O passeio pela Usina proporciona belas e evocativas imagens ao olhar atento. As duas mais evocativas para mim não estão aqui: o Collegio Marista S. José, imenso, monumental, a ombrear-se com as serras tijucanas, e onde vivi seis dos meus mais intensos anos, e a Ordem Terceira da Penitência, local de nascimento e morte para os Von Sydows. Em meio a um cenário de relativo abandono e decadência, encontram-se jóias como estas.
Este casarão maravilhoso de 1920 (reparem a cascata ao fundo):
Detalhe de um pequeno conjunto:
Esta bela casa em estilo eclético, a chorar a derrota incomparável:
E, primus inter pares, este armazém do século retrasado (1896), daqueles poucos em que se pode sentar e tomar uma cerveja:
Saliente-se que, como sabem, o Borel recebeu há pouco uma UPP. Não fosse, creio que essas fotos não estariam aqui assim tão impunemente...
Há ano exato descobri como passear com ele na praia era a melhor coisa deste mundão. Não que não tivesse passeado antes, mas foi a rotina dos passeios seguidos que me calou fundo na alma e criou-me calos que me são tesouros. Tive sorte ainda de as férias terem sido esticadas um pouco (a gripe).
No duro que um ano é decorrido? Não foi este o semestre mais rápido de todos os tempos? Fiz esta pergunta a 37 pessoas. 35 concordaram, uma discordou, outra ficou de me responder mais além.
Na quadra final de meu mestrado, quando as atenções devem todas estar direcionadas para a dissertação, descobri Pedro Nava, um dos maiores encontros literários que tive. Uma revelação, um incêndio e assim, no sofá da sala da Paulo Alves, devorei Balão Cativo, Beira-Mar, Baú de Ossos (sim, não li os três primeiros na ordem), Chão de Ferro, Galo-das-Trevas, Círio Perfeito. E, inda que o Nava falasse alguma coisa relacionada aos meus estudos de mestrado, para o inferno com a dissertação, que eu descobrira coisas muito mais importantes.
Words fail me para descrever as sucessivas epifanias, os sucessivos gozos, estupefações e paixões que o mineiro de Juiz de Fora me proporcionou.
Umas dessas estupefações maiores está nas páginas finais do seu último livro, O Círio Perfeito, sexto volume de suas memórias, páginas finais de suas 2565 páginas de memórias nas letras miúdas das primeiras edições da José Olympio e Nova Fronteira.
Nessas páginas que Egon (alter ego que Nava assumira) tem conversas terríveis com um misterioso Comendador. Lá estão alusões ao suicídio, ao homossexualismo, a segredos inconfessáveis. Lembro que à época fiquei tão impressionado e perturbado, sobretudo com uma frase em caixa alta na página 574 (EU SOU O COMENDADOR), que cheguei a sonhar com Nava em minha casa, no sofá da sala, a pronunciar a terrível frase (em caixa alta???): EU SOU O COMENDADOR.
Bem, terminados livro e tese, vou à Usina, falo de 1998, procurar o Bar das Rolas onde os dois travaram as conversas, na frente do rio onde depois banharam-se (e batizaram). Após alguma conversa e pesquisa, descubro-o.
Passados 12 anos, volto à Usina e procuro pelo mesmo Bar das Rolas. Continua lá (a construção é de 1880), um túmulo. Silencioso e desafiador, suicidário porém eterno.
Esta é uma peça que escrevi ano passado. Enfim ela recebe sua estreia mundial!
Grande Elenco:
Marina Costa - menina Mika Makino - padeiro
O texto:
QUANTO CUSTA O SONHO?
Peça em 1 ato. E, se possível, em 1 minuto.
Menina:
Moço, quanto custa o sonho?
Padeiro (entre surpreso e indignado; sua indignação vai crescendo, sem, contudo, tornar-se violenta):
Quanto custa o sonho? Ora, os sonhos não têm preço!
Mas... sim, um homem precisa fazer sua provisão de sonhos.
O sonho é ver as formas invisíveis Da distância imprecisa, e, com sensíveis Movimentos da esperança e da vontade, Buscar na linha fria do horizonte A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte - Os beijos merecidos da Verdade.
O que há de mais bonito nos sonhos é o encontro improvável de seres e de coisas que não poderiam encontrar-se na vida corrente; num sonho, um barco pode entrar por uma janela num quarto de dormir, uma mulher que já não está viva há vinte anos pode aparecer deitada numa cama e, contudo, ei-la a subir para o barco que se transforma ato contínuo em caixão e o caixão põe-se a flutuar por entre as margens floridas de um rio.
