Wednesday, December 04, 2013

Pega a Fagundes! parte 3 :: Os Grafites da Fagundes Varela


Tecnicamente (ou numericamente) falando, desconheço se ali é o começo ou o fim da rua. Como moro no Ingá, permitam-me o etnocentrismo: é o começo. Enfim :: belos belos grafites por ali. Olhos, peixinhos, sereias, seios.

O que diria o bardo ao ver a donzela abaixo, hein? Ora, já disse::

Teus seios são alvos símbolos
Que vejo sem traduzir;
São os teus braços capítulos
Que podem,
Que podem me confundir.








Pega a Fagundes! parte 2 ::: A Poesia de Fagundes Varela



Seu poema mais famoso (e triste) é aquele único elogiado por Bandeira, o "Cântico do Calvário", trenodia em versos brancos escrita para seu filho morto em dezembro de 1863. Tem real sentimento, mas um excesso de exclamações aliado a certos lugares-comuns da imagística romântica fazem com que não envelheça assim tão bem. Não, não estou sendo mais severo que o Manuel. E acho mesmo interessante que o verso final, felizmente sem exclamação, traga a palavra asinha, o que deve confundir  um bocado leitores de hoje, principalmente porque dois versos antes há a palavra "asas" :

(...) Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minhalma.

Asinha é advérbio que signifca "depressa". Caiu em total desuso por aqui, mas acho que em galego é corrente.

A musicalidade do poeta se revela absurda quando ele lança mão de um metro raro entre nós, o hendecassílabo ou de arte maior, que já mencionei aqui. Em "Elegia":

A noite era bela, -- dormente no espaço
A lua soltava seus pálidos lumes,
Das flores fugindo, corria lasciva,
A brisa embebida de moles perfumes.

Em "Névoas", para além de cumprir com rigor a exigência da tonicidade nas sílabas 2, 5, 8 e 11, ainda rima a palavra final dos versos ímpares com palavra do meio do verso seguinte.

Na hora em que as névoas se estendem nos ares,
Que choram nos mares as ondas azuis,
E a lua cercada de pálida chama
Nas selvas derrama seu pranto de luz...

Um pouco o que se encontra em "O Corvo" do Poe.

Gosto ainda do seu "Arquétipo", suma do spleen romântico, em que o sujeito se mata entre baforadas de charuto para ver se encontra alguma diversão:

Pegou numa pistola e entre as fumaças
De saboroso havana, à eternidade
Foi ver se divertia-se um momento.

Teria algo mais a dizer, mas é suficiente. Suficiente, espero,  para fazer lembrar o poeta por detrás da rua esquisita que subimos quando queremos cortar caminho sem passar pela praia.

Pega a Fagundes!



Morando no Ingá, a frase mais comum para quem pega táxi é "Pega a Fagundes!" ou "Vai pela Fagundes!". A Rua Fagundes Varela é uma longa artéria que nos leva do Ingá para Icaraí e vice-versa. Rasga um morro (qual?) de modo que, bem em seu topo, temos entrada para o Morro do Estado. No começo, não a pegava por temor, depois passei a usá-la direto.

Justamente por ser "esquisita", passou anos à margem da especulação imobiliária, tanto que conservou muitas de suas belas casas (mencionei alguns de seus azulejos neste antigo post aqui),  mas agora já está mais do que descoberta.

Fagundes Varela é o poeta romântico Luiz Nicolau Fagundes Varela (decassílabo imperfeito) que sempre, desde criança, gostei de dizer o meu romântico brasileiro favorito. Morreu em Niterói aos 33.

Talvez pela sua vida desrergrada e atormentada -- a perda do filho, o abuso do álcool, suas longas jornadas mata adentro (que elegi como um dos 10 mais da Lit. Bras. aqui) --, mas também pela qualidade e musicalidade de seu estro.

Gostava tanto dele quando adolescente que, ao ler na antologia Nossos Clássicos o comentário crítico do Manuel Bandeira que atentava quase que apenas para seu alcoolismo e dizia que o "Cântico do Calvário" permaneceu "um cimo isolado em toda a sua poesia", escrevi a lápis "péssimo o comentário". Isso em 1984. Quem, pensava, era ele para julgar o Fagundes, ele com seus versos de porquinho da índia e Irene preta Irene boa???? Vendeta!!

Um pouco da poesia do Fagundes no próximo post.

