Thursday, August 20, 2015

Asas do Desejo Romanas :: Asas do Desejo Romano



Achei quase que por acaso fotos do dia em que passamos em Roma, voltando de Istambul, no começo do ano. Roma não foi feita em um dia, mas em um dia se vê muita coisa linda, inda mais se o céu é daquele azul tão visceralmente romano quanto as alcachofras e a cor ocre de suas construções.

Achei cabia pequeno ensaio com aqueles que sobre e por ela velam.

Parem de dizer que eu só tiro foto de pé-sujo.









Tuesday, August 18, 2015

A Toccata de Ginastera e o Precipitato de Prokofiev


Existe um bocado de controvérsia em torno de Lang Lang. Eu, que entendo muito pouco, direi somente que sua interpretação do 'Precipitato' da sétima sonata do Prokofiev me lembra o que o Emerson, Lake & Palmer fez com a Toccata do Ginastera. À época, o argentino (gênio) afirmou que o ELP compreendera como ninguém a sua composição. Como ele não falava inglês, de sua boca saiu apenas um "Diabólico" ao ouvir a versão progressiva pelo próprio Emerson, que viajara para a Suíça unicamente para tocá-la (em fita cassete) para ele, durante as gravações mesmas do Brain Salad Surgery. Se Emerson empreendou sua viagem para ganhar uma chancela, acho desnecesário; se para ganhar uma bênção, acho bonito. 

Não era novidade que grupos de rock progressivo fizessem (re)leituras de obras do repertório erudito. Os compositores, claro, eram os velhos conhecidos de sempre, e os resultados variavam enormemente entre o chato / dispensável (Latte Miele com sua "Opera 21", de Beethoven), interessante / bonito (Rovescio della Medaglia com Contaminazione, de Bach) e realmente empolgante, como o que o espanhol Los Canarios fez com as "Quatro Estações" de Vivaldi em seu Ciclos.

O mais interessante aqui, apenas para começar, é que Alberto Ginastera é um compositor contemporâneo, de um país latino-americano sem grandes tradições eruditas. E Keith escolheu apenas um movimento do seu primeiro concerto para piano, peça de 1961. Ou seja, o cara era antenado! Eu ouvi tanto, mas tanto isso lá por volta dos 13 anos que depois enjoei. Hoje, com o ouvido muito mais afeito à música erudita, vejo inequivocamente uma prova do gênio de Keith Emerson e, por extensão, de toda a banda. Exemplo cabal de pós-modernidade.








E o Lang Lang? Ele consegue imprimir clareza em um tempo de incrível rapidez. Em prol desta clareza, Glenn Gould sacrificou a rapidez. Mas o Glenn (gênio) era doido.



Monday, August 17, 2015

Hoje desisto de ensinar tua morte



hoje desisto de ensinar tua morte
ao gato
que ou ainda espera certo do teu retorno
ou como os elefantes do Sri Lanka
já sabia antes de acontecer
e assim torna-se mais espesso e orgânico
e amarelo de sol
sobre tua cama

Saturday, August 15, 2015

Botequins de Benfica (para ficar bem na foto)

Fica Bem


Agora que o CADEG caiu no gosto do carioca, aula magna / maligna, história viva da gentrificação, agora que o sujeito que faz carreto já quase não consegue tomar sua cerveja por lá, lembremos que o bairro tradicional reduto lusitano guarda botequins verdadeiras relíquias.

Velho conhecido Adonis. Com a grana que entrou, ampliou e tal, mas conserva-se dignamente. Lembro-me do tempo em que se podia espetar um palito na espuma do chopp que ele levava mais de um minuto para pensar a começar a submergir. De pé.

O Fica Bem é daqueles guardados em formol. Já fui mais de uma vez, já passei de carro outras tantas, sempre temeroso de que tenha sumido ou reformado. Uma das fotos, bastante ruim, é de 2011, e traz ainda a senhorinha galega que era a dona. Jamais esquecerei da conversa que tivemos sobre o Dante.

O Primavera parece que fechou. Também quem aguenta tocar boteco sozinha abaixando a cabeça para não levar tiro. Jamais esquecerei também de quando lá estive, ela baixava as portas, eu supliquei-lhe que me recebesse. Fiz as fotos, conversamos, paguei em dobro.

O Jaraguá conheci anteontem. Que bela Nossa Senhora de Fátima dentro da estrela vazada.

Adonis





Fica Bem





Jaraguá



Primavera


buracos de bala



Friday, August 14, 2015

Seu André, botafoguense roxo



Seu André, cearense de Nova Russas, dentuço, gago, botafoguense roxo, dono de botequim em Triagem em que resiste uma parede de azulejos tradicionalíssimos. Triagem, bem o sabeis, é reduto militar. O centenário Hospital do Exército fica a um salto de pulga dali. Seu André, cearense de Nova Russas, sabe que dono de botequim não pode levar paixão clubística a ferro e fogo que espanta clientes. Falo com ele do bar em Mendes cujo dono vascaíno usa uma camisa do Flamengo como pano de chão e ele ri gostosamente. Ele me fala de um militar reformado, flamenguista, que tirava sarro do seu time do coração e ele levava na esportiva. Um dia esse militar, segundo semestre do ano passado, foi ofender a Dilma, chamando-lhe, dentre coisa e outra, de terrorista. Seu André, paciência apreendida sob o sol das roças de milho de Nova Russas, argumenta que ser terrorista naquela época era lutar contra a ditadura assassina. Seu interlocutor não gosta. Nunca mais fala com ele. Passa pelo botequim apenas para tomar sua cerveja no bar ao lado.

