Wednesday, July 17, 2013

Fecha as janelas, amor, deixa apenas



fecha as janelas amor deixa apenas
a luz coada das treliças verdes
me vem de blusa branca os cabelos
o rio negro e volumoso que
não há conter :: o rio vasto e negro e sonho
te escorrem pelas costas infinitos
perto da cama larga os teus chinelos
ao lado dos meus deixa que namorem
e se segredem coisas dos seus donos
agora vem e deita e fecha os olhos
para que no escuro te venham cores
que como nunca se repetirá
deita ao lado :: eu te dedilho o clitóris
e o Glenn Gould : sempre ele : dedilha Bach


Glenn Gould toca Brahms. Com introdução de Bernstein.



Um dos episódios mais marcantes da história da música erudita ocidental :: não apenas a performance de Glenn Gould tocando o concerto de Brahms (toda performance de Gould facilmente entra no nicho de episódio marcante, principalmente, creio, aquelas que ninguém ouviu tirante o próprio), mas a fala de Leonard Bernstein e seu notório disclaimer.

Muita água já correu. Muitos admiradores de Gould repudiam até hoje Bernstein por ele ter dito o que disse apenas minutos antes do início do concerto. Ter atirado o hipersensível Gould às feras.

Não sei. Bernstein age como o típico entertainer. Típico entertainer norte-americano, tipo a música já é tão dramática, bora dar uma relaxada? Fazer isso às custas do pianista pode ser complicado. O maestro passou o resto da vida afirmando que não teve qualquer intenção mesquinha e que o próprio Gould aprovara sua fala. Não sei.

Sei apenas que Gould insistiu para que tudo fosse tocado devagar. A única indicação de Brahms para o tempo é.... maestoso, um tanto vago.


 

Tuesday, July 16, 2013

Ao meu lado Camila lê Neruda




ao meu lado Camila lê Neruda
e ele a lê por detrás dos seus sonetos
ambos me furtam a clave do sossego
não há dormir ou ler assim :: a poesia
tão carne viva e mineral palpita
coração do tempo na eternidade
pela janela a sucessão de espaços
árvores luas crianças e pássaros
desenham halo em torno de quem lê
a viagem aqui apenas começa
de tudo me desligo :: sobre a amada
e a poesia fundo a minha cidade
o resto dos dias passarei insone
e nada mais peço à eternidade

Wednesday, July 10, 2013

is 48

São Pedro d'Aldeia :: junho 2013
12

Alex, Neal, Christensen têm seu 12
mesmo que doze meses eu tivesse
jamais conseguiria esta dose
de talento, mas fico na vontade

de rascunhar poema assim tão doce
tal que eu pudesse colocar ao lado
das canções e poema chamados 12
mas sempre fico aquém (ou mesmo além,

soneteiro que sou) fico no 12
ao menos neste e, sim, tá, já sei
isto soneto não é (but a rose
by another name would still smell the same?)



(claro que só se entende esta bobagem de circunstância com isto aqui)

Felicidade a R$3,01



Com o quilo da vagem-manteiga saindo por R$9,89 no supermercado mais perto de você, 305 gramas sairão por R$3,01, que é o de quanto Dona Alaíde precisa para fazer seus bolinhos imapagáveis.

Depois dizem que dinheiro não compra felicidade. Ah meu ódio pela facilidade das frases feitas (inda que paremiólogo) :: não compra o cacete!

São necessários três reais e um centavo.

Da minha obsessão por eles já escrevi aqui.

is 36




Dá 36 ou algo próximo a isso a soma da maravilhosa canção do Alexi Murdoch de seu primeiro álbum (12), o lindo poema da Inger Christensen (12) e a soberba música do Neal Morse (12).

Do Alexi : há muito penso em um post sobre esse brilhante singer-songwriter escocês. Bem, fica o teaser aí.

Da Inger: ela tem uma coroa de sonetos chamada Sommerfugledalen que foi musicada. Como essa combinação poesia / música é um killer para um rapaz como eu, em breve algo mais sobre ela aqui.

