Monday, July 27, 2015

Minha mãe e o Dante



Minha mãe foi Vovó Lelé mesmo com os dois primeiros netos, as idas a Teresópolis e a Miguel Pereira, as inesquecíveis festas no play, quando ficávamos altos e depois tínhamos que aguentar os reproches da família. (Mas eu não bebi tanto assim. Bebi, meu filho? Eu caí porque escorreguei, não tem nada a ver com a cerveja.)

Com o Dante ela já estava um bocado alquebrada, embora ela mesma tenha demorado a entender e aceitar isso. Já não tinha a força de antes, claro, e nem havia festas no play.

Com ela o envelhecimento foi assim: conservou-se absurdamente jovem até uns 68, 69. Depois a idade chegou e chegou sob a forma de um trator pesado.

Mas mesmo sem a força e as lelezices de outrora, e sem contar que o Dante demanda MUITO mais energia que uma criança que não tenha autismo, me lembro de uma postagem pequena que fiz no face ano passado, no dia 2 de abril, o dia mundial da conscientização do autismo, em que escrevi: "e à vovó Lourdes, incansável".

Porque apesar do trator, ela segurou uma barra do cacete. Os dificílimos dias e noites e madrugadas finais no Ingá, eu, Dante e ela, e os seis meses do ano passado em que Dante e eu acampamos em seu apartamento. Tive momentos de desespero, e ela então cuidava do Dante e de mim.

Durante os meses em que moraram juntos, Dante batia muito nela, para nossa grande tristeza. A psicóloga disse que isso acontece, a criança escolher alguém para saco de pancadas. Ela não deixava de o amar e acreditávamos que ele também a amava, à sua confusa maneira. A recompensa veio depois, ao sairmos, quando ele passou a dirigir-lhe os maiores carinhos. Era ela aparecer que ele chegava mesmo a me dar tchau, beijo, vai embora, me deixa agora com a minha avó.

Mesmo que ela não fizesse nada, não falasse nada, era a alegria mais pura porque ela estava perto, como mostram as duas últimas fotos. Literalmente as duas últimas fotos.



Sunday, July 26, 2015

E a saideira, mãe?



Do not go gentle into that good night
Dylan Thomas

A morte é sempre uma surpresa, seja nos acidentes seja quando ela faz sua ronda por anos a fio. A tua foi surpresa menos pela rapidez (entrar no hospital pela manhã e morrer neste mesmo dia) do que pela falta da saideira. Sim, acabaste morrendo como a mãe do Almodóvar: sozinha num hospital indiferente. Nem ele nem eu iremos jamais nos perdoar por isso, embora nada pudéssemos fazer em contrário, agora que a modernidade expulsou a morte do interior das casas com seres e objetos amados para as enfermarias, para efeito de assepsia.

Mas e a saideira, mãe?

Esta, uma de nossas cumplicidades. Nossos almoços festivos no La Mole, que duravam horas, não poderiam, é claro, terminar no La Mole, mas num botequim qualquer, talvez o Bar do Velhinho, talvez aquele outro na mesma rua, ambos já infelizmente sepultados e transformados em padarias e lanchonetes. Para efeito de assepsia.

A saideira, claro, incompreendida pelos de fora do círculo da cumplicidade. Não se tratava apenas de beber mais, mas a tentativa vã de reter, de eternizar aquele momento em que tudo parece melhor, as pessoas são gentis, a acalásia não incomoda tanto, os filhos não se desentendem, os netos não se esquecem de ligar ou, melhor, não te jogam da rocha tarpeia, como tão unicamente dizias em teu léxico familiar.

Víamos a corrosão da família e nos entristecíamos mas, durante a saideira, a família era grande e unida.

Pela varanda, sobre meu ombro esquerdo, caducam três grandes amendoeiras nesta manhã de chuva triste. Não estavam assim há uma semana, quando fui para o Uruguai. Esses os sinais do tempo: voltar de viagem e ver que caducam as amendoeiras, deixando pelo chão o tapete de grandes folhas escarlates. Caducam as amendoeiras por todo o teu amado Grajaú. Que nunca mais será o mesmo. 


