Saturday, March 27, 2021

Giro em Quintino


Respeitando os protocolos, outro dia dei um pulinho a Quintino, para ver se o mítico Bar do Souto, o Mosteiro Rila dos Botequins Cariocas (aqui), ainda existia. Eu precisava fazer isso. E o fiz com o coração muito apertado, já que só estive lá única vez, em março de 2014, ou seja, exatos sete anos. E tanto acontece em sete anos, Jacó que eu diga. O carro se aproximava, pois, e minhas mãos suadas, o medo de chegar ao endereço e não dar com Raquel, serrana bela, mas com moça de olhos remelentos, isto é, não encontrar o botequim de esplêndidas pinturas mas uma pastelaria. Ou uma loja de material de construção (o que se deu agora com o Café Bar Brasília) ou apenas um boteco anódino, de paredes muito brancas.

Bem, nem Raquel nem Lia. O botequim estava fechado, mas consegui informações preciosas com a nora do ex-dono. Este ex-dono teve infarte, mas passa bem. O botequim, agora a cargo do seu filho, abre esporadicamente. 

Mas, segundo ela, as pinturas estão todas lá. 

E estava eu em Quintino, aproveitei para pequeno giro. 

 








 













Monday, March 22, 2021

Livraria São José

A Livraria São José devia seu nome à sua localização: Rua São José, por sua vez assim chamada por causa da igrejona barroca da 1o de Março. Mas, devido à crise, havia se mudado. Para mim sempre foi um sebo e agora fechou de vez. Foi ali que comecei a minha roseana, comprando em abril de 1988, poucos dias antes de a Camila nascer, uma edição de Sagarana pela José Olympio. Ali voltei diversas vezes para comprar diversos livros de crítica sobre o Rosa e sua maravilhosa correspondência com Edoardo Bizzarri, seu tradutor italiano. Tudo usado. Como acontece com as fotografias, me arrependo, e muito, dos que não comprei, como a edição norte-americana do Grande Sertão.

Agora fechou de vez.

Não estou me dando muita importância não, mas já não sei que faço numa cidade que tem cada vez mais bancos, drogarias e igrejas neopentecostais, e menos livrarias e botequins antigos.

Este o poema que Drummond escreveu para o proprietário da São José. Saiu na segunda edição da Viola de Bolso.


A CARLOS RIBEIRO

Que desejo ao grande livreiro
meu amigo Carlos Ribeiro?
 
Que entre livros e amigos viva
uma existência sempre ativa;
 
e sua vida seja como
um delicado e nobre tomo
 
(quem ama assim o seu ofício
insculpe o melhor frontispício);
 
e não haja o menor desgosto
manchando a página de rosto;
 
e que tenha como prefácio
um verso de Pope ou de Horácio;
 
que no fim de cada capítulo
sorria sempre um novo título
 
(não protestado!) de esperança
em tudo o que o trabalho alcança;
 
da primeira à segunda parte,
tudo obedeça às regras da arte;
 
e que este livro continue
como a obra completa do Ruy,
 
por muitos e ditosos anos,
queira assim Deus em seus arcanos.
 
Que portanto o grande livreiro
meu amigo Carlos Ribeiro
 
na São José viva tranquilo
entre uma princeps do Camilo
 
e tratados de Auguste Comte,
enquanto fulge no horizonte
 
aquela estrela benfazeja
dos buquinistas. Assim seja. 

Thursday, March 18, 2021

Dante, aulas remotas, nós

Quando começou essa história de aulas remotas, pensei logo 'Não vou conseguir'. Entravam aí, claro, insegurança e contumaz desacerto com internet. Entrava aí minha preocupação com o Dante, eu tendo que estar com ele, ele atrás de mim, eu me lembrava do Robert Kelly dando entrevista para a BBC: entra a filha dançando, entra o bebê no andador, entra a mãe desesperada atrás, puxando filha filho andador e porta. Foi engraçado mas preferi ver a resposta a isso: se fosse mulher, ela iria sentar a criança no colo, dar de mamar se necessário e continuar a entrevista.

Nela me inspirei quando anuí: partiu, mas vai ser como der, como for possível, tenho filho autista em casa e, como já se disse, tão acertadamente, "não são os filhos que invadem o trabalho, foi o trabalho que invadiu a vida de filhos e família".

