Saturday, November 07, 2009

SONETO DAS TRINTA ANDORINHAS





Dante pede às andorinhas que adornem
seu sono, de mel e de paina feito.
E o que era ânsia represada até
agora, esfarinha-se no rumor

dos barcos que navegam silenciosos
entre o azul líquido e semovente
e este azul maior que engolfa o tempo e
que nos terá um dia. Dante dorme.

As andorinhas nada dizem, voam
e em seus voos barrocos vão tecendo
tênue teia que lhe protege o sono.

As andorinhas nada dizem, velam
diligentes o seu sono, todo ele
paina, mel, auréola e trinta andorinhas.


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Acho que desaprendi a fazer sonetos, se é que um dia. A ilustração é da Cora, aluna querida que torce pelo América e tentou encher nossos tomates verdes de pimenta branca (isso vocês já sabem de outros posts).
A inspiração (oh, como se isso existisse) veio dos passeios que faço com Dantuca lá no MAC. Acertei os versos e a métrica (desacertei talvez seja melhor palavra) nas idas e vindas no 996, ao som do Blackfield.

Daylight Saving Time



HORÁRIO DE VERÃO

O gato,
ignorante dos ponteiros adiantados,
Vem pedir-me comida
com uma hora de atraso.

Arqueia-se o dorso, levanta-se
a cauda peluda, faíscam
enormes olhos
onde cabem
mil enormes olhos.

Acho graça.
Mas reconheço
que há
sadismo neste meu sorriso.

Amanhã que faço?
Enquadro o gato no mundo dos homens?
Ou respeito-lhe ternuras, súplicas, desejos e fomes anacrônicas?

Ternuras, súplicas, desejos e fomes anacrônicas.

A questão talvez seja idiota
e sequer mereça poema.

Isolda e eu nos olhamos
com enormes olhos
onde cabem.

Je le resterai jusqu'au bout! Je ne capitule pas!

Tuesday, November 03, 2009

Dave & Clarice


Tive no Dia de Finados uma experiência transfiguradora. Nada a ver com mortos, muito pelo contrário.
Já no dia anterior recebera em meu celular (que estava no modo 'silencioso') chamadas provenientes de um longo número.
Havia também um torpedo. Dizia "Hello my name is Dave." Gelei. Respondi: "Dave what?". Reparem que pergunto what e não who pois no meu coração tinha já certeza de quem se tratava.
A resposta é ligeira: "Dave the reader of Clarice Lispector, who wrote nothing about back scratching."
Não precisa de sobrenome. Ou sim, precisa, o sobrenome é este aposto e esta oração adjetiva cheia de piadas internas. A isto se chama léxico familiar. Seu outro nome é família.
Agora explico.
Morei com Dave Block e Ellen Mora em Chicago por um ano: de agosto de 1986 a julho de 1987. Somos amigos até hoje, com intermitências de contato que amizades de verdade compreendem.
Eles souberam que Dante estava a caminho. Depois souberam que Dantinho tinha West. Mas fui muito elíptico nos e-mails, adiantei os fatos óbvios e depois calei-me, dizendo apenas "I will let you know".
E com isso -- "I'll let you know" -- foram deixados.
Dave ficou muito incomodado. Meses passaram-se e ele tentava se acercar. O que fez? Decidiu ler um autor de ficção brasileiro para que pudesse se sentir próximo de mim! !!!! Escolheu (meio que por acaso? não creio), acabou escolhendo a Clarice Lispector.
Teve ele, naturalmente, revelações, encontros, epifanias. Ficou marcado pelo que disse ter sido / estar sendo uma das leituras mais intensas da sua vida. E sentiu que conseguira instaurar em si o frame of mind apropriado para então me procurar.
Não consigo expressar nestas linhas o extraordinário que isso tudo foi. Alguém fisicamente distante quis acercar-se de mim. E o fez por intermédio da Clarice.
Foi um dos maiores afagos que já recebi.
Ontem conversamos longamente por telefone. Ele disse estar a caminho.


A foto (foto de foto, não tenho scanner) mostra-nos conversando, nos primeiros dias de 1987, somewhere between Pensylvannia e Washington D.C. O fato de a foto estar pouco nítida confere-lhe contornos fantasmáticos e vejam que bonita aquela casa lá atrás.
Ele tinha 8 anos a menos do que tenho hoje.

