmonto tua casa
observado por ursos, corujas, elefantes e pinguins
trabalho lento interrompido pelos achados
a coleção de Havaianas de matar Imelda Marcos de inveja
os desenhos e bilhetes de filhos e netos
a coleção de cinzeiros de motel
as fotos impublicáveis
durante o dia
desmonto
e quisera ser Penélope
para voltar ainda à tua casa
que ainda é minha
e que ainda me habita

de que outro modo posso recriar
a tua solidão na minha?





Tuesday, August 25, 2015

Porque nem toda rua se chama Rua Sem Graça :: Esquinas (parte 6)



Ok, aceito que General Roca e Doutor Renato Rocco são dois nomes sem graça, com a jactância e a pompa típica dos nomes sem graça: militar de alta patente e doutor. 'Coisa de tijucano', diria um maldoso, mas, não, deixa quieto. Se entram aqui na série (ver também aqui e aqui) é porque nem todo dia vemos encontro de roucos assim. Pros incomodados, ao menos o consolo de que a conversa não vai incomodar muito.

No mais, o caiçara se encontra com os anajás numa casa de cor improvável em Vaz Lobo.

E Dona Luíza e Dona Emília, em casa pôr-do-sol em Inhaúma, fofocam que é uma beleza. Até a mais completa rouquidão.



Monday, August 24, 2015

As Árvores de Rai



Não é de hoje que o fotógrafo Raghu Rai, nascido em 1942 numa aldeia que hoje pertence ao Paquistão, se dedica a registrar a Índia. Seu projeto mais recente é dos mais nobres: árvores, sempre em composições muito interessantes.

O livro Trees pode ser comprado aqui.