Wednesday, March 12, 2014

Alguns Botequins de Madureira


Como o sentimento não pode parar, cumpre assistir a um jogo do Vasco numa tarde quente de quinta-feira em Conselheiro Galvão, de preferência indo e voltando de trem. Pretexto, claro, mais que óbvio para conhecer os botequins da região. 

Dei aula alguns anos em Madureira, pertinho da quadra da Império Serrano. Na época não fazia essa pesquisa assim de maneira sistemática, o que é pena se lembrarmos que é sempre uma corrida contra o tempo. Madureira é grande, enorme, muito mais para Méier que para Quintino ou Água Santa. Seu famoso mercado como que extingue esperanças de botequins antigos?

Procurando se acha. E olha que fiquei só de um lado da linha do trem, tentando não perder de vista o glorioso estádio do centenário tricolor suburbano.

A Lanchonete Açoriana vale já pelo nome. E tem profundo espelho, em que os boêmios caídos do trem se procuram.

O Galeto Rio Ave tem lá seus 40 anos. E azulejos.

O Bar e Caldo de Cana Mostero (assim se escreve) tem dois paineis de Celino. Como lembram o painel da Pastelaria Chic's (ver aqui). Todos gentis, chegam a tirar máquinas da frente (sem que eu houvesse pedido) para melhor fotografia. É o que dá caldo de cana no almoço e no jantar.

O Bar Ferreira podia ser em Quintino. É Madureira off-mercadão, todo ele mercearia.

O Bar e Mercearia Cantinho da Borborema, em casa nonagenária, tem piso de azulejo hidráulico e sinuca. É de todos os times ou quase. O dono é vascaíno dos bons.

Lanchonete Açoriana

idem

Galeto Rio Ave

Bar e Caldo de Cana Mostero

idem

bar Ferreira

idem

Bar e Mercearia Cantinho da Borborema

Tuesday, March 11, 2014

Allora.... o rock progressivo italiano não é reconhecido na Itália?



Acabou dia 2 de março a exposição Anni 70 : Arte a Roma, no magnifico Palazzo delle Esposizioni, onde? bem, em Roma. Ficou quase três meses em cartaz, o que revela um bocado de prestígio.

Como tenho grande interesse pela Itália dos anos 70, começando naturalmente pelo rock progressivo, fui animado, no único dia que tinha de rever a Cidade Eterna no meu retorno das montanhas búlgaras. Dia, aliás, em que a Roma de janeiro esteve irreconhecível, de tão pluviosa. (E eu que sempre lhe gabara o céu de inverno, o frio delicioso dos 10, 12 graus.)

Em que pese o ótimo trabalho da curadoria, a exposição não me interessou senão pelo aspecto histórico. As obras, quase que todas já próximas das instalações, que se tornariam virais nas décadas seguintes, em sua maioria envelheceram mal. Nadica de rock progressivo (che peccato!), pouquíssimo de música (havia a Music in 12 Parts, do Philip Glass, que também... err, envelheceu mal, a música não o Philip).

E. Havia uma seção de cinema. Ótima seleção. Visconti, Scola, Moretti, Bertolucci, Antonioni, Fellini, Taviani, Pier Paolo, todos eles e mais uns outros ali. E aí, bem, Zabriskie Point fazia parte da seleção e exposição. Não faltou a lembrança da trilha composta pelo Pink Floyd.

Mas. Havia um seção de cinema, ótima seleção, com a natural inclusão dos monstros sagrados (alguns estreando, como o Nanni Moretti), dentre outros. E aí, bem, Milano Calibro 9, filme de Fernando Di Leo de 1972. Nenhuma referência à trilha-sonora composta pelo Osanna....

O profeta que não é reconhecido na própria terra, é isso? O santo de casa? Xenofilia?

O Osanna que já lançara L'Uomo, a caminho da obra máxima Palepoli.

Che peccato.





Monday, March 10, 2014

Bar do Souto, Quintino ::: O Mosteiro Rila dos Botequins Cariocas


Há alguns atrás, meu amigo e pesquisador de botequins Rixa Xavier conduziu-me por tesouros que havia colecionado em Copacabana (!). Rixa conheceu-me através do blog e vivemos em constante competição amigável em nossas pesquisas. Como no frescobol, sem vencedores ou vencidos ou somos ambos os vencedores.

