Monday, October 15, 2018

MAHLER nas paredes do metrô (ou quase)

Toronto

MAHLER GROOVES pichado na pilastra de um viaduto em Washington D.C. impressionou tanto um jovem que por ali passava todos os dias no ônibus da escola que ele cresceu e tornou-se respeitado crítico de música erudita. Foi só pelo grafite? Claro que não mas que Alex Rossi é mahleriano dos bons isso pode ser comprovado neste seu texto aqui para a New Yorker de 1995.


Todos sabemos do revival de Mahler nos EUA -- e de lá para o mundo -- no final dos anos 60 e começo dos 70. O curioso é que o grafite / pichação em questão era do final dos 70, bem no ano em que a disco music dava as caras.

Se a intenção do grafiteiro Zach Smith era chamar a atenção dos passantes para o atormentado compositor, bem.

Muitos anos depois, já estamos no século XXI, pichações semelhantes aparecem em Toronto, espero que no caminho de ônibus escolar.

Eu mesmo fiquei com ganas de fazer uma aqui no Grajaú, este bairro que vota fascista, mas enquanto não me vem a coragem, faço esta postagem.  


Toronto

Washington

Friday, October 12, 2018

Grafites da Paulicéia


Quando o papo reto é grafite, arte urbana, São Paulo pode aparecer tranquilamente entre as 10 cidades mais expressivas do planeta. E olha que a disputa é acirrada (e todos saímos ganhando) e isso sem necessariamente ir ao Beco do Batman (aqui).

Mais que necessário para uma cidade que vota cada vez pior.

A colheita daqui é basicamente toda em Pinheiros. Os galãs do roquenrol (Jim ganhou até estalinho!) estão no Centro.

Reencontrei a Panmela Castro, de quem já falei aqui, conheci a Grazie. O restaurante indiano é o Bawarchi.















Gozando Junto com Athos Bulcão ::: Goz Junt # 36


Série bem pequena de registros na grande exposição do centenário de Athos Bulcão no CCBB de São Paulo. Série pequena, mas ainda que fosse apenas a foto acima, já valeria destaque.




Wednesday, October 03, 2018

Num balão com Camila e Dante



Gosto de pensar presentes. Para o aniversário da Camila deste ano, encomendei ilustração da Anna Cunha, que superou expectativas.

Já nem lembro como a conheci, essas redes virtuais. Lembro que mandei-lhe fotos, sugeri o tema, meti o bedelho aqui e ali sem interferir com seu estilo, que tende para uma paleta de cores em tons mais pastéis.

Achei a ocasião pedia limerique e, daquela, vim com este ::

Nem ônibus metrô ou avião
Tuc-tuc é legal mas agora não
Só queremos no momento
Isto é, havendo vento,
Celebrar os 90 num balão

O trabalho da Ana pode ser conhecido aqui.

Monday, October 01, 2018

TUTAMÉIA Ou Como um Fraquejada derrota os Truculentos



Foi seu amigo Paulo Rónai quem disse, acerca de Tutaméia, que "cada qual descobrirá dentro das quarenta histórias a sua, a que mais lhe desencadeia a imaginação", ficando ele mesmo ("Seja-me permitido citar as duas que mais me subjugaram pela sua condensação") com "Antiperipléia" e "Esses Lopes".

Acabei de ler Tutaméia pela terceira vez. Na primeira, em 88, fiquei aturdido demais e talvez seja apropriado dizer que não é livro para se iniciar em Rosa, mas mais apropriado é que não há o livro para se iniciar em Rosa. A segunda, sete anos depois, foi profunda. Mas porventura interessada demais: era livro para o ingresso no mestrado na PUC-Rio. A terceira foi esta, totalmente desinteressada, naquela hora entre 6 e 7 da manhã, papagaios e sabiás em algazarra por sobre meu ombro esquerdo.

Eu amei essa nonada toda, esses ossinhos de borboleta, eu quero agora voltar pro Serro.

