Monday, April 08, 2019

Clarice e os 80 tiros em Guadalupe




Em 1964 (!) foi publicado pela Editora do Autor (aqui) A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector, seu sétimo lançamento. A primeira parte traz os contos (e alguns eternos estão lá), enquanto a segunda intitula-se "Fundo de Gaveta", sugestão do Otto Lara Resende (aqui).

Tudo aqui vale muitíssimo a pena. E no fundo do fundo da gaveta, os textos se seguem uns aos outros na mesma página, está lá o Mineirinho, o bandido assassinado com treze tiros.

Quando bastava um só.

O texto é um soco no estômago. E o que diria Clarice dos 80 tiros?



"Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo-pimeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo-segundo chamo meu irmão. O décimo-terceiro tiro me assassina -- porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

'Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais."

Saturday, April 06, 2019

LULA LIVRE :: VIGÍLIA EM CURITIBA



Guardei para hoje a postagem sobre nossa visita à Vigília Lula Livre, em Curitiba: um ano de sua prisão tão absurda quanto injusta.

Chegamos na cidade na noite de quinta e eu já queria ir lá, mas a noite e a chuva desanimavam. Na sexta, o passeio de trem para Morretes toma quase o dia todo, embora eu também tivesse querido na volta. Com chuva e vento. Acabou que a manhã de sábado (o passeio à colônia anarquista em Palmeira se revelando impossível) mostrou-se o melhor dia: o céu melhor azul como fundo para araucárias, tantas.

O motorista de táxi incrédulo e arregalado: 'É aqui que vocês vão ficar?'. Sim, moço, é aqui, junto desse povo que acampa e que visita e que foi marginalizado e feito marginal por uma mídia corrupta e vendida. A energia boa, a cordialidade imensa, um carinho grande apesar das indignações. A luta.

Duas caravanas chegaram. E havia grupo de cegos. E canções e palavras de ordem. O bom-dia entoado treze vezes, depois mais música enquanto o mate ferve e (parece) o grupo mais die-hard, os de fato acampados, a tudo observam.

A gente fica meio criança, tocado pela energia, mas sem esquecer o absurdo, a injustiça da situação, que está ali na figura nefasta do prédio da Polícia Federal.

Não somos contra polícia, claro, ainda infelizmente necessária. Mas polícia não é pra isso: pra comer na mão da elite e sentar a porrada nos que a incomodam. A polícia no Brasil não foi outra coisa nos últimos séculos. De mãos dadas com um Judiciário viciado, corrupto, egoísta.



























Paul, Blackbird, Lula Livre em Curitiba


Quando Paul McCartney parece bobinho, tentando falar o registro coloquial da língua do país do show ou brincando com ursinho de pelúcia que atiraram no palco, ele está apenas sendo brincalhão. E feliz por estar ali no palco, sua vida.

Porque bobo ele não é.

Quando ele canta "Blackbird" em Curitiba e diz  que é música pelos direitos humanos, e repete pausadamente direitchos humâânos, ele sabe muito bem onde está e o que quer dizer. Tanto que uma galera não longe de nós principia um coro de "ELE NÃO!" que, embora endossado pelos gritos de Evandro e Camila, não vai muito longe. O sujeito da frente meneia a cabeça, com desprezo, desprezível. O casal ao nosso lado começa mesmo a gritar 'ele sim'.

Fiquei só imaginando o que não foi o Roger Waters naquele gramado.

Para todos os efeitos, houve mesmo cartazete de FORA BOLSONARO, recebido com apupos e latas. Amei. Eu já passara o dia com a camisa LULA LIVRE pela cidade (aqui), de modo que, para o show, no que diz respeito a trajes, achei melhor deixar quieto. Mas quando as bombas de "Live and let die" estouraram, gritei Lula Livre a plenos pulmões. Louder than bombs.



Gozando Junto em Curitiba < Gozando Junto # 39 >


Uma série bem variada: tem trem, show do Macca (com direito a cartaz FORA BOLSONARO), Niemeyer, Vigília do Lula.

Que os curitibanos sejam menos frios e gozem mais juntos, que é muito melhor. 

Desculpem o travo, há motivos.












Friday, April 05, 2019

O distrito do distrito : Barra da Cega


Milho Verde, todos lo saben, é distrito do Serro e oxalá continue assim, pequena.

Mas também ela tem um "distrito" que atende por Barra da Cega, um quase nada, a que se chega, e aqui a história fica bonita, pegando a estrada de Minas, pedregosa, à esquerda da Igreja Nossa Senhora dos Prazeres, onde Chica da Silva foi batizada. De modo que é um feixe de coisas e nomes bonitos. Como viajamos de Viação Canela, sentamos em frente da igreja, que tem sineira externa, para pedir carona. Havia exaltações de andorinhas. Serão andorinhões?

Em Barra da Cega não há mínimo centrinho, só casas poucas, espalhadas. E também uma cachoeira linda, a do Piolho. E, vejam só, uma cooperativa de bordado, tocada à frente por 23 mulheres.

Foi lá que comprei camisa bordada branca pra passar o Ano Bom.

Porque minha avó dizia assim: Ano Bom.