Saturday, November 11, 2017

Locanda della Fate :: O Show



A crítica especializada italiana sói ser bastante azeda em relação ao vocal das suas bandas de rock progressivo. Já no primeiro livro que li, Paolo Barotto elogiava o Museo Rosenbach, com exceção do vocalista, segundo ele problema frequente da cena italiana dos anos 70.

Façam-me o favor, Signor Paolo Barotto e todos os demais surdos para o fato de que reside precisamente na voz uma das forças e características mais marcantes disto que deixou de ser apenas uma cena para ser todo um gênero em si próprio: o rock progressivo italiano.

Gosto de dividir essas vozes em três categorias: a dos 'roufenhos' (Alvaro Fella do Jumbo; Stefano Galifi, do Museo; Vito Paradiso, do De De Lind), a dos suaves e melódicos (Cabanes, do Reale Accademia di Musica; Aldo Tagiapietra, do Le Orme; Marcello Dellacasa, do Latte e Miele) e a dos inclassificáveis (Alan Sorrenti, Francesco Di Giacomo, Demetrio Stratos).

Leonardo Sasso, do Locanda della Fate, é a síntese perfeita entre as duas primeiras categorias. Pelo timbre da voz, um roufenho, quase um baixo (e aqui penso num Enzo Capuano). Pelo caráter dir-se-ia pastoral da música, um melódico. Mais que isso, una dolcezza infinita.

Vê-lo e ouvi-lo ao vivo cantando as músicas que ouço ininterruptamente há mais de trinta anos foi emoção grande e não fossem as fotos e autógrafos eu diria que, numa noite de sexta-feira, exagerei no vinho e sonhei com tudo aquilo.

Mas foi bem mais bonito que um sonho.





Amor que uma vida não dá conta





Crônicas Cunhenses II :: Era um burrinho pedrês


 Encontrar nas pedras portuguesas de Cunha toda uma tropa, tendo à frente ele, miúdo e resignado, que já se chamou Sete-de-Ouros, Brinquinho, Rolete, Chico-Chato, Capricho, mas que passou à eternidade mesmo como burrinho pedrês apenas.

Será mesmo ele, tão mineiramente mineiro, em terras paulistas? Dou fé: vi a marca-de-ferro: um coração no quarto esquerdo dianteiro. Que os ciganos, que o raptaram, tentaram apagar.



Tuesday, November 07, 2017

Gozando Junto :: A Exposição



Gozando Junto é uma 'série' aqui no blog, alcançando já 28 postagens. Não chega a ser uma tag (está dentro de Fotografia), mas é série algo persistente, que vai desde maio de 2013 (aqui) a agosto de 2017 (aqui). Seriam mais postagens, houvesse mais disciplina. É um projeto, dos muito pessoais e inúteis, como o dos botequins velhos, das serralherias, patrimônio em geral. O dos botequins velhos virou exposição (aqui), itinerante e ainda circulante, então o Gozando Junto virou também.

Não é bem uma seleção das melhores fotos, foi o que deu pra fazer, entre Dante, aulas, inventário e os mesmos sem roteiro tristes périplos.

Para quem ainda não conhece  a Gozando Junto, trata-se de registrar desconhecidos tirando fotos. A exposição tem 31 registros que vão de um botequim em Maria da Graça a um templo na Tailândia, de uma mesquita em Marrocos a um museu em São Paulo, de São Januário a Istambul, da África do Sul ao Grajaú, dentre outros lugares e situações.

 A fotógrafa e gentil colega Fátima Vollu escreveu a apresentação :


Olhar o outro, pelo outro.


Um olhar a partir de trinta e um olhares.


O olhar do outro passa a fazer parte do seu olhar, do seu recorte.


Evandro nos mostra em imagens o ato de fotografar. Registra o espaço / tempo que as pessoas escolheram para guardar em imagem algo significativo para elas, tal como Barthes aborda em A Câmara Clara.


