Saturday, August 16, 2014

Um homem feliz será aquele em meio a azulejos

Antonio Maluf :: São Paulo


O Inferno sei bem como é, já li duas vezes o Dante. O Purgatório comecei mas não terminei, enquanto que o Paraíso sequer comecei mas conheço por outras vias, bem como algo do limbo. Se essa divisão post-mortem existir mesmo, não creio estar qualificado para ir lá pra cima.

Portanto, sigo aqui fazendo o meu Primo Mobile.


Athos Bulcão :: Brasília

Athos Bulcão :: Brasília

Niemeyer :: Curitiba

Brennand :: Recife

Anônimo :: boteco em Benfica

Friday, August 15, 2014

Igrejinha de N. S. de Fátima, Brasília



Recém-escrevi sobre a igrejinha aqui. Estive lá para conhecer a azulejaria de Athos Bulcão e acabei levando algo mais. 

A igrejinha fica entre a 307 Sul e a superquadra modelo, a 308. O projeto é do Niemeyer, os azulejos do Athos, o projeto paisagístico (da quadra) do Burle Marx. A pintura era do Volpi.

A igreja nasceu de uma promessa da então primeira-dama, Sarah Kubitschek. Vejam que maravilha, você faz uma promessa e depois contrata Niemeyer, Athos, Volpi. Quem pagou a promessa?

A pintura era do Volpi. Seu mural abstrato deu lugar a pinturas de Francisco Galeno, verdadeiramente adoráveis os carretéis (em nada Iberês) e as pipas e as bandeirinhas. Mas se a igreja foi tombada em 1982, como assim retiram o Volpi?




Brasília, com filtros Instagram (Ou InstaBrasília)











Algo de novo talvez sobre Brasília. E algo do velho sempre bom.

Wednesday, August 13, 2014

Nilton Bravo, pintor de botequins ::: Soneto


Où coule au lieu de sang l'eau verte du Léthé
Charles

pro Rixa


pintor de botequins, o Nilton Bravo
acolhe em suas sombras homens gastos
que se deixam estar qual velhos gatos
para suas choupanas e castelos
para suas ruínas e flamboyants
voa a alma daquele homem só
que lentamente bebe sua cerveja
é mesmo bom essa total ausência
da figura humana de suas telas
uma mulher talvez lembrasse a amada
que mastigou o coração do homem
que lentamente bebe sua cachaça
que pinga em suas veias em filetes
e preguiçosamente forma o Letes





PS :: enfim um soneto para o Nilton Bravo. Não está pronto, mas é aquela história, blog não é livro etc. Ilustra-o um Bravo que até agorinha eu tinha na pasta das "dúvidas". Ao examiná-lo agora decifro a assinatura no lado direito. É, pois, outro Bravo legítimo, situado no bairro de Vasco da Gama, ao pé mesmo de São Januário. Alguns Bravos do blog são citados aqui.




Monday, August 11, 2014

Igrejinha de N. S. de Fátima :: Athos Bulcão



Falar de igreja em Brasília será, invariavelmente, remeter à Catedral Metropolitana, uma das obras maestras de Niemeyer.

Mas antes mesmo que Brasília ficasse pronta, mais precisamente dois anos antes, já estava de pé a Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima, ali na Asa Sul.

Ficou pronta em 100 dias. O projeto é também do Niemeyer e, se não tem o voo daqueles três anjos maravilhosos, cobre-a externamente, do chão ao teto, azulejaria do Athos Bulcão, artista carioca que tanto se identificou com Brasília.

Esses azulejos são os únicos figurativos de Athos e, embora ele ponha a voar um pássaro branco sobre fundos azuis de diferentes tonalidades, voos descendentes que nos fazem pensar no Espírito Santo, não o serão tão facilmente figurativos assim.

A capela é pequena e acolhedora, parece casa de boneca. O efeito total é enternecedor.

Eu morava ali. Mole.





Monday, August 04, 2014

Salomão Zalcbergas, pintor do Capão II




Eu que fico todo embevecido quando encontro um boteco com pintura, evento cada vez mais raro, descubro no Vale do Capão uma vilazinha inteira iluminada pelas cores de Salomão Zalcbergas, paulista que faz do Capão sua morada e inspiração há trinta anos.

