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Sabem aquela história, né? Na falta de roupa nova, passei o ferro na velha. Pois. Segue este texto antiguinho, de quando eu buscava peanhas para o meu Shiva.
COMPRAR PEANHA
Não consigo imaginar um deus que não saiba dançar.
Nietzsche
Viver é duro, navegar sempre será preciso, tamindige mondage (nambiquara: fazer amor é bom), mas comprar peanha, comprar peanha não fica muito atrás, não. Primeiro, julgaram-me fanho. Um fanho querendo uma peanha. Se eu tivesse ganho uma peanha, não precisava ter ido atrás de uma, mas imagina: Fanho ganha peanha, em que palatais líquidas umedecem o papel.
Outros pensaram ser piranha o que eu queria. Piranha? – indagavam levemente temerosos da palavra e seus dentes. Não, eu repetia: peanha. Apenas uma senhora, de uma das duas únicas garage sales de nossa cidade, atendeu às minhas súplicas.
– Tenho três – disse naquele tom inequívoco de quem entende do riscado e de peanhas.
Não gostei de nenhuma das três e de lá saí de mãos vazias. Dirão que sou muito exigente quando o assunto é peanha, mas convenhamos que uma peanha não se compra assim a primeira que aparece. Amanhã recomeço. Hoje é voltar para casa, encarar Shiva e confessar-lhe meu fracasso. Esta noite sua dança ainda queimará o universo em minha estante.