A chave de ouro era o botequim Maringá na Siqueira Campos (!!!) que ele alcunhara "A Capela Sistina dos botequins cariocas". E era. Chapei, tive ali felicidades múltiplas.

Pois eis que no começo deste 2014, retomando a pesquisa pelos subúrbios, conheço o Bar do Souto, em Quintino (o post dos botecos está aqui). Impressionante, impecável, primus inter pares que nem o Leonardo poderia sonhar. Até onde apurei, o pintor, (cujo nome aprendi e esqueci) é vivo, de modo que o Souto insiste para que ele venha fazer restauração, mas o sujeito, descrito como boêmio incorrigível, protela. Note-se a inequívoca influência de Nilton Bravo, no tratamento das paisagens nacionalistas, idílicas, escapistas e mesmo nos ipês.

Aqui distinção sensível: o atual dono do Maringá não parece prezar muito o patrimônio que tem: voltar ali pode ser decepção grande. Este de Quintino quer o restauro, incluindo o neon que em priscas eras brilhou por lá.

Não chamarei o Bar do Souto Capela Sistina, que este fica sendo o do Rixa. Fica sendo este de Quintino meu Mosteiro de Rila, patrimônio da humanidade nas montanhas búlgaras que visitei há não muito. By the way, como falta ainda post sobre ele, posto ao menos uma foto.

Bar Maringá :: Copacabana















Mosteiro de Rila :: Bulgária


Sunday, March 09, 2014

O que te faz faminto e humilde? Sofrer e gritar? A obra-prima do Marillion faz 20 anos :: Hard as Love

Grajaú amanhece


Escrevi sobre o Brave aqui e aqui. Constantemente tenho que citar esta canção -- "Hard as Love" -- para mim mesmo. Tudo que é bom é difícil, com Yeats eu já aprendera a paixão pelo que é difícil. Mas aprendi pouco ou nada, que isso nunca aprendemos.

A música, meticulosamente colocada no centro do álbum -- é das jóias mais lapidadas que o rock progressivo já (ou)viu. Não te parece? Algo errado, talvez necrosado, em sua maneira de ouvir progressivo. E olha que lá se vão vinte anos. E olha que parece que foi ontem.

O mellotron aos 2:41 é fueda. Para ouvir de joelhos.

O desvario da voz, lançar-se ao mar, aos 5:20, é das melhores corporificações que esse sentimento esquisito (há que o chame 'amor') já teve.

Sei que pareço derramado demais, mas é assim. E o amor não se restringe ao amor ao sexo oposto, é o amor ao vira-lata, às cigarras, aos poentes, à fumacinha que evola da padaria da chaminé, é o amor ao filho.



Porque nem toda rua há-de se chamar Rua Comendador Senador Trombogildo Pereira Júnior 3

E nem Doutor Deputado Sacanagildo Serafim do Pinto.






Friday, March 07, 2014

Alberto da Costa e Silva, poeta



Um de meus poetas de cabeceira é, já há alguns anos, o Alberto da Costa e Silva. Pena que tão pouco conhecido, menos ainda lido. Não é dos queridinhos das universidades. Currículo tem muito, mas não é por isso que gosto tanto de sua obra: filho do poeta Da Costa e Silva, membro da ABL (que já presidiu), historiador (seu A Enxada e a Lança: A África Antes do Portugueses é obra monumental), ensaísta, memorialista (em O Espelho do Príncipe, sua infância, seu pai), apaixonado pela Vera, dono de alguns dos melhores versos sobre a infância da nossa literatura.

Conheci-o no final dos anos 90 em seu apartamento em Laranjeiras. Sei que ele está muy remotamente ligado à minha família, sem laços de sangue, no estilo amigo do papagaio da tia da vizinha da avó do amante.

Foi dele o nome da minha exposição de fotos na PUC-Rio em 1994, Por Dentro e Por Fora Menino, verso usado para dialogar justamente com foto tirada no Ceará. Dele a epígrafe do meu poema "A Arte da Levitação", que fecha o Voo sem Pássaro: "Como se fosses meu pai / e não meu filho." 

Dele sonetos lindos, semelhantes em ousadia e imagética aos do Carlos Nejar: opção por versos brancos ou rimas toantes, profusão de enjambements, repúdio à chave de ouro.