E "Esses Lopes", o que é isso? Como sublinha com exatidão estes nossos dias, como deve inspirar a quem quiser lutar contra a misoginia chancelada por grande parte da população. (Ver aqui)



Má gente, de má paz; deles, quero distantes léguas

Quero falar alto

Com eles, nenhum capim, nenhum leite.

Ainda achei o fundo do meu coração

Regi de alisar por fora a vida

Custoso que nem guardar chuva em cabaça, picar fininho a couve


Que em meu corpo ele não mexa fácil

#EleNão :: Machismo Escorraçado às Dentadas em Tutaméia


De todo redundante defender a permanência de Guimarães Rosa no atual panorama das letras brasileiras. Mas a atualidade de "Esses Lopes", décima estória de Tutumaéia, no panorama social, político e, vá, literário brasileiro, é veramente assombrosa.

Senão vejamos.

O conto trata de mocinha de nome Flausina, mas ela nem gosta do nome, queria chamar-se Maria Miss. Assediada, menina ainda, por um Lopes, "má gente, de má paz", ela é enfim estuprada e arrastada para sua companhia. Seus pais nada podem fazer.

Flausina aguenta o repuxo (Ninguém põe ideia nesses casos: de se estar noite inteira em canto de catre, com o volume do outro cercando a gente, rombudo, o cheiro, o ressonar, qualquer um é alheios abusos), mas faz suas tramas e suas beberagens: mata o bruto.

Varri casa, joguei o cisco para rua, depois do enterro.

Depois vêm outros dois Lopes, irmão e primo do brutamontes primeiro. Maria Miss enreda a ponto de colocá-los em duelo mortal. Não sem antes fazer seu pé-de-meia.

Vem o velho, o patriarca e, assegurada de que agora "só muito casada", dá a ele o que ele pedira: "gordas, temperadas comidas, e sem descanso agradadas horas".

O velho morre da morte macaca.

Uma mocinha, uma fraquejada, derrota toda a raça dos Lopes: UM PAI E TRÊS FILHOS.

Hoje vive com seu amor, não quer nem os filhos perto de si (também são Lopes), quer o bom-bocado, quer gente sensível, pois achou o fundo do seu coração.


Quero falar alto. Lopes nenhum me venha, que às dentadas escorraço.




Esta postagem continua aqui

Sunday, September 30, 2018

Gozando Junto no #EleNão -- Gozando Junto XXXV


Que linda a manifestação de ontem. Que energia indescritível. Tentar descrever o que foi aquele mundo de gente tão feliz quanto indignada lutando contra o retrocesso será como tentar descrever Veneza ou Milho Verde. Ou o amor. Pode-se ver fotos, ler relatos etc. Mas só sabe quem estava lá e provavelmente encontra-se energizado até agora.

Pode-se ver fotos. E como bateram-se fotos. Manifestação mais fotografada que a janela do Convento de Cristo em Tomar.

Como não fazer uma série do Gozando Junto? Gozando Junto XXXV.














Saturday, September 29, 2018

Haikai para o Caju


Vir cheia de gula
Pedir haikai pro caju
Pois, ora, uma vírgula!



PS: Da série 'se explicar estraga' mas vamos lá. Resgatando interjeição já pouco usada: 'Uma vírgula!' para denotar indignação. Como sinônimos "Uma ova!" "Uma pinóia!" "Nem a pau". Mas no poema em questão só cabe 'uma vírgula', pois o caju é a fruta com a vírgula pendurada.

Não é só. O primeiro verso já fala na vírgula: VIR cheia de GULA.

Ah, e a foto traz os cajus já em haikai.

Serendipity II :: (Ainda) Cajus


Na manhã de segunda-feira Camila e eu conversamos sobre Vinícius de Moraes, suas fases, faces, frases, o epíteto 'poetinha' carinhoso e pejorativo, o fato de eu ter tido nas mãos, num sebo em Fortaleza em janeiro de 1992, a primeira edição de seu primeiro livro e não ter comprado. Nada demais, mas foi, pelo que lembre, a vez primeira em que falamos dele por sobre nossos nescafés com leite.