Tuesday, December 03, 2013

Igreja Nossa Senhora do Brasil :: Os Azulejos pt. 2


Já publiquei algo de Antônio Paím Vieira aqui, ao tratar das madonas latinas lindamente azulejadas por ele na Igreja de Nossa Senhora do Brasil em Pinheiros. Antes de ser pan-americanista, bien sûr, foi nacionalista e pintou nos arcos das portas laterais externas todo um catálogo da nossa ornitologia.

Então ao contemplar seu trabalho em manhã nublada de sábado tenho duas minhas paixões reunidas ::: os plumados, os azulejos.









Tinha me esquecido do quanto era sublime ::: a Quarta de Mahler



Tinha me esquecido do sublime da Quarta Sinfonia do Mahler. Época houve, final dos 80s começo dos 90s, que eu, querendo que gostassem de Mahler tanto quanto eu ou que pelo menos o conhecessem, presenteava com a Quarta, obra relativamente acessível se comparada às duas anteriores e ao que estava por vir.

Fiz algum mahleriano? Certo que não. Mas esse meu hábito acabou por passar a mim mesmo que essa sinfonia era... "fácil". Tolice. Fechando o ciclo Wunderhorn e mais uma vez com voz (reservada para o movimento final), é obra mais intimista e em menor escala. Para padrões de Mahler, claro. É sinfonia em Sol Maior, em que o gênio concede férias coletivas a seus demônios.

Mas é sublime. O adágio é sublime. Esqueçamos o fanfarramento tolo lá pelos 20 minutos. Ali um pouco antes, pelos 19' e depois 22' :: é o que mais próximo se pode chegar a Deus, whatever that means.


Monday, December 02, 2013

Em Nome da Razão :: The horror, the horror



Há alguns dias meu amigo Paulo Tarso postou no face o documentário Em Nome da Razão, de Helvécio Ratton, gerando muitos comentários.

Helvécio era estudante de Psicologia e, em 1979, tinha acabado de voltar do exílio no Chile. Com o documentário, creio, conseguiu reunir suas duas paixões: o cinema e a psicologia. 

Mas não aquela psicologia clean dos consultórios, ou a psicologia linda dos frasismos, ou a psicologia inexpugnável de um Lacan. Ratton quis mostar como viviam os loucos e "loucos" institucionalizados em nosso país. A instituição, no caso, é o malfadado hospício de Barbacena.

O livro de Daniela Arbex, Holocausto Brasileiro, de que falei aqui, obviamente faz menção a Ratton.

O documentário é bastante forte. A trilha-sonora resume-se aos sons do desespero captados.

Agora, pausa para the horror the horror:

Antes que digam que isso é coisa de país de Terceiro Mundo, e asseguro que não há uma gota de nacionalismo aqui:

Em 2011, o New York Times noticiou maus-tratos horríveis em instalações residenciais para deficientes mentais em todo o estado de Nova York. Funcionários que abusavam sexualmente, batiam ou zombavam dos residentes quase nunca eram demitidos, mesmo depois de repetidas transgressões. 2011, New York. New York.

Mais: foi só em 1984 que Ronald Reagan (!) assinou a Emenda Baby Doe, que classificava como maus-tratos infantis a negligência ou a negação de tratamento para crianças deficientes. Até então, pais e médicos podiam, se quisessem, deixar essas crianças morrerem. Isso mesmo: podiam deixar a criança morrer ao relento e depois ir tomar uma cerveja. Provavelmente para comemorar.

Sunday, December 01, 2013

Gozando Junto IIIIIII (com Stanley Kubrick)

A magnífica exposição Stanley Kubrick, apresentada pela primeira vez na América Latina, no Museu da Imagem e do Som em São Paulo, é uma ótima oportunidade para gozar junto.

E não é todo dia que se goza junto em uma experiência multissensorial que possibilita um mergulho no rico universo do realizador de Lolita, Laranja Mecânica, 2001: uma Odisseia no Espaço, O Iluminado e De Olhos Bem Fechados.










Thursday, November 28, 2013

Mal dito poeta Glauco Mattoso


Num sábado em que minha mãe estava aqui para ajudar com o Dante, esqueci sobre a mesa da sala o Pegadas Noturnas (Dissonetos Barrockistas), do Glauco Mattoso.

A mãe, uma conservadora que gosta de passar por liberal, chegou-se a mim e disse: "Aqueles poemas ali, hein, Evandro?!?""