Quando o filho é autista, a parada complica, quem disser que é a mesma coisa leva sopapo. Virtual.

Dei um curso sobre Pink Floyd que ia das 7 às 7:50. Estive à frente de uma roda de conversa chamada "(Precisamos falar sobre) Autismo na Quarentena", que ia das 7:50 às 8:40. Éramos só nós dois. E tantas outras aulas e orientações. Minha tranquilidade é ouvir o ranger da rede, ao menos sei onde ele está e que está bem. Os alunos também ouvem o ranger e sabem onde está o Dante.

Num dia de roda de conversa, ele estava muito quieto, o que não é bom sinal. Quando terminei, vi que ele arrastara a poltrona para o meio da sala e nela se refestelara com seu tablet. Suspirei. Tá, Dante, você quer mais chocolate? 

Num dia de Pink Floyd, analisávamos e ouvíamos o The Wall enquanto da sala vinham barulhos preocupantes e depois um silêncio ensurdecedor. Terminada a aula, corri para lá apenas para encontrá-lo pelado na rede, as quatro cadeiras da mesa da sala na varanda. Assim que me viu, falou em sua língua tonal, como se me visse pela primeira vez: Papaaaaaiii!

Mas foi depois do último encontro das conversas sobre autismo que ele executou sua magnum opus. O padrão se repetiu: primeiros barulhos suspeitosos, depois o silêncio desejado por Hamlet. Quando cheguei na sala, a poltrona estava no centro, o sofá bloqueava a porta da frente e as quatro cadeiras, grandes, empilhadas na cozinha.

Dante estava sentado sobre a quarta cadeira, devidamente entronado, Sua Majestade, como na música do Trio Nagô. Estava quieto e feliz. Sorria. Quando instintivamente levei minha mão à cabeça, ele viu minha testa e, como sempre, pediu para beijá-la a seu modo:

 Bibiiiiii!

Ao que respondi:

Eu também te amo, meu filho.

 

Hoje nos acostumamos um pouco. Ele às vezes vem e se senta no meu colo, gosta de olhar os rostos na tela do computador, mas por pouco tempo. Outras vezes pede beijos,  shantalas, balões. E pede sempre que eu deixe a porta aberta, no que o respeito totalmente. 

 

PS: Publiquei este texto no final do ano passado, mas o reescrevi, aumentando-o. E a postagem mais bonita com a almofada linda que a Graça nos deu hoje

Monday, March 15, 2021

Como ela deve ter sido linda quando jovem!

                                                              Dona Tatá, Milho Verde

HÁ UM TRECHO muito bonito nas memórias de Nikos Kazantzakis quando ele lembra estar numa aldeia na Calábria sob forte chuva e sem quem o acolhesse. Lembra-se de seu avô cretense, que iria acolher qualquer desconhecido em situação semelhante e conclui que nas aldeias calabresas não havia avôs assim. Bem.

Bem, uma senhora o acolhe, com um lar, um fogo para secar suas roupas, um feijão delicioso, um banco para seu sono e, na manhã seguinte, leite quente. Não trocam palavras, exceto quando ele pega a carteira e ela recusa, agradecendo, "Desde que meu marido morreu, nunca dormi tão bem"

Acho tudo isso bonito, mas me chamou a atenção o trecho em que ele a examina, já de manhã, e conclui "Como ela deve ter sido linda quando jovem!", maldizendo o destino humano e sua inevitável deterioração.

Me lembrei foi de Carrière, Jean-Claude Carrière, roteirista de Buñuel e que escreveu um dos livros mais bonitos sobre a Índia: Índia : Um Olhar Amoroso. No verbete 'Mulheres' :

Uma forma de expressão nunca deixa de surpreender : os indianos, homens e mulheres, falam naturalmente da beleza das mulheres idosas. Podemos dizer que uma jovem é bonita, atraente, pretty, nice-looking. Raramente dizemos que ela é bela. A beleza só chega com a idade, com o cumprimento de uma vida. A beleza é uma qualidade que é merecida e adquirida. Não cai do céu nem é fundamentalmente perecível, como entre nós. 

Isso torna menos difícil a tarefa de envelhecer?