Pois.

Aí, à noite, no lançamento do Pedro Tostes, conheço Daniel Gil, que publicara, no primeiro semestre deste ano, A Poesia Esparsa de Vinícius de Moraes: Uma Leitura de Inéditos e (Des)conhecidos. Eu já tinha ouvido falar neste lançamento, mas não atentara para o autor.

Claro que foi serendipity. Das grossas.

Ainda mais porque o último poema do livro é um "Soneto ao Caju" e foi sobre caju a primeira serendipity do blog (aqui).

Outra: pensando nesta postagem, perguntava-me, com alguns fumos, se seria esta a primeira vez que o soneto iria para a rede. Fui checar. Não é a primeira vez, já teve publicação, inclusive num blog que traz por epígrafe a frase de Einstein sobre o 'silêncio dos bons'. Frase que me viera à mente há pouco quando pensei nas manifestações de logo mais na Cinelândia.

Claro que foi serendipity. Para todos os efeitos, consulte-se "A Escova e a Dúvida", um dos prefácios de Tutaméia


Amo na vida as coisas que têm sumo
E oferecem matéria onde pegar
Amo a noite, amo a música, amo o mar
Amo a mulher, amo o álcool e amo o fumo.

Por isso amo o caju, em que resumo
Esse materialismo elementar
Fruto de cica, fruto de manchar
Sempre mordaz, constantemente a prumo.

Amo vê-lo agarrado ao cajueiro
À beira-mar, a copular com o galho
A castanha brutal como que tesa:

O único fruto – não fruta – brasileiro
Que possui consistência de caralho
E carrega um culhão na natureza.

Wednesday, September 26, 2018

Soneto de uma Rima Só para aquele cujo nome não se deve


Fascista distinguível pelo faro
um odor putrefato e nem tão raro
Um ratapulgo imundo e sem preparo
Misógino racista escroto ignaro.

#elenão! Ele nunca! Fique claro
neste soneto altíssono declaro
Se às vezes desanimo, logo saro
e busco forças pro combate amaro.

#elenão! Ele nunca! Fique claro
Portugal aderiu, do Porto ao Faro
não aceitar este destino avaro.

A luta continua, põe reparo
pois tudo que te peço, ó meu caro,
ouve: é jamais votar no              .

Tuesday, September 25, 2018

Sonhei com esta casa no subúrbio


sonhei com esta casa no subúrbio
toda ela no estilo das Missões
colunas salomônicas, volutas
telhado em caprichada geometria
o infalível painel na platibanda
traz São José pintado por Igrejas
a torre circular é bem singela
ou não seria casa de subúrbio
sonhei com esta casa e nela assistem
três bobos dos mais bobos da cidade:
eu, ela, o pequeno, ninguém mais
(talvez um gato); em noites quentes de verão
 nós tomaremos nus sobre os caquinhos
intermináveis banhos de mangueira




Sunday, September 23, 2018

Serendipity I ::: Cajus



Estávamos eu, Camila e Dante no banco de trás do carro do meu cunhado, que dirigia e tinha a seu lado minha irmã Kátia. Seguíamos para a festa de aniversário da Patrícia, prima do Dante que completava quatro anos com festa. Quase na entrada do túnel, Afonso, o cunhado, diz estar levando caixa de caju para meu pai, que sempre foi a louca das frutas em especial o caju e a manga. Aproveito para comentar que em Goa fazem um aguardente de caju famoso, o poderoso fenim, e sublinho que não é cousa como cachaça com caju, mas de. Nisso, digo à Camila que é este um dos poucos casos em que uma palavra da língua inglesa veio do português, no caso, caju > cashew, os indo-portugueses de antanho pronunciando /cashu/.