Do Neal já escrevi aqui. 12 não é apenas uma de suas melhores músicas, é a prova de que talvez valha mesmo a pena. O seu começo é de uma doçura infinda. E depois, aos 3:21 temos um solo EXCEPCIONAL do Steve Hackett. E aos 5:28 temos um moog LITERALMENTE  BÊBADO.

 

12

life, the air we inhale exists
a lightness in it all, a likeness in it all,
an equation, an open and transferable expression
in it all, and as tree after tree foams up in
early summer, a passion, passion in it all,
as if in the air's play with elm keys falling
like manna there existed a simply sketched design,
simple as happiness having plenty of food
and unhappiness none, simple as longing
having plenty of options and suffering none,
simple as the holy lotus is simple
because it is edible, a design as simple as laughter
sketching your face in the air

(Inger Christensen, Alphabet, tradução de Susan Nied)



Sunday, July 07, 2013

DeliBeer e Duas Cabeças (Feitas)




Nas duas edições anteriores bati na trave, neste ano eu não podia falhar: o DeliBeer seria não apenas em Niterói como, de quebra, em local que sempre quis conhecer :: o Casarão de Charitas, construção histórica de meados do século XVIII que serviu de sede da Fazenda Jurujuba.

Embora o Casarão atenda hoje pelo pavoroso nome de NEC Multiplace, eu não podia falhar.

O evento contou com a participação de bares expecializados em cervejas especiais (virtuais como BeerShop e físicos como o Cervisia 1516, daqui de Niterói), e das cervejarias Fraga, Ravache, Eisenbahn, Duas Cabeças, Rasen, Invicta, Baden Baden e, claro, fazendo as honras da casa, a Noi.

De todas estas, a única que eu não conhecia sequer de nome era a Duas Cabeças, cujas IPAs Hi 5 e Maracujipa foram o ponto alto da tarde. Que a Maracujipa leve maracujá em sua receita é óbvio desde o (ótimo) nome, mas a Hi5 também tem toques da fruta da paixão, devido ao uso do lúpulo Simcoe, coisa que eu já sentira em algumas Brewdogs antológicas. Terá sido isto, aliás, o que me fisgou, já que ela é um misto de American IPA  e Stout e Stout é, definitivamente, um estilo que não me encanta. A não ser, claro, esteja eu em Dublin bebendo direto das tetas da vaca preta e lendo Beckett.

Trouxe para casa ainda (estou falando apenas da Duas Cabeças) uma saison. E olha que pra fazer saison no país da skol tem que ter culhão!

Perdoem-me o trocadilho fácil, mas seja a Duas Cabeças como o deus romano Jano :: uma face olhando para o passado, para a tradição dos mestres cervejeiros, e a outra olhando para a frente, em busca de espaços ainda não pisados.






Duas Cabeças


Saturday, July 06, 2013

Beto

Estive no show do Beto Guedes ontem, primeiro sábado de julho deste ano na Cinelândia.

Este não foi meu primeiro show do Beto :: estive em um mítico (para mim) no Parque Lage em 1985 em que a banda de abertura era o Sagrado Coração da Terra. A galera vaiou vaiou o Sagrado e eu do alto da minha timidez absurda (e não bebia cerveja) mandava todos à merda.

O Beto foi importante para mim nessa época e por isso ainda o é hoje.

O show de ontem.... bem, me fez pensar o quanto é bom ter seus vinis e Cds, pois o show em si é muito ruim. Nem digo pelo fato de sua presença de palco ser algo perto da desastrosa, porque isso já sabemos e o amamos mesmo assim (e por isso). Lo que pasa es que ele e sua banda pasteurizam as músicas de tal maneira que já não haverá distinção entre o agito de "Feira Moderna" e a caixinha de música de "Gabriel". Beto & banda jogam tudo no liquidificador e o que sai é aquele som insosso de uma apresentação ao vivo insosssa. O que salvou foi, amiúde, a galera que, saudosa, cantava junto. Ou seja:: às vezes era mais reconfortante ouvir o público a ouvir as versões cool e sem ritmo da Beto & Banda.

Não sou um chato que quer ouvir ao vivo a reprodução mimética do estúdio. O que não quero ouvir é todas as canções absurdamente iguais e cantadas de modo a destroçar ritmo, melodia e harmonias.

