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Tuesday, September 12, 2017

Jorge, poema da Maria Vitória



Essas histórias de levar alunos pra Lagoa pra escrever haikai (aqui), levar pro parquinho pra gritar TO INDEED BE A GOD e chutar a bola (aqui), tornar-se book people (aqui), subir em cima das carteiras etc, guardo-as para o Ensino Médio, que no Fundamental sou (ou não) mais pão pão queijo queijo, foquemos no conhecimento sistêmico para logo adiante alçarmos voos maiores.

Com este nono ano foi diferente. Já estavam eles escrevendo poemas e recitando-os, felizes, no parquinho.

Acreditei que dava e deu. Só não achava que a Maria Vitória, 14 anos, fosse me estapear a cara com o poema tão lindo escrito para o seu irmão Jorge, 6, que tem autismo.

Uma transcendência na manhã de quarta-feira.


JORGE
Maria Vitória Teixeira

How you turned my life upside down
How you make me feel like a clown
How you smile even when life seems to be ending
How this suffering is never ending

How I wanted to be sage enough to help you
How my life revolves around you
How sad I get when I don't understand you

How you piss me off
How you make me laugh
How you are my other half
How you are an angel
How life became painful

I'm proud that you are smart
I admire your big heart
Our love tears me apart
Every day, every hour
But I committed myself
To turn this pain into power 

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Música para acompanhar: "White Eagle", Tangerine Dream


Friday, September 16, 2016

Marrocos Azul ::: As Fotos do Helion



Um dos livros sobre a Índia mais bonitos que tenho atende por Les Couleurs de L'Inde, de Boris Potschka e Peter Pannke, em que as fotos estupendas são agrupadas sob o critério da cor. Critério que liberta e não amarra, como escrever poema de quatorze versos com decassílabos heroicos e sáficos.

Lembrei-me do livro ao ver registros lindos do meu amigo Helion em Marrocos. Ele fez um álbum todo azul. E olha que ele não foi a Chefchaouen. 

(E o que não diria Carlos Pena Filho disso tudo?)



























Fotos de Helion Povoa Neto.

Wednesday, July 31, 2013

Jabuti no Lixo

Com o texto abaixo inauguro seção / tag aqui no blog: Convidado, em que publicarei contos, crõnicas, poemas de colegas e amigos, às vezes pouco mais ou menos que isso, blogueiros ou não.
Este texto é da Dulcinéa Sotnas, que conheci na fila do show do Bacamarte.
Ou foi em viagem que fiz a La Mancha? 

 Jabuti no lixo

Se perguntar a qualquer pessoa que tem um jabuti de estimação, dirá que tem uma tartaruga.
Por isso andei pensando que podia ser culpa da fábula. A tartaruga é que é lenta; Do jabuti...Ninguém sabe. Não se escreve sobre jabuti.
Ele não é personagem de coisa nenhuma. Parece que nunca o viram, e se viram, acharam que era tartatuga. Ou até cágado. Nunca um jabuti.
Com o de lá de casa não foi diferente. Um amigo do pai, o mesmo que vendia pintinhos coloridos, me deu um jabuti. E era lento como os outros.
Não tinha muita graça ter um, a não ser na hora do almoço. Eu cortava um pedacinho de alface com a mão e balançava no ar, perto do chão, esperando que o touro quelônio avançasse. Ele olhava pros lados com ar blasé, fingindo não ver. Não sei se ele ignorava de todo, já que dizem que tem muito bicho piticego. Uma hora ele vinha moroso, se arrastando, sem saber exatamente por que ia naquela direção e abocanhava um vinte avos daquele já pedacinho. Das coisas mais bonitas que existe é ver jabuti comer. A boca miúda, sem lábios, sem nada. É só um risco na cara. Um risquinho. E só abre pra comer alface.
O jabuti não tinha nome porque jabuti já parece nome. É apelido carinhoso do velho amigo de infância. Era desajeitado, como todo bom mocorongo, fazendo cabaninha, se escondendo atrás do sofá e atrás de qualquer coisa que tivesse um lado de trás. Não era casmurrice, mas pura e simples timidez. Que o diga a carapaça, fruto de uma gimnofobia aguda. Freud explica.

Passei a me acostumar com a epifania do meio-dia e a comer mais e mais alface. Ele, o jabuti, sempre ali de esguelha, esperando a sala ficar vazia para surgir por detrás da cortina. Acho que confiava em mim e desconfio que sabia do frisson que provocava a cada mordida. Assim ele vinha, a passos de jabuti, mas agora com uma pressa pouco comum.

Um dia não tinha alface, só tomate. Ele veio mesmo assim. Descobri então que era daltônico.

Na semana seguinte, o grito da mãe
- Vai botar o lixo pra fora que o caminhão já vem!

Lixo na hora do almoço. É um absurdo. Mas criança que protesta leva chinelada na testa. Voltei correndo pra minha alface.
Os jabutis não sentem cheiro de comida, mas o meu sentia. Hoje deve estar resfriado.
Deve ter comido as folhas feias e queimadas no chão da cozinha.
Quanta indiferença.
Nos cantos da sala só havia arestas. E o almoço esfriou.
Não poderia ter sumido assim. Não sem despedida, sem me convidar para comer ali no chão frio da sala uma única vez.
Entrou no fundo do saco preto de lixo e se misturou aos restos da casa. Nunca mais o vi.

Foi assim que experimentei o primeiro amor. E a primeira perda.