O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio. Ora, os sonhos são imagens. Melhor ainda, de uma maneira mais precisa, os sonhos são ao mesmo tempo os pais e senhores das imagens. Sou um homem que as imagens atacam. Faço imagens que saem da noite.
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
Que seria de nós se não sonhássemos?
São os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem um coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu.
Menina (que assistiu a tudo sorrindo divertida, apenas muito levemente espantada) (Abrindo um lindo sorriso, pede):
Me dá dois.
Padeiro (deixando de lado todo seu ar sonhador, todo seu delírio, assumindo uma postura realista e profissional e destituída de qualquer exagero):
Um de nossos melhores cronistas não tinha um pé de milho? Pois tenho eu meu ipê. Ele mora no Jardim Botânico, bem ali em frente ao Tabladinho. Como bom ipê, o moço se comporta o ano todo, é discreto, tem bons modos, come quieto, é todo mineirices. Mas chega agosto abre-se qual pavão, sem mistério, todo entrega e plenitude. Vale a pena, sempre, esperar pelo espetáculo, ainda que seja breve e apenas uma vez por ano.
Como as temperaturas andam loucas, os ipês desta cidade se pavoneiam mais cedo, abram os olhos, aproveitem. O da frente do Instituto de Educação, na Mariz e Barros, já floriu, o do Instituto de Educação de Surdos, em Laranjeiras, também.
As duas primeiras fotos são do meu ipê, que me proporocionou epifania miguiliana em 1992. O da terceira foto é da J.J. Seabra, defronte daquela garage sale.
Há dois anos escrevi este poema, que quis extrair certo efeito das durezas de agosto. É agora anacrônico?
Fazer contigo o que faz agosto com os ipês.
Agosto, este mês de cardos, mês de ossos, de duro rosto, rende-se, enfim, à carícia que lhe sai das entranhas.
No dia 2 de maio postei a versão que Giulia e Julio fizeram do "Galinho do Dante".
Esta versão faz sucesso, perguntam por aí quem são os artistas. Poi zé, pois agora tanto melhor que o duo querido veio nos visitar em manhã de sábado e, claro, tem gente que não pode ver cantor que pede logo uma canja, pedi uma canja, de pronto dada.
Reparem como tantos acontecem enquanto cantam e tocam: Dante rola, tira a meia do pé, namora Giulia, a sogra chora.
Tuca e eu andamos numa fase de muita perversidade polimórfica.
Ele sempre gostou da cama grande, rolar pra lá e pra cá qual novelinho sem dono. Mas agora gostar é pouco, ele ama ser deixado na cama grande, rolar, levantar, sentar, ouvir um miado e gargalhar.
Mas mais que isso, mais mais que isso. Agora quer deitar e forçar a cabecinha contra a minha e depois ser agarrado e rodado pra lá e pra cá. A alegria é suprema, ele chega fecha os olhos, de gozo e estupefação. Ele pai e ele filho. O filho é pai do homem e o pai é filho, que confusão, melhor fechar os olhos e rolar.
Não aproveitei este Festival como merecíamos, festival e eu.
A ideia é pegar um dia e uma kombi e ir fazendo o circuito, quem sabe até 10 butecos num dia, inda que depois a memória dos primeiros e dos últimos (e também os do meio) visitados corram risco de nublarem.
Isso fica pro ano que vem, pois o deste ano acabou com a chegada de julho.
Mas para comemorar o niver fiz o Paulette (sempre a melhor alternativa ao Aconchego, que caiu no gosto da mídia e agora vive cheio) e o Da Gema, simpático boteco na Barão de Mesquita e desconhecido até então.
No Paulette tinha o Crocrevet du Let, onde comiam-se crustáceo e cestinhas. O molho era de maionese, maionese Helman's, pois estamos falando de boteco.
No Da Gema nos enrolaram e acabaram não trazendo o petisco, um fondue de boteco, do baixo clero.
Como eu já dormia sentado e como tinha Stellinhas, nem briguei.
O espírito do Mr. Keating baixou de vez em mim e, se a turma corresponde, aí que as invenções se sucedem e ora é um varal de poesia, ora é uma leitura de versos com direito a camisas de futebol e chutes na bola, outra hora eu me fantasio de turco para que meus alunos do 9o Ano pratiquem perguntas...
Por favor, não vejam aqui autopromoção ou coisa do gênero.
Mas foi dos presentes de aniversário mais bonitos que já ganhei.
Depois posto a letra.