Sua obra não se limita à vila :: espraia-se pelos caminhos que levam a ela e que dela partem. Pertence ao Capão como o pastel da jaca e as águas cor-de-ferro. Sua obra mural e plural incorpora-se à paisagem como a de Osgemeos ao castelo de Kelburn.

E não se veja em suas tintas um mero passadismo ou um naïf pra gringo ver. Há política aqui. Há luta pelas tradições do Vale, luta contra o turismo predatório. 

O soneto para ele eu já tinha escrito. Está aqui.













Sunday, July 27, 2014

Soneto para a Jaqueira. Com Estrambote



Dona Jaqueira, 120 anos
de serviços prestados ao Capão
pasto de pássaros pouso de micos
que dessedenta com seu verde pão
em seus galhos abrigam-se os amantes
que se comem como aves tagarelas
(olha esta velha árvore, mais bela
que as fadigas e as fomes do Bilac)
Dona Jaqueira, la vecchia signora
a quem apelidamos Mme. Jack
nela subimos com os nossos sonhos
infantis de um dia morar em árvore
e dela descemos desarvorados
mas não reproveis a nossa conduta
temos nas mãos nosso Jaqueira Sutra




PS: Este soneto cita, rasurando, o célebre "Velhas Árvores" do Olavo Bilac. Um belo soneto, que li para minha avó quando esta completou seus 80 anos mais ou menos vividos. Gente que diz que Bilac é difícil, acho tão facinho que enjoa.

João, Manuel e Joaquim ::: Os Poetas do Recife I

João (mais Joana)


Recife cuida melhor dos seus poetas que o Rio de Janeiro de seus escritores (ver, por exemplo, aqui). No Circuito da Poesia estão lá os esperados Manuel Bandeira e João Cabral, mas também os já não tão óbvios Mauro Mota, Carlos Pena Filho, Joaquim Cardozo e Ascenso Ferreira. E ainda aqueles poetas que não escreveram poemas, mas nem por isso :: Capiba, Luiz Gonzaga, Antonio Maria e Solano Trindade. A inclusão de Chico Science e Clarice Lispector é uma bola dentro e fortalece o time.

De quebra, fora do circuito oficial (quite appropriate), o maldito Augusto, de frente para a Ponte Buarque de Macedo, imortalizada em versos seus.

Aliás, a posição dos poetas parece ser sempre motivada: Clarice na praça onde morou menina, João junto ao Cão sem Plumas, o engenheiro Joaquim no local onde existiu a primeira ponte do Brasil.

Não visitamos todos eles. Fiquei especialmente triste por não apertar a mão e trocar palavras com o Carlos Pena Filho (a quem citei neste soneto), mas isso só motiva retornos.

Joaquim



Manuel





PS: O busto de Bandeira não é o do Circuito, mas o mais antigo, em frente à casa onde o Bardo morou na Rua da União.

Friday, July 25, 2014

Tropeçar em Carybé



Voltei a São Salvador numa época esquisita. Para vistar museus, uma lástima :: ou era segunda-feira, ou era feriado municipal (independência da Bahia!) ou era jogo do Brasil ou tinha jogo na cidade. E se o dia não era nada disso, ontem fora e amanhã seria, então fechava-se assim mesmo.

Uma pena. Atravessar a Ladeira da Vitória e não poder penetrar os seus museus.

Não contavam com minha astúcia. Num dia particularmente não, tentamos edifício onde, poucos dias atrás eu entrevira algo bonito do ônibus (ver aqui e aqui). Achei que merecia uma conferida.

Valeu.

Dois paineis a óleo do Carybé ali, de 1955, na entrada de prédio simples. Proibida a entrada fotografar nem fale. A alma lavada na têmpora daquele mar esmeralda.

