Thursday, January 19, 2017

A Casa de Quintino



Se o nome Quintino é hoje associado primeiramente a certo (ótimo) ex-jogador rubro-negro, o nome é o que é por causa do político republicano Quintino Bocaiúva, que por ali residiu em seus vinte últimos anos.

Esta antiga chácara com chalé, de ares neoclássicos, está ainda de pé e é mesmo tombada desde 1993. Da Rua Goiás não se vê absolutamente nada, tirante o portão com as iniciais QB, dado o matagal que domina todo o terreno. Se no Guia do Patrimônio a casa é descrita com as expressões "embasamento desmesurado" e "edícula altiva", e como da rua não se entrevê nada, avalie-se a altura a que chegou o matagal.

Bem, tem-se acesso a ela pelos fundos. Hoje é um grande cortiço e, a julgar pela quantidade de roupa no varal, de não poucos moradores. Cachorros há a mancheias, latindo e rosnando e ameaçando alto durante as fotos. Talvez por acharem que eu era coisa importante, e por julgarem-me incomodado, lá foi a havaiana no lombo da Princesa, da Xana, do Auinho. 









Wednesday, January 18, 2017

As Curicacas de Brasília



Passeando de manhã pelas quadras sul de Brasília, eu que esquecera quão lindo é o céu do Planalto Central, quão bom é estar sob ele, sou atraído por três aves pousadas em poste. Tiro fotos de longe, mas logo percebo que elas não são assim ariscas e vou chegando. Tiro muitas muitas fotos, amando aquelas três lindas barulhentas.

Com as fotos na mão, cumpria descobrir o nome. Mostro ao jornaleiro, ao vendedor de queijo, ao vendedor de cachaça, ao dono do botequim, ao deputado federal, ao porteiro, ao passante, ninguém sabe. Às vezes me olham estranho. Me lembro, claro, do poema "Nós, Passarinho", publicado no Voo sem Pássaro:

Tantas vezes pensei perguntar
ao porteiro ao presidente
ao faxineiro ao garçom 
ao salva-vidas ao gerente
pela graça de tal pássaro
cujo nome desconhecemos.
Mas como perguntar por graça de pássaro
sem sofrer dos homens a irrisão
os remoques o desprezo?
Este mundo enfastiado
que já não crê nos bichos.

Bem, quanto ao mistério do poema, descobri depois tratar-se da choca, conforme registrei aqui.

Triste mundo que já não sabe nomes de pássaros e árvores (o nome da musa fitness e do maior cantor pop de todos os tempos desta semana todo mundo sabe). Meu pai me consola dizendo que Gilberto Amado já observara isso em suas memórias.

Bem, na falta de vizinho pescador, como o do Ingá que conhecia a choca, temos o mundo da Internet, facebook e que tais.

Descubro que as beldades atendem por curicacas. Descubro a Wikiaves, com infinidade de registros sonoros. Gente, é de perder o sono. Ainda bem que não tenho mais tese para escrever.












Tuesday, January 17, 2017

Crônicas Pirenopolinas IV :: A Igreja do Rosário



Quando pequeno, eu inventava palavras e às vezes me saía com frases engraçadas, para grande deleite do meu pai, que anotava e datava tudo. Lembro que por volta de seis anos eu vim com "Eu esqueço a dor", devidamente anotada e datada. Um pouco antes, acordei certa noite, umas três horas depois de deitar, fui pra sala, em que havia visitas, e perguntei "Hoje é amanhã?". E lá pelos seis anos, certa feita disse "quadradesco".

Bem. Emprego agora meu velho neologismo: sempre me impressionaram muito essas enormes torres quadradescas das duas principais igrejas de Pirenópolis: a N.S. do Rosário e a do Bonfim. Por que isso, gente? Fiquei assombrado nas três vezes em que visitei a cidade, em um intervalo de quase 25 anos, um assombro bom, morno, desses que nos deixam perto do inefável.

A Igreja do Rosário pegou fogo em 2002, perda irreparável. Foram embora o soalho de madeira, quase todos os retábulos e imagens e a pintura do teto, caso quase único em Goiás de igreja colonial com teto pintado. Sendo a velha cidade de Meia Ponte de grande afluência turística, fez-se restauração a contento. Pelo menos assim me pareceu.

Sua posição na praça elevada, permitindo que seja contemplada de quase toda a cidade, a harmonia de suas proporções, sua vista desde a velha ponte do Rio das Almas serão, com pequena margem de erro, o que de mais belo há em toda a arquitetura colonial goiana.

Se calhar de aparecem dois arco-íris no céu, aí já não há dúvida nenhuma.

PS: Quando estive em Pirenópolis nas duas primeiras vezes, a segunda em 1994, muito me alegrou também a gritaria das maritacas. Hoje há maritacas no Grajaú. Mas fiquei maravilhado ao voltar agora, janeiro de 2017, e encontrá-las exatamente onde eu as havia deixado. As mesmas maritacas.



















Monday, January 16, 2017

Traduzir uma Ópera :: Medeia, de Mario Ferraro




Em setembro de 2016 tivemos no Rio de Janeiro a BOA, Bienal de Ópera Atual. Tive o privilégio de assistir aos ensaios e às apresentações tanto de A Ópera do Mambembe Encantado, de Eli-Eri Moura, com libreto de Tarcísio Pereira, quanto da Medeia, do Mario Ferreira. As experiências acabaram ensejando esta postagem aqui.

Bem, talvez não me considerando suficientemente privilegiado, o Mario pediu-me que eu vertesse para o inglês sua Medeia. Minha reação primeira foi a de inventar uma desculpa: não tenho feito traduções, o que dizer versões, o que dizer de uma ópera, mas considerando a chance de ultrapassar um pouco meu μέτρον e sendo um pedido do Mario difícil de negar, anuí.