O espaço é ressignificado com olhar singular. Evandro não o vê de forma isolada, mas inclui cenas, histórias vivas e registros que se tornarão memória dessas pessoas anônimas.


Se apropria das narrativas desses anônimos e cria novas. Ao fazer isso, se aproxima destas pessoas e de suas histórias, com imagens que nos trazem referências visuais dos fotógrafos / fotografados: roupas, poses, escolha do local e do enquadramento para o click. Mas entre estas percepções e a leitura de quem as observa há muito espaço para imaginação e narrativas diversas que serão construídas na relação com o público.


É isso que as imagens da exposição trazem: oportunidades para viajar junto com os olhares de Evandro. Instigam o público a investigar cada detalhe, onde fotógrafo, fotografados e espaço interagem.

Crônicas Cunhenses I :: Abertura dos Fornos

Masakazu Kusakabe no ICCC


A cerâmica em Cunha teve início em 1975. Essa história de fazer da abertura dos fornos um evento, 13 anos depois. Nada mais merecido: a abertura dos fornos, seja ele noborigama ou não, é um evento. A multidão de câmeras o prova. A emoção dos ceramistas, seja um experiente seja um neófito, idem. A paixão com que mestres com mais de 50 anos de barro nas mãos discutem como determinado detalhe foi alcançado é argumento definitivo de que estamos diante de evento único. Porque nunca se sabe ao certo o que o fogo fará com argila e esmaltes. Um pouco como fazer cerveja. Um pouco como as fornadas de pão-delícia da Camila.

Aldea Terras de Cunha (e 9 seguintes)








Primeira peça

Forno sem fumaça no Instituto da Cerâmica de Cunha ( e 7 seguintes)







Where ovens do have names ::  Samadhi


Sunday, November 05, 2017

Só depois é que amamos / A quem tanto amávamos



Na tarde em Cunha, entre flamboyants e trissar de andorinhas, ler Ruy Espinheira Filho no banco de pedra ::

Só depois percebemos
o mais azul do azul,
olhando, ao fim da tarde,
as cinzas do céu extinto.

Só depois é que amamos
a quem tanto amávamos;
e o braço se estende, e a mão
aperta dedos de ar.

Só depois é que sabemos
lidar com o que lidávamos.
E meditamos sobre esta
inútil descoberta

enquanto, lentamente,
da cumeeira carcomida
desce uma poeira fina
e nos sufoca.

Tuesday, October 31, 2017

Crônicas Soteropolitanas III ::: A Cena Cervejeira Artesanal Baiana



Não será esta postagem um encômio à cena cervejeira artesanal baiana. Á incipiente cena baiana. Nesta cidade tão linda quanto tumultuada dominada pelas horrorosas Devassa e Schin, onde já é difícil encontrar uma Bohemia ou um casco verde salvador, a produção artesanal é mais que bem-vinda, inda que surgindo aos poucos.

No pub Rhoncus tomamos duas fabricadas por lá: uma IPA e a Tricolor, uma American Lager. Pedimos a Tricolor enquanto rolava o jogo do Bahia contra o Flamengo! Great expectations! Quando o Bahia empatou, a lager desceu bem. Depois que o time carioca fez o quarto gol, a gente caiu na real que a cerveja não era lá essas coisas.

Com a Amada foi pêor (em homenagem ao Bahêa): os rótulos são espetaculares, o copo é bonitinho, mas a IPA é apenas bebível e a Dos Santos, uma American Blonde Ale (é o que diz o rótulo), não presta nem como refrigerante. Mas foi tomando ela que eu bati os olhos no painel do Max Urban do outro lado da rua (aqui).

O Bahia perdeu e a cerveja não era grande coisa. Mas eu tinha as melhores companhias



To the Lighthouse



Não foi proposital. Volto ao Farol da Barra por amor de conferir o por do sol e, ao organizar fotos, vi que está sendo este um ano de farol, faróis: três na África do Sul, um em Sergipe, este da Bahia.