E poucas vezes esta canção do Pink Floyd fez tanto sentido como hoje:

"You know that I care for what happens to you
And I know that you care for me too
So I don't feel alone
Or the weight of the stone
Now that I've found somehwere safe
To bury my bones
And any fool knows a dog needs a home
A shelter from pigs on the wing."

Sunday, November 01, 2009

Morri. Estou entrando no Céu.

É isso. Imaginei-me entrando no Céu ( o fato de o Purgatório não existir mais facilitou um bocado). Que música estaria tocando neste exato momento?

Só posso escolher uma, mesmo o Paraíso terá suas limitações.

Está tocando "Refugees", do Van der Graaf Generator. Versão single.

Ou está tocando a #10 do The End of the Affair, do Michael Nyman. Love doesn't end.
Não precisa ser a versão do CD. Pode ser a versão amadora de um teclado tocado quase à meia-noite. Amador = feito com amor? Love doesn't end.

Disse que só poderia escolher uma, escolhi duas. Assim engano o Paraíso.

Fritando Tomates Verdes







E serão estas as delícias e as loucuras de se dar aulas. Na SACC do CAp deste ano propus à minha turma do Segundo Ano fritar os ditos tomates, para ver, enfim, que gosto eles teriam. Lembrem-se de que a Idgie achou-os 'terrible'. Entendam que já assistíramos ao filme Fried Green Tomatos, do qual exploramos muitos aspectos. Faltava o culinário. Assim, na aula de encerramento do filme (estávamos em abril?), levei-lhes a receita e uma música do Cranberries, apresentada como "tema da Ninny": "Never Grow Old". Lancei as sementes. Meses depois, tive quatro alunos dispostos à empresa: fritar os tomates para servi-los depois da apresentação de alguns trechos do filme. Os trechos escolhidos ilustravam autoconhecimento, segregação racial e homoerotismo. Os meninos -- Fernanda, Cora, Carolinne e Igor (estes dois últimos já velhos conhecidos meus dos encontros de sexta-feira sobre Teatro do Absurdo -- mandaram muito bem. Falaram bem suas partes e participaram da tomatina com grande empolgação.
A Cora jogou praticamente a pimenta branca toda sobre os ovos.
A Fernanda disse que eu contava piadas de pai.
A Carolinne pegou o cabo da frigideira como quem agarra touro à unha e fritou tomates como se jamais tivesse feito outra coisa na vida.
O Igor não se segurava de satisfação: queria a toda hora sair para se mostrar de avental. É um bobo, assim como eu.
Aos quatro agradeço por me terem proporcionado um dos meus momentos capianos mais felizes.

Saturday, October 31, 2009

A Arte da Levitação

A ARTE DA LEVITAÇÃO
Como se fosses meu pai,
e não meu filho.
 
Alberto da Costa e Silva.
 
 
Dante, 
o dia me traz suas fadigas:
o desdém do aluno 
a arrogância do médico
a música estridente que me persegue no ônibus. 

Mas a ti retorno. 

Existe o quarto, existe 
o berço 
existe a noite que atravessamos juntos.
 
São nossos os viventes da madrugada:
as rodas a deslizar no asfalto molhado
o pássaro misterioso a chamar solitário 
o bêbado que passa mastigando a noite
querendo copular com Deus. 
Por fim o galo que bica insistente a casca da manhã.
 
Dante, perdoa-me 
os momentos de tristeza. 
Te peço
como se pai
e não filho 
fosses.

E assim é.

Continua a ensinar-me
tua didática de gestos frágeis 
e firmes. 
 
E eu que era pesado
que temia o tempo e suas urtigas
com um teu fio de cabelo
ato meu pé a esta cadeira
antes que pela noite saia levitando
como os apaixonados de Chagall.