Em minha coleção este lindo Livro de Linhagem, em formato de azulejo. Aí já é covardia comigo. Azulejo purtuguês setecentista.

No seu fim, cinco "Sonetos Rurais" ::

Ordenha, ferra, encêrro: o humilde cêrco
dos sêres e das cousas vou fazendo,
e a riqueza do mundo, a fauna, os ventos
na minha curta pele vou cosendo,

ilhéu neste morrer, jamais morrendo
nos momentos que colho e que rejeito,
centauro desta carne e de outra, ausente,
que o verdor do passado vai vivendo.

O esperar para o amor, roçando a morte
em lençóis, massapês, tucuns de rêdes,
volta, agora, lunar, eternamente.

O instante que de amar o que deixava
partir fez mais amor, fiel, consente
em ser soma de tudo, amor sem gente.


Thursday, March 06, 2014

Preciso pensar poema sobre as azeitonas gregas




É preciso pensar poema sobre as azeitonas gregas
preciso pensá-lo
prensar palavras a frio
até teu nome escrever com sumo espesso
espesso o sumo do amor ::

kalamata   halkidiki   amfissa   megara camila    throuba
oliveira

nomes para além das gaiolas do tempo
e    do

             espaço

Wednesday, March 05, 2014

Alguns Botequins de Quintino



Para que não pensem que Quintino é o bairro apenas do Bocaiúva, do Artur, do Albano, tem o burgo seus botequins dignos de registro, sendo que um mesmo bem mais do que isso.

Como sói ser com os bairros cortados pelo trem, tem o lado de cá e o lado de lá. Minha pesquisa concentrou-se no lado de cá, que não é o do Bocaiúva, republicano histórico que empresta o nome ao bairro, mas o do Artur, cuja casa, aliás, não vi.

Muito bom ver como resistem os botecos-mercearias, a começar pelo primeiro, em frente ao trem, homônimo do grande Flor do Tâmega de Santo Cristo (escrevi aqui) e o segundo, que tem corno e deliciosa placa de trânsito. O terceiro parece ser dos mais populares ao passo que a distribuidora tem azulejos ímpares na fachada. O seguinte retrata bem a forte devoção ao Santo Guerreiro e, last but not least in importance at all, o Souto é tão formidável que merece post à parte.

E assim Quintino para mim não é apenas o bairro do Albano Reis (irrelevante) ou do Zico (respeito) e do Bocaiúva (respeito), mas o do glorioso Bar do Souto.

E este blogueiro, passados quase sete meses, volta a se dedicar aos botequins cariocas.

Mercearia Flor do Tâmega

Bar e Mercearia Alijoense de Quintino

idem

idem

Bar do Vagão

Distribuidora de Bebidas de Quintino

Botequim da Casa Jorge

idem

Bar do Souto

Monday, February 24, 2014

Lagoa Rodrigo de Freitas circa 1940 ::: Registro Familiar



Não está nas pessoas o punctum da foto, se bem que todas as quatro extraordinárias: o bisavô que não conheci, o tio materno uma criança angelical, quarenta anos antes de fazer formidáveis filhas-da-putices e romper com a família, coisa de que minha avó jamais se recuperaria, e o par que lhes é simétrico -- criança e adulto -- inteiramente desconhecidos. Moravam estes na casa de madeira? Era ele um pescador? Isso jamais JAMAIS saberei.

O punctum da foto está nesta quinta personagem, a casinha de madeira, a lembrar casas de Santa Catarina, a lembrar casinhas de boneca.

O que é verdadeiramente extraordinário é que o pedaço de água ao fundo é a Lagoa Rodrigo de Freitas, no começo dos anos 1940, na altura do Cantagalo.

Se fosse do século XIX seria mais fácil de aceitar.

Sunday, February 23, 2014

Crônicas Gregas 5 :: Uma Estela Funerária Copta



Museu não tão badalado em Atenas, o assombroso Museu Bizantino guarda este tesouro, esta estela funerária copta do século III.

O assombro reside menos no estado de conservação que no semblante dos jovens mortos: felizes, unidos, a acenar-nos do lado de lá.

Eternamente do lado de lá.
 