Em 1982 Jean-Claude Carrière e Peter Brook foram convidados a conhecer, em um centro de danças de Madras, a conhecida dançarina e coreógrafa Rukmini Devi. Enquanto a esperavam, Carrière perguntou a alguém como ela era. A resposta foi:

-- She's very beautiful.

Ela tinha então 81 anos.

Quando Rukmini Devi enfim apareceu, Jean quedou-se impressionado com sua beleza:

Vestida com uma roupa de algodão claro, com os longos cabelos brancos até a cintura, os olhos negros, ela não fazia nada para esconder sua idade. Não usava nenhuma maquiagem e ao andar se apoiava em uma bengala. Mas era como uma luz penetrando no lugar onde estávamos.
 
*********
A visão que faltou ao Kazantzakis.
 
Quanto ao Carrière, morreu há pouco mais de um mês. Com certeza passeia pela eternidade ao lado de Ganesha, o que era seu sonho.

Sunday, March 14, 2021

Um Soneto de Pete Townshend

Estou chegando à metade do primeiro romance de Pete Townshend, lançado em 2019, The Age of Anxiety, depois de Auden e Bernstein, of course. E olha que a pandemia não começara. Profético.

Estou chegando à metade e encontro um... soneto! Bem, escrito por Pete? Claro que sim, mas, na "economia do romance", como gostava de dizer um professor, escrito por Siobhan (em irlandês esse 'bh' se pronuncia /v/), então mulher do seu afilhado querido, Walter. 

Este afilhado tinha uma banda de rock que tocava num único pub. Faziam relativo sucesso, tanto que Walter recebeu proposta de vender seu catálogo e ter uma música usada num comercial de carro. Ele ficaria rico. E ficou. Sua mulher, porém, sempre desdenhou a banda e todo seu trabalho, achando que ele deveria usar seu talento para escrever poemas e não canções para vender carros. Ah, e poemas para ela.

Na noite do seu último show, que é quando ele recebe a proposta, ela sai de cena e vai para uma casa no campo, onde escreve o soneto. A estratégia era chamar sua atenção -- ela jogou alto e fracassou. Na mesma noite, ele se apaixona por uma amiga em comum, Floss, e abandona a carreira musical e a mulher.

Mas ela escreveu o soneto na esperança.

 

I hoped for Shelley, Byron in your pen
    I longed for you to rise to meet your star
    The songs you wrote moved drinks across the bar
Why would you waste fine words on drunken men?
And wasting once, go on to to waste again?
    No sonnet to Siobhan, how could you mar
    Our love with elegies to some fast car?
For money? What can those in love dare spend?
You've sold your talent; then your soul is sold.
    You've championed commerce -- why? So you'll be 'free`?
    I love you, and I'll always tightly hold
The hope that one day you might dream with me
    To Waterford! I'm gone! I'll take my heart.
I can't stand by and watch you lose your art.  
 
 

O narrador afirma que ela usou o esquema de rimas do soneto italiano, um erro, já que ele é formado por três quartetos e um dístico, para além de ser monostrófico. Informa também que ela pretendia lançar livro de sonetos (!), já que "they were becoming popular again".

Ah, a minha edição é autografada pelo Pete! Quem sabe não consigo também um autógrafo da Siobhan? =)



Tuesday, January 26, 2021

MINHA NAMORADA CADUVEO I


Camila conseguiu, em meio a esses dias de reclusão e ela sempre consciente a isso, dar um pulo em Bodoquena,de onde foi ter com os caduveo.

Os caduveo são uma das etnias estudadas por Lévi-Strauss para o Tristes Trópicos, pedra angular do estruturalismo e da antropologia.

Sempre foram meus capítulos preferidos, junto aos dos nambiquaras, afinal, estes tinham por lema "Fazer amor é bom" que jurei ter por divisa da minha casa. Depois esqueci, agora lembrei.

Voltando ao livro, reencontro passagens que marquei, em leitura de 1997, somadas às marcações de meu pai no ano anterior. Releio tudo e faço novas marcações. Sobre o idioma (linda passagem, me lembrei do Paulo Rónai em seu primeiro contato com o português), sobre as "solenes bebedeiras", sobre as pinturas. 

