Monday, November 12, 2012

Aqui esse



Uma das pragas a assolar boa parte da poesia contemporânea é o trocadilho. Poesia se faz mais com palavras do que com ideias, è vero, mas daí a limitá-la a um verso final com aquele trocadilho "genial" é fueda.

O próprio Gilberto Mendonça Teles, que prefaciou meu Taipa, fez questão de dizer em público que meu "Bia" era ruim.

BIA

Avelã
Ave lã
Ave lúdica
Aveludada
Ah, vê-la!...

Talvez ele tenha razão, mas à época houve quem gostasse e, detalhe importante, não foi uma pessoa só.

Por que digo o próprio Gilberto? Ora, porque voltei à sua poesia há alguns meses. Ele é poeta de grandes recursos, mas hoje, passados 18 anos do Taipa, acho que... ele abusa do trocadilho!

Talvez estivesse ele então em mecanismo de transferência? Não sei. Sei que escrevi outro na mesma linha.

Não há-de entrar em livro. Mas se calhar alegra um e outro.


Aqui s
aqui o
aqui s
aquiesce
aquece
aqui esse
que te ama.

+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++


PS: percebem que os três primeiros versos fazem sos.

SOS   SOS    SOS   SOS   SOS 

Sunday, November 11, 2012

Esquecer que Existes



esquecer que existes
                        esquecer

para de súbito lembrar
o susto
ao erguer a perna para vingar o degrau
ao correr para pegar a barca
ao lavar aos olhos nas nuvens da noite

o susto ao lembrar

pupilas dilatadas na pele
só porque existes
e lembro

so i don't feel alone
on the weight of the stone

(any fool knows a dog needs a home)

Wednesday, November 07, 2012

Viagens Interditas - Madredeus



Parece piada escarninha, mesquinha, ordinária, black humour, practical joke, dizer que sou apaixonado pelas músicas instrumentais do Madredeus.

Porque fica parecendo algo do tipo Porque nelas não tem a voz...

Ora, imagina se eu diria isso, eu que amo a Teresa e tenho foto dela em parede aqui de casa.

Mas sou apaixonado pelas músicas intrumentais do Madredeus. E, oras, amo o Pedro também. E jamais me esquecerei do Madredeus primeiro: ela, ele, o Rodrigo, o Gabriel, o Francisco. No Convento de Xabregas.

Procurei "A Península" para uma amiga. Debalde. Segue, daquela (deu vontade de falar galego), "Viagens Interditas", do Ainda.

Igualmente.


Meu Bem, Estivesse Dia Claro... : Grande Sertão: Veredas



Da coleção de primeiras edições autografadas merece destaque, claro, o Grande Sertão: Veredas, comprado em 4 de junho de 1991 no Sebo Dantes, quando ainda em Ipanema.

O preço de 100 dólares era o meu salário exato como professor / recreador do Tabladinho. O livro estava já reservado para mim (não tinha eu conta em banco, cheques, à época) e na véspera tive sono agitado.

Quando peguei o Grande Sertão para enfim ler não foi obviamente esta edição, inda mais porque levei para o Ceará e Brasília em mítica viagem de janeiro de 1992. Não se leva uma primeira edição autografada em mochila. Levei a quarta, em que podia sublinhar e anotar nas margens à vontade.

Li tanto na rede do Felipe Barroso que em meus sonhos eu falava tal qual o Riobaldo.

Escolher trecho preferido aqui é muito perigoso, impossível mesmo. A passagem final, quando Riobaldo descobre, dói demais:

Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.... Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

- "Meu amor!..."

Mas hoje fico com o Tatarana, em desesperos e confusões de amor, se revelando, para logo levar uma senhora reprimenda de Diadorim:

 E tudo impossível. Três-tantos impossível, que eu descuidei, e falei: - ...Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor de seus olhos... -; o disse, vagável num esquecimento, assim como estivesse pensando somente, modo se diz um verso.


E agora está escuro aqui em casa.  Fosse dia claro...