 


 

Meu menino intransitivo



por quantas vezes estendi as mãos
em direção àquilo que eu sabia
não poder encontrar :: alguns pedaços
deste que seria tu mesmo, meu
menino intransitivo, sempre além
tua urgência tua insistência teus rituais
transmudados muitas vezes em fúria
no oco de uma qualquer noite espúria
por quantas vezes dias tão iguais
a fatiga dos desencontros sem
que eu entenda o que foi que se perdeu
e eu não menos exilado :: olhos baços
em permanente atrito a dislalia
o nosso estar no mundo :: nossas mãos
 
 

 

Saturday, February 22, 2014

Já não precisas levantar os pés




enfim levantaram-se Baltasar e Blimunda, agarrando-se nervosamente aos prumos, depois à amurada, deslumbrados de luz e de vento
Saramago

foge comigo esta manhã
Rodrigo Ferrão


 

foge comigo nesta manhã quero
exatamente como tu acordas
pálpebras reticentes (valerá
a pena?) tua boca duvidosa
foge comigo nesta tarde agora
as cigarras prometem o melhor canto
extraído da noite mineral
a ensurdecer as casas de ambrosia
foge comigo nesta noite então
quando qualquer ruído enlouquece os cães
já não precisas levantar os pés
vem qual criança perdida e assustada
onde estiveres fecha os olhos sonha
te sonho no refúgio dos assombros

Friday, February 21, 2014

Francesco Di Giacomo (1947-2014)

 
 
Impossível não recorrer ao belo título do belo romance de Marçal Aquino: Eu receberia as piores notícias do seus lindos lábios, pois foram lábios amados que me comunicaram hoje a morte trágica do grande Francesco Di Giacomo. Pequeno consolo.

Costumo dividir as grandes vozes do rock progressivo italiano em dois grupos: as doces (pense num Aldo, do Le Orme, num Henryk, do Reale Accademia di Musica) e as roufenhas (Stefano, do Museo, Alvaro, do Jumbo, Leonardo, do Locanda Della Fate).

Acima destas, inclassificáveis e inimitáveis: Demetrio Stratos do Area (escrevi aqui), Alan Sorrenti (escrevi aqui) e, claro, Francesco.

Numa época de grande efervescência política e cultural, que sempre se espraiava para a música, muito se discutiu se era possível cantar rock em italiano. Francesco Di Giacomo meio que pôs fim a essa discussão tola, roubando (ou tomando emprestado, rasurando) o que havia de mais típico e sacrossanto da música vocal italiana -- a ópera -- para usar na música progressiva que então se fazia. Atitude pós-moderna radical, intrinsicamente progressiva.
 
Se o Banco del Mutuo Soccorso foi uma banda progressiva completa, Francesco foi seu vocalista completo: ótimo timbre, grande alcance, sensível interpretação, além de pesquisa e ideias.
 
Sinto-me honrado de o ter visto e ouvido de perto em show no Rio em 2000.
 
 
 
A triste notícia pode ser lida aqui.

Thursday, February 20, 2014

TRANSATLANTIC



Existem duas maneiras de se entender ou fazer rock progressivo: considerá-lo um estilo musical ou considerá-lo uma 'abordagem', uma filosofia perante a música, mais especificamente o rock, embora quem 'siga' esta segunda maneira acabe por produzir coisas amiúde muito distantes do rock. Uma terceira abordagem, que entende o rock progressivo como um estilo de época é tão desprezível que nada merece senão o desprezo merecido pelos desprezíveis.

Quando pensamos no supergrupo Transatlantic parece-me óbvio que eles encaram o rock progressivo como estilo musical. Parênteses: o termo super aqui não é apenas laudatório. Superbandas são aquelas criadas com músicos já conhecidos por sua excelência no métier. Cream foi a primeira superbanda do rock, ELP, a primeira do rock progressivo, Il Volo, um supergrupo do progressivo italiano.

Ao reunir músicos do Spock's Beard (e solo), Flower Kings, Marillion e Dream Theater, o Transatlantic é o grande exemplo do rock progressivo contemporâneo de uma superbanda, para o bem e para o mal.

Por muito tempo, contrariando axiomas, a soma do talento dos quatro não apenas não era igual, mas menor que a soma das partes. Quando eles ainda tinham que estampar na capa dos álbuns SMPTE e colar adesivos lembrando-nos de suas origens gloriosas, faziam música demasiado formulaica e derivativa.