As pinturas, literalmente capítulo à parte, o vigésimo "Uma Sociedade Indígena e seu Estilo". Lévi-Strauss reuniu quatrocentos desenhos em 1935. Não encontrou dois semelhantes.

Thursday, January 21, 2021

MEU TIO O IAUARETÊ ::: ACENDI A CASA INTEIRA

 

Reli ontem "Meu Tio o Iauaretê", do Guimarães Rosa, publicado postumamente em Estas Estórias dois anos seguintes à sua morte.

Terminada a leitura, a minha sensação de pavor, assombramento, excitação foi tamanha que, estando sozinho, acendi todas as luzes da casa. Não sei bem o porquê, mas não será difícil adivinhá-lo.

Há pouco mais de trinta anos assisti à peça, muito bem falada na época, em Copacabana, creio que no Gláucio Gil. Até hoje ouço aquele tiro, seco, no final. Até hoje lembro do narrador falando da cachaça 'Gosto, gosto muito'.

Enjoado que tornaram Rosa um frasista. 'O sertão é dentro da gente', 'Viver é muito perigoso' e tantas outras. Quase autoajuda. Rosa pode ser muito muito terno e doce, como ninguém. Escrevi aqui. Mas não enxergar a violência brutal aqui é, como me disse minha amiga Cristiane Brasileiro, tentativa de domesticá-lo. E ela fala também na Cecília Meireles, na violência do Romanceiro da Inconfidência, que ninguém vê.

Fiquei e ainda estou chocado, perturbado, como talvez só ficara com A Cidade e os Cachorros, do Llosa, quando, terminado a leitura, fiquei meia hora de olhos esbugalhados para a parede. Ontem acendi as luzes

A violência. Maria Quirinéia tem marido doente mental, e o acorrenta para receber amantes. Outro é degolado e seu sangue é bebido, be-bi-do, o próprio narrador, filho de branco com índia, absurdamente às margens de tudo, por todos desprezado, um 'serial killer' (lembram da Flausina de "Esses Lopes"?) de onças e homens. Uma de suas rememorações, em que ele extermina uma família, inclusive a dentadas, lembra o filme australiano The Chant of Jimmie Blacksmith. Mas, ah, o sertão está em toda parte

Milton Nascimento tem música "Yauaretê", em disco de 87. Parece que Tom Jobim o chamava assim, mas a canção é, sim, sobre o conto do Guimarães, basta ler a letra. Não gosto de falar assim, mas Milton não entendeu nada! Ele quer dançar com a lua no céu, dance, mas do conto não entendeu p.n.

E é essa ideia domesticada do Rosa que vive por aí

Monday, December 28, 2020

Soneto de Cabo Roto para o Demo

Numa das minhas caminhadas matinais, encontrei enfiado num tronco de figueira pedaço de papel que, para minha surpresa, continha soneto, assinado por um certo Fuas Roupinho. Para minha enorme estupefação, era soneto de cabo roto, na melhor tradição cervantina.

O leitor logo perceberá que verso de cabo roto é aquele em que se omite a sílaba depois da tônica, não podendo, portanto, para que se dê o efeito de estranhamento da omissão, ser verso agudo.

Aliás, tão estranhado fiquei, que tive dúvidas acerca do tema exato de tão belo soneto e a quem ele estaria aludindo (ainda que no último verso ele confesse ser para o demo).

Segue:


Grande besta, inimigo da vaci~
Empenhado em tirar o país dos tri~
Estoca ozônio, armas e cloroqui~
Contra a PF blinda os seus fi~
 
Aos 33 foi logo aposenta~
o ex-capitão que nem pra isso ser~
Fez muito dindim como deputa~
Por nadas feitos com empenho e ver~
 
Juízo de camarão, boca de esgo~
Quando o ouço falar, logo vomi~
Mas lobotomizados mugem "Mi~" 

Aqui se finda este troço esquisi~
Com flato com desprezo e com arro~
Dedica-se ao demo este cabo ro~


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Como são estes, contudo, tempos de perseguição, não quer Fuas Roupinho complicações para si, de modo que enfiou na árvore seguinte, desta feita uma fedorenta chichá, o mesmo soneto sem as esquisitas omissões. E agora, creio, poderá mesmo figurar em antologias com o selo de qualidade do Escola Sem Partido.