Monday, November 05, 2012

Noneto





NONETO


Enquanto durmo fico mais cansado
se não te sonho me vem a exaustão
Quando em vigília tenho-te ao meu lado
em pensamento, na palma da mão.
Tá, amor é lençol amarrotado
mas é também ferrugem, cuspe e chão.
Assim findo o noneto em ado e ão.
E assim acaba o dia, inacabado.
(Diga, querida: estou cansado ou não?)

Sunday, November 04, 2012

Recordações da Casa dos Mortos - a Ópera de Janácek




Esta é uma ópera do Janácek que comprei em Praga, já não lembro se dezembro de 1999 ou janeiro de 2000 porque lá fiquei muitos dias. Mas... só fui abri-la agora, nesta semana que passou.

Não sei se influenciado por algo que li no Otto Maria Carpeaux,  sua A História da Música Ocidental, em que ele diz que essa é a ópera mais "pesada" do mundo, algo assim, não sei. Eu nem tenho medo de música pesada, pelo contrário. Mas a verdade é que a caixinha ficou lacrada por anos aqui em casa. Aliás, casas, pois se mudou de casa a outra. Lacrada.

Li Recordações da Casa dos Mortos, do Dosta, em temporada no Caraça. Ora, assim é mole (dirão), mas tem que ser assim. Toda manhã me sentava no banco do pátio, lia as tragédias siberianas e podia lavar meus olhos nas serras mineiras. Sobrevivi mole.

Gosto, sem amar, de óperas do Janácek. Gosto de Jenufa, gosto da Raposinha. Esta, no entanto, pareceu-me superiror em muitos aspectos.

Mas ouvi apenas os dois primeiros atos. Não passarão outros doze anos até eu ouvir o resto, prometo.

By the way, a introdução é linda. Nada, nada de pesado.

Saturday, November 03, 2012

Devo dizer que te amo todo dia?





Devo dizer que te amo todo dia?
Melhor não, vai que acostumas
vai que um dia de dores de cabeça
esqueço, e o paraíso negarias?

Esta relevantíssima questão
trago à família, que me desaprova.
Poeta, poeta, põe os pés no chão
Não vês que isso é coisa de paixão nova?

Eu indago aos amigos do boteco
estes seres que, ao beber, tudo sabem
e neles cabem certezas de excessos.

Junto ao garçom, um outro sabichão:
"Doido? Isso se diz uma vez por ano".

Fodam-se todos, ouve, amor: te amo.

Os Gatos de Ana




Ganhei de presente outro dia um poema da Ana. A Ana Cristina César. Depois descobri tratar-se de um soneto, um soneto disfarçado, mal disfarçado, que essa geração não queria saber de sonetos, ou queria, mas cumpria disfarçar essse querer. Não conheço sonetos do Francisco Alvim nem do Armando. Já o Tite de Lemos, bem, o Tite foi aquilo que se viu: um dos meus mestres soneteiros, macaco de auditório que sou.

Depois, pesquisando um pouquim, descubro outro soneto mal disfaraçdo da moça que usava lentes escuríssimas sob os pilotis. Esse mal disfarçado mesmo, ao citar o Jorge.

Quado digo disfarces, não estou absolutamente diminuindo em nada os poemas. Ambos são lindos. E sobre gatos. Arrisco dizer que Ana queria e não queria o rigor. Mas tudo foi tão rápido para ela.

(E o que fazer ao ganhar poema de Ana? Na confusão, respondo com o que tenho às mãos, alegres: "Encontro", do Montale.)


O nome do gato assegura minha vigília

O nome do gato assegura minha vigília
e morde meu pulso distraído
finjo escrever gato, digo: pupilas, focinhos
e patas emergentes. Mas onde repousa

o nome, ataque e fingimento,
estou ameaçada e repetida
e antecipada pela espreita meio adormecida
do gato que riscaste por te preceder e

perder em traços a visão contígua
de coisa que surge aos saltos
no tempo, ameaçando de morte
a própria forma ameaçada do desenho
e o gato transcrito que antes era
marca do meu rosto, garra no meu seio.

