Monday, January 15, 2018

Dolores : Hope you never grow old




Porque a vida só é possível reinventada, uma das histórias que inventei nas minhas aulas reside bem ali, no finzinho de Fried Green Tomatoes. Já assistimos ao filme, discutimos personagens planos e redondos, caracterizações, tempo e espaço, história, guerra civil, antebellum homes, racismo, homoerotismo, dentre outras coisas.

Tiro uma aula, acho que a última do projeto, para dar-lhes a receita de tomates verdes fritos e (agora a história) :

Digo para os alunos que eu e Dolores O'Riordan éramos amigos, amigos virtuais na época do orkut, onde trocávamos scraps, depoimentos e, às vezes, e-mails. Conversa vai, conversa vem, falando de filmes, descobrimos que ambos temos  FGT entre nossos preferidos e, aí, sugiro a ela escrever uma canção para a Ninny. Ela meio que desconversa mas, três dias depois, me apresenta "Never Grow Old", que sairia no (ótimo) álbum Wake up and Smell the Coffee (2001).

Tudo inventado. ("Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura")

Alguns boquiabertos alunos perguntam "Séééério?!" e eu respondo tocando a música.

E aí conversamos por que a música pode ser algo como o "tema da Ninny", a diferença entre "grow old" e "grow up", enfio o "It takes a long time to become young" do Picasso, falamos da jovialidade maravilhosa da Ninny, cujas histórias transformam uma Evelyn triste e reprimida numa mulher em busca da sua voz.

Então, é isso.

Minha amiga Dolores se foi hoje. Forever young.


(vale pela música; imagens bobinhas)


Pra Keila

"Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada." (Cecília)

Acreditei no amor, este monjolo

O monjolo da infância mais sedenta

Um dos livros que mais li na vida foi escrito, em sua maior parte, de novembro de 1978 a junho de 1979, em Porto Alegre. Nos final dos 80 vieram outros sonetos e o livro enfim se fechou, em 1989, com 79 deles. Era para se chamar Roda do Dia (Monjolo), sendo 'monjolo' um "engenho tosco, movido a água, usado para pilar milho e, primitivamente, para descascar café". É o próprio Carlos Nejar quem explica "E esse ato de moer, pilar, descascar, triturar não seria o que Shakespeare denominou 'a guerra do tempo'?

Pena que depois, sabe-se lá o motivo, o livro veio a se chamar Amar, a mais alta constelação, talvez mais apropriado para sonetos do Paulo Bomfim ou J. G. de Araújo Jorge.

Uma pena. Eu amo monjolos.

MONJOLO


Acreditei no amor, este monjolo
esta sequência pertinaz, isenta
que foi história e coma na cinzenta
trituração. No amor não há consolo

a quem ama. Constringe o espesso joio
para cevar o evento que rebenta
do próprio ocaso e deste amor de rojo.
O monjolo da infância mais sedenta

que a maleita maleva. Tenho sede.
O monjolo do corpo noutro, dentro;
monjolo da paixão e das calendas.

Monjolo, Deus. Monjolo, onde me esqueço.
Fração nenhuma apraz esta moenda.
Fração alguma. Amor na morte aumenta.

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Este o monjolo do restaurante Roda D'Água, em Duas Barras. O bolinho de bacalhau e a truta estavam bons e eu voltaria mesmo não estivessem.

O monjolo do corpo noutro

Monjolo das calendas

Monjolo, onde me esqueço

Era Cachoeira do Macacu e chovia

Matriz de Duas Barras : forro da nave


Meu Ano Bom (como dizia minha avó) foi ótimo, mas na hora mesmo da virada fiquei com vontade de ouvir "Sassaricando" e Martinho da Vila e dançar segurando a camisa acima da cabeça. Vontade não compartilhada por mais ninguém na sala (éramos cinco), de modo que dancei um pouco sozinho.

Aí ontem eu fui a Duas Barras, terra natal de Martinho da Vila, para ver o Encontro de Folia de Reis. Foi tudo muito emocionante, uma ou mais postagens em breve. Na volta, na descida das serras, fomos surpreendidos por uma chuva de matar sapo afogado (isso minha avó nunca falou). Justo quando paramos para um café em Cachoeira do Macacu. E quem estava na parada, falando ao telefone, de sandália, chupando seu cigarrinho pra lá e pra cá?

Ele, o quase octogenário Martinho da Vila.

Depois dizem que há coincidências.

Saturday, January 13, 2018

Não passei de fase ainda

Dante estava para nascer e me disseram que eu iria lá checar se ele, recém-nascido, respirava em seu berço.

Passados nove anos, não passei de fase ainda



O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho




Houve momentos em que não gostei de O Filho da Mãe (2009), de Bernardo Carvalho: aquele monte de trama de difícil costura, a ênfase na diegese, o inverossímil de alguns diálogos entre Andrei e o ladrão. Para além disso, senti falta daquela profundidade encontrada em Nove Noites, Mongólia, Simpatia pelo Demônio (aqui e aqui).

Mas houve outros momentos, principalmente no fim, em que gostei muito de O Filho da Mãe. Ainda é um Bernardo Carvalho, ainda é uma ótima grande narrativa nesta época de fragmentação. Tirante o fato de a leitura praticamente coincidir com o dia que tirei para assistir a The Search, filme que também trata das guerras na Chechênia.

O melhor de tudo são as quimeras

The Amazing MAZE



Não foi o The Maze do jazz, tampouco o do curry (já sabíamos), e tampouco foi o The Maze de uma simples cervejinha (Guitt's fosse) para a paisagem.

Mas tinha gato lindo, deliciosamente preguiçoso, curtindo uma ressaca ao lado do Bob. Que fermentava a sua.

