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Sunday, March 29, 2020

DEEM-ME CAFÉ. QUERO ESCREVER :: A Morte de Bilac ou Nava e a Espanhola II


Curioso que pouco se mencione o dado: Olavo Bilac morreu de gripe, de gripe espanhola, longe da velhice, aos 53 anos de idade.

Pedro Nava mais uma vez brilha ao descrever como sua morte o marcou:

"Outra emoção eu curtiria ainda, em Barão de Itapagipe, ao abrir os jornais de 18 de dezembro daquele 1918. Traziam em manchete, JÁ RAIA A MADRUGADA, DÊEM-ME CAFÉ, QUERO ESCREVER. Era a morte de Bilac. O alexandrino perfeito Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac tivera seu fecho de ouro àquele dia nefasto. Acabara a poesia. Só compreendi depois o que senti e porque fiquei olhando tanto tempo a pedreira do Turano. Eu queria esculpir ali que Bilac tinha morrido. Rasgar na rocha, que Bilac tinha morrido. Entendi isto depois, um dia qualquer, consultando a Britânica sobre Tennyson. Lá encontrei escrito:  'The news of Byron's death (April 19, 1824) made a deep impression on him. "It was a day", he said, "when the whole world seemed to be darkened for me"; he went out in the woods and carved "Byron is dead" upon a rock'. Isto, isto mesmo. Ainda que mal comparando..."

PS: Ainda que pior comparando, foi um pouco o que senti quando Drummond morreu, em agosto de 1987 (aqui).

Saturday, March 28, 2020

Pedro Nava e a Gripe Espanhola

Pedo Nava discorre longamente sobre a gripe espanhola de 1918 no maravilhoso capítulo "Major Ávila" no antológico Chão de Ferro, seu terceiro volume de memórias.

Quando escreve "comecei a sentir o troço", ele quer dizer que foi o momento em que caiu a ficha de que a coisa era mesmo séria, não que ele mesmo, então com quinze anos, tivesse caído doente. Ainda, pois cairia pouco depois.

Comecei a sentir o troço numa segunda-feira de meados de outubro em que, voltando ao colégio, encontrei apenas onze alunos do nosso terceiro ano de quarenta e seis. Trinta e cinco colegas tinham caído gripados de sábado para o primeiro dia da semana subsequente. Chegamos ao colégio às 9 horas. Ao meio-dia, dos sãos, entrados, já uns dez estavam tiritando na Enfermaria e sendo purgados pelo Cruz. À uma hora o Diretor Laet, o Quintino, o médico da casa, o Leandro e o Fortes passaram carrancudos nos corredores e foram se trancar no Salão de Honra. Às duas, assistíamos a uma aula do Thiré, quando entrou o próprio Chefe de Disciplina, disse umas palavras ao nosso professor que logo declarou sua aula suspensa e que, por ordem do Diretor, devíamos subir para os dormitórios, vestir nossos uniformes de saída e irmos o mais depressa possível para nossas casas. O Colégio fechava por tempo indeterminado. Sobretudo que não nos demorássemos na rua. Voltei rapidamente para Major Ávila, 16. Quando eu saíra de manhã, tinha deixado a casa no seu aspecto habitual. Quando chegui, tinham caído com febre alta e calafrios a Eponina, o Ernesto, a Sinhá-Cota e o Gabriel.

Thursday, March 26, 2020

Navegar em Nava :: Hoje é Aniversário do Meu Pai


Esta minha coleção de Pedro Nava, minha naveana, orgulho da minha vida. Os seis livros de memória, que li e reli de modo febril, foram todos comprados por meu pai, que hoje completa 85 anos.

Meu pai assim, apresentando-me à vida sempre, sempre sem forçar nada, aliás, me ensinando tanta coisa no seu jeito

Me lembro mesmo de, talvez 1983, talvez 1984, eu olhar para seus livros do Nava e pensar 'Caramba, como deve ser chato isso'. Em 1996, 1997, fazendo meu mestrado, deixei a chatice do Afonso Celso de lado e caí de boca e alma em Pedro Nava. 