Um bom momento foi "Cantar", do Godofredo, o primeiro bis, Beto um pouco mais solto. "Paisagem na Janela" foi o final apoteótico, mas essa música, com seus backing vocals de motel, é uma boa merda.






Friday, July 05, 2013

Batizando Bem-te-Vis

São Pedro d'Aldeia ::: junho de 2013


talvez a tarde insistente a pedir
que nomeássemos o bem-te-vi
que não falha nesta nossa varanda
é ele :: sonha-se-se galo :: a bicar
a casca da manhã é ele miúdo
voyeur a fixar nossos amores
da manhã tarde noite e madrugada
é ele gotas quentes do céu sobre
o peito a inquirir-nos mas o corvo
de Poe não é ::: ele apenas nos lembra
que os dias se tecidos de incertezas
no canto desperto nos fazem vivos
chamo-lhe José (ele apenas é)
a alegria dos gestos redivivos

Wednesday, July 03, 2013

A Casa da Flôr - São Pedro D"Aldeia

Ela está lá, mal escorada por estacas derrapantes que se enfiam solo adentro. Se é difícil preservar igrejas e museus, o que dizer de casa pobre de preto pobre visionário que trabalhava nas salinas?

O que a salvou / salva do olvido eterno foi o compararem-na a Gaudí. A chancela de que tanto gostamos. Aí aquele monte de caco e caos de conchas ganha respeito e mesmo atrai visitantes. Em dias nublados.

Gabriel dos Santos e sua casa trazem-me à mente rol de coisas. Já antes de conhecer, imaginai agora. Mas me traz o Quintana de "Todas as artes são manifestações diversas da poesia -- inclusive, às vezes, a própria poesia".

Gabriel dos Santos era um poeta. E não quebrava nada. Construía com os cacos que lhe chegavam às mãos. Nada o fazia mais feliz. Criança. Sábio. Velho sábio getulista, o precursor da geladeira em São Pedro d'Aldeia, o precursor da ecologia, o nefelibata à margem da estrada. Vivendo à beira.

Engraçado só falarem de Gaudi pra lá e pra cá. A tal da chancela. Gaudí é fueda. Visionário, místico, mas um erudito. Sem querer criar dicotomias, se é para tecer comparações, se é para irmanar, fazer famílias, vêm-me à mente antes Arthur Bispo do Rosário e o Profeta Gentileza.

E os três hoje colorem o céu por detrás das nuvens pretas.









Dos Sonetos Rimados


N. S. da Penha :: Niterói ::  junho 2013


os sonetos rimados me aborrecem
eu proclamo em perfeito decassílabo
aquele em que as riminhas se entretecem
da maneira mais lógica e previsível
sobre as rimas já discorreru Montale
maçantes insistentes sempre as mesmas
e o gaúcho em seu baú de espantos
noticiou o encontro de duas delas
que se olham atônitas comovidas
Mil vezes rimar livre com alpiste
:: deixo aqui meu elogio às toantes
mais discretas e sóbrias :: mas mesmo antes
conseguir rimar a palavra trôpega
com a corda sensível de quem lê

Monday, July 01, 2013

No meio do caminho tinha o Minho



no meio do caminho tinha o Minho
rio antigo que flui no coração
do rio antigo :: e assim me rio
e assim nomeio e assim me embriago
de vinho farto ao som das caldeiradas
e me perco transido de azulejos
os azulejos :: azul e desejos
voo azul de desejos pela moça
que tanto coça o pensamento aqui
recebe sob as pálpebras da tarde
este bilhete em forma de soneto
e nada impeça que este verso queime
que teime em repetir o que já sabes
de cantar o que em mim já não se cabe

Sunday, June 30, 2013

Entrelaçar os dedos para entre



entrelaçar os dedos para entre
laçar os dias entrelaçar as vidas
duas tranças descidas até o ventre
da tarde já madura para o enlace
dos corpos que febris se buscam entre
o grito agudo do gavião rapace
e os bramidos do mar :: o touro bravo
que escravos carregamos peito adentro
domesticá-lo castrá-lo cortá-lo
em bifes é flertar com a velha triste
que insiste em insinuar-se sobre nós
antes ter os seus coices temerários
riscar do glossário a palavra paz
jamais saber como termina o dia