Grande besta, inimigo da vacilação
Empenhado em tirar o país dos tristes
Estoca ozônio, armas e cloroquita
Contra a PF blinda os seus fidalgos
 
Aos 33 foi logo aposentando
o ex-capitão que nem pra isso serpenteia
Fez muito dindim como deputante
Por nadas feitos com empenho e versos
 
Juízo de camarão, boca de esgotado
Quando o ouço falar, logo vou-me
Mas lobotomizados mugem "Minas!" 

Aqui se finda este troço esquisitice
Com flato com desprezo e com arroz
Dedica-se ao demo este cabo romântico
 
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PS: A precaução de Fuas não apenas procede como segue os célebres versos de cabo roto no prefácio de Dom Quixote:

Advierte que es desati-
siendo de vidrio el teja-,
tomar piedras en la ma-
para tirar al veci-.

 

Wednesday, December 23, 2020

Dante, aulas remotas, eu

Quando começou essa história de aulas remotas, pensei logo 'Não vou conseguir'. Entravam aí, claro, insegurança e contumaz desacerto com internet. Entrava aí minha preocupação com o Dante, eu tendo que estar com ele, ele atrás de mim, eu me lembrava do Robert Kelly dando entrevista para a BBC: entra a filha dançando, entra o bebê no andador, entra a mãe desesperada atrás, puxando filha filho andador e porta. Foi engraçado mas preferi ver a resposta a isso: se fosse mulher, ela iria sentar a criança no colo, dar de mamar se necessário e continuar a entrevista.

Nela me inspirei quando anuí: partiu, mas vai ser como der, como for possível, tenho filho autista em casa e, como disse Thiago Queiroz, tão acertadamente, "não são os filhos que invadem o trabalho, foi o trabalho que invadiu a vida de filhos e família".

Quando o filho é autista, a parada complica, quem disser que é a mesma coisa leva sopapo. Virtual.

Dei um curso sobre Pink Floyd para os alunos do 1o ano que ia das 7 ás 7:50. Estive à frente de uma roda de conversa chamada "(Precisamos falar sobre) Autismo na Quarentena", que ia das 7:50 às 8:40. Éramos só nós dois. E tantas outras aulas e orientações. Minha tranquilidade é ouvir o ranger da rede, ao menos sei onde ele está e que está bem. Os alunos também ouvem o ranger e sabem onde está o Dante. Num dia de roda de conversa, ele estava muito quieto, o que não é bom sinal. Quando terminei, vi que ele arrastara a poltrona para o meio da sala, bloqueara a porta da frente com o sofá e levara as quatro cadeiras, grandes, para a cozinha. Estava quieto e feliz. Sorria. Suspirei. Tá, Dante, você quer mais chocolate? 

Hoje nos acostumamos um pouco. Ele às vezes vem e se senta no meu colo. Outras vezes pede beijos e shantalas. E pede sempre que eu não feche a porta, no que o respeito totalmente.

Monday, December 21, 2020

Multiple Twelve

Quando contei para os meus 'pais americanos' que Dante em breve faria 12 anos e que eu fizera para ele poema apenas com rimas em 'oze', eles prontamente me responderam assim

 

Ellen:

May Dante stay on his toes
Wherever he goes
And strike a brave pose
Against any foes
Presents with bows
And even a rose
Can brighten his lows
And dispell any woes

 

Dave:

Ellen and I wish him a life with very few woes, wherever he goes, and not many lows, and presents with bows.

And when he throws, may he hit 'em on the nose.
 
Tenho é muito orgulho do Dave e da Ellen, com quem morei em Chicago em 1986-1987. Hoje eles moram em Wisconsin, numa casa ao lado do lago, em Eagle River, ainda mais ao norte de Chicago. Disseram-me que se trump fosse reeleito, subiriam mais um pouco e iriam morar no Canadá.
 
Tenho muito orgulho. Felizmente podem continuar onde estão, na casa linda ao lado do lago onde à noite se escuta o canto de um pato de olhos muito vermelhos que só há por lá, o loon. 