Isso começa a mudar com The Whirlwind, terceiro trabalho lançado nove anos depois da estreia. Neal ajuda Roine a aparar os excessos e conseguem arredondar suítes longas (marca registrada) de maneira admirável, como só um grande músico do rock progressivo ou da música erudita consegue. NMHO, até Beethoven pode vir a falhar aqui, produzindo chatices adiposas como o concerto para violino.

Com Kaleidoskope, mais um passo foi dado. Transatlantic toca aos quatro ventos ::: somos uma banda de rock progressivo, não temos vergonha disso. Fazemos longas suítes, recorremos a chavões, a melodias simples, a letras singalong, mas tudo com tanta tanta soberba maestria. Na primeira ouvida, somos pescados. Na segunda, saímos assobiando. Na terceira, tudo é tão familiar que pensamos mesmo que fomos nós que escrevemos aquilo. E aquilo é de uma lindeza do cacete.

Transatlantic é o big mac do progressivo, o vinho Barolo, a massa suculenta, a Oitava de Mahler. Fiquem outros com as sutilezas e dificuldades, aqui é a celebração apolínea, solar. O próprio CD bônus explicita o ser / fazer rock progressivo desavergonhadamente (viu, Steve Wilson?): covers de Yes, King Crimson, Focus, Moody Blues, Procol Harum.

O Grando Funk estampou em 73: We're an American Band; o Transatlantic alardeia We're a Progressive Band! Para o delírio dos progheads que nunca se cansam e imploram mesmo só mais uma musiquinha, na esperança de tocarem ou bisarem uma suíte de 30 minutos.

E eu quero é mais. Agora que Neal aprendeu o caminho, que volte ligeiro para tocar clássicos do Spock's e o One e o ? de fio a pavio. E Roine, que já tocou em um pequeno teatro no Flamengo em show que me arrependo até hoje de não ter ido, volte com os Reis das Flores para iluminar a noite.

Wednesday, February 19, 2014

Crônicas Gregas 4 ::: Os Rebétika




A noite ateniense é uma festa, em que pese a taxa de desemprego do país em 35% (ou por isso mesmo?). Estivemos por duas vezes em tavernas com música ao vivo, mas apesar dos buzuquis, saí com a nítida impressão de não ter ouvido nenhum rebétiko autêntico. Isso menos frusta que alegra: é motivo certo para voltar.
Mas não regresso de mãos vazias, pois trago CD dos mestres Bambakaris e Tsitsanis, reunindo gravações que vão de 1936 (!) a 1979, com o foco na segunda metade dos anos 40, isto é, exatamente os anos do pós-guerra.

Cito Lacarrière: “canto, lamento e grito dos solitários, dos abandonados à própria sorte, dos deserdados, mas também, frequentemente, dos rebeldes ou insubmissos, o rebétiko ficará para sempre ignorado – e sobretudo recusado – pela sociedade bem-pensante até  a Segunda Guerra Mundial. Permanecerá confinado em seu próprio meio, no interior das tabernas características chamadas tekke ou dounia, onde as pessoas se entregavam ao haxixe. (...) Assim, durante pelo menos meio século, os rebétika constituíram um mundo paralelo, quase clandestino, que só imergiu do isolamento depois da guerra.”

Eu diria que os rebétika não imergiram de todo de seu mundo de sombras e será essa – a sombra – uma de suas características. Nas tavernas em que estive rolava uma música mais palatável, muito querida pelos locais, mas muito mais apolínea que, digamos, rebétika. E motivos para que novos Bambakaris e Tsitsanis surjam (o desemprego, a humilhação, o rebaixamento do AEK para a terceira divisão) não faltam. Conquanto, claro, que o vinho resinado e quem sabe mesmo o narguilé de ervas raras corram à larga.

Fiquem turistas rasos com as apolíneas Acrópole e Ágora Antiga, em algum subúrbio, colateral à sua história e aos seus mitos, algumas sombras emigradas, retornadas, reaparecerão, não como Ulisses, mas como Orestes ou Agamemnon, para cumprir terríveis oráculos. Essas profecias, ou os mesmos oráculos, repousam (inquietam-se) no seio dos rebétika.