Camila se pergunta se jackfruit também teria vindo de jaca.

Não sei. Sei que ao entrar na Sala de Inglês na terça-feira seguinte havia esta mensagem no pequeno quadro-negro que mantemos para variedades.

*******

Uma coincidência veramente espantosa

Sem dúvida que estamos aqui em pleno território da serendipity, confira-se o quarto e último prefácio de Tutaméia, "Sobre a Escova e a Dúvida".

Un certo Miguilim viveva con la madre :: Guimarães Rosa em italiano


Contrariando bons-sensos, Guimarães Rosa foi taduzido. Por razões óbvias, não tanto quanto Jorge Amado, mas numa qualidade tal que, Rosa, num de seus exageros, chegou a afirmar que para se entender sua obra seria necessário ler sua tradução para o italiano.

Sua correspondência com Edoardo Bizzarri é capítulo alto na história das traduções literárias brasileiras. Bizzarri descobria coisas que nem Rosa (ambiguidade, per favore) e chegavam a um nível de detalhamentos que só mesmo amantes pela palavra podem ter.

Un certo Miguilim viveva con la madre, il padre e i fratelli, lontano, assai lontano di qui, molto piú in là della Vereda-della-Gallinella-d'Acqua, e di altre veredaas senza nome o poco conosciute, in un punto remoto, nel Mutúm. In mezzo ai Campos Gerais, ma in un avvallamento in zona di foreste, terra nera, alle falde delle montagne. Miguilim aveva otto anni. Quando ne aveva compiuit sette, si era allontanato dí lí per la prima volta: lo zio Terés l'aveva portato a cavallo, sul davanti della sella, perché fosse cresimato a Sucurijú, dove passava il vescovo. Del viaggio, che durò vari giorni, Miguilim aveva conservato intontiti ricordi, che si confondevano nella sua testolina. Di una cosa, non poteva dimenticarsi: qualcuno, che era stato nel Mutúm, aveva detto: "È un bel posto, tra i monti, con molte petraie e molta foresta, fuori di mano; e ci piove sempre..."



Postagem dedicada a meu colega português Ricardo António Alves, leitor de Rosa, e que desde 2005 toca o ótimo blog Abencerragem.

Saturday, September 22, 2018

A Coleção de Livrinhos do Mundo


Tirando proveito desta primeira tarde de sábado de primavera para organizar a coleção querida que Dante e eu mantemos de livrinhos. Livrinhos das línguas do mundo vasto mundo

Temos em português, castelhano, francês, alemão, italiano.

E nestas que seguem, alfabéticos ::

africâner 
alguerês
alsaciano
amárico
árabe
árabe do Líbano
balinês
bretão
búlgaro
catalão
cingalês
concanim
coreano
croata
dinamarquês
finlandês
galês
gatês
georgiano
grego
hebraico
hindi
holandês
hñähñus
húngaro
indonèsio
irlandês
japonês
letão
luxemburguês
macedônio
maltês
nepalês
quéchua
rapanui
romeno
samoano
sérvio
sotho
sueco
tailandês
tcheco
turco
vietnamita
xhosa
zulu

E falta tanta coisa ainda

Friday, September 21, 2018

Os Hai-Kais do Millôr (incluindo um para o Bozo)


Publicado pela Editora Nórdica em 1986, este pequeno tesouro reúne não apenas 81 hai-kais do Millôr mas também suas ilustrações, uma "pequena introdução para os não-iniciados" e um posfácio de Alfredo Grieco.

Quando digo 'ilustração' é porque Millôr, fiel à tradição do haiga, ilustra ele mesmo cada um dos poemetos. É fiel aqui para poder ser gostosamente infiel ali.

Uma pequena seleção de quase 27 anos de produção, de 1959 a 1986, todos atualíssimos como este escrito para o Bozo:

Com que grandeza
Ele se elevou
Às maiores baixezas!