"Multiple Twelve", Wim Mertens ::


Saturday, December 19, 2020

12



 

12
 
É teimoso gaiato cheio de pose 
Quando zangado já não há quem ouse
confrontá-lo, pois às vezes é dose
pra leão pra bisão se fica azedo
(e isso às vezes começa bem bem cedo)
but I love him dearly I'm one of those
who can but love even if I can't doze
off in my siesta : somos sempre dois e
o mundo o vasto mundo pouco doce
nem sempre entende. No poema pouse
amor sem fim plural metamorfose
Que o menino mais lindo chega aos doze 


Da série "Se explicar estraga?" ::

Para os 12 anos do Dante, poema de 12 versos, todos eles rimando com "doze", precisando recorrer ao inglês e a inversões silábicas: doze > zedo

O correto seria, creio, que os versos fossem alexandrinos, é o que se dá por aí, mas isso não sei fazer


Friday, December 18, 2020

 


 



 

 Em postagem de 2015 expliquei já:

No final de dezembro de 2012 a situação era a seguinte : no dia 17 (uma segunda-feira) era aniversário da minha mãe. No dia 19 era aniversário do Dante (4 anos!). No dia 20 eu lançaria não um, mas dois livros de poesia, o Caderno de Sonetos e o Voo sem Pássaro! E o dia 21 era sexta-feira. E depois vinha o Natal, essas coisas.

Releiam, por favor. Perceberam que eu tinha coisas pra fazer durante toda a semana, exceto na terça-feira, dia 18? Isso me encheu de pânico de tal modo que.

Bom, pensei, e se, e se eu pedisse aquela menina bonita em namoro? Aquela baiana que mora em São Paulo e que está em Londres e com quem converso (internet e telefone) religiosamente todos os dias há pouco mais de três meses?

Não tínhamos nos visto ainda pessoalmente, mas pedi. Ela aceitou.


Cinco anos se passaram, nem senti. E este ano, 8, 8 na horizontal

Neste dia 18 completamos 8 anos juntos, neste dia 18 Macca lança seu 18o álbum

felizes aqui

travessia



Saturday, November 28, 2020

Amor às cigarras: de pai pra filho, de pai pra filho

Com sua pedagogia muito própria (aqui), meu pai me ensinou amor às cigarras, por que sou grato, que é dos grandes que carrego. E feliz agora por conseguir transmiti-lo ao Dante, a comprovação veio hoje. Naquela hora preferida delas, uma gritou, agarrada ao flamboyant, sua cabeça de noiva, as asas como véu, translúcidas. Dante estava de pé no corredor e apontou para o ouvido, sem incômodo. Perguntei O que é, Dante? Ele sorriu e apertou o nariz, seu jeito de dizer sol (e piscina)

 A cigarra atrelas as patas é no nosso coração.

E com Adélia, de novo

Thursday, November 19, 2020

Gruta de Capri

 Estrategicamente situada na Miguel de Frias, quase dando para dizer que Praia de Icaraí, a Gruta de Capri foi por muitos anos o principal vértice do triângulo etílico-gastronômico de que também faziam parte o Chalé (bom para empadas e chope em pé) e o Ponto Jovem (bom para sanduíches). A Gruta era boa para as massas e para a pizza, que os habituês pediam com o molho da casa.

Muitos já assistiram a filmes e a shows e concertos na UFF -- confessai! -- mais pensando na pizza que viria depois. Muitos mesmo às vezes só iam ao Maracanã para poder, na volta, descer ali de 703 e pedir a napolitana. Com o molho da casa.

Havia dois ambientes e se o salão ao lado era mais reservado e tinha o garçom mais simpático, o principal nos brindava com o soberbo painel azulejar do Angelo Toledano, sobre o qual já escrevi aqui. Para que televisão se podíamos repousar ali nossas retinas tão fatigadas? O imenso painel era como as pinturas de Nilton Bravo nos botequins: em meio a uma e outra garfada, um e outro gole, o devaneio por entre ipês e castelos e, aqui, pela atmosfera onírica de estalactites e estalagmites. Para que televisão?

A Gruta fechou. Não é pequeno o risco de o imóvel ser vendido ou alugado para mais uma drogaria que irá tapá-lo com as estantes de Rivotril ou simplesmente cobri-lo com mãos de tinta. Seu tombamento, portanto, é tão urgente quanto imperioso.