Tuesday, June 25, 2013

Nossa Senhora da Penha - Niterói

As informações são esparsas e escassas, mas aquela igrejinha que se vê no alto do morro da Ponta d'Areia é de Nossa Senhora da Penha, uma comunidade dentro da comunidade. E o termo eufemístico se aplica porque, sim, a área hoje está bastante favelizada. Não o digo de nariz torto: parece-me que a região seria uma extensão de Portugal Pequeno, casinhas antigas e sua capela, mas que com o tempo, e, sendo morro, a favelização foi inevitável.

Daí meu medo em subir, não me digam que é preconceito ou que a culpa é da classe média ou que eu sou tijucano. Aliás, subir é mole, eu queria descer, vivo. Daí, como tenho muita cara de gringo, achei a empreitada não podia ser a sós. Fui com a Maria, o que só piorou as coisas :: um gringo com uma criança.

Foi tudo ótimo. Sem que pedíssemos, Ana Medina se ofereceu para abrir a igreja para nós. E o Bar do Carlinhos tinha piso de azulejos hidráulicos e a garotada soltava pipa.

Not a bad way to spend a birthday morning, uh?










Monday, June 24, 2013

45



Ferreira Gullar publicou seu Poema Sujo aos 45. O lançamento foi um ano depois e sem sua presença porque os anos eram ainda os da gloriosa ditadura.

Gilberto Mendonça Teles escreveu o poema "45" também aos 45 depois de receber a visita do também poeta Domingos Carvalho da Silva, um dos ícones da... Geração de 45. Gilberto gostava dessas coisas e eu não menos.

45

Sou da geração
de quarenta e cinco
ou tenho na mão
a porta sem trico?

(Nem sei quantas são
as telhas de zinco
que cobrem meu chão
de quarenta e cinco.)

Semeei meu grão?
fui ao fim do afinco?
pesquei a paixão
de quarenta e cinco?

Tudo é sim e não
em quarenta e cinco.
E a melhor lição
forma sempre um vinco

de interrogação
no tempo, onde brinco
procurando um vão
entre o 4 e o 5.

**¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨

Foi esse poema que me fez perguntar-lhe se ele usava dicionário de rima, ao que ele respondeu em sua modéstia habitual: "Uso e sei usar."

O de Gullar não obedece a esquemas de rimas, sendo, para além de sujo, longo. Cito trecho da segunda estrofe e outro mais para o final, em que há alusão à idade.

bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta

()()()()()(

tic tac tic tac

enquanto vou entre automóveis e ônibus
entre vitrinas de roupas
nas livrarias
nos bares
tic tac tic tac
pulsando há 45 anos
esse coração oculto
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva
debaixo da capa, do paletó, da camisa
debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária
meu coração de menino


Bem, aí pra não ficar por baixo resolvi botar as mangas de fora. Segue

45

este soneto é só para lembrar
àquela moça de olhos inefáveis
(eles que são piruetas pelo ar
e cujo canto faz inveja às aves)
só para lembrar-lhe que nesta véspera
já não pesa o peso do aniversário
recito a calma de quem tudo espera ::
em meio a sentimento assim tão vário
em meio a sentimento tão diverso
à falta de palavras faço versos ::
:: o presente que Midas transfigura
a vida plena sem tramela ou trinco
gol da vitória aos 45
navio alumiando a noite escura

Friday, June 21, 2013

Anoitece na barca / De modo diferente

Há alguns anos repudiei fotos de pôr-do-sol. Em primeiro lugar, pela facilidade::: foto de pôr-do-sol é como soneto com chave-de-ouro. Com o devido ponto de exclamação! Em segundo lugar, porque são comuns demais. Tudo se relaciona, já que todos amamos as facilidades. Todos amamos as facilidades!

Mas enfim.

Anoitece na barca
de modo diferente
o sol dorme nas águas
se olhamos de repente
e já nem está lá
está dentro da gente