YOU DESERVE THE BEST
Monday morning at seven o’clock as the class begins Silently closing our classroom door ‘Cause we were late like the classes before We sit down at look at Evandro making a “sorry face” Surprisingly, instead of scolding us He was with a smile from ear to ear
You (when you are sad, we get sad) Deserve (but we don’t know what to do) The best (we wish we could help and could support you) You deserve the best while living with Dante and Preta For so many years
We saw the stories of Idgie and Ruth and we liked it a lot Not only of them, but also Neil and Todd Fortunato is also part of the plot Oh captain, we stand up for you Teacher, you changed us Why would you treat us so perfectly How can we thank you kindly
You (we got to know our true selves) Deserve (a teacher like no one else) The best (you taught us how to enjoy our lives) You deserve the best while living with Dante and Preta For so many years
Just like an epiphany we could realize That you’re more than the best teacher ever But also will be a true friend forever
Happy (is how we feel in your class) Birthday (what you will feel we can’t guess) Evandro (love is the one thing Juquinha’s can’t buy) Lives will go on and time will go by But forever you will be in our minds You Deserve the Best…
Quando me encontrei com o Saramago, dei-lhe um exemplar de meu livro Taipa, dizendo-lhe "Não é nenhum Camões, mas...".
(É que ele falara sobre Camões [Que farei com este livro?])]
E ele de pronto replicou: "Ora, mas Camões antes de ser Camões também foi Luis". Só depois me dei conta (quer dizer, não me dei conta, a Bia se deu conta, por ela e por mim), que ele estava já brincando com o meu nome. (É que sou Evandro Luis, tenho que me lembrar). Ligeiro, o moço.
Há muito desejo escrever sobre passarolas e rock progressivo, não sobre este e depois aquelas, mas sobre a relação entre os dois.
Este post não é a realização do meu desejo, mas como este texto haveria de lançar mão do Saramago, cito-o aqui, em outra tosca homenagem, em belo texto do seu romance mais belo, o Memorial.
"Não tinham medo, estavam apenas assustados com a sua própria coragem. O padre ria, dava gritos, deixara já a segurança do prumo e percorria o convés da máquina de um lado a outro para poder olhar a terra em todos os seus pontos cardeais, tão grande agora que estavam longe dela, enfim levantaram-se Baltasar e Blimunda, agarrando-se nervosamente aos prumos, depois à amurada, deslumbrados de luz e de vento, logo sem nenhum susto, Ah, e Baltasar gritou, Conseguimos, abraçou-se a Blimunda e desatou a chorar, parecia uma criança perdida, um soldado que andou na guerra, que nos Pegões matou um homem com o seu espigão, e agora soluça de felicidade abraçado a Blimunda, que lhe beija a cara suja, então, então. O padre veio para eles e abraçou-se também,
(...) a máquina diminui de velocidade, quem diria que tão facilmente se poderia ser piloto nos ares, já podemos ir à procura das novas Indias. A máquina deixou de subir, está parada no céu, de asas abertas, o bico virado para o Norte, se se está movendo, não parece. (...)
Desce a passarola um pouco mais, com algum esforço se observa a quinta do duque de Aveiro, é certo que estes aviadores são principiantes, falta-lhes a experiência que permitiria identificar de relance os acidentes principais, os cursos de água, as lagoas, as povoações como estrelas derramadas no chão, as escuras florestas mas lá estão as quatro paredes da abegoaria, o aeroporto donde levantaram voo, lembra-se o padre Bartolomeu Lourenço de que tem um óculo na arca, em dois tempos o vai buscar e aponta, oh que maravilha é viver e inventar,"
Por onde começar? Quero falar do Saramago, não sei por onde. Passarolas, porcos, soldados ou jangada?
Vamos pelo porco. Aruanda, blogueira amiga, pergunta-me se a receita original do Umngqusho leva porco. Mas como assim, original? Claro que a pergunta é válida, mas me lembro de uma baiana, fazedora e vendedora de acarajés, quando lhe contaram como era a iguaria em outros países... Ela meneava a cabeça desdenhosamente e repetia que aquilo não era acarajé, que acarajé só o dela. Que sorte, hein baianinha, nasceste justo no país onde os corretos acarajés são feitos. Ou seja, ela assumia uma posição essencialista, daquelas marco zero.
Enfim, acho que a receita original de Umngqusho não leva porco, ao menos a variante que peguei não falava no suíno, mas doravante nossa receita - minha e da Lúcia e do Saramago - levará. Mesmo porque aquele labrego de Azinhavra, que inda ontem se encantou, fez o elogio do porco em Viagem a Portugal, quando em Bragança:
"[O viajante], enfim, caiu em meditação diante das "porcas" de granito, dos "berrões", também assim chamados: famoso animal este que em vida se desmanda, fertilíssimo, em bacorinhos, ranchadas de quinzena, e em morto se desmancha em pernis, lombos, costelas, orelhas, chispes e coiratos, dadivosos até ao fim (...) Para a gente das cavernas e das toscas cabanas que vieram depois, o porco devia ser a obra-prima da criação. Mais magnífica ainda a porca, pelas razões já ditas. E quando a Idade Média levantou os pelourinhos dos municípios, pôs como base deles a porca, animal protector, emblema e algumas vezes guarda. Os povos nem sempre são ingratos."