Li compulsivamente. Li de ter febre, li de sonhar com ele dizendo EU SOU O COMENDADOR, li de ter que percorrer seus caminhos, de conhecer seu sobrinho, de ir a Juiz de Fora. E de reler sempre. E nunca desvendar tudo. Mistério que a vida me emprestou.

Os livros do meu pai foram um pouco dilapidados, os anos difíceis do Dante (como para os CDs, aqui). Mas são os do meu coração, porque têm todas as minhas anotações e, claro, a assinatura do meu pai.

Mas comprei também dois exemplares autografados. E tenho alguns estudos, e suas cartas e pequeno diário de viagem.





Thursday, February 21, 2019

Os Sapatos da Múmia


Guanajuato lida com seu Museu das Múmias de pelo menos duas maneiras: uma séria, com esclarecimentos históricos e científicos, e outra jocosa, aquela história de múmia como personagem de terror, múmia marvel, essas bobagens. Prevalece, graças, a séria e nem deveria ser de outra maneira, já que aquilo tudo é muito impressionante mesmo.

Ainda durante a visita dois aspectos me chamaram a atenção: as múmias que pareciam gritar como o grito de Munch, e os sapatos de algumas, minoria.

Impossível não lembrar de Nava.  (Que teria corrido para o museu, claro, para depois sofrer com os pesadelos recorrentes e despertar de olhos esbugalhados e banhado de suor em seu apartamento na Glória.)


— Meus amigos! Lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
deste pobre terrível morto,
que vai se deitar para sempre,
calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão
os penetras escorraçados,
as prostitutas recusadas,
os amantes despedidos,
como os que saem enxotados
e tornariam sem brio
a qualquer gesto de chamada.
Meus amigos! Tenham pena,
senão do morto, ao menos
dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
e olhai os vossos também...






Monday, October 22, 2018

Campeonato Dente de Leite 1978


Encontro minha carteirinha do dente-de-leite de 1978, o primeiro campeonato do garoto que já estava no São José há três anos.

A experiência de defender o Goiás como zagueiro em 1978 foi tão marcante quanto inesquecível. Vinte anos depois, em 1998, quando escrevi capítulo das minhas memórias, obviamente tomado pelo Nava que acabara de descobrir, foi todo esse capítulo dedicado à campanha do Goiás no Campeonato Dente de Leite do Colégio Marista São José, aquela construção colossal na Usina.

O primeiro jogo perdemos de 8 a 0 para o Grêmio. O segundo, 11 a 0 para o Itabuna. O terceiro, 4 a 1 para o Colorado (fizemos um gol). Na segunda fase, perdemos de 6 a 0 para o Palmeiras (eu no gol), apenas 3 a 0 para o Santa Cruz, que seria campeão, e miraculosa e inexplicavelmente vencemos o mesmo Colorado da primeira fase por 4 a 0.

Meu pai era o patrono, nome que davam ao técnico.

Dele herdei assinar o 'm' com um traço.

Wednesday, May 30, 2018

Os Negros Pecados de Pedrinho Nava



Sou suspeito para falar e tenho dificuldades em escolher, pero, tivesse que selecionar trechos da vasta memorialística do Nava, com certeza não deixaria de lado as vertiginosas páginas iniciais de "Engenho Velho", terceiro capítulo de Balão Cativo, seu segundo volume de memórias.

É Nava chegando ao Rio, cidade que amou como ninguém.


 "Seguia-se a Escola Doméstica Maria Raithe, sem as escadas da frente que hoje desonram o sobrado outrora tão genuíno e cuja capela se ganhava subindo a vasta varanda lateral que as freiras suprimiram. Minhas tias frequentavam sua missa dominical e eu com elas. Até foi nessa capela, que distraído, em dominga qualquer duma quaresma ou dum advento, comunguei de barriga cheia e sem confissão. Minha tia Bibi aterrada queria correr, gritar, impedir o sacrilégio. Foi obstada por tia Alice que não gostava de escândalo, que ia à missa por automatismo e que logo declarou que aquilo não fazia mal nem tinha importância. Menino dessa idade tem lá pecado? Ai! de mim que já os tinha e negros..."