\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\\\\\\\///////


queres gato: tira do teu ventre

morno medida de tua garra,
o formato e as unhas te fazendo,
tuas certezas, teu único sonho, botas e

cobertas que também desfazem teu salto
e se apronta para sobrevoar o campo alheio
e se lançar meio tigre sobre as marcas
que não sabes nem sabes repousar, e os gemidos

de fome em gato não ouças, mas vive
os cantos da casa e os pêlos amedrontados
e a ameaça acordando o nome gasto

e se deita depois num lento revirar ignorado,
torna a escrita e o desenho que ressonam
desconhecidos traços te seguindo.

[d’après Jorge de Lima - Invenção de Orfeu I, XVIII]

Friday, November 02, 2012

Sylvia Plath Reads



Assim como um compositor regendo sua própria obra  não é garantia da melhor interpretação, na verdade nem mesmo de uma boa interpretação, nem sempre um poeta lê bem os seus poemas.

Na literatura norte-americana, não gosto da leitura de Frost, nem da de e. e. cummings nem da do Ginsberg.

Mas Sylvia Plath lendo "Daddy" e "The Applicant" é simplesmente assombroso. Dois poemas já perturbadores ganham fortes matizes de sarcasmo e contundência.

Never mind the images (though interesting sometimes). Focus on the words. And the voice.


PS: Segredo, talvez dois: leio estes poemas com meus alunos. Numa ocasião, em que eu propusera que cada um lesse uma estrofe de "Daddy" em voz alta, a aluna responsável pela última se engasga, mal conseguindo ler o verso final. Não é mole. Em outra ocasião, eu tinha colocado a Sylvia para ler. Tão logo ela termina, uma aluna exclama: "My father!"  (!!!!)




DADDY


You do not do, you do not do
Any more, black shoe
In which I have lived like a foot
For thirty years, poor and white,
Barely daring to breathe or Achoo.

Daddy, I have had to kill you.
You died before I had time ----
Marble-heavy, a bag full of God,
Ghastly statue with one gray toe
Big as a Frisco seal

And a head in the freakish Atlantic
Where it pours bean green over blue
In the waters off the beautiful Nauset.
I used to pray to recover you.
Ach, du.

In the German tongue, in the Polish town
Scraped flat by the roller
Of wars, wars, wars.
But the name of the town is common.
My Polack friend

Says there are a dozen or two.
So I never could tell where you
Put your foot, your root,
I never could talk to you.
The tongue stuck in my jaw.

It stuck in a barb wire snare.
Ich, ich, ich, ich,
I could hardly speak.
I thought every German was you.
And the language obscene

An engine, an engine,
Chuffing me off like a Jew.
A Jew to Dachau, Auschwitz, Belsen.
I began to talk like a Jew.
I think I may well be a Jew.

The snows of the Tyrol, the clear beer of Vienna
Are not very pure or true.
With my gypsy ancestress and my weird luck
And my Taroc pack and my Taroc pack
I may be a bit of a Jew.

I have always been scared of you,
With your Luftwaffe, your gobbledygoo.
And your neat mustache
And your Aryan eye, bright blue.
Panzer-man, panzer-man, O You ----

Not God but a swastika
So black no sky could squeak through.
Every woman adores a Fascist,
The boot in the face, the brute
Brute heart of a brute like you.

You stand at the blackboard, daddy,
In the picture I have of you,
A cleft in your chin instead of your foot
But no less a devil for that, no not
Any less the black man who

Bit my pretty red heart in two.
I was ten when they buried you.
At twenty I tried to die
And get back, back, back to you.
I thought even the bones would do.

But they pulled me out of the sack,
And they stuck me together with glue.
And then I knew what to do.
I made a model of you,
A man in black with a Meinkampf look

And a love of the rack and the screw.
And I said I do, I do.
So daddy, I'm finally through.
The black telephone's off at the root,
The voices just can't worm through.

