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Monday, April 03, 2017

Isolda



Uma das cenas memoráveis de Tomates Verdes Fritos, e aqui as temos a mancheias, é aquela em que Ninny revela a Evelyn que tivera um filho, Albert, portador de necessidades especiais. Quando ele nasceu, o médico a aconselhara que não o visse, já que sua mente não desenvolveria para além dos cinco anos de idade e que ele deveria ser institucionalizado, pois criar filho assim seria um fardo muito pesado ("the burden of raisin' a child like that would be too great"). Talvez nem mesmo o colocassem em uma instituição (isso não está no filme, sou em quem diz agora), mas simplesmente o deixassem morrer ali, no frio de uma bancada de hospital, já que, até Reagan (logo ele!) assinar a Emenda Baby Doe, em 1984, pais e médicos podiam, se quisessem, deixar essas crianças morrerem.

Mas Ninny é diferente. Contrariando seu sábio médico, sorri para ele e pede para ver seu bebê. Oh, como alguém pode pensar que aquela coisinha preciosa poderia ser um fardo? Ah, desde seu nascimento, Albert foi a alegria da minha vida, o maior presente de Deus. Não acredito que tenha jamais havido uma alma mais pura no planeta...

Me lembrei disso tudo ontem, me lembro disso agora, a respeito da Isolda, que ontem fechou aqueles zoião amarelo para sempre. Aliás, eu sempre pensei isso dela. Que não houve nunca, jamais, um gatinho mais doce, mais dócil, vivendo neste planeta.
 


Wednesday, October 08, 2014

O Homem que Quase Matou a Gata

Na gaveta do Dante


Teve aquela mulher que matou os peixes. O homem quase matou a gata. O homem sou eu.

Explico: gato persa é aquele peludo, aquela almofada ambulante, aquela maciez de sétimo céu. Isso tem um preço: escovação diária. Quando Isolda veio morar comigo, Dante sequer existia, ela é a primogênita mesmo e não creio trocara sua primogenitura por nenhum prato de lentilhas, nem tivessem elas sabor Royal Canin 30.

Gato novo a gente escova todo dia mas aí o tempo passa, e inda que o amor não diminua (ele cresce), vem o menino e depois tanta tanta coisa até mudança de casa. Até mudança de casa, daquelas de atravessar a ponte e gatos, sabemos, odeiam mudanças.

Gatos falam, falam mais que peixes, mas o homem já não escova o gato e ele encolhe até que um dia o homem o percebe triste demais, como a macaca Lisete daquela mulher que matou os peixes. Corrida para o veterinário.

A gata tem que ficar por lá, para grande consternação do homem que volta para casa com a gaiola amarela vazia. Mais que consternação, culpa. A gata é operada de piometra, e de quebra (devo dizer rasgo?) retiram-lhe útero e ovários.

A gata volta mais magra para casa, mas, pasmem, aqueles comportamentos indesejados como o aliviar-se fora da caixinha e as serenatas da madrugada não conhecem termo. Para piorar, o pelo começa a cair em placas. Outra corrida para o veterinário e, em outro dia, para o banho e tosa.

Isolda, a princesa irlandesa das mãos brancas, parece uma ratinha. Temendo depressão pós-tosa, escondemos todos os espelhos da casa.

É essa a história. Espero que me perdoem. Já prometi a ela e a mim, à babá do Dante, à minha mãe e à tosadora, que nunca mais deixarei de escovar Isolda diariamente.

Isso quando ela voltar a ter pelos, claro. Mas ela está bem, contente e faminta. Aliás, escrevi essa bobaginha com ela ao lado, olhando-me com seus olhos de sol, lambendo as mãozinhas e miando rouco.

A mulher matou os peixes e concedo, pode ser que, com útero e ovários e sua cabelereira, tenha ido uma vida também. E daí? Temos outras seis.

