Por volta da virada da década de 1990 escrevi um poeminha sobre sapatos e mandei-o pelo correio a meu amigo Luiz Marcelo. Eram tempos pré-Internet, bien sûr. O poema era:
O murro no muro dói
O grito solto assusta
Resta-me agora comer os sapatos lentamente.
Acho que era só isso e acho mesmo incrível que até hoje eu me lembre. Ajuda o fato de ele não ser muito longo, claro, e, tendo apenas três versos, não cometi ou cometo a tolice de chamá-lo de haikai.
Não o acho tão ruim assim, há aliterações nos versos iniciais (cômico falar em "versos iniciais" em poema tão lilipute) e o desfecho, após proposital pular de linhas, meio que inesperado: não é muito comum sair por aí comendo sapatos. Mesmo assim não o incluí em Taipa, que sairia em 94, e nem o incluiria hoje.
Não é um poema sobre sapatos, lógico, mas sim sobre angúsita. Pós-adolescente.
Mas se é para falar de sapatos em poemas, nossa literatura está muito bem servida, com belos sonetos de dois Carlos: o Nejar e o Pena Filho. Seguem:
SONETO AOS SAPATOS QUIETOS
Os pés dos sapatos juntos.
Hei-de calçá-los, soltos
e imensos, e talvez rotos,
como dois velhos marujos.
Nunca terão o desgosto
que tive. Jamais o sujo
desconsolo: estando postos,
como eu, em chãos defuntos.
Em vãos de flor, sem o riacho
de um pé a outro, entre guizos.
Não há demência ou fome.
Sapatos nos pés não comem.
Só dormem. Porém, descalço
pela alma, é o paraíso.
(Nejar)
POEMAS E SAPATOS
Nada tenho de meu, nem os sapatos
que vão acompanhar este defunto.
Nem tampouco montanhas e regatos
que habitaram o verso, nem o indulto
pode valer-me, o soldo, mero extrato
de contas. Nada tenho, nem o intuito
consome esta vontade ou desacato.
Desapareça o nome, seu reduto
de carne e bronze, a fome incorporada
e mais desapareça onde fecundos
são dias e são deuses nesta amada.
Não foram nunca meus — sonhos e fatos.
Nada tenho. Poemas e sapatos
irão reconhecer-me noutro mundo.
(Nejar)
SONETO DO DESMANTELO AZUL
Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
(Pena Filho)
Deste último, o poeta do azul, post em breve.
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