If I've killed one man, I've killed two ----
The vampire who said he was you
And drank my blood for a year,
Seven years, if you want to know.
Daddy, you can lie back now.

There's a stake in your fat black heart
And the villagers never liked you.
They are dancing and stamping on you.
They always knew it was you.
Daddy, daddy, you bastard, I'm through.

THE APPLICANT


First, are you our sort of a person?
Do you wear
A glass eye, false teeth or a crutch,
A brace or a hook,
Rubber breasts or a rubber crotch,

Stitches to show something's missing? No, no? Then
How can we give you a thing?
Stop crying.
Open your hand.
Empty? Empty. Here is a hand

To fill it and willing
To bring teacups and roll away headaches
And do whatever you tell it.
Will you marry it?
It is guaranteed

To thumb shut your eyes at the end
And dissolve of sorrow.
We make new stock from the salt.
I notice you are stark naked.
How about this suit----

Black and stiff, but not a bad fit.
Will you marry it?
It is waterproof, shatterproof, proof
Against fire and bombs through the roof.
Believe me, they'll bury you in it.

Now your head, excuse me, is empty.
I have the ticket for that.
Come here, sweetie, out of the closet.
Well, what do you think of that ?
Naked as paper to start

But in twenty-five years she'll be silver,
In fifty, gold.
A living doll, everywhere you look.
It can sew, it can cook,
It can talk, talk , talk.

It works, there is nothing wrong with it.
You have a hole, it's a poultice.
You have an eye, it's an image.
My boy, it's your last resort.
Will you marry it, marry it, marry it.

Thursday, November 01, 2012

O Ministério da Saúde Adverte




O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE

O Ministério da Saúde adverte:
cuidado precaução cautela com
teus olhos e tudo o que deles verte:
luz dardos besourinhos aconchego.
Não sei que faço então, se passo ao largo
ou se cerro os meus para os teus não ver.
É tudo em vão, se mesmo sob as pálpebras
se mesmo em árvores, paredes, brisa
mesmo na superfície de outras faces
rostos antigos das rotinas ásperas
ou novos em instantes tão fugazes
são teus olhos ainda que estou a ver.
      Cuidado, garota, que vou dar parte
      desses olhos que estão em toda a parte.


Graça



GRAÇA


pensei fosse um saco voando
um saco plástico branco voando
eu miguelava os olhos
e só via o saco

achei graça
nas circunvoluções
olha, quase
parou na antena



era uma garça


metáfora da minha vida?

Tuesday, October 30, 2012

Tite




Um dos meus poetas diletos é o Tite de Lemos, da geração da Ana e do Armando. Por causa dele decidi que também eu teria o meu livro só de sonetos. Por causa do Jorge de Lima também, e do Carlos Nejar e do Sérgio Campos, mas mais por causa dele e para que não pairassem dúvidas copiei-lhe desabridamente o nome do seu Caderno de Sonetos. Depois veio o Outros Sonetos do Caderno. Seus sonetos têm tudo que amo: o respeito à e a rasteira na forma. Forma always, fôrma never. Rigor. Inda que embriagado, rigor. Um lirismo absurdo. Mas com humor. Ler poesia sorrindo.

Pois bem, faltava-me um seu livro em minha coleção, o Marcas do Zorro. Não mais, que o encontrei na Berinjela na sexta-feira passada. E por apenas 15 berinjelas. Detalhe: autografado.

Depois subi o Morro de Santo Antônio. Ao descer tomei chopes no Café e Bar Real na Carioca, amparado por um sanduba de pernil. À frente as igrejas lindas o céu e a brisa. Depois apareceram dois repentistas arretados.

E tem gente que diz que não há Deus.

SONETO
Tite de Lemos

14 tortuosas linhas, 13
labirintos sem fim e sem começo,
12 portas lacradas, 11 vezes
forçadas, talvez 10, até me esqueço.