Pois. Hoje estive no Colégio Maria Raythe, na Haddock Lobo, em busca da capela onde Pedrinho comungou e arrotou de barriga cheia.

Já não há. O colégio ainda existe, mas reconstruído. Não houve reforma ou restauração. A escola antiga foi toda ela posta abaixo (tombada naquele outro sentido mais funesto e mais querido pelos alcaides) em 1984, justo o ano do encantamento de Nava.

Para piorar, as duas mulheres que me atenderam, uma freira e uma diretora, ambas muito gentis, juraram de pés juntos que Nava estava errado, confuso, posto que "sempre houvera as escadas da frente". Perdi um pouco as cores e tentei, gaguejante, "Senhora, trata-se de Pedro Nava, o maior memorialista do Brasil", para ouvir, em réplica "Ah, ele já devia estar confuso". *Sigh

De qualquer modo, consegui com elas ver fotos e vitral da antiga capela. Que permanece intacta, suspensa no ar, neste mundo de aparências.




Wednesday, May 16, 2018

Mosaico na Haddock Lobo



Que a Haddock Lobo tem suas joias é óbvio. Mas óbvio para olhares atentos, óbvio para ledores e reledores de Pedro Nava, já que ali ficava a Pensão Moss (no mesmo número 252), ali ficava e fica o Palacete do Pavão (ver aqui, aqui), que este humilde blogueiro tem por mais bela casa do Engenho Velho, ali ficava a Farmácia Capelleti, ali ficam os Capuchinhos, que simplesmente guardam o marco da cidade.

Então é andar de olhos atentos.

Aí descobri esses mosaicos. 

Registros feitos com a anuência dos desconfiados porteiros, em meio a dois portões de grades pontudas. De modo que não deu para caçar assinaturas nas extremidades inferiores.

Mosaico é já trabalho fino. Este, reparai, como faz uso de tesselas de diferentes formas.



Saturday, March 24, 2018

Crônicas Juiz-de-Foranas VI ::: A Rua Halfeld


Logo na segunda página do seu Baú de Ossos, primeiro volume de sua imensa memorialística, Pedro Nava trata da principal rua de sua cidade natal, a vida imitando a vida na distinção que ele faz entre as margens direita e esquerda.

Halfed, como sabemos, foi o avô que ele não teve: o homem de quem sua intratável avó enviuvou. Antes, por supuesto, de casar com aquele que seria o seu avô.

A Rua Halfeld desce como um rio, do morro do Imperador, e vai desaguar na Praça da Estação. Entre sua margem direita e o Alto dos Passos estão a Câmara; o Fórum; a Academia de Comércio, com seus padres; o Stella Matutina, com suas freiras; a Matriz, com suas irmandades; a Santa Casa da Misericórdia, com seus provedores; a Cadeia, com seus presos (testemunhas de Deus -- contraste das virtudes do Justo) -- toda uma estrutura social bem pensante e cafardenta que, se pudesse amordaçar a vida e suprimir o sexo, não ficaria satisfeita e trataria ainda, como na frase de Rui Barbosa, de forrar de lã o espaço e caiar a natureza de ocre. (...)

Já a margem esquerda da Rua Halfeld marcava o começo de uma cidade mais alegre, mais livre, mais despreocupada e revolucionária. (...)




Tuesday, March 20, 2018

Palácio do Pavão :: Os Azulejos


 Ao fazer a postagem sobre o fantástico painel azulejar em Juiz de Fora (aqui), mencionei o da varanda dos fundos do Palácio do Pavão, na Tijuca / Rio Comprido, provavelmente os dois mais bonitos com que já atopei por aí (Turquia, Granada e Marrocos incluídos? Não). Pus o link para a postagem, só que lá não havia os benditos azulejos, apenas os do alpendre, lindos também.

Palácio do Pavão, lembremos, citado nominalmente por Pedro Nava em Balão Cativo (aqui), pois ali morava a menina esquiva e orgulhosa, deusa centopéica e miriapódica, que encantou e bouleversou Pedrinho. E isso é ainda mais valioso que todo azulejo.