E quem precisa de museus anyway? =)








Se eu dormir, deixa; se eu morrer, me acorda




Pequeno André é guia do Capão
que conhece como não conhecemos
filigranas da nossa própria mão
do alto dos seus bem vividos dez anos
conhece a mata o rio o cheiro o chão
nos guia por veredas cor de luz
nos guia pelas águas cor de ferro
Pequeno André pequenos pés descalços
trilha os desmundos do Capão seus erros
suas astúcias tanto mais revelam
que o caminho ditado pelos mapas
enfim chegamos e eu me deito aqui
nesta pedra me deito à beira à borda
se eu dormir, deixa; se eu morrer, me acorda

Thursday, July 24, 2014

Sonnets From the Vale do Capãoenses

Ivo e Maria


Jack Agüeros lançou Sonnets from the Puerto Ricans em 1996. A ideia era justamente fazer poemas sobre pessoas simples, que ordinariamente não receberiam poemas de ordinary que eram, a não ser claro que você estivesse apaixonado por elas.

O que não era bem o caso do Jack. Ou era, um modo diferente de amar. Sonetos porque ele quis usar uma forma 'clássica', para então criar um estranhamento :: a forma clássica para o trivial. O nome, claro, dialoga com o Sonnets from the Portuguese, da Elizabeth Barrett Browning (de quem, aliás, falei aqui).

Jack me inspirou. Prometi que desceria da jaqueira com dois livros, inda que embrionários :: um de adulto (Jaqueira Sutra), outro de poemas. Pois seja este algo como Sonnets from the Puerto Ricans, talvez Sonetos dos Habitantes do Capão.

Tenho já um para a Dona Helena, um para a Dona Maria, outro para o Salomão. Falta para o pequeno guia André, para o doceiro Ivo. E, claro, para a jaqueira.


1)
a Dona Helena faz pastel de jaca
com a mesma massa com que faz o pão
amassa os dentes da cansada faca
resgata a culinária do Capão
a Dona Helena mora na passagem
que leva os caminhantes pra Fumaça
adverte esperta à porta essa viagem
é muito longa desconheço raça
de gente que despreze um bom descanso
vem entra aqui demora um pedaço
que já te trago um pastel de jaca
vai ser do frito ou vai ser do assado?
Dois de cada :: e uma cerveja também
fique a Fumaça pra amanhã. Amém.

2)
Dona Maria inventou moqueca
de jaca coisa que ninguém mais faz
em todo o vasto Vale do Capão
a sua mãe de noventa e quatro anos
já soletra que o tempo é capaz
de tudo ela que tirou criança
para a luz ensurdecedora da
vida e ela que ainda puxa o terço
em português mestiço e latim terso
ora (direis) moqueca sabe a sal
e moqueca de jaca não existe
Dona Maria é cúmplice do vento
antes não tinha mas agora tem
a tradição é coisa que se inventa

3)
O sábio Salomão alberga as cores
nas retinas e passa pras paredes
e destas para os céus e para as árvores
Salomão vai pintando as suas sedes.
Salomão reina. O Vale do Capão
é fecundado pelos seus pinceis.
Com a hera exata e com o calango frio
disputa os muros deste vasto Vale
que ao ganhar suas tintas se despedem
de tudo aquilo que os batiza muros
já não fecham espaços :: antes cedem
não escondem tesouros :: compartilham.
Os muros se confundem com as nuvens
a resposta do tempo às ferrugens


Sonnet Substantially like the Words of Fulano Rodriguez One Position Ahead of Me on the Unemployment Line
 
It happens to me all the time/business
Goes up and down but I’m the yo-yo spun
Into the high speed trick called sleeping
Such as I am fast standing in this line now.
Maybe I am also a top, they too sleep
While standing, tightly twirling in place.
I wish I could step out and listen for
The sort of music that I must make.
But this is where the state celebrates its sport.
From cushioned chairs the agents turn your ample
Time against you through a box of lines.
Your string is both your leash and lash.
The faster you spin, the stiller you look.
There’s something to learn in that, but what?



Tuesday, July 22, 2014

Salomão Zalcbergas, pintor do Capão




O sábio Salomão alberga as cores
nas retinas e passa pras paredes
e destas para os céus e para as árvores
Salomão vai pintando as suas sedes.
Salomão reina. O Vale do Capão
é fecundado pelos seus pinceis.
Com a hera exata e com o calango frio
disputa os muros deste vasto Vale
que ao ganhar suas tintas se despedem
de tudo aquilo que os batiza muros
já não fecham espaços :: antes cedem
não escondem tesouros :: compartilham.
Os muros se confundem com as nuvens
a resposta do tempo às ferrugens



para a Pampi, plural de nuvens