Sunday, October 25, 2009

Vita Regum


Hoje Dante foi ao clube! Tomou banho de chuveiro, tomou banho de sol, ficou qual besourinho muito branco remexendo-se sobre a vasta cadeira. Depois veio Mr. Sandman e deixou seus olhinhos muito apertados, querendo fechar.
Que fiz?
Pus a passear com ele no carrinho, na sombrinha claro, à margem da piscina. Pra lá e pra cá e seus olhinhos querendo fechar.
Nisso passa um senhor muito distinto (embora sem chapéu) e comenta jocoso: "Ah, vida de rei..." Ao que eu devolvo: "A dele ou a minha?"
ps: a foto não é do clube! Mas calma, gente, ao menos estou atualizando o blog, tirando as teias de aranha....

Saturday, August 29, 2009

Dois Poemas para Dante e um Terceiro

I

Um certo jeito de mexer os lábios
um certo jeito de acender os olhos
certo jeito de tecer doçuras.
Olavo tinha razão
e Augusto também:
Inania verba, a idéia esbarra
no molambo da língua paralitica .
Ainda não inventaram palavras para
um certo jeito de recém-nascer.
E este poema se chama
Dante sorri.

II

Reza a definição:
recém-nascido é o bebê com até 28 dias de vida.
Mente o dicionário, erra a definição, tergiversam os homens.
Ao acordar nesta tarde
Dante é recém-nascido como
na primeira hora.

È neonato anche Dio.

III

Dominar o léxico, a semântica, a sintaxe, a fonética
não é suficiente
para saber a língua dos homens –
esta língua de acordos tácitos,
de anuências aprendidas sabe-se lá onde.

Desconhecer esta língua empurra-te
para a quina das mesas, para a margem dos acordos,
para o almoço mastigado a sós.
Mas de lá, da franja das tardes
percebes
aquele sorriso fugaz que mal chegou aos lábios, aquela
cigarra tardia (ou precoce?) ardendo confusa, aquele
violoncelo a murmurar no terceiro movimento do quarteto.
Tudo isso – sorriso, cigarra, murmúrio –
ignoto
dos que a falam.

Monday, August 17, 2009

Some Poems

Difícil trabalhar com poesia em sala de aula, mesmo na universidade e em curso de Letras. Magina, então, Ensino Médio. Mas, depois de um Varal de Poesias, creio ter conseguido um resultado pra lá de razoável com meu atual grupo de Video & Literature do CAp neste ano.

These are the poems I read with my students in class. They're supposed to come here, choose one and write a comment about it.
In case you're not a student of mine, feel free to leave your impressions as well.

THE DAY IS DONE
H.W. Longfellow

The day is done, and the darkness
Falls from the wings of Night,
As a feather is wafted downward
From an eagle in his flight.

I see the lights of the village
Gleam through the rain and the mist,
And a feeling of sadness comes o'er me
That my soul cannot resist:

A feeling of sadness and longing,
That is not akin to pain,
And resembles sorrow only
As the mist resembles the rain.

Come, read to me some poem,
Some simple and heartfelt lay,
That shall soothe this restless feeling,
And banish the thoughts of day.

Not from the grand old masters,
Not from the bards sublime,
Whose distant footsteps echo
Through the corridors of Time.

For, like strains of martial music,
Their mighty thoughts suggest
Life's endless toil and endeavor;
And to-night I long for rest.

Read from some humbler poet,
Whose songs gushed from his heart,
As showers from the clouds of summer,
Or tears from the eyelids start;

Who, through long days of labor,
And nights devoid of ease,
Still heard in his soul the music
Of wonderful melodies.

Such songs have power to quiet
The restless pulse of care,
And come like the benediction
That follows after prayer.

Then read from the treasured volume
The poem of thy choice,
And lend to the rhyme of the poet
The beauty of thy voice.

And the night shall be filled with music
And the cares, that infest the day,
Shall fold their tents, like the Arabs,
And as silently steal away.

ANNABEL LEE
Edgar Allan Poe

It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of ANNABEL LEE;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me.

I was a child and she was a child,
In this kingdom by the sea;
But we loved with a love that was more than love-
I and my Annabel Lee;
With a love that the winged seraphs of heaven
Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud, chilling
My beautiful Annabel Lee;
So that her highborn kinsman came
And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in heaven,
Went envying her and me-
Yes!- that was the reason (as all men know,
In this kingdom by the sea)
That the wind came out of the cloud by night,
Chilling and killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we-
Of many far wiser than we-
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee.