Glauco Mattoso nasceu Pedro José Ferreira da Silva no dia de São Pedro (arrá!) em 1951. Em decorrência do glaucoma, acaba por perder completamente a visão e daí adota o pseudônimo. Ou seja, Pedro era glaucomatoso, e do nome trivial (Pedro, José, Ferreira e, last but not least, Silva!) nasce o poeta absolutamente sui generis, primus inter pares, maldito, daqueles cujos livros não devem ser esquecidos sobre a mesa da sala.

Porque o Glauco pega pesado. Homossexual, podólatra e masoquista assumido, o poeta é o primeiro a rir de si mesmo e assim, um pouco à la Madame Satã, instaurar o seu lugar de respeito.

Glauco Mattoso é, antes de mais nada, poeta satírico, da família de Emílio de Menezes, Gregório de Matos e, por que não?, Augusto dos Anjos. Isso não o impede, como não impediu os poetas citados, de ser poeta profundamente rigoroso, profundamente conhecedor da métrica da língua portuguesa, coisa arquirrara por aqui.

Glauco Mattoso gosta de sonetos. Gosta, digamos. Ele é, simplesmente, o maior sonetista de todos os tempos da história da humanidade. O recordista, o italiano Giuseppe Belli, ex-recordista, escreveu apenas 2279, ao passo que o cego já chegou a.... bem., leia abaixo o soneto que eu fiz pra ele.

GLAUCO SONETO

Rua Morgado de Matheus :: o palco
do soneteiro mais iconoclasta.
Um Zé perdido numa Silva gasta
que encontrou-se no mato como Glauco.

Nem chegues perto se tens a alma casta
Aqui não rola vaselina ou talco
expõe as taras em alto catafalco
e a hipocrisia o cego assim devasta.

São 5.550
e 5 sonetos, quem é que tenta
sobrepujar-lhe o récorde alcançado?

Neguinho aí não chega nem aos pés.
E o dissoluto doudo por chulés
fica puto quando ouve um pé quebrado.


Tuesday, November 26, 2013

Igreja de Nossa Senhora da Saúde



Agora que vão adiantadas as obras do "Porto Maravilha", com famílias expulsas, pelo menos um botequim tradiconal (o Bar Porreta) posto abaixo e novas avenidas traçadas, o meu célebre 750 Charitas-Gávea passeia todo pimpão por espaços antes de todo ocultos da vista dos homens.

A igrejinha de N.S. da Saúde, que empresta o nome ao bairro e que só podia ser vista de relance do alto do Elevado, certamente será redescoberta pela população. E isso, depois de tudo por que ela passou, é coisa boa.

Visitei-a ano passado, não sem antes enfrentar a desconfiança quase grosseira do atual zelador (aliás, vascaíno fanático, trazendo esta paixão em comum tatuada na pele).

Era a única, ou das únicas, igrejas cariocas com alguma policromia na azulejaria. Conserva na sacristia um lavabo de embrechados também sui generis (conchas, cacos de louça, cacos de azulejos holandeses). E na pintura da nave (técnica de marouflage, em que a tela pintada é colada à superfície) andorinhas vão voando seus voos barrocos.

A igreja passou por restauração cuidadosa. Mas vale a pena conhecer um pouco de suas vicissitudes, na pena de Alexei Bueno, em sua pequena obra-prima Gamboa:


"Uma das coisas extraordinárias nessa igreja, para além de sua arquitetura, é o seu lento martírio, o mudo martírio dos monumentos desprezados pela urbe. Com os aterros, perdeu o mar, a vista, e ficou cercada de armazéns imundos e nuvens de monóxido de carbono. Com a construção de uma nova matriz, perdeu os fiéis. Tombada pelo Iphan em1938, foi restaurada pelo mesmo órgão nos anos 1960, e novamente no fim da década seguinte. Nos anos 1980, o vigia que nela morava, bêbado, louco os ou dois, matou toda a família em crime de pouca repercussão, como todas as tragédias populares. Abandonada, foi sendo pilhada paulatinamente, desde alfaias e pedaços de talha até que, horror dos horrores, fato inacreditável, surrupiaram-lhe dois dos painéis de azulejo [placa na igreja fala em quatro painéis], peça a peça, em trabalho cirúrgico e demorado, deixando imcompleta, provavelmente para sempe, a linda bande dessiné azul que contava a história do sábio José e de seus desalmados irmãos. Para cúmulo de tudo, exatamente embaixo de sua fachada ergueu a Casa da Moeda uma monstruosa almanjarra metálica, crematório de cédulas velhas e imprestáveis, sonhos desfeitos de fortuna que vão poluir impiedosamente a igreja secular em cima." (pp. 37-38)




O lavabo de embrechados




Sunday, November 24, 2013

O Homem e Sua Hora - Mário Faustino ::: 1a Edição Autógrafa




Uma das jóias da coroa :: minha primeira edição do Mário Faustino autografada.