Thursday, July 16, 2015

Leiterias



Houve uma Leiteria Santana, nas franjas do centro do Rio, na rua de mesmo nome ou transversal a ela. Consta em uma das primeiras edições do Guia de Botequins, o que me motivou a visita há muitos, muitos anos. Lembro-me da percepção de um local bastante decadente, desses que amo. Ficou-me na memória também o nome... leiteria. Não lembro se tinha azulejos ou piso interessante ou pintura ou balcão de mámore ou mesinhas de fórmica. Eu não tinha olhos para isso. Era uma época pré-celular e, portanto, não tirávamos fotos a todo instante. Pena. A Leiteria Santana há muito juntou-se ao Pinhel, ao Penafiel, ao Garoto das Flores, à Paulistinha no céu dos botequins. Pena.

A descoberta de uma outra "leiteiria" -- Café e Leiteria Brasil-Portugal em Olaria -- trouxe-me tudo isso à mente. Nas leiterias tomava-se o café da manhã e também almoçava-se. Não eram para boemias e noitadas. A julgar pelo nome, é lícito acreditar que nelas o pai de família encontrasse mingaus e coalhadas e torradas e coisas do gênero. De fato, na única leiteria leiteria ainda de pé, à qual Lucky Luke iria, a gloriosa Leiteria Mineira com seu belo letreiro de acrílico com vaca e tudo, é assim.

Porque as demais e raríssimas leiterias espalhadas pela cidade e pela sua courbe Niterói transmudaram-se em botequins. A Santana também, daí sua inclusão no Guia.

Não vejo qualquer demérito nisso. Mas eu bem gostava de, tomando a minha cracudinha numa leiteria dessas, roçar ombros com Lucky Luke, que chegou no balcão para pedir seu indefectível copo de leite.

Leiteria Vitória :: Centro de Niterói

Leiteria e Bar Espírito Santo :: Santa Rosa, Niterói

Café e Leiteria Brasil-Portugal :: Olaria

idem

idem

idem
Sim, no Méier




Um Soco no Ouvido Outro nos Olhos :::: T2



A pergunta a ser feita: será que Keith Cross, Peter Dunton e Bernard Jinks, isto é, o T2,  power trio britânico que lançou um único álbum em 1970, pensavam em fazer algo de grandioso? Será que ao colocar em "No More White Horses", a faixa que encerra o Lado A de It'll All Work Out In Boomland, uma introdução maravilhosa, com um já maravilhoso solo de guitarra e, pior, terminada esta, quando tudo o que poderia vir era o vocal, estendê-la um pouco mais com uma explosão de metais em 2:20 -- será que com isso tinham a pretensão de estar criando algo que atravessasse incólume a prova cruel do tempo, chegando até nós, passados 45 anos, com a energia e o frescor próprios das obras-primas?

Se tinham essa pretensão, conseguiram.

"No More White Horses" é a cereja do bolo. Nesta mesma canção, ainda, o fantasmagórico piano (elétrico?) em 5:47 para uma nova entrada dos metais, e o belo vocal do baterista a tratar da solidão e da alienação na ressaca do the dream is over de 1970: "Someone is sitting there / Someone who doesn't care /  Someone who only stares / No one is on your side / You've got nowhere to hide / There's no white horse to ride away."

Em termos de duração, agora experienciada sem a pausa da mudança de lado da bolacha, estamos bem no meio de um álbum aberto magnificamente com "In Circles" (o trabalho da percussão e do baixo) e fechado com a épica "Morning", em seus módicos 21 minutos. 

Um soco no ouvido e outro nos olhos. Façam uma audição às cegas e digam quem é Hendrix, quem é Clapton, quem é Keith Cross. Uma obra-prima de fio a pavio. 


Monday, July 13, 2015

Soneto para Jack Agüeros



sporting your love like a moon in my breast pocket, where it
and my heart would dance, sing, shine, and orbit together.
jack agüeros 

os sonetos de agüeros não serão
sonetos no sentido estrito do
termo no sentido estreito que nós
tanto estreitamente adoramos
os sonetos de agüeros não são nada
senão sonetos são quatorze versos
nados e mortos no vazio desta
página
eu disse versos? os sonetos de
agueros têm quatorze linhas netos
dum velho bêbado corroído
que guarda o amor da amada junto a si
no bolso da camisa o amor da amada
que dança canta brilha junto ao seu

Maria da Graça ::: Para Além da Amendoeira



Em termos de botequim, falar Maria da Graça é falar Café e Bar Lisbela (lindo nome), mais conhecido por Bar da Amendoeira (lindo nome), patrimônio carioca tombado, bastião da boemia da Zona Norte. Ano passado lembrei por aqui que o Lisbela não é o único Bar da Amendoeira da cidade, mas o da Maria da Graça, talvez pela sua atmosfera, quiçá por seu ambiente bem preservado (ah, os cobogós) depois de uma reforma com laivos de restauração e porventura pelo seu cardápio enxutérrimo em que desponta a carne seca, virou O Bar da Amendoeira.