For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise but I feel the bright eyes
Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling- my darling- my life and my bride,
In the sepulchre there by the sea,
In her tomb by the sounding sea.


THE ROAD NOT TAKEN
Robert Frost

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.


THIS IS JUST TO SAY
William Carlos Williams

I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold

1st poem
e. e. cummings

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skillfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands

2nd poem
e. e. cummings

i like my body when it is with your
body. It is so quite a new thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body. i like what it does,
i like its hows. i like to feel the spine
of your body and its bones, and the trembling
-firm-smooth ness and which i will
again and again and again
kiss, i like kissing this and that of you,
i like,, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh....And eyes big love-crumbs,

and possibly i like the thrill

of under me you quite so new

HAPPINESS
Carl Sandburg

I asked professors who teach the meaning of life to tell what is happiness.
And I went to famous executives who boss the work of thousands of men
They all shook their heads and gave me a smile as though as I was trying to fool with them.
And then one Sunday afternoon I wandered out along the Desplaines river
And I saw a crowd of Hungarians under the trees with their women and children and a keg of [beer and an accordion.

THE APPLICANT
Sylvia Plath

First, are you our sort of a person?
Do you wear
A glass eye, false teeth or a crutch,
A brace or a hook,
Rubber breasts or a rubber crotch,

Stitches to show something's missing? No, no? Then
How can we give you a thing?
Stop crying.
Open your hand.
Empty? Empty. Here is a hand

To fill it and willing
To bring teacups and roll away headaches
And do whatever you tell it.
Will you marry it?
It is guaranteed

To thumb shut your eyes at the end
And dissolve of sorrow.
We make new stock from the salt.
I notice you are stark naked.
How about this suit----

Black and stiff, but not a bad fit.
Will you marry it?
It is waterproof, shatterproof, proof
Against fire and bombs through the roof.
Believe me, they'll bury you in it.

Now your head, excuse me, is empty.
I have the ticket for that.
Come here, sweetie, out of the closet.
Well, what do you think of that ?
Naked as paper to start

But in twenty-five years she'll be silver,
In fifty, gold.
A living doll, everywhere you look.
It can sew, it can cook,
It can talk, talk , talk.

It works, there is nothing wrong with it.
You have a hole, it's a poultice.
You have an eye, it's an image.
My boy, it's your last resort.
Will you marry it, marry it, marry it.

Monday, August 10, 2009

Quero viver mais duzentos anos


Feliz Dia dos Pães!




Danoca veio aqui no domingo. A isca foi a Bohemia Oaken. Disse-lhe que estava com vontade de abrir minha rara garrafa e queria compartihar com ela. Veio correndo na primeira folga. E fez nachos (à moda de Salisbury) e tacos para nós.
E a Ana Beatriz
Que estava com dor de barriga
Esqueceu-se da dor!
Para não ver o nacho passar!
Cantando coisas de amor!
E por que "dia dos pães"? Ora, porque pai que é mãe é pãe! Contei isso pra mãe e ela não achou graça, disse que eu estava me achando, no que tem toda razão. Graças ao Dante, eu estou me achando. E continuo procurando.

Monday, August 03, 2009

Vídeo Exclusivo sobre as Duas Posições acerca do Sono dos Bebês

O vídeo é autoexplicativo. Irei concorrer com ele no Festival do Minuto, na seção Besteirol hors-concours.

Cast:

Defensora da Posição Silenciosa - Lívia Maria

Defensora da Posição Franciscana - Francisca Maria

Câmera - Igor José

Ajudantes no shshshshshsh - Kátia Maria, Lourdes Maria, Igor José e Isolda Maria.

Argumento - Doravne Suli.

Patrocínio - Casa Lidador; José Sarney.