Adquiri o livro no dia de São Sebastião em 1992. Preço de banana nanica. Era da biblioteca de Carlyle Martins que, até onde sei, foi poeta cearense de versos convencionais que morreu muito velho.

Mário foi poeta piauiense de versos nada convencionais que morreu muito novo. Sua imagética perturba.

Exatos, rigorosos, muito musicais seus decassílabos.


O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galoupando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vitória.

Uma Cerveja para o Rock Progressivo Italiano

Cilene, Giovanni e intérprete



Um dos momentos altos do Mondial de la Bière: Cilene Saorin em conversa com Giovanni Campari, do Birrificio dal Ducato. A cervejaria é outra jóia do movimento de cervejas artesanais italianas e em vários momentos lembrou-me a Baladin, de que sou grande entusiasta.

Se Teo Musso, da Baladin, toca música para seus levedos, não falta música por aqui tambén e a história não poderia ser diferente, mesmo porque o birrificio situa-se em Roncole, Roncole Verdi, cidade natal de Giuseppe Verdi, que neste ano completa vinte pares de mãozinhas cheias.

Suas cervejas, da concepção ao produto final, passando naturalmente pelo processo, são impregnadas de música e poesia. Nos rótulos há trechos de poemas. Montale já pareceu por aqui.

Então é isso: tomar uma birra italiana, direto da terra de Verdi e de quebra um verso de Montale no rótulo. Por enquanto, sigo sonhando. As Dal Ducato, que viriam para o festival, encontram-se retidas no porto do Rio de Janeiro. Contra a poesia, a pesada antipoesia da burocracia e exigências alfandegárias brasileiras.

 Para terminar: ao fim de sua fala, fui trocar umas palavras com o sujeito, identificando-me como profondo appassionato e grande intenditore di rock progessivo italiano degli anni 70. Para contextualizá-lo (sim , era necessário: imagina você acabar de falar de cerveja e lhe surge um brasiliano amalucado do nada falando-lhe de música de 40 anos atrás), citei os 3 grandes: PFM, Banco, Le Orme.

Ele conhecia. E respondeu-me com, nesta ordem, I Giganti e Area. Ganhei meu dia, que já estava ganho, e quando lhe pedi uma birra em homenagem a estas bandas, pude mesmo ouvir a voz de Demetrio Stratos mesclando-se à melodia do "Va Pensiero".



Saturday, November 23, 2013

Pintando leitores

Tivesse espaço ainda, começava nova coleção: telas retratando leitores.

Seguem alguns exemplos. Todos os artistas têm sites, basta guglar seus nomes.

Todos me agradam imenso. Na pintura de Jose Ruesga a leitora não tem os olhos sobre o livro, naquele momento barthesiano do levantá-los, tamanho o impacto.

Esse momento, aliás, me inspirou poema ano passado.






PS: Sem o site português lindo Clube de Leitores, este post e outras coisas aqui não seriam possíveis.

High Life Club




Para quem gosta de trabalhos em estuque e serralheria (epa!), vale a pena pegar a Rua Santo Amaro, na Glória, para conhecer a antiga sede do High Life Club. O suntuoso prédio pertenceu aos descendentes do Barão do Rio Negro até 1900 e depois funcionou como teatro e café-concerto (!). Aqui tinham lugar bailes de carnaval famosos. 

Imagino a malta pra lá de high recitando trovas jocosas em frente ao Asilo São Cornélio, depois tentando escalar o mítico Relógio e ainda, os sobreviventes, tomando banho no histórico Chafariz.

Como tudo que sobe, desce, O High Life desceu suas portas em 1957.

Hoje no prédio funciona uma repartição burocrática. Os fantasmas, imortalmente entediados, só aparecem depois do fim do expediente.