9 questões de lógica celeste
ou 8 jogos de adivinhação,
7 ou 6 tentativas, todas vãs,
de escutar o que ainda não disseste.

5 metáforas jogadas fora
quando quero dizer-te que te adoro.
4 rimas rebeldes, 3 tropeços,

2 tombos e no entanto, finalmente,
nada que não pudesse resolver-se
em 1 simples bilhete adolescente.

Sunday, October 28, 2012

Tia Maria




TIA MARIA

tia maria dizia
quem fodia fedia
ai minha nossa senhora
ai minha virgem maria

Tem Cobogó no Botequim

A revista O Globo de hoje traz em sua matéria de capa um texto sobre os cobogós: "Loucos por Cobogó". Ora, conforme escrevi aqui, cobogós são um dos meus principais interesses em botequins. Assim, tenho já reunidas dezenas de fotos da presença destes queridos (sim, sou um louco por cobogó) nos botequins do Rio e Niterói.

A reparar que as fotos aqui selecionadas, sem grande rigor, ilustram a grande variedade de cores, desenhos, tipos e mesmo funções que os cobogós podem ter nos botequins. Quando próximos a azulejos (e quase sempre o estão), o efeito é espetacular. Se próximos a um Nilton Bravo (como no açougue, sim, é açougue, na Lapa) ou a paineis de azulejos (como o outro da Lapa e o do Méier), aí o bicho pega mesmo...




Praça da Bandeira

Lapa

Rio Comprido

Centro

Lapa

Maria da Graça

Laranjeiras

São Cristóvão

Tijuca

Méier

Tijuca

Saturday, October 27, 2012

verdes



verdes
a musa de Camões tem olhos
verdes
vinde verdes
verdes perto
verdes longe
que me dês o ver
que perdi.

Thursday, October 25, 2012

Bird List - Michael Nyman


Não acredito ser possível acercar-se da música de Michael Nyman senão com absoluto desprendimento, fervorosa paixão e cega obsessão.

Reparem que não peço muito.

Qualquer outra forma de aproximação será impostora.

O lançamento, ano passado, de seu primeiro disco (1981), permite-nos bem mais que o contato com a formação de um artista e essas coisas de genética. Permitiu-nos, dentre outras, o conhecimento deste absurdo que se chama "Bird List", inicialmente composta para trilha do The Falls, do Peter Greenaway.

Sim, era a época da dobradinha Nyman-Greenaway, que ainda haveria de render as obras-primas A Zed and Two Noughts, Drowning by Numbers, Prospero's Book e The Cook the Thief, his Wife and her Lover.

Nesta peça encontramos Nyman em duas de suas obsessões. Pelo menos. O gosto pela enumeração e o uso de uma soprano em um registro altíssimo, como mais tarde apareceria em "Memorial", de The Cook, em "L'Escargot" de A Zed e no movimento "Images were Introduced", de The Kiss.

Dir-se-ia uma voz vitricida.

Dir-se-ia voz logicida, que endoidece e nos faz repetir a audição até ser posível a solução do mistério. Thank God ainda estamos longe de qualquer solução. Seguimos ouvindo. Absoluto. Fervoroso. Cego.

A peça entrou para o repertório. Está no Live. Mas Mike retirou a voz e a guitarra elétrica. Compreensível que tenha retirado a guitarra, pecaminosa a retirada da voz vitricida.

Compensou com uma aligeirização no tempo e um uma forte carga nos metais.

Não direi jamais que ficou melhor. Mas continuou maravilhosa.

A versão 'ao vivo':

She who makes my heart shiver




She who makes my heart shiver
she who makes my heart bow
she whose eyes are but the eyes
of a luminous child that flies.

Mine was the candle of disillusion
half-burnt in the dusk
hers the taste of wild musk
coming from her thighs.

Hers the skin that glows
glowing my heart goes
as her dark hair hides my face
amid her fireflies.