Aproveitemos, pois, orelhas, chispes e coiratos em nosso Umngqusho, tratando-o com a dignidade que ele merece: não a idolatria essencialista, mas a reivenção.
E olha que sou vegetariano!, de araque mas sou! Tanto que caldo de carne não entrou aqui!! =)
No dia da estreia do Brasil na Copa achamos que pegava bem comermos um Umngqusho, prato sul-africano de origem Xhosa e um dos favoritos do Mandela.
Embora Lúcia e eu achássemos a receita muito conservadora quanto aos temperos, não carregamos muito a mão, pois, sendo a primeira vez que fazíamos Umngqusho, convinha ser mais fiel que inovador. Para ver como ficava e, doravante, ir inventando e transformando.
Usamos pimenta de cheiro, pimenta branca e, claro, louro. Da próxima vez vamos encher nosso Umngqusho de pedaços de porco rumo à felicidade coletiva pois a vida é uma só e o porco é sagrado para nós pagãos.
Ficou muito bom, tudo belissimamente acompanhado por quibebe (mais Áfricas) e frango grelhado untado de geléia de physalis. Para beber, Austral, uma cerveja chilena da Patagônia, tão boa e aromática que ganhará post em separado. A geleia de physalis também. Não fujamos do assunto que a estrela da vez é o Umngqusho, de que Lúcia gostou tanto que fará em sua casa para o próximo jogo do Brasil. Aliás, aqui instituo (este Talisker e esta lua põem a gente comovido como o diabo): jogo do Brasil na África será dia de comer Umngqusho.
Segue a receita para quem quiser aderir. À galera do copidesque que achar que repeti demais a palavra Umngqusho: foi de propósito, para que todos aprendêssemos de vez grafia e pronúncia.
- 200 gramas de milho seco (pode substituir pela canjica) - 200 gramas de feijão manteiga - 200 gramas de feijão fradinho - 1 colher de sopa de caldo de carne - 1 colher de sopa de caldo de legumes - 2 litros de água
Coloque tudo para cozinhar em uma mesma panela. Depois de quatro horas está pronto para servir.
PS: Este post é dedicado aos Xhosas e à minha colega Mônica Lima, Xhosa exilada no Rio, que veste colares, vive intensa e gosta de Áfricas.
Domingo é dia de pedir comida, Santa Lúcia n'est pas chez nous. Mas houve falha de comunicação, eu queria um coisa, o atendente do Jambeiro dizia não ser possível, daí desliguei e fui cozinhar.
Mas não era dia de cozinhar. Não me preparara. Então vamos para comida de acampamento, comida de solteiro, comida não-comida: Miojo.
Mas como, como isso não podia ficar assim, alquimizei. Daí fiz uma redução com mel de laranjeira, derramei o Macallan maravilhoso que bebia e, last but not least, espalhei Zimbro, erva sem a qual não se vive.
Filho e neto de bibliófilos, rodeado de livros e ganhando livros de presentes, não causa espécie que o mocinho enfim os descubra e já os comece a ler, sensorialmente.
Dante sempre faz suas refeições principais ao som do Grupo Olá. O disco inteiro tem quase uma hora. Assim, uma refeição leva, geralmente, o disco todo e mais algumas canções repetidas.
Neste pequeno vídeo, ouve-se o pai assobiando a última, linda, música, "Maria", a única que originalmente não fazia parte do disco, mas nem por isso menos ótima. Ou seja, o disco acabara de acabar (seus 57') e ainda faltava uma colherada. Colherada que reúne a raspa do prato. Raspasse mais, os desenhos do prato vinham junto.
Não faz muito, saíamos cedo, muy temprano, às vezes antes mesmo das sete, para passear.
Agora não dá para sair antes das nove. E o passeio da tarde, infelizmente cada vez mais abreviado, começa cada vez mais cedo. Nós, que descíamos às cinco, hoje já pensamos em voltar por esta hora!
E nós, que do sol fugíamos, vamos à cata dele, que cedo se esconde por detrás dos espigões.
E inverno nem começou. Imagina quando 21 do 6 chegar e as amendoeiras da praia se puserem a caducar...