Tuesday, November 10, 2020

'Mu', Riccardo Cocciante

 

Não, juro que não é provocação ao gado bolsonarista, já que não uso o blog para isto e deixo postagens políticas para o face e o insta. Chama-se Mu o trabalho de Riccardo Cocciante lançado em 1972, revelador, se ainda fosse necessário prová-lo, dos ventos progressivos que sopravam no Bel Paese na primeira metade dos anos 70. Isto é, o cantautore nascido no Vietnã (e ao contrário de um Nick Drake nascido na Birmânia e um Fred Mercury no Zanzibar, por lá morou até os 13 anos) não era de fatura progressiva, mas surfou na onda, assim como I Giganti e Dik Dik.

E surfou muito bem, num disco ótimo. Creio que não será impossível torcer o nariz para certa impostação pop ou algum melodrama (presente em outros discos do movimento), mas não ser tocado pela beleza de "Coltivò tutte le Valli" e "Era Mattino sul Mondo", com suas doses generosas de mellotron, será revelador de cinismo

Não se tocar com a tecladeira (ele próprio, o Riccardo, toca piano e moog e temos o Paolo Rustichelli, antes de lançar o Opera Prima) será indício de surdez.
 
Esses são os destaques, num disco que de resto lembra um Famiglia degli  Ortega ou um Blocco Mentale, aquele clima de Deus e cannabis.
 
Não figura no 50 Album per Scoprire il Rock Progressivo Italiano degli Anni '70, de Riccardo Storti e Donato Zoppo. Nem nos 100 álbuns do Rock Progressivo Italiano, do Andrea Parentin ou na seção italiana do Prog 40, mas recebe elogios do Paolo Barotto em The Return of Italian Pop e foram estes que, há muitos anos, me fizeram correr atrás do CD.
 
 E ainda temos o maior destaque de todos: "Corpo di Creta", epifania grandiosa, que encerra o disco de forma sublime, ombreando com o quê de melhor se fez no rock progressivo italiano.
 

 

Saturday, October 24, 2020

1970 :: Quatro Altos Momentos do Sax no Rock Progressivo

Que se fazia rock progressivo sublime na virada da década de 60 todos lo saben, mas que se possa, assim sem grandes pesquisas, fazer compilação de músicas maravilhosas onde o saxofone tem protagonismo, isso até eu me espantei.

1) "Men" - Mad Curry : tenso e maligno, com o baixo e o piano

2) "Big Brother is Watching You" - Skin Alley : para além do ritmo, um alto voo na seção do meio

3) "Killer" - Van der Graaf Generator : porventura o riff mais memorável (e matador); mais uma vez sinistro; solo espantoso (dois saxes ao mesmo tempo, Mr. David Jackson?)

4) "Raid" - Audience. Primus inter pares

Eu disse 'quatro altos momentos'? Ora, não apenas alto, mas também barítono, tenor e sopranino




 

Café e Bar Primazia, Ramos

Tímida e cautelosamente, nestes tempos ainda pandêmicos, fiz pequeno giro etnográfico em Ramos, já com objetivo preciso: Café e Bar Primazia, na Rua Operário Fortes, onde, segundo informação do blogue O Rio que o Rio não vê, haveria belas pinturas.

Com efeito, não fosse a ótima dica, nunca teria chegado a elas, uma vez que o "café e bar" passou por uma reforma descaracterizadora para transformar-se num restaurante a quilo anódino. Ou seja, numa andança típica -- e já fiz várias pelo bairro de Ramos -- eu jamais teria entrado.

Critiquei a reforma, mas fique o sincero elogio: ao menos mantiveram as pinturas: arte naïf em estado bruto, com imagens bucólicas e nostálgicas: a moça e seu cântaro, o bom gaúcho, sereias, naus portuguesas, ninfas e crianças.

Vê-se em dois lugares a assinatura de um Castelão. Segundo o blogue citado, trata-se do artista português Cesar Augusto Castelão, nascido em 1922. Julgo enxergar o número 70 debaixo de uma delas.

Pela quantidade, lembram as dos Façanha, no hoje fechado Tâmega, bem como as do Souto, em Quintino.

Um verdadeiro patrimônio do subúrbio que, a exemplo de alguns Nilton Bravos, deveria ser tombado e  preservado a todo custo