Aqui os do alpendre :


Friday, April 07, 2017

Grajaú em Velatio



Mesmo que se saiba de antemão, ainda causa certa surpresa, sobe assim um frisson, ao ver toda uma igreja, no caso a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, do Grajaú, com seus lindos afrescos do Antonio Maria Nardi, toda ela em velatio, imagens cobertas por grosso pano roxo. Há algo de Quaresma mineira (ou sevilhana) aqui.

E embora o contexto seja um pouco distinto, lembrei-me dos versos terríveis do Nava:

Dêem-me coroas de pano.
Dêem-me as flores de roxo pano,
angustiosas flores de pano








Friday, February 24, 2017

Rua Major Ávila : Dentro da Noite Azul



Acredito que a Rua Major Ávila tenha a sua importância na Tijuca, mas hoje é, como tantas outras, um tanto quanto anódina. Uma pena. RUA MAJOR ÁVILA é o nome do segundo capítulo do Chão de Ferro, do Pedro Nava, e só isso (eu e meus exageros) já basta para colocá-la no rol dos logradouros mais importantes desta urbe.

Foi nesta rua em que Nava morou em 1918 com seus tios Ennes de Souza. Deixo-o falar:

Desde que chegara ao Rio tinha frequentado semanalmente sua residência acolhedora e hospitaleira. (...) Mas isso era visitar. Agora ia conviver, morar com essa gente fabulosa e só por essa razão e nesse 1918 começo a tratar de fatos a que assisti e de que participei, desde que chegar ao Rio. Os Ennes moravam à Rua Major Ávila, 16, em frente à Igreja de Santo Afonso. Em pleno coração do Engenho Velho. Dum lado dava-se na Praça Saens Peña e do outro na Rua Barão de Mesquita que mergulhava nas imensidades cariocas de São Francisco Xavier a Uruguai, até além, no nascente Grajaú. A moradia dos meus parentes era de porão habitável e fazia parede-meia com a do seu lado esquerdo. Eu adorava o bairro, com a praça provinciana, sempre deserta e seus dois cinemas. O modesto Tijuca e o grandioso América. (...) A casa dos Ennes era pintada dum róseo vivo e só me lembro dela como brasa dentro do dia claro ou recoberta de cinza, dentro da noite azul e violeta da Tijuca.

Suspiro.

Ali o adolescente Nava assistia à passagem, pela calçada da Santo Afonso, do poeta Emílio de Menezes ("já não o Emílio das cervejadas, dos trocadilhos, das quadrinhas").

Saudade.

Da casa não há o menor vestígio, como tampouco a que morou na Aristides Lobo (aqui). Em frente à Igreja de Santo Afonso (esta continua de pé, durinha, com seus excepcionais pisos de mosaicos registrados aqui), alguns prédios sem graça. Aliás o modesto Tijuca e o grandioso América transformaram-se em drogaria e em Igreja Universal. Mais do que uma pena, uma tragédia.

Para todos os efeitos, a Rua Major Ávila está literalmente eternizada pelo nosso maior memorialista. Dentro da noite azul e violeta da Tijuca, em pleno coração do Engenho Velho.

E se serve de consolo, ali resiste o restaurante Fernando's, sem self-service, sem comida a quilo, mas com sua feijoada de polvo e arroz de pato. Segundo Camila, o melhor arroz de pato da cidade, incluindo o do Adegão.

Friday, December 16, 2016

Lembrar dói e incomoda :: Nava no Pasquim


Ainda mexendo em meu baú de ossos, em guardados que foram comigo do Grajaú a Pendotiba, depois a dois endereços do Ingá e que agora, transcorridos 35 anos, estão de volta ao Grajaú.

Esta é uma entrevista que Pedro Nava concedeu ao Pasquim em agosto de 1981, das coisas que meu pai, zeloso, guardava. Dentro dos livros do Nava. Entrevistam-no Alberto Dines, Jaguar, Ziraldo. Nieta, sua companheira, participa.

O problema é que lembro do jornal original, na saleta da Visconde de Santa Isabel. E agora aqui, original, amarelecido, liquefando-se. Eterno.

De salientar ao pé da página a propaganda do Galo das Trevas, que então saía pela José Olympio.