Wednesday, October 24, 2012

Sudário




SUDÁRIO


o rosto enxugo
em tua toalha de banho

ver se algo se imprime
não lá           aqui

Poemas Escritos na Ponte I - Sobre esta Ponte Absurda



Sobre Esta Ponte Absurda


Sobre esta ponte absurda
onde veículos lentos e assassinos
se arrastam tediosamente rumo ao tédio
deixando atrás de si um visgo negro
que chuva alguma jamais apagará
sobre esta ponte torcida pela escoliose
trinta e sete gaivotas
pregadas ao cinza escrínio
confabulam
e hesitam
-- olhos rotos pela salsugem e fuligem --
entre o suicídio coletivo
e um voo maior para o ventre do céu

Tuesday, October 23, 2012

Especially When the October Wind - Dylan Thomas





ESPECIALLY WHEN THE OCTOBER WIND

Dylan Thomas

Especially when the October wind
With frosty fingers punishes my hair,
Caught by the crabbing sun I walk on fire
And cast a shadow crab upon the land,
By the sea's side, hearing the noise of birds,
Hearing the raven cough in winter sticks,
My busy heart who shudders as she talks
Sheds the syllabic blood and drains her words.

Shut, too, in a tower of words, I mark
On the horizon walking like the trees
The wordy shapes of women, and the rows
Of the star-gestured children in the park.
Some let me make you of the vowelled beeches,
Some of the oaken voices, from the roots
Of many a thorny shire tell you notes,
Some let me make you of the water's speeches.

Behind a pot of ferns the wagging clock
Tells me the hour's word, the neural meaning
Flies on the shafted disk, declaims the morning
And tells the windy weather in the cock.
Some let me make you of the meadow's signs;
The signal grass that tells me all I know
Breaks with the wormy winter through the eye.
Some let me tell you of the raven's sins.

Especially when the October wind
(Some let me make you of autumnal spells,
The spider-tongued, and the loud hill of Wales)
With fists of turnips punishes the land,
Some let me make you of the heartless words.
The heart is drained that, spelling in the scurry
Of chemic blood, warned of the coming fury.
By the sea's side hear the dark-vowelled birds.





Tem que ser muito macho pra segurar Dylan Thomas pelos chifres.

O Ivan Junqueira é.

SOBRETUDO QUANDO O VENTO DE OUTUBRO
Sobretudo quando o vento de outubro
Castiga-me os cabelos com álgidos dedos,
E eu, sobjugado pelo sol, caminho entre as chamas
E deito uma garra sombria sobre a terra,
Junto à orla do mar, ouvindo o ruído dos pássaros
E a tosse do corvo nos ramos do inverno,
É que estremece o meu convulso coração quando ela fala
E verte o sangue silábico, ou então se cala.

Enclausurado assim numa torre de palavras, esboço
No horizonte, ao caminhar como as árvores,
As formas verbais das mulheres e, no parque, as filas
de crianças cujos gestos se assemelham às estrelas.
Há quem suponha que eu te criei das faias vocálicas,
Das vozes dos carvalhos, ou que te dê notícias
A partir das raízes de províncias espinhosas.
Há quem suponhas que eu te criei da linguagem das águas.

Atrás de umas jarra de feno, o relógio balouçante
Diz-me a palavra das horas, o significado nervoso
Flutua sobre o disco do pêndulo, declama a manhã
E anuncia a tempestade no cata-vento.
Há quem suponha que eu te criei dos indícios da campina;
A erva memorável que me diz tudo o que sei
Irrompe através do olhar com o inverno cheio de vermes.
Há quem suponha que eu te conte os pecados do corvo.

Sobretudo quando o vento de outubro
(Há quem suponha que eu te criei de magias outonais,
Da saliva das aranhas ou das sonoras colinas de Gales)
Flagela a terra com punhos de tubérculos,
Há quem suponha que eu te criei das palavras sem coração.
Exauriu-se o coração que, renunciando ao tumulto
Da química do sangue, se acautelou contra a fúria que desponta.
Junto à orla do mar, escuta as negras vogais dos pássaros.