Friday, July 31, 2009

Árvore azul, cachorro amarelo, gato cinza


Foi Gauguin, o genial pintor Paul Gauguin, quem falou: "Se você vê uma árvore como azul, pinte-a azul". Apesar das aspas, estou citando de memória e não garanto se as palavras são exatamente estas, mas afianço que muito próximo a essas são. No Tahiti viu este cachorro vermelho e vermelho pintou-o (Arearea, 1892). Ele foi incompreendido pelos idiotas que achavam (acham ainda) que a pintura deve espelhar a realidade. E mesmo se assim fosse, e assim é, qual realidade, cara pálida, a sua apenas? Cansou de tudo e se mandou pro Tahiti, onde encontrou belas morenas, dizem que mais belas que as do Tororó, e por lá ficou, bebendo águas e pintando morenas e cachorros vermelhos.
Por que isso tudo? Porque descobrimos, enfim, eureka!, o porquê de o Dantuca não dar a mínima para a Isolda (lembram o final da entrevista?). É que Isolducha é cinza. Ela é, na verdade, cor de tartaruga esfumaçada (a cor, não a tartaruga), mas admitamos que prevalece o cinza. O mais belo cinza, quente e sedoso, que já vi. Mas para o Dante não adianta, é de pouco apelo. Ele também é de pouco apelo para ela já que nunca lhe deu comida, mas, voltando ao gato... que fazer? Já a vejo amarela. Pinto-a amarela? A vontade é grande, vou comprar as tintas. Salvam-na os que encontrarem roupinha amarela berrante para ela em algum petshop (esta é para você, leitora querida Maria). Caso contrário, Zuca amarela será.

Tuesday, July 28, 2009

7 meses, 70 centímetros

Completando 7 meses, Dante resolveu medir 70 centímetros. Negócio com ele é assim: precisão.
Mas, e quando ele tiver 8 meses? Terá 80 centímetros? E 90 cm aos 9 meses? Um metro, creio, com 10 meses? E metro e 20 com 1 aninho?
Não riam, a situação é preocupante: aos 2 anos Dante poderá estar medindo 2 metros e 40 centímetros, pouco mais alto que o pivô da seleção de basquete da Geórgia.
Preocupado, fui pesquisar camas (não se pode falar em berços) nas Casas Bahia, mas eles só têm tamanho até 2 metros.

A culpa será, porventura, do chá de bambu que andamos ministrando em doses cavalares. O chá de bambu (漢字/汉字) é ancestral receita chinesa da província de Huhan ( 許慎/许慎). O tratamento bambuesco já foi interrrompido (周禮/周礼).

Friday, July 24, 2009

Pra quem não sabia o que era tototó


Se alguém leu a entrevista e ficou na dúvida sobre o que era tototó....


MEDICINA $.A.



Estou terminado o romance Perturbação, de Thomas Bernhard, obra dura (e maravilhosa) que faz jus ao título. Na página 179, encontro este trecho que se coaduna com o que eu desejava escrever. São palavras do príncipe Saurau: “E ainda hoje creio que os médicos são sempre os homens mais afastados da natureza humana, os que menos conhecem a natureza humana.”

A medicina é uma “ciência” falida, uma prática mercantilista, um espaço em que a incomunicabilidade entre os seres humanos e a indiferença, quando não desprezo, pelo Outro se fazem notar de maneira clara. Óbvio que há exceções, a provar a regra.

Dante teve já o dissabor de conhecer alguns desses desprezíveis profissionais, legião é seu nome, ainda que tenha também contato com os de outra estirpe. Segue um breve resumo de alguns desses médicos.

DRA. RAIZ
A doutora Raiz é uma boa pediatra. Boa para gripes e resfriados. Quando a coisa aperta, Dra. Raiz repete que é tudo “ansiedade materna”. Brilhante, não? Quando Dante teve em seu consultório uma série de espasmos, Dra. Raiz ficou repetindo que isso era ansiedade materna, ou seja, meu filho tem espasmos porque a mãe está ansiosa! Talvez pudesse ser tragicômico, mas é apenas trágico. Quando solicito que ela examine os olhinhos do Dante (durante a crise), ela sequer se levanta! Pede que a Bia o leve no colo para ela! Ah, Dra. Raiz, se isso não foi negligência e arrogância, já não sei o que serão arrogância e negligência...