Seu André perde o cliente, mas não o seu senso de justiça.

Demonstro meu total apoio. Mas ao me despedir, exorto "Olha, mas não vá me tirar esses azulejos azuis e brancos porque senão quem para de falar com o senhor sou eu."

Seu André ri gostosamente, dando provas inequívocas de que engoliu mesmo o piano, deixando apenas o teclado do lado de fora.



Thursday, August 13, 2015

Colónia del Sacramento ::: Azulejos



Colónia del Sacramento e seus lampiões e casas de pedras e mar e suspiros. E uma cidade disputada por portugas e hispanos não poderia deixar de ter azulejos. 

Todos os registros do muy viejo casco antiguo. As duas últimas, soberba azulejaria em relevo, fora deste centro, são de um prédio da polícia. Me encanta o azulejo "errado", a lembrar o trabalho do artista Fábio Carvalho. E reparem que toda a primeira coluna é de azulejos "errados", a lembrar também o grande Athos Bulcão.















Thursday, August 06, 2015

Cinco Limeriques para a Letícia Que Sorri como a Lua



Letícia tem sorrisos como a lua
Oh, meu Deus! Terá comido a lua?
Satisfez o seu desejo
de saber se era de queijo?
E onde foi isso? No céu ou na rua?

Letícia tem sorrido como a lua
sorri quando só no céu continua.
Assim me sorri na praia
sorri de jeans ou de saia
sorri quando cai no meio da rua.

Letícia tem sorrido como a lua
sorri quando só no céu continua.
Assim me sorri na praia
E assim sorri na gandaia
e mesmo que caia no meio da rua.

Letícia tem sorridos como a lua.
Eu pluralizo o verbo e sento a pua.
Que que é isso, caro Evandro?
Se achando muito malandro?
Denunciemos pra Grande Cacatua!

Quarto de lua Letícia sorri.
Quarto sala cozinha por aí.
Que limerique pateta
Digno dum grande poeta.
E a pequena, o que diz? Nada. Só ri.

Tuesday, August 04, 2015

Crónicas Uruguayas V ::: Em Busca do Candombe



Escolhemos o Hotel Esplendor não apenas pela sua localização central, mas porque lá se hospedou Julio Cortázar em 1954, que chegou a utilizá-lo como cenário em seu conto "A porta interditada", conforme se lê neste post aqui.

Que a rua do hotel, a Calle Soriano, fosse a mesma do mítico Baar Fun Fun (assim mesmo, com dois as e com dois funs), só descobrimos in loco, para nosso júbilo. Porque, embora sejamos avessos a noitadas, o baar estava em nossos plaanos, principalmente depois que descobrimos que por lá também rolava, às sextas e sábados, ou seja, nos dias nobres, um candombe.

De modo que, depois de um sábado de 18 de julio (era Montevideo, num sábado, num feriado) que só não descambou para o tédio porque passamos a tarde (Lunimarg Delicatessen e Ramblas) com um casal de amigos, numa dessas coincidências que não existem, chegara o momento do Fun Fun.

Fizemos errado, chegando depois das 10, fila na porta, gente saindo pelo ladrão, mas a espera nem foi tão longa assim.

Ao entrarmos, nem um lugar para sentar no baar que parece inteiramente tomado por brasileiros. Depois de uma uvita tomada junto ao palco, e duas empanadas de lei, a garçonete, sem que houvéssemos pedido, nos consegue uma mesa colada ao minúsculo palco. A vida assim nos afeiçoa.

O bandoneonista e o violonista nos fazem felizes. Quando entra o cantor, começamos a desconfiar. Um tango aqui, uma milonga ali e dá-lhe Roberto Carlos, que a plateia é majoritariamente brasileña, cumpre agradá-la. Depois segue uma muito boa apresentação de tango, em que os dançarinos pareciam mais acrobatas que dançarinos. Até agora não sei como não levei um chute na cara, daquele pé que quase roçava o teto. Ou levei e não senti, anestesiado pelas Patrícias.

É chegada a hora do candombe. Minha conterrânea da mesa ao lado já perguntara à garçonete simpática "Vai ter candomblé?" O percussionista arma seu arsenal, onde não vislumbro um chico, um repique, um piano (el tambor más grande de registro más grave). Continuamos a desconfiar. No começo tudo bem, boas canções alegres, a galera vibra e nós continuamos a desconfiar, díos mio, é isso o candombe? Quando o grupo emenda um Michel Teló, para delírio da pátria brazuca empatriçada, descobrimos que podíamos pagar em real! O passaporte para a liberdade, a madrugada fresca e crocante da Calle Soriano vazia nos acolhe, desconfiadíssimos.

Se me disserem que o que vimos no Baar Fun Fun nas primeiras horas do 19 de julho de 2015 foi candombe, pode ser que eu acredite. Afinal, não fui em busca de uma essência, de um marco zero.

Mas meu coração prefere parafraser o desconfiado Carlos:

O candombe é no outro mundo. Este não é o candombe. E acaso existirão os candombeiros?

Ou o candombe é apenas uma pintura na parede?