Wednesday, February 18, 2015

Crônicas Turcas IV :: Elas estão por toda a parte ::: Mesquitas II



Dando continuidade a esta postagem aqui, mais fotos das onipresentes mesquitas de Istambul. Da pequenina mesquita de madeira em Üsküdar à colossal Süleymaniye. Vale ressaltar que com exceção da Hagia Sophia, anteriormente igreja cristã e por muitos séculos a maior do mundo, são todas espaços vivos de fé. Visitantes são sempre bem-vindos, exceto, claro, nas horas dos cultos, quando ingresso e fotos são proibidos. Epa, então como explicar...? SShhhh.

Semsi Pasa :: Üsküdar

Mesquita de madeira em Üsküdar

Eyüp Sultan (e as 4 a seguir)





Avistada do Bósforo

Antiga mesquita dos eunucos no harém de Topkapi

Süleymaniye (e as seguintes)




Monday, February 16, 2015

Centenário do Genocídio Armênio em 2015



 Este ano o terrível genocídio armênio perpetrado pelos turcos em seu território completa cem anos. Ia escrever "será comemorado o centenário", mas ainda que se apele à etimologia de "comemorar" (lembrar com), não dá sequer para permintir ambiguidades alegres. Dentro de um já condenável programa de "turquificação" (a ideia de uma nação = um povo = uma religião = um idioma etc; ideia longe ser exclusividade turca), as atrocidades cometidades contra o povo armênio que há séculos habitava a região literalmente beiram o inacreditável.

Já li que o episódio teria inspirado um certo Führer vinte anos mais tarde e não creio haja exagero nisso.

A Turquia nega o genocídio. Assim como hoje constitui crime falar / escrever na Alemanha que o Holocausto não aconteceu na Segunda Guerra, parece ser crime falar / escrever na Turquia que houve genocídio armênio em 1915.


A propósito, em 2005, Orhan Pamuk falou abertamente acerca do genocídio. Foi levado aos tribunais, livros seus foram queimados em manifestações e, last but not least, sofreu tentativas de assassinato. Isso, o Pamuk!, provavelmente o escritor turco mais conhecido da atualidade. Imaginem qual não será o destino de um Çağan, um Rüzgar e uma Yaren que ousarem alçar a voz Anatólia afora, em busca de uma reparação histórica. Uma vergonha.

Aliás, até onde sei, o Brasil como um todo tampouco reconhece o genocídio.

Eu, que nunca estudei direito internacional, relações internacionais ou diplomacia, apóio-me no benefício dessa ignorância para esboçar medidas que deveriam ser tomadas pela Turquia em 2015 em relação à questão.

Apenas para começar:

. reconhecimento formal da existência do genocídio acompanhado de desculpas na ONU;

. indenização moral e financeira a todos as famílias dos armênios envolvidos;

. inclusão da disciplina Genocídio Armênio no Ensino Médio e Fundamental, bem como aulas de cultura, literatura e língua armênias;

. criação de um monumento em memória às vítimas do genocídio, situado equidistante entre a Mesquita Azul e a Hagia Sophia, em Istambul;

. cessão do Monte Ararat à Armênia.


Afinal, dentre as coisas aprendidas em minha maravilhosa viagem a Istambul, lembro-me de que Islã significa paz.

Saturday, February 14, 2015

Men at Work em Istambul




A foto é clássica : onze operários da construção civil durante a hora de almoço na Nova York da Depressão (1932), fato de resto evidenciado pela total inexistência de aparelhos de segurança. Submetia-se a qualquer coisa para se ter um emprego. E nisto reside o punctum da foto: o time de futebol absolutamente à vontade, quando pequeno descuido levaria à morte. Isso me dá vertigem.

A reparar os pares : em cada par, o homem olha para a esquerda. Como o número é ímpar, no par do meio o da esquerda atrai olhares de dois homens. A exceção se dá justo no último par, para que o homem da extremidade olhe para... o fotógrafo (e, por extensão, nós).

A foto foi montada, o que em nada lhe retira o brilho. Arte é artifício.

Há dois anos, quando completou oitent'anos, rendeu documentário, como se pode ver aqui.












Friday, February 13, 2015

Em bom romeno casa se diz casă

Bucareste :: janeiro 2015


em bom romeno casa se diz casă
palavra água transparente e asa
palavra lavra sussurrada nas
cornijas onde me começo e me
misturo às línguas lassas já rendidas
ao que não podem exprimir imagens
de sóis luas céu terra e cegonhas
telhados galos e seu canto rouco
são talhadas na tília do silêncio
onde o amor sempre vence o meu cansaço
não tento imprimir palavras às coisas
silencio o que um dia foi acaso
e falho ao traduzir meus olhos (în
casă portugheză se spune acasă)

Crônicas Turcas III ::: Elas estão por toda a parte :: Mesquitas I

Azul


Não sei se há mais igrejas em Salvador, só sei que da última vez que contaram, e isso já tem quase dez anos, chegou-se ao número de 2.944.