DRA. ILCEBERG
Doutora Ilceberg é neuropediatra. Neu-ro-pe-di-a-tra. Se toda especialidade médica é importante (ou deveria ser), o que não dizer desta? Dra. Ilceberg, seu nome já diz tudo, ou quase. Esta é capaz de revelar os prognósticos mais terríveis do seu filho como se estivesse relatando as compras que fez no shopping: “Comprei um casaco azul, depois umas botas, porque agora o tempo está esfriando, né?” Dra. Ilceberg talvez precise ser lembrada que do outro lado de sua mesa existem pessoas que amam o seu filho e que poderiam receber tais “notícias” de uma maneira mais suave, amiga, amorosa. Não me venham com “realismo”. É falta de humanidade mesmo.

DR. COME-QUIETO
O Dr. Come-Quieto é esperto, foi direto para o filão rico da medicina: os exames de laboratório, é dono de um deles. É direito dele, bem sei, eu também gostaria de ser rico, mas esse aí só com faturamento está interessado. E aí, faturando os tubos, Dr. Come-Quieto se esquece, ou finge esquecer, que também é médico e age como técnico de laboratório. Dr. Come-Quieto é tecnicista. E assim, de vozinha melíflua e babosa, entrega-lhe os resultados dos exames como se entregasse um folheto na rua COMPRO OURO, mesmo sabendo o resultado do exame, mesmo sabendo das imensas esperanças (baldadas!) depositadas naquele exame. Eu disse “entrega”? Não, Come-Quieto não entrega nada, manda as recepcionistas entregarem, muito ocupado que está com os outros exames a serem feitos. COMPRO OURO E CAUTELAS. Se, porém, sua presença é solicitada, ele vem aporrinhado, e fica repetindo, como se fôramos idiotas, que seu papel ali não é o de prescrever tratamento blablablá. Outro exemplo claro de indiferença ao sofrimento dos seus pacientes.

Que a terra lhes seja leve. Com o Corcovado por cima e o Pão-de-Açúcar de quebra.



A Entrevista Exclusiva

Pensando naqueles que não conhecem a linguagem dos bebês ou que já dela se esqueceu (embora essa linguagem seja um idioleto, ou seja, ter conhecido a de um bebê não significa que você vá entender a de outro), traduzo aqui, com exclusividade, a entrevista exclusiva do meu neném exclusivo.

Vou logo avisando que, yes!, fiz aquela pergunta fatídica e odiosa -- "Você gosta mais do papai ou da mamãe?".

Trechos:

E: Dantuca, meu besourinho do céu, agora que você completou sete meses, diga: O que você mais gosta de fazer?

D: Papai, meu papaizinho peludinho, o que mais gosto é de ficar, tão logo acordo, na cama grande de vocês dois. Mas ficar de barriga pra cima! Quando começam com essa história de vira pra cá vira pra lá vira desvira, vocês cansam!

E: Tá bom, Dantinho, obrigado pela sinceridade, agora diga: O que você não gosta de fazer?

D: Ah, ainda bem que você perguntou isso: detesto quando vocês ficam tentando me fazer dormir e eu não quero dormir. Responda: alguém força você a dormir, papai?

E: Er, Dante, quem faz as perguntas aqui hoje sou eu... Diga: Você gosta muito de passear?

D: De táxi, adoro! De carrinho gosto também, embora essas calçadas esburacadas e cocozadas me estressem um pouco.

E: Qual sua comida preferida?

D: Tototó!

E: E sua bebida?

D: Aquele leite que saía do peito da mamãe eu tô enjoando um pouco.... Gosto de leite de mamadeira e de suquinho de laranja. Não sou muito fã de água, ô coisa sem graça.

E: E sua música?

D: Ih, papai, que difícil. Acho que é a do tataré, a da casinha torta, das mãozinhas que conversam, mas de preferência na voz da mamãe, que é mais afinada. Falando em mamãe, conta pra ela que já enjoei daquelas do Pink Floyd for Babies.... De CD, adoro Tudor Lodge, a trilha-sonora do Benjamin Button (triste!) e Andrew Bird, porque ele assobia!

E: Você gosta de receber visitas?

D: Adoro, de preferência depois das 3.

E: E da Isolda você gosta?

D: Isolda?

Thursday, July 23, 2009

Sete é conta de mentiroso!

Para comemorar os sete meses do Dante e mentirosos que somos, gravamos uma entrevista exclusiva, Dantuca e eu, cheia de lorotas, histórias e tutaméias e invencionices.

Em breve alguns trechos.