Não foi fácil, a começar pela dureza mesmo da narrativa, a gente acaba se envolvendo. Mas foi ótimo. De quebra, entre idas e vindas pela rede (tá vendo, Thiago Ponce?), acabei descobrindo que Darius Milhaud também tem sua Medée. Acabei também assistindo ao Medea, do Pasolini, com a Maria Callas. Uma experiência completa.

Não sei se os acentos caíram exatamente onde deveriam, não sei se baixou o espírito de Janáček. Mas uma coisa confesso: dei um jeito de enfiar na versão um bodkin e uma amazing journey, para que assim Hamlet e Tommy estejam presentes.  😀

     

MEDEA:
        
Today hopelessness made an alliance with me.
Today still I shall concoct with my instincts
A deal of destruction of my enemies…

A Melhor Coisa do Verão :: Hot Summer Day


Não tenho muito a acrescentar acerca do que esta música, somada a "White Bird" e "Girl with no Eyes", do It's a Beautiful Day, já acrescentaram à minha mitologia pessoal, desde uma verdadeiramente mítica viagem por Mina Geral há 30 anos.

Hoje será um verdadeiro Hot Summer Day, de cedo se sente. Então vim ouvi-la e descobri esta versão ao vivo, coisa de 1970, em que tudo verdadeiramente pertence a outro mundo, um mundo mais poético, de nuvens, alusões, onde o amor reagrupa as formas naturais.

Me disseram que o sol tinha ficado verde
Respondi que não sabia
Me disseram que a lua tinha ficado azul
Eu disse que não parecia
Me disseram que eu parecia um idiota
Eu disse que deixava pra lá
Mas quando me disseram que nosso amor tinha morrido
Tive que me virar e partir

Oh, meu amor
Pra onde você foi?




PS: Postagem dedicada à Giulianella Furlan, aniversariante de hoje, que tem dois corações.

Sunday, January 15, 2017

Filho da Puta : Também quis o meu



O Filho da Puta mais famoso da cidade, todos lo saben, é o do Nova Capela, que há algum tempo foi deslocado para um espaço mais escondido. Pudicícia, moralismo? Uma pena, inda mais porque eu adorava brincar com quem lá fosse pela primeira vez dizendo 'Olha, eu tô sem óculos, vai até aquele cavalo e me grita de lá o nome dele...'

Há alguns anos encontrei um Filho da Puta no Méier, no Bar do Fernando, perto daquela monumental maravilhosa igreja neomourisca.

Agora, quando descobri um Filho da Puta numa clínica geriátrica do Grajaú, protestei: "Também quero o meu!".

Chegou, é lindo de tão garboso.

(E aproveito pra lembrar o conto que para ele escrevi em 2011 aqui)

Nova Capela
Bar do Fernando

Casa de Repouso (o meu abaixo)


A caminho de casa, um acarajé



Saturday, January 14, 2017

Crônicas Pirenopolinas III ::: Santa Dica



O nome parece bobo, trivial demais, quase coisa de sertanejo universitário: aí, vou te dar uma santa dica: prova esta breja aqui. Bem é isto também, e viva a ambiguidade. Mas o nome desta maravilha de cerveja artesanal de Pirenópolis, Goiás, vai muito além. 

Santa Dica (1903-1970) é a maneira como ficou conhecida Benedita Cipriano Gomes, nascida em um distrito de Pirenópolis e que liderou movimento messiânico. Uma espécie de Antônio Conselheiro feminina, com a vantagem de ter retornado da morte. Como dizia que a terra não tinha dono senão Deus e como atraía considerável legião de fiéis, despertou a ira dos coronéis da região, que responderam com o envio de tropas (igualzinho a Canudos, veem?). O ataque das tropas, no entanto, não foi muito bem-sucedido, pois as balas de metralhadora enrolavam-se nos cabelos de Benedita e caíam no chão, derrotadas. O Rio do Peixe foi por ela renomeado Rio Jordão, sobre o qual, dizem, ela gostava de caminhar. Editou jornal manuscrito intitulado A Estrela do Jordão Órgão dos Anjos, da Côrte de Santa Dica.

Não é pouco.

Com tal inspiração, Ernesto e Roberto produzem três cervejas de linda apresentação: uma de trigo (Hibisco), uma IPA e uma Kölsch. Quando estive na Rua do Lazer para tomar caldo de batata baroa e depois meu impagável risoto de pequi, acompanhei-os com a IPA. Senti-me o próprio curucucu. Quando visitei a fábrica, no dia seguinte, eles estavam brassando justamente a... IPA, de novo ela, puxa, que azar o meu, e dela bebi direto da teta da vaca, fresquíssima. Ótimo amargor, lupulagem equilibrada, grande frescor e notas cítricas no retrogosto. Para casa trouxe a Hibisco.

Em conversa com Roberto, ele me diz que em breve farão uma com cagaita, fruta típica do cerrado. A tal da cor local, muito comum entre as artesanais mundo afora. Aprecio, mas, tal qual em literatura, sem exageros. Mas se é pra usar fruto do cerrado, por que não o pequi (aqui e aqui), pergunto ao Roberto ansioso (eu, não ele), a que ele responde que se fizerem cerveja com pequi por ali, ele sai de perto. Rarrarrarrá. Pena.

De qualquer modo, espero voltar para tomar a de cagaita fresquíssima. Pirenópolis, aliás, já era cidade para se voltar sempre. Com a Santa Dica agora, nem falo.