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Thursday, July 28, 2022

Poema

 


Os anos caminham em teu rosto
na forma de traços que se unem e multiplicam
Já na testa um hexagrama de I Ching
que procuras decifrar sob a luz quente do espelho
 
Levantar às cinco não altera nada
Possivelmente morta a pretensão que tinhas
De sair da vida mais jovem
do que quando chegaras

Wednesday, March 23, 2022

E descobre nas páginas estreitas / A alma de seu amado refletida

 

Lembram do post anterior sobre um momento lindo de Eugene Onegin (aqui)? Então

 

Some pages still preserved the traces

Where fingernails had sharply pressed;

The girl’s attentive eye embraces

These lines more quickly than the rest.

And Tanya sees with trepidation

The kind of thought or observation

To which Eugene paid special heed,

Or where he’d tacitly agreed.

And in the margins she inspected

His pencil marks with special care;

And on those pages everywhere

She found Onegin’s soul reflected—

In crosses or a jotted note,

Or in the question mark he wrote.

 

Algumas páginas guardavam traços

Da decidida pressão de seus dedos;

Os olhos de Tânia são como abraços

Que abarcam dessas linhas seus enredos.

E Tânia nota com trepidação

O pensamento ou observação

Onde Eugene Onegin se demorou

Ou com que em segredo concordou.

E nas margens percebe comovida

As marcações de lápis ali feitas

E descobre nas páginas estreitas

A alma de seu amado refletida

Numa cruz ou notinha rabiscada

Numa interrogação ali deixada.



~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Optei por decassílabos em vez de octossílabos e ignorei a questão das rimas masculinas e femininas.

 

Monday, March 21, 2022

Hear me sing / Swim to me

 


Quando Dante e eu andamos pelas ruas
É sempre da sua maneira peculiar
Ele me dá o braço como fôssemos casal
Minha outra mão eu a estendo sobre o peito
E me sinto o próprio cavalheiro de El Greco
São tantos os olhares sobre nós que me incomodo
E às vezes solto 'Por que será
Olham tanto pra gente, Dante?!
Devem estar nos achando bonitos!'
Assim hoje
Assim no tempo distante de ontem

PS: Mas eu também se cruzasse com esses dois
Olharia para ele pensando
Meu Deus, como esse menino parece o Tim Buckley
Cantará como ele a canção para a sereia? 




Monday, February 21, 2022

Uma coisa puxa outra

Uma coisa puxa outra que puxa a outra e outra

Perdi meu livro do Vikram Seth (aqui). Perdi, apenas perdi, dentro de casa. Li bastante ontem pela manhã, já entrando nos capítulos finais e hoje procurei-o high and low e nada. Chances de que o Dante o tenha enfiado em algum lugar, mas já olhei cantinhos do sofá, embaixo da cama, vão da poltrona, interfonei pros porteiros, liguei pra polícia e nada

Uma tristeza querer ler e não poder. Para compensar, para ficar perto, peguei o grande livro Le Ton beau de Marot, de Douglas Hofstander, que tem dois capítulos inteiros dedicados ao livro do Seth. E aí descubro que aos 16 anos ele ganhou um dos melhores presentes da sua vida: O Cravo Bem-Temperado, do Bach, por Glenn Gould

E aí me lembro que eu tinha esse disco quando morei em Chicago! Eu achava esquisito o Glenn murmurando enquanto tocava. É esquisito, e só pode ser assim para ser ele. Lembro que lá no início, quando Camila e eu nos enfurnávamos nas cidadezinhas da Mantiqueira, a gente ouvia. E eu lia sobre o Glenn. Tanto que um dia ela me recebeu em seu quarto na USP e preparou lanchinho. Com, segundo ela, queijo Goulda.

Este vídeo é sensacional



fecha as janelas amor deixa apenas
a luz coada das treliças verdes
me vem de blusa branca os cabelos
o rio negro e volumoso que
não há conter :: o rio vasto e negro e sonho
te escorrem pelas costas infinitos
perto da cama larga os teus chinelos
ao lado dos meus deixa que namorem
e se segredem coisas dos seus donos
agora vem e deita e fecha os olhos
para que no escuro te venham cores
que como nunca se repetirá
deita ao lado :: eu te dedilho o clitóris
e o Glenn Gould : sempre ele : dedilha Bach

Thursday, February 17, 2022

Os Sonetos de Seth. E o meu

 

Na pequena mesa da sala livros recém-chegados esperam sua sorte: colhidos para a leitura ou para a estante (o que não impediria leitura posterior, claro). The Golden Gate, de Vikram Seth, estava ali há alguns meses, a gente se entreolhando, ele bem vendo que outros passavam-lhe a frente, recém-chegados ou não.