Consulto o índice do lindo Luzes do Novo Mundo : História dos Faróis Brasileiros e nada de achar o Farol da Barra. Pampi e eu estupefatos e indignados quando descobrimos seu nome de pia: Farol de Santo Antônio. Por sinal, o primeiro do livro. Por sinal (sinal luminoso catóptrico), o primeiro do Brasil e das Américas.

Trilha-sonora: A plague of lighthouse keepers ("I am a lonely man / My solitude is true")

Leitura: To the lighthouse

Then he reminded them that they were going to the Lighthouse tomorrow.


How could any of them say, But I won't, when he said, Come to the Lighthouse. Do this. Fetch me that.

Waterfront

Boa Esperança

idem

Agulhas

Aracaju



Sunday, October 29, 2017

As Canções do Greg



O que "Lucky Man", "From the Beginning" e "Still you turn me on" do ELP têm em comum? Fácil: são baladas, comparadas ao típico ELP, canções do Greg Lake.

Mas o que chama a atenção é que nas três não temos apenas o Greg solo, pelo contrário, nas três temos a (oni)presença da tecladeira do Keith.

Será fácil enxergar aqui um Keith chatão, bossy à la Paul, que não deixaria de dar os seus pitacos numa música, ainda que não fosse composição sua.

Embora me pareça correta, essa interpretação pede também uma outra, mais positiva. Ao contrário dos Beatles, já que citei o Paul, que chegaram  a um ponto, a partir do Álbum Branco, em que todo o sentido de união de grupo se pulverizara e que cada um tinha a sua música (o próprio George falou a um reticente Eric Clapton: Claro que você pode tocar, it's my song!), acho muito interessante que se preserve aqui um sentido de grupo e que mesmo numa canção (palavra aqui mais apropriada que música), o tecladista desse a sua participação. A sua grande participação, basta lembrar que "Lucky Man" tem o primeiro solo de moog de todos os tempos (aqui).

Não, não é pouco.






Friday, October 27, 2017

Five Years : What a Surprise!



Aconteceu tão logo comecei no colégio. Peguei uma turma de 8o ano (então chamado de 7a série), com quem permaneci no ano seguinte. Depois, no Ensino Médio, alguns alunos escolheram inglês e, por sorte, as minhas oficinas. De modo que foram meus alunos por 5 anos seguidos. São a Nanda, o Henrique, o Nélson. Formaram-se em 2004.

Depois nunca mais, mesmo porque é raro eu dar aula pra 8o ano. Mas peguei turma desses pirralhos em 2013. E, adivinhem, acompanhei-os no ano seguinte. E, adivinhem, alguns permaneceram comigo até agora: 5 anos já. São a Camila, a Joia, a Bela, a Isabella, a Helena.

Se por um lado é difícil dar aulas para os mesmos alunos durante 5 anos seguidos -- difícil, por exemplo, cumprir a primeira regra de never repeat a joke --, por outro rolam uma intimidade, uma troca, um carinho simplesmente deliciosos. Se o desafio da motivação e da conquista parece, at a glance, amainar, ocorre justamente o contrário: o desafio aumenta, ambos os lados.

Saudades já.

A trilha para esta postagem é "Five Years", do David Bowie, que se encantou durante este período em que elas me deram aula. A rigor, a letra, tirante a obviedade do título, não se adequa à postagem: aqui David, então em sua fase espacial, trata do período que nosso planeta teria antes de ser destruído, um período futuro, portanto, ao passo que euzinho aqui falo de um período passado.

Mas dois versos caem como luva: "I never thought I'd need so many people" e "We've got five years, what a surprise".

E eu quero que cinco anos sejam também um período futuro. E mais cinco e cinco e cinco.










As fotos são do Silmar. Obrigado, querido!