Friday, March 06, 2020

Entre os Xakriabá



O massacre sofrido pelos Xakriabá em fevereiro de 1987, em que três lideranças foram assassinadas, culminou, ao menos, com a demarcação de suas terras, na margem esquerda do São Francisco, lá em cima nos Gerais mineiros.

Embora o território atualmente demarcado e homologado represente apenas 1/3 da sua terra tradicional, não deixa de ser uma vitória, mais ainda quando Xakriabás já ocupam / ocuparam cargos políticos no município de São João das Missões, inclusive o de prefeito.

Mas o genocídio vem de longe. Vivendo no norte de Minas, eles bateram de frente com os bandeirantes, desde o início do século XVIII. E com missionários. E depois com garimpeiros e pecuaristas. Não é pouco. Consta que receberam bem escravos negros fugidos e com eles misturaram-se, numa miscigenação bem mais espontânea e bonita que a idealizada pelo Gilberto Freyre para os portugueses. Digo-o sem idealização.

Quando tracei meu roteiro pelo norte de Minas, incluindo Manga (aqui), Januária (aqui) e o Peruaçu, queria por força conhecer membros da etnia, e o destino se encarregou disso ao fazer com que a minha guia no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu fosse a Ivanir, índia xakriabá.

Ela não apenas foi guia competente, dedicada, gentil, como de quebra levou-me depois para a aldeia, onde pernoitei em sua casa. Aí descubro que ela e seu marido Nei são exímios ceramistas, sendo ele ainda estudioso do assunto. E tanto brinco com seus filhos lindos, Ian Sirê e Ianny. Parte da noite passamos comendo monte de pequi. Pra cada um que eu urbanoide comia, todo preocupado com os espinhos, os piás comiam cinco.


O teto da Associação Cultural tem a forma dum cocar





Escola da aldeia onde Nei leciona













A borduna pra dar na cabeça do bolsonaro

A xakriabá linda que encontrei na beira da estrada


Thursday, March 05, 2020

Brighton, para além do The Who


Conforme escrevi aqui, foi o The Who / Quadrophenia que motivaram a visita a Brighton, aonde eu não iria por outros motivos, minha companheira me acompanhando por saber da minha paixão pela banda.

Mas, então, tirante o diretamente relacionado a Quadrophenia -- a praia, a avenida defronte a esta, as ruas transversais onde Mods, Rockers e a polícia caem no pau, o píer e, last but not least, o beco --, sobraria alguma coisa?

Bem, mais do que sobrou, Brighton revelando-se uma cidade deliciosa, nem que seja para bate-e-volta desde Londres: o labirinto das lanes, o Pavilhão Real (espécime perfeita de orientalismo e onde Carême preparou barrocas refeições), murais do John Upton, o primeiro grafiteiro do Reino Unido, a ótima oferta de restaurantes, pub em azulejos, uma infinidade de lojas de segunda-mão, as afamadas charity shops.

Achávamos sobraria tempo. Quase perdemos o último trem.














Tuesday, March 03, 2020

O sino de madeira



Lá em São Bartolomeu
colada ao Rio das Velhas
vive rua já bem velha
tantas velhas nas janelas
neste mesmo arruamento
que vai dar lá nas Mercês
imperiosa tem assento
igrejona azul e branca
contando mais de trezentos
anos. Sem grandes artífices
não tem ela Aleijadinho
não tem ela chinesices
não tem ela grande órgão
Ataíde ela não tem
mas tem ela duas torres
duas torres em quatro águas
duas torres telhadinhos
sendo a esquerda, a esquerda torre
(tinha que ser a sinistra)
que quase esconde da vista
o seu tesouro maior:
velho sino de madeira.
Esse sino tem histórias
e não poucas as versões
roubaram o sino de prata
ninguém sabe dos ladrões
nem para quem protestar
tempo que o governador
Velho Conde de Assumar
punha fogo em Ouro Preto.
Fabricam pois outro sino
de madeira pois não cabe
arraial, mesmo pequenino,
ter igreja assim caolha
Assim sino e seu badalo
sino mudo de madeira
tanta vez tocou em vão
tanta vez se desespera
no afã de ser ouvido
tão inútil o seu badalo
Não será como Cassandra
que viu dentro do cavalo
de Troia a destruição?
E ninguém lhe deu ouvidos
por mais que a jovem gritasse
O vemos em poucas horas
entre nacos da cascão
depois nos vamos embora
enquanto ele -- o sino mudo --
tartamela o seu bordão
no alto da torre esquerda
manterá os seus badalos
para ouvidos nenhuns

Galo velho no quintal
rouco mouco pouco galo
que ainda grita de manhã

para ouvidos nenhuns




Capela das Mercês




Quem disse que não há chinesice em Ouro Preto?



Quando falamos em chinesices geralmente pensamos em pinturas douradas sobre fundo vermelho, como aquelas com as quais recentemente me deliciei na Matriz de Catas Altas (aqui). Pinturas com motivos orientais, claro.

Então fico sem saber se essas belezinhas nos painéis laterais (pode chamar de 'ilharga'?) da capela-mor da Igreja de Santa Ifigênia também serão chinesices. 

O acesso à capela-mor nos é muitas vezes vedado, de modo que, à falta de drone, estiquei o corpo aonde pude para fazer os registros.

Não são douradas nem há fundo vermelho, mas há todo um orientalismo (Evoé, Said!) aqui. Também os traços finos, quase um nanquim. Achei curiosa também a paleta de cores, como que sugerindo azulejos, já que são nessas ilhargas onde geralmente os há (em Ouro Preto só no Carmo).