 Há poucos dias comecei a lê-lo e aconteceu o que suspeitava: achei genial. Estou apenas chegando à metade mas para um amante de sonetos como eu, uma narrativa escrita toda ela em sonetos Pushkin (ou estrofes Onegin, de vez que foi como o poeta russo escreveu seu Eugene Onegin, inaugurando a forma) dificilmente não iria me cativar. São 590 sonetos para ser preciso, no invariável esquema monostrófico ABABCCDDEFFEGG, sempre em tetrâmetros iâmbicos, isto é, versos octossílabos. Bem, até poderia dar errado, o domínio de uma técnica não resulta necessariamente em obra de arte, mas o humor de Seth (wit), seu vocabulário coloquial e também refinado (diction), seu conhecimento de mundo resultam em sonetos deliciosos, que invariavelmente termino de ler com sorriso, quando não aberto riso. E depois de ler dois, quinze, trinta, a gente fica com os tetrâmetros na cabeça (fraca-forte / fraca-forte / fraca-forte / fraca-forte) e tem vontade de só falar assim, até na hora de pedir um chopp ('GarÇOM queRIdo, TRAZ um CHOPP').

Abaixo dois exemplo de Seth, que narram o momento em que John tem seu primeiro encontro com uma pretendente (sonetos 2.36 e 2.37). Em seguida, soneto que escrevi na varanda, com os tetrâmetros martelando na cabeça. Não acho muito fácil escrever em tetrâmetros, prefiro os decassílabos, e tampouco acho o português muito apto para eles, de vez que tem palavras maiores que o inglês.

Bem representativos esses exemplos do Seth: coloquiais, divertidos, mas com um rigor espartano por detrás. Amei a rima "I'm / time".

 

"She's lovely," John thinks, almost staring.

They shake hands. John's heart gives a lurch.

"Handsome, all right, and what he's wearing

Suggests he's just returned from church...

Sound, solid, practical, and active,"

Thinks Liz, "I find him quite attractive.

Perhaps...." All this has been inferred

Before the first substantive word

Has passed between the two. John orders

A croissant and espresso; she

A sponge cake and a cup of tea.

They sit, but do not breach the borders

Of discourse till, at the same time,

They each break silence with, "Well, I'm --"

 

 

Both stop, confused. Both start together:

"I'm sorry --" Each again stops dead.

They laugh. "It hardly matters whether

You speak or I," says John: "I said,

Or meant to say -- I'm glad we're meeting."

Liz quietly smiles, without completing

What she began. "Not fair," says John.

"Come clean. What was it now? Come on:

One confidence deserves another."

"No need," says Liz. "You've said what I

Would have admitted in reply."

They look, half smiling, at each other,

Half puzzled too, as if to say,

"I don't know why I feel this way."



O meu soneto:


Se todo dia tem suas horas

(ao todo 24, não?)

é a hora do sol ir embora

que mora no meu coração

se rola cigarra, aí ferrou

melancolicamente eu vou

lembrando as coisas que perdi

a cigarrinha cicia em si

em lá, em sol e aí, né, quem

aguenta? para não chorar

retorno ao velho patamar:

Folheio o Seth, abro uma Heineken

e minha dor tão má, em cacos,

Escala o Morro dos Macacos

 

Da série 'se explicar estraga?': claro que há ambiguidade em "a cigarrinha cicia em si": em si mesma e na nota si. Também aliteração e onomatopeia: a cigarinha cicia em si . Mas o mais legal é que como o eu-lírico se põe a recordar o passado, a cigarra canta de trás pra frente: si-lá-sol. A nota sol a lembrar também o sol que se põe. Já que falamos em notas, ao fim a dor escala o morro. E ainda a rima: aí, né, quem / Heineken.

Sunday, April 04, 2021

Un regalo per Leonardo Sasso

Em agosto de 2012 Dante esteve doente, então vieram os cuidados, incluindo rock progressivo italiano na forma do Locanda delle Fate. Eram dias em que eu escrevia muito, preparando meu Caderno de Sonetos que seria lançado no fim do ano, de maneira que dos cuidados saiu um soneto:

 

SONETO PARA UM MENINO DOENTE OU TALVEZ OS VAGALUMES NÃO SE AMEM MAIS

Eu voltava aos sonetos do Caderno
quando ele despertou, bem às 14
desta tarde crestada de cansaços
e logo botei para tocar o Forse

le luciole ne se amano piu, parte
da dieta de cuidados e carinhos
oferecida ao pequeno, que arde
em febres. Mal abertos, os olhinhos

luzem mais que os meus, álacres e claros.
Engana-se quem vê aqui um pai
a cuidar de um filho: é mesmo o inverso.