Sunday, August 18, 2013

Um gato chamado Gatinho II - O ron-ron do Gatinho


Dando continuidade ao post anterior (aqui), a vó da Isolda lê o poema do Gullar.

Em seguida um vídeo pescado no youtube com o poema musicado pela Adriana Calcanhoto. No youtube encontrei a música com a própria num show, mas não consegui passar para cá.

Por fim, a Isolda. Para que ela não fique com ciúme do gatinho do vídeo e pare de fazer ron-ron-ron-ron pra mim.





Thursday, March 10, 2011

Quarto de Despejo


Toda casa -- casarão, casebre ou casucha -- terá o seu quarto, ou canto, da bagunça. É aquele espaço onde amontoamos o que um dia (**yaaawn**, preguiça) será devidamente ajeitado, catalogado, posto em seus devidos lugares. Um dia, hoje não.

O daqui de casa fica nos fundos. Excavações recentes levadas a cabo por arqueólogos da Universidade de Trípoli atestam que lá funcionavam as tais das "dependências sociais", eufemismo para quarto de empregada. Os moradores anteriores fizeram ótima obra e nos legaram um quarto a mais. A bagunça é, basicamente, minha. Quando vem visita, Bia, rubra de vergonhas, veda a entrada com saibro e cimento.

A foto é recente. Contemplem à esquerda um cachorrinho do Dante, que pifou (o cachorro, não o Dante), pondo-se a latir baixinho infinita e roucamente. Vejam as pastas de onde transbordam provas e exercícios, pedindo arrumação que teria sido feita neste Carnaval. Vejam a velha mochila preta, aposentada por invalidez. E... êpa!, que monte de pelo e dengo é o bicho ali à direita???






Apesar de sutilíssimo, o clique do celular é suficiente para despertar a Isolda, cujas orelhas têm mais terminações nervosas que as de um coelho.

Friday, March 19, 2010

Miau

Esqueci como se diz "Feliz Aniversário" em gatês, meu dicionário gattese-italiano está no quarto do Tutuca, que por ora dorme, então vamos de miau mesmo para o título deste post.
Isolducha fez três aninhos no dia 16. Lica comprou bolo de abacaxi e à noite cantamos parabéns. Isolda, Lica, Dante, Lúcia, eu.
We are family!
I got all my sisters with me!!

Friday, July 31, 2009

Árvore azul, cachorro amarelo, gato cinza


Foi Gauguin, o genial pintor Paul Gauguin, quem falou: "Se você vê uma árvore como azul, pinte-a azul". Apesar das aspas, estou citando de memória e não garanto se as palavras são exatamente estas, mas afianço que muito próximo a essas são. No Tahiti viu este cachorro vermelho e vermelho pintou-o (Arearea, 1892). Ele foi incompreendido pelos idiotas que achavam (acham ainda) que a pintura deve espelhar a realidade. E mesmo se assim fosse, e assim é, qual realidade, cara pálida, a sua apenas? Cansou de tudo e se mandou pro Tahiti, onde encontrou belas morenas, dizem que mais belas que as do Tororó, e por lá ficou, bebendo águas e pintando morenas e cachorros vermelhos.
Por que isso tudo? Porque descobrimos, enfim, eureka!, o porquê de o Dantuca não dar a mínima para a Isolda (lembram o final da entrevista?). É que Isolducha é cinza. Ela é, na verdade, cor de tartaruga esfumaçada (a cor, não a tartaruga), mas admitamos que prevalece o cinza. O mais belo cinza, quente e sedoso, que já vi. Mas para o Dante não adianta, é de pouco apelo. Ele também é de pouco apelo para ela já que nunca lhe deu comida, mas, voltando ao gato... que fazer? Já a vejo amarela. Pinto-a amarela? A vontade é grande, vou comprar as tintas. Salvam-na os que encontrarem roupinha amarela berrante para ela em algum petshop (esta é para você, leitora querida Maria). Caso contrário, Zuca amarela será.