E os mosaicos estavam lá. Pobre Park Güell.

E aquele lindo seio apontando orgulhosamente o céu, mais firme que a Sul América (ei, isto é Bandeira!), também.

PS: Reparem, na primeira foto, como os mosaicos continuam a paisagem.
 









Friday, January 12, 2018

Carlos Frascari, Leitor de Azulejos




Quando aprendeu a ler, o caçula de Carlos Frascari não conseguia não ler o que visse pela frente. Desde que foi picado pela paixão dos azulejos, há 40 anos, Carlos não consegue deixar de lê-los, colecioná-los, amá-los.

Desses amigos feitos na rede que depois nem lembramos como, Carlos esteve presente na abertura da minha exposição de fotos de botequins no Bar do Mariano (aqui), e desde então acalento a ideia de visitar a ele e à sua coleção. Enfim, hoje.

O professor de arco chinês me recebe em seu apartamento modesto no Estácio. Um pequeno grande museu, com as paredes recheadas desses singelos pedaços de barro vitrificados de um lado. Como é próprio dos colecionadores, para cada peça, histórias. Irreverentes, simples, apaixonadas. Todo um Rio demolido naquelas paredes: este aqui era do Café e Bar Treviso, que virou o Asa Branca, este aqui um casarão de Vila Isabel, este uma barbearia do Jacaré. Suspiro.

E são motivos marinhos, são pessoas e paisagens, são barras e lambris, é Bélgica, Alemanha, Holanda, Irã e, claro, Portugal (os primeiros policromados!).

Não bastasse, sua biblioteca com 180 livros sobre azulejos, para ele tão valiosa quanto a coleção de 3.600 peças. Para bibliófilos, faz todo sentido.















Thursday, January 11, 2018

Café e Bar Pinto Rei ~ Penha



O padrão de azulejos enxaquetados nas cores preto e rosa em botequins cariocas é mais raro que olho-de-boi. Encontrei-o em agosto de 2011 em Vila Isabel (Brazão de Ouro), no dia mesmo em que o botequim iria fechar para reforma, a qual, por óbvio, não deixou um único exemplar para contar as histórias. Encontrei-o depois em Bonsucesso (Café e Bar Lourenço Marques!), em dia de jogo em que o rubro-anil da Leopoldina subiria para a primeira divisão.

E só.

Só até ontem, posto que hoje encontrei esta joia na Penha, conservada como que em formol. Para além dos azulejos, tem cerveja Eco grande a 6 reais. Tem angu à baiana todos os dias a partir das 3 da tarde. Tem toneis de batida de maracujá, gengibre e leite de onça.

Não bastasse, atende pelo singelíssimo nome de Café e Bar Pinto Rei.

Nem novela das oito.

Meu próximo aniversário é lá.






Ouvi-lo agarrado à tarde



descer pra comprar pizza -- um
pretexto (havia o telefone)
para o canto das cigarras
ouvi-lo agarrado à tarde
arrancá-lo pelos cabelos

e antes mesmo da descida
enquanto o poema se formava na cabeça
ouvi-lo

Tuesday, January 09, 2018

O Cristo Seráfico do Largo da Carioca




Problema para estatísticos do segundo período: e quantos não serão os cariocas que cruzam o Largo todo dia, que sonham ou se lembram suspirosos de suas viagens a Ouro Preto e Salvador, onde puderam ver belos exemplos do barroco colonial? Quantos desses cariocas não ignoram que logo ali, impassível no que já foi um morro e hoje é pequena elevação, está porventura (sem bairrismos) o mais belo exemplo do barroco? De quebra, com a estupenda imagem do Cristo Seráfico.

Existe um Bom Jesus de Matosinhos impressionante em Conceição do Mato Dentro. Existe um lindo Nosso Senhor do Bonfim em Pirenópolis (aqui).

E aqui, bem no Largo da Carioca, este primus inter pares Cristo Seráfico, joia e mistério do barroco carioca de trezentos anos, com não um ou dois, mas três pares de asas.

Essa história de Cristo anjo é interessantíssima, estando mais ou menos ligada aos estigmas de São Francisco. Giotto (século XIII e XIV) já pintara o seu.


No Brasil, até onde sei, é o único.

(Pouco meses depois descobri outro em São João Del-Rei.)



Monday, January 08, 2018

Meu Armando Freitas Filho autografado




Com grande entusiasmo postei aqui minha aquisição de um Tite de Lemos autografado, um dia maravilhoso no Largo da Carioca, ele um dos meus postas queridos.

Consigo agora, no mesmo sebo, semelhante relíquia de um de seus amigos e colegas de geração: o 3X4, do Armando Freitas Filho. Para fechar, falta agora edição autógrafa da Ana C.

Aliás, o livro, de 1985, mas que traz poemas de 1981 a 83, é dedicado à Ana Cristina Cesar, desde a "Dedicatória e Declaração" ("Para Cristina / esta poesia") e a epígrafe, dela mesma: "Imagino a onipotência dos fotógrafos escrutinando por trás do visor, invisíveis como Deus".

Ana pulara da janela da Toneleros em 83.

Uma relíquia, sim, pela edição fofa (não é mesmo um 3 x 4?) e pelo autógrafo. A poesia é boa, gosto do Armando, não é nenhum ingênuo, mas não adoro. O gosto pelos trocadilhos.

Para uma obra 3 x 4, uma contracapa de José Guilherme Merquior, um prefácio de Flora Süssekind e um posfácio de Silviano Santiago são mais que excessivos. Não é difícil ver aqui, segunda metade dos anos 80, uma crítica superaparelhada sem ter material em que pôr as mãos. Era o que tinha pra hoje.

Mas gosto do Armando


Os pássaros apressam o céu