É ele (Tu sarai grande più di Icaro)
a me fazer subir os quatro andares
e chegar ao décimo-quarto verso.

********    *********     *********

Por ocasião do show do Locanda em Niterói, em novembro de 2017, presenteei Leonardo Sasso com exemplar do livro, não sem antes, claro, contar-lhe a história e mostrar-lhe o soneto. Para ele e para o baixista Luciano Boero.

Um presente bobo, comparado a tantos presentes que eles me dão a cada audição e me deram naquele show maravilhoso 

 

Sasso autografa meu CD apoiado no meu livro!





Sunday, March 14, 2021

Um Soneto de Pete Townshend

Estou chegando à metade do primeiro romance de Pete Townshend, lançado em 2019, The Age of Anxiety, depois de Auden e Bernstein, of course. E olha que a pandemia não começara. Profético.

Estou chegando à metade e encontro um... soneto! Bem, escrito por Pete? Claro que sim, mas, na "economia do romance", como gostava de dizer um professor, escrito por Siobhan (em irlandês esse 'bh' se pronuncia /v/), então mulher do seu afilhado querido, Walter. 

Este afilhado tinha uma banda de rock que tocava num único pub. Faziam relativo sucesso, tanto que Walter recebeu proposta de vender seu catálogo e ter uma música usada num comercial de carro. Ele ficaria rico. E ficou. Sua mulher, porém, sempre desdenhou a banda e todo seu trabalho, achando que ele deveria usar seu talento para escrever poemas e não canções para vender carros. Ah, e poemas para ela.

Na noite do seu último show, que é quando ele recebe a proposta, ela sai de cena e vai para uma casa no campo, onde escreve o soneto. A estratégia era chamar sua atenção -- ela jogou alto e fracassou. Na mesma noite, ele se apaixona por uma amiga em comum, Floss, e abandona a carreira musical e a mulher.

Mas ela escreveu o soneto na esperança.

 

I hoped for Shelley, Byron in your pen
    I longed for you to rise to meet your star
    The songs you wrote moved drinks across the bar
Why would you waste fine words on drunken men?
And wasting once, go on to to waste again?
    No sonnet to Siobhan, how could you mar
    Our love with elegies to some fast car?
For money? What can those in love dare spend?
You've sold your talent; then your soul is sold.
    You've championed commerce -- why? So you'll be 'free`?
    I love you, and I'll always tightly hold
The hope that one day you might dream with me
    To Waterford! I'm gone! I'll take my heart.
I can't stand by and watch you lose your art.  
 
 

O narrador afirma que ela usou o esquema de rimas do soneto italiano, um erro, já que ele é formado por três quartetos e um dístico, para além de ser monostrófico. Informa também que ela pretendia lançar livro de sonetos (!), já que "they were becoming popular again".

Ah, a minha edição é autografada pelo Pete! Quem sabe não consigo também um autógrafo da Siobhan? =)



Monday, December 28, 2020

Soneto de Cabo Roto para o Demo

Numa das minhas caminhadas matinais, encontrei enfiado num tronco de figueira pedaço de papel que, para minha surpresa, continha soneto, assinado por um certo Fuas Roupinho. Para minha enorme estupefação, era soneto de cabo roto, na melhor tradição cervantina.

O leitor logo perceberá que verso de cabo roto é aquele em que se omite a sílaba depois da tônica, não podendo, portanto, para que se dê o efeito de estranhamento da omissão, ser verso agudo.

Aliás, tão estranhado fiquei, que tive dúvidas acerca do tema exato de tão belo soneto e a quem ele estaria aludindo (ainda que no último verso ele confesse ser para o demo).