Estão por toda a parte. Desde as gigantescas majestosas opulentas Azul e Hagia Sophia e Süleymaniye até as pequeninas, como a quase de miniatura de Samsi Pasa e uma de madeira em Üsküdar, sem cúpula.

Cinco vezes ao dia ouvem-se os chamados dos muezins para as orações. Tantas, as vozes se entrelaçam em intricada rede, qual a dos galos anunciando a aurora em São Gonçalo do Rio das Pedras.

Foi das poucas palavras que aprendi em turco e não poderia ser diferente :: camii.

Impossível pensar em Istambul sem suas mesquitas.

Azul

Hagia Sophia

Hagia Sophia

Hagia Sophia

Hagia Sophia

Nova (séc. XVII)

Nova

Nova

Nova

Nova

Nova

Thursday, February 12, 2015

Crônicas Romenas III ::: As Colheres de Pau




A oficina de Mark Tudose fica nos fundos da loja de artesanato, que por sua vez ocupa um aposento na casa onde nasceu o infame Vlad Tepes (com quem a Romênia atual mantém ambígua relação). Tal localização, contudo, não faz do lindo espaço uma loja de souvenir ordinária como as que vendem canecas e ímãs e pôsteres e camisas e cuecas do Vlad. Aqui procura-se contar as histórias por detrás das peças.

O artesão Mark faz colheres de madeira, ofício aprendido com o avô. Enquanto fala da exposição que prepara com peças suas e do nonno, vai contando dos símbolos talhados na tília. Sóis, luas, água, terra, cobras, casas, cegonhas, galos. Na simbologia da Transilvânia a cegonha simboliza boa sorte. Casa sobre a qual ela faz ninho não pega fogo e nem entra ladrão. O galo anuncia um novo dia. O outro nome disso é esperança. É o galo que trago para morar no Grajaú.

Wednesday, February 11, 2015

Crônicas Turcas II :: Museu da Inocência



Há muitos anos, conhecendo Amsterdam, li que se o viajante tivesse tempo para uma única visita na cidade, esta deveria ser à Casa-Museu de Anne Frank. Lembro-me de que gostei desse exagero, impressionou-me, a ponto de dar vontade de parafasear aqui : se o viajante tiver um único dia para Istambul, faça a Mesquita Azul, a Hagia Sophia, a Süleymaniye e a Choria. Vá ao Grande Bazar, ao Mercado das Especiarias e ao Topkapi. Suba a Torre de Galata, atravesse o Bósforo para conhecer a parte asiatica desta que é a única cidade do mundo dividida em dois continentes. Almoce e jante nos infinitos e maravilhosos e baratos restaurantes da cidade. Beba o vinho local e fume o seu narguilé. Mas não deixe de conhecer o Museu da Inocência.

O Museu da Inocência (em turco Masumiyet Müzesi) não é muito conhecido, a ponto de mesmo moradores da área de Çukurcuma terem alguma dificuldade em ajudar os viajantes. É um museu literário, estritamente literário, que narra a malograda estória de amor de Kemal e Füsun. Ele foi montado por Orhan Pamuk enquanto ele escrevia o romance homônimo. Ideia linda, genial, já paga a viagem.

Dividido em 83 seções, uma para cada capítulo do romance, acaba por traçar um painel da Istambul classe média-alta das últimas décadas do século XX. Mas o valor, importante frisar, reside mais em sua 'função poética' que em seu valor referencial. Afinal, Kemal e Füsun são seres de papel.

Masumiyet Müzesi sabe disso. Logo à entrada, há um manifesto em prol de um novo conceito de museu. Louvre, National Gallery, Uffizi, Topkapi e Hermitage são lembrados, mas seria chegada a hora de um novo museu, mais íntimo, mais casa, mais humanizado. Estórias em vez da História. Ano passado foi eleito o museu do ano da Europa.

Se você trouxer uma cópia do romance, entra de graça. Se não trouxer, tem a chance de comprar na lojinha, garantindo a gratuidade da próxima visita.

Pode-se ler aqui uma entrevista com Pamuk acerca do museu.

Pampi à frente das 4213 bitucas de cigarros fumadas por Füsun










Diário de viagem, nosso museu da inocência