Dines : Esse negócio de lembrar dói?
P.N. : Dói e incomoda. Não tenha a menor dúvida.

Esta postagem inaugura a tag Nava. Já não era sem tempo.




Sunday, November 27, 2016

Nava e o Leão do Alto



Quem nunca reparou no leão branco na subida do Alto? Fez parte da minha infância, nas inúmeras subidas para a Praia da Barra, fez parte da juventude de Pedro Nava, em seus tresloucados anos de Pedro II.

Assim lemos em Chão de Ferro, ele lembrando, euforicamente, a euforia das saídas do internato:

Mudou a palavra mas não mudou o ouro do dia -- porque hoje é sábado! nem mudaram nossos corações forros e nossa alegria solta -- porque hoje é sábado! Era essa alegria que nos espalhava na rua e nos fazia reagruparruar na ruarrua. Subíamos e descíamos os degraus escadaria de cantaria, cavalgávamos a amurada de pedra, íamos voltávamos bebíamos sem sede na biquinha de bronze do nicho de granito dourado pelo tempo, montávamos o leão de mármore cuja cauda foi arrancada por um de nossa turma (ele -- o leão -- agora se encontra, rabo restaurado, na Estrada Nova da Tijuca -- é o mesmo, corríamos nos separando novamente embolando nos atropelando como revoada de pássaros, bando de terriers saltando dando cambalhotas gambadando camba gamba pulando-carniça batendo canhão-vovó.


Eu já me dava satisfeito ao reencontrar o leão. Fiquei ainda mais ao perceber-me observado por notável capela de macacos-prego. Coisas de quem tem a maior floresta urbana do mundo tão ao alcance da mão, perdoem-me o ufanismo.

PS: E não haverá nesses macacos alguma semelhança com o grupo de Nava? É voltar lá e verificar se o rabo do leão continua lá, ali onde terminam as costas.




Tuesday, November 15, 2016

Casa dos Poveiros : Ali morava o charlatão Almendra



Já escrevi sobre a Casa dos Poveiros aqui. Mas que alegria redescobri-la em Nava, primeiro capítulo -- Campo de São Cristóvão -- do Chão de Ferro. Sensacional.

Outro, que faturava fortunas, com um pêndulo de cristal, era o faladíssimo Seu Almendra. Deste me lembro porque acompanhei minhas tias várias vezes a sua tenda. Tenda? Era verdadeira mansão, casarão de sombras propícias. Creio não errar dizendo que é o palacete de número 302 da Rua do Bispo -- onde fica atualmente a Casa dos Poveiros. O charlata era um português muito míope, a que o pincenê e a barbicha davam vagas semelhanças com Machado de Assis. Ouvia muito, falava pouco, mandava a doente deitar num sofá -- não! senhora, assim mesmo vestida -- passava por cima dela um pêndulo fio de seda e bola de cristal, explorava suas oscilações sobre as vísceras, sobre o plexo solar, ia à mesa, receitava uma homeopatia qualquer, embolsava a nota de vinte e mandava com Deus. Abria a porta da varanda apinhada. Chamava: Outra! ou Outro! E lá entrava nova figura radiosa de esperança.

Thursday, July 14, 2016

(Eu) Ainda Rio Comprido



Como o título da postagem indica, já andei e postei sobre o eterno bairro do jovem Pedro Nava (aqui e aqui e aqui), bairro que foi / é , arrisco, um dos mais degradados de nossa urbe, após a construção do Elevado Monstrengo.

Hoje quase que bairro 'de passagem', passagem de muitos seja por cima seja por baixo. Descer e se adentrar um pedaço terá suas recompensas, a começar por um dos mais belos exemplares da arquitetura colonial civil da cidade, a Casa do Bispo.

Seguem alguns registros de hoje, sem qualquer pretensão de completude, mesmo porque retornarei. O Zé Ninguém, do Tito Serrano, à procura de sua Ana, um instigante 'grafite' político da Escrava Anastácia, duas igrejas maravilhosas, sendo uma com ex-votos, um improbabilíssimo Museu de Odontologia, o neocolonial hispânico, ipês absurdos, caquinhos, mosaicos, cobogós.