Segue:


Grande besta, inimigo da vaci~
Empenhado em tirar o país dos tri~
Estoca ozônio, armas e cloroqui~
Contra a PF blinda os seus fi~
 
Aos 33 foi logo aposenta~
o ex-capitão que nem pra isso ser~
Fez muito dindim como deputa~
Por nadas feitos com empenho e ver~
 
Juízo de camarão, boca de esgo~
Quando o ouço falar, logo vomi~
Mas lobotomizados mugem "Mi~" 

Aqui se finda este troço esquisi~
Com flato com desprezo e com arro~
Dedica-se ao demo este cabo ro~


<><><><><><><><><><><><><>>>>>><<<<<<<<><>><><><><><><><><><><><><

Como são estes, contudo, tempos de perseguição, não quer Fuas Roupinho complicações para si, de modo que enfiou na árvore seguinte, desta feita uma fedorenta chichá, o mesmo soneto sem as esquisitas omissões. E agora, creio, poderá mesmo figurar em antologias com o selo de qualidade do Escola Sem Partido.


Grande besta, inimigo da vacilação
Empenhado em tirar o país dos tristes
Estoca ozônio, armas e cloroquita
Contra a PF blinda os seus fidalgos
 
Aos 33 foi logo aposentando
o ex-capitão que nem pra isso serpenteia
Fez muito dindim como deputante
Por nadas feitos com empenho e versos
 
Juízo de camarão, boca de esgotado
Quando o ouço falar, logo vou-me
Mas lobotomizados mugem "Minas!" 

Aqui se finda este troço esquisitice
Com flato com desprezo e com arroz
Dedica-se ao demo este cabo romântico
 
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PS: A precaução de Fuas não apenas procede como segue os célebres versos de cabo roto no prefácio de Dom Quixote:

Advierte que es desati-
siendo de vidrio el teja-,
tomar piedras en la ma-
para tirar al veci-.

 

Saturday, December 19, 2020

12



 

12
 
É teimoso gaiato cheio de pose 
Quando zangado já não há quem ouse
confrontá-lo, pois às vezes é dose
pra leão pra bisão se fica azedo
(e isso às vezes começa bem bem cedo)
but I love him dearly I'm one of those
who can but love even if I can't doze
off in my siesta : somos sempre dois e
o mundo o vasto mundo pouco doce
nem sempre entende. No poema pouse
amor sem fim plural metamorfose
Que o menino mais lindo chega aos doze 


Da série "Se explicar estraga?" ::

Para os 12 anos do Dante, poema de 12 versos, todos eles rimando com "doze", precisando recorrer ao inglês e a inversões silábicas: doze > zedo

O correto seria, creio, que os versos fossem alexandrinos, é o que se dá por aí, mas isso não sei fazer


Sunday, June 14, 2020

Somos pai e filho


Há pais que dizem:
Meu filho, se quiser mais chocolate, que pegue,
e que beba na cozinha.
Eu não. Me levanto
e trago pra varanda
ele paga com sorriso
É tão bom, só a gente sozinhos na varanda,
chove chuvinha miúda
que deveria se chamar poejo
ou, vá lá, hortelãzinha

Coisas prateadas espocam:
somos pai e filho.

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É a segunda vez que rasuro este mesmo poema da Adélia, 'Casamento'. A primeira foi aqui

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Wednesday, May 13, 2020

Haicai enquanto a tarde kai


banho de balde
se ele se esbalda
não foi debalde

Tuesday, May 05, 2020

Oséias


Oséias ama uma mulher e ela
vai ter com outros homens, com quem goza
Pobre Oséias, seu gozo só virá
quando ele, poeta, faz metáfora
Assim Oséias crê assim espera
Profeta do amor, desconhece a ira
Todo seu ódio ele bota fora
-- tentativa de vida menos áspera --
E quando Oséias estiver mais triste
daquele triste de não ter jeito
daquele triste do soneto imperfeito
com seu amigo Amós vai ao boteco
os dois velhinhos pedem sempre o mesmo:
angu, feijão tropeiro e um bom torresmo

Saturday, April 18, 2020

Ezequiel



Com o braço direito flexionado
em decidida e demorada curva
que remonta às estátuas de Bernini
Ezequiel traz escrita em suas mãos
a dura dor do exílio a dor das mãos
que não choraram quando o deleite
dos seus olhos se foi. Assim quis Deus
Assim o quis coberto de agonias
"Mantém o teu turbante apertado e as
sandálias nos teus pés." E Deus sonhou
a rigidez do diamante em seu rosto.
Aleijadinho então trapaceou
conferindo a seus olhos mansidão
Acentuada quando o sol é posto

Tuesday, April 14, 2020

Baruque


A exausta tarde oitocentista chega
a seu termo nos vastos céus de Minas
Cigarras insistentes anunciam
escura e longa noite de neblinas
Aleijadinho ergue-se do catre
onde sonhava amores com Narcisa
Januário, Agostinho e Maurício
estão a postos quando a longa tarde
termina nos exaustos céus de Minas
Os três o equilibram num burrico
e nele vingam mudos a colina
Amarram os cinzéis naquilo que
um dia foram mãos e Antônio esculpe
a atarracada estátua de Baruque.