Cortiços III


Depois de algum tempo (aqui e aqui), volto aos cortiços desta Muy Leal. O cortiço a que fiz referência no primeiro post, espaço simbólico da minha infância, está virando edifício de luxo. Ou seja, nem os cortiços escapam à sanha.

Os de São Cristóvão ficam na Rua Ceará. Em suas entranhas tantas vidas. Como eu literarizo tudo, impossível deixar passar que, quando morou em cortiço da Rua do Lavradio, Lima Barreto era amigo de um cearense ("Dava-me com um rapaz do Ceará, meu colega de curso, de nome Chagas, vadio que nem ele, mesmo estroina e desregrado").

E como eu literarizo tudo, impossível não pensar nas vidas que arfam nesses prédios que mal se sustestam de pé, como duas velhas bêbadas, no João Romão, na Bertoleza, na Rita Baiana, no Capoeira Firmo.

E atentem para o tamanho descomunal das portas.


Glória

Santa Teresa

São Cristóvão

São Cristóvão

Friday, November 22, 2013

Mondial de la Bière e a produção cervejeira nacional hoje






Na fase de reler Gulas antigas, caiu-me às mãos o exemplar de julho de 2002, cuja capa nos traz uma maravilhosa lasagna.

Na seção "Gulodices", cuja intenção era / é apresentar lançamentos da área gastronômica, temos a apresentação de duas cervejas brasileiras.... a Bohemia escura e a... Primus, em lata. 

Desta última lemos: "Depois de um período sem lançamentos, o mundo das cervejas volta a se agitar. A novidade é a Primus Pilsen, da Schincariol. Elaborada com malte e lúpulo especiais, apresenta bom corpo e espuma cremosa e consistente."

O texto é de uma pobreza de dar dó mas o que sobressai é o tom elogioso. A cerveja da Schincariol, em lata, tinha espuma cremosa e consistente. Ou a escassez de produtos novos fez com que o resenhista se desmanchasse por qualquer produto novo (novo?) que apareceu, ou sua ignorância era imensa. Ou o jabá foi generoso. Quiçá os três.

Mas não deixa de ser muito interessante. Há apenas (digo-o sem ironia) dez anos a escassez de lançamentos no campo das cervejas brasileiras era tão grande que permitia resenhas assim. Hoje as cervejas brasileiras atingiram um patamar tal que, sem meus hiperbolismos habituais, ao ir a um festival como o Mondial de la Biére, acho muito mais interessante conhecer novidades brasileiras do que ficar examinando o cardápio de belgas, inglesas e alemães.

Algumas estrangeira serão ótimas, claro, mas cerveja é pão, daí quando mais fresca melhor.

E no festival meus destaques vão para a Jeffrey, gostosa carioca Weiss, a Jupiter, que eu já mencionara aqui, e a Imperial India Pale Ale da Invicta, a cerveja mais amarga do Brasil.

Niterói ::: 440 anos


Hoje Niterói completa 440 anos e acordei com ganas de escrever um texto muito mas muito amargo sobre esta cidade onde moro há 18 anos.

Queria texto com a raiva dos que são escorraçados sem explicação, com o desencanto dos frustrados, com o fel dos amargurados. Queria texto que não deixasse pedra sob pedra. Texto que mandasse bem mandada à merda essa corja de políticos carniceiros e também cutucasse (sentiriam?) essa população alienada e acomodada, que guarda dinheiro debaixo do colchão e crê que o sumo da vida reside num almoço na Paludo ou no Porcão e nos inevitáveis arrotos que se lhe seguem.

Isso seria só a introdução.

Ao saír para alguma inspiração, dou de cara com mais uma casa posta abaixo no Ingá, casa que para mim tinha história.

Ao continuar a deambulação, entro no recém-inaugurado Museu Janete Costa de Arte Popular.

Ao atravessar a rua, volto ao Solar do Jambeiro, onde descubro exposição de fotografia em monóculos "Um Olhar sobre a Diversidade", acerca da comunidade LGBT. A exposição faz parte das atividades do Centro de Cultura LGBT - Prof. José Carlos Barcelos, meu amado, eterno, orientador, sobre quem há pouco escrevi aqui.

Outros, não eu!, o texto rancoroso escrevam hoje. A Lilith do meu ombro esquerdo ronrona como gatinho persa de 4 meses de idade.


PS: Parabéns, Niterói. (Sem exclamação)