Por tudo isso prometo post em breve.

Porque este aqui é só para registrar o que se encontra pelo pequeno bairro, outrora sede de algumas fábricas como a GE e que hoje agoniza com o fechamento de quase todas elas. É um bairro pequeno, o caboclo sai fotografando, atravessa uma rua e quando indaga está já em Higienópolis. Verdade que a rua era a Dom Hélder Câmara.

O registro de um prédio todo ele azulejos rabo-de-pavão, do vermelho e do azul (ver aqui), o piso de caquinhos avisando que ali já foi cinema, tread carefully, o grafite cantando loas ao seu boteco, dentre outras coisas miúdas.









Café e Bar Ricão

Café e Bar Lisbela

Sunday, July 12, 2015

Celino, Pintor de Azulejos

Ramos

A descoberta de dois paineis azulejares em uma mercearia em Ramos serve como pretexto para enfim escrever algo sobre Celino, J. Celino, de quem já tínhamos algum registro.

É dele, by the way, o que julgo ser um dos mais espetaculares paineis azulejares nesta cidade, aquele que se encontra no Bar e Restaurante Matadouro, no bairro de Santa Cruz, nas lindes do município. A pintura, deliciosa e perfeitamente kitsch, retrata uma estância gaúcha ao entardecer, com seus vaqueiros de bombacha improvisando um inevitável churrasco. O sol agonizante como que queima o ipê amarelíssimo em primeiro plano. Frederico Morais resume bem: "Esta paisagem, se vista num quadro de cavalete ou no contexto de um salão de arte seria insuportável, mas ali, na parede de um bar, ganha um novo significado". Este julgamento pode ser estendido sem prejuízo para toda a obra dos Igrejas e do Nilton Bravo.

O 'agravante' do painel do Matadouro é estar ele ainda sobre a combinação bicromática de azulejos branco-roxo, sobre a qual escrevi aqui. O painel faz com que o bar seja conhecido pelos habitués por 'do Gaúcho', embora o dono não o seja. Para os amantes de botequim com azulejos, vale a tremenda trip de trem para Santa Cruz.

Do Celino também os paineis, menores e já mencionados por aqui, no Bar e Caldo de Cana Mostero, em Madureira, e em uma casa da Tijuca. Agora, estes dois paineis em Ramos, uma Santa Rita e um grande painel de 150 peças nesta mercearia que já foi açougue, cujo nome não me foi fornecido pelo desconfiadíssimo dono.

Notem como o pintor, com o passar do tempo e ao ganhar confiança, modifica sua assinatura do painel de Santa Cruz para os demais.

Santa Cruz

Santa Cruz

Santa Cruz

Madureira

Madureira
Tijuca

Tijuca

Ramos

Ramos

Friday, July 10, 2015

Quem tem medo do Vaz Lobo Mau?



A Rua Macunaíma fica lá. O que talvez explique como o bairro conseguiu preservar o seu velho cinema de rua, que era uma pedra no caminho da Transcarioca do Paes. Debaixo do prédio avoengo, o Café e Bar Cine, cheio de Sãos Jorges, alguns a roçar os capacetes no teto de sanca muito vermelho. Isso talvez também explique o desvio da Transcarioca. Em outro café e bar dois rivais convivem em harmonia. De resto algumas casinhas achalesadas vão se aguentando como podem.

Que seja, pois, metonimicamente, um bairro sem nenhum caráter, no sentido rapsódico do termo. Mas não seja um bairro descaracterizado.

Não tem estação de trem nem metrô, equidistante entre Vicente de Carvalho, que já foi a parada final da linha 2, e Irajá, onde Greta Garbo descansa em paz. Se você pergunta aqui ou ali como se chega a Vaz Lobo, te responderão que fica muito longe e que é melhor pegar um ônibus. Fui andando e cheguei num instante.