Monday, April 13, 2020

De profetas e limeriques

Mão de Jonas

Um pouco de disciplina na quarentena não faz mal a ninguém, então decidi não apenas arregaçar as mangas e organizar a biblioteca (a 'livrada' como meu pai gosta de dizer), como terminar dois projetos que eu deixara de escanteio: os limeriques baseados no Livro de Perguntas do Neruda e os sonetos para os profetas do Aleijadinho.

Os limeriques foram deixados de lado há mais de quatro anos. Faltavam poucos, revi tudo e terminei-os. Os sonetos ganhavam poeira na gaveta há quase ano e meio. Dos doze profetas, tinha cinco. Nos últimos quatro dias, fiz mais três, de modo que agora faltam apenas Habacuque, Baruque, Jeremias e Isaías.

Não é mole escrever 'sobre' profetas no Brasil de hoje. Meu objetivo é trabalhar com eles enquanto esculturas do Aleijadinho, embora eu me deixe resvalar, sim, para o personagem mítico-histórico ali representado. Mas aí me interessa o profeta enquanto mitologia e sei que isso pode causar furor tanto nessa crentelhada que tomou o país de assalto como em pessoas inteligentes como meu finado orientador José Carlos Barcellos. Enfim.

Usar os profetas como Kieslowski valeu-se dos dez mandamentos para fazer seu Decálogo. Se bem que, olhando para o que já fiz, o resultado não tem sido assim tão "livre".

Alguns já prontos: Daniel, Abdias, Amós, Jonas, Naum, Joel

Saturday, April 11, 2020

Joel




Na mão direita traz a sua pena
Sua cartela vem na mão esquerda
E se estas são macias e redondas
A profecia fala da lagarta
que descerá à terra como em ondas
Seu traje é especialmente trabalhado
tanto no manto quanto no casaco
sobressai o trabalho dos broslados
Nada disso, porém, lhe empresta paz
Já revelam seus pés desassossego
O que suas palavras nos ensinam
Que diz Joel em seu discurso roto
quando os olhos oblíquos descortinam
a imensa multidão dos gafanhotos? 

Wednesday, April 01, 2020

Bolsonaro no Inferno



Retomei hoje projeto que inventei com algumas perguntas do Livro de Perguntas, do Pablo Neruda. Retomei e encerrei! Mas nesta postagem não falo do projeto.

O Livro do Neruda consiste em 74 partes, tendo, cada uma, quatro ou cinco perguntas em média. Sempre em dísticos. As perguntas não têm ligação entre si. 

Mas qual não foi minha surpresa, ao reler hoje pela manhã, e perceber que os capítulos 70 e 71 fogem à regra, de vez que todas as perguntas estão relacionadas: as dez perguntas dizem respeito às atividades de Hitler no inferno.

Mexendo aqui e ali, adaptei-as para nossa realidade, a do Coprófilo na presidência.

O texto-base que usei é a tradução do Ferreira Gullar, de 2007.


Qual é o trabalho forçado
de Bolsonaro no inferno?

Corre na pista ou da justiça
Aspira o odor dos seus mortos?

Dão-lhe para comer as cinzas
de tantos índios calcinados?

Ou desde sua morte lhe dão
sangue pra beber num funil?

Ou lhe martelam na cabeça
a culpa dos assassinatos?

Ou o deitam para dormir
em cercas de arame farpado?

Ou lhe estão tatuando a pele
para as lâmpadas do inferno?

Ou o mordem sem compaixão
os negros mastins do fogo?

Ou deve ele, noite e dia,
viajar sem trégua com seus presos?

Ou deve morrer sem morrer?
De gripe, eternamente sem ar?

Friday, March 13, 2020

Em Catas Altas altas são as torres


Em Catas Altas Camila aprende
a palavra arbaleta
está paga a viagem
sete horas na estrada sob chuva e desastres
o que são sete horas
Pois que tem uma palavra, volta a Catas Altas
tantos anos atrás: um menino na torre
se diz nervoso e a deixa tocar o sino
crianças sob o coruchéu
Em Catas Altas altas são as torres
o resto serão chinesices
coruchéus
arbaletas
incapazes de medir
o suor das estrelas nos teus olhos