Sunday, October 30, 2011

Se hoje é sábado, vou de feijoada

Não me ufano do meu país, nem de minha cidade, com quem já mantive relações de amor e ódio e hoje é muito mais amorosa que qualquer coisa. Por minha cidade refiro-me àquela em que nasci e não esta onde vivo, que adotei e me adotou.

Amo: no Rio um de seus principais itens gastronômicos não é folclorizado, não se encontra apenas nos restaurantes chiques para turistas, não é só capítulo de coleção da Abril de cozinha regional. Pelo contrário, é vivo, presente no cotidiano, amado pelos cariocas e com dia especial para sua celebração. Refiro-me, obviamente, à feijoada. De sábado. Restaurante que atende aos trabalhadores do Brasil costumam puxá-la para a sexta. Compreende-se. Feijoada não pode ser na segunda ou terça, nem no domingo. Tem que ser no fim da semana, porque ela pede descansos. Mais do que isso: a completa, como dizia Vinícius, tem que ter ambulância na porta.

Já escrevi por aqui sobre a feirinha dos sábados da Praça XV. Pois passeio completo (e que dispensa a ambulância) é depois da feirinha cruzar o Arco dos Teles. Há vinte anos não se andava pelo centro da cidade numa manhã de sábado. Quem o fizesse só via lixo. Depois era assaltado. Hoje o Corredor Cultural é uma realidade. A área, em que pese certa espetacularização aqui e ali, está revitalizada. E coalhada de restaurantes que servem feijoada...










Duas vezes seguidas fiquei com a do The Line. Embora surda e manca (sem orelha nem pé), é genial. E tem caldinho de grátis!!!! =)

Tuesday, October 25, 2011

Soneto só para a Letícia



Escreveu Bishop não ser difícil dominar a arte da perda, seja de uma chave, de uma hora, cidades, continente, pai. Acho esta arte dificílima e creio que jamais chegarei ao seu domínio, embora o passar dos anos tenda a nos ensinar algo neste sentido. À nossa revelia.

A arte do ganho, que aqui não é sinônimo de vitória, tem também seus mistérios e sutilezas. Ganhei coisas já, e não poucas: chaves, cidades, continentes. Pais e filho.

Outro dia, um soneto. Daquele modo clássico, dedicatória nominal sob o título. Eu já ganhara um conto, de modo análogo, mas quatorze versos assim... foi a vez primeira. O que fazer com o presente, para além de, criança, mostrá-lo a quem surgir pela frente? The art of receiving a sonnet is hard to master.

Pouco ou nada me resta senão retribuir.


SONETO SÓ PARA A LETÍCIA

Eu ganhei um soneto nesta quinta
E a manhã que se anunciava escura
Torna-se leda, tépida, sucinta
Própria da moça que tece canduras.

O tempo vem com suas imposturas
E o soneto, senhores, é arte extinta
A quem interessam rima e mesura?
Twitter e face não deixam que eu minta.

Mas se tenho um soneto, volto aos mitos
pretéritos, de paina, de blandícia,
de paciência e de esquecidos ritos.

E a minha alegria, ledícia, atice-a
sempre a moça de versos manuscritos.
E este soneto é só para a Letícia.

Sunday, October 23, 2011

In Gloria



O que é a Glória? Uma estação de metrô, indicando que Botafogo e Copacabana estão próximas. Para alguns, uma igreja (mas que igreja!). Para uns poucos, também um relógio (e que relógio!). E só. A Glória, como a Praça da Bandeira, é passagem, sem qualquer sentido metafórico.

Mas se mesmo a Praça da Bandeira revela não poucas surpresas para o olhar atento e amoroso (alguém aí já reparou aquele centenário portão do Matadouro lá fincado?), o que dizer da Glória.

Para mim, independentemente de seus palácios, sua gloriosa igreja no Outeiro, sua igreja positivista (!), sua igreja em estilo neogótico inglês de belos vitrais, independente de seus casarões, seus cortiços, suas vilas, seu monumental Hospital da Beneficência Portuguesa, sua taberna, seu relógio de quatro faces, suas ladeiras, suas escadas, seu chafariz setencetista, sua murada, seus maravilhosos botecos sórdidos, a Glória já mereceria lugar de destaque nesta cidade que teima em valorizar apenas praias, samba e futebol [de preferência um único time], pois que aqui morou, por 41 anos, Pedro Nava, mineiro que amou o Rio como poucos. Em Galo-das-Trevas, quinto volume de suas memórias, lê-se:

Há trinta e cinco anos moro no Edifício Apiacá, à Rua da Glória, 190, apartamento 702. Quando para aqui mudei o número era 60. Nosso arranha-céu levanta-se em terreno onde existiu famososo bordel do bairro nunca completamente saneado. Aqui passei quase metade de minha vida. Aqui envelheci. Quer dizer: aqui tive contados minutos de paz e um roldão de dias noites de tormento. (p. 26)

The horror, the horror



Não são poucas as vezes em que as célebres últimas palavras de Kurtz me vêm à cabeça, o que não é nada bom. Elas me vêm à cabeça quando leio que crianças viciadas em crack improvisam um chá de pilha alcalina para saciar/ disfarçar / amainar seu vício na impossiblidade de fumar as pedras. E elas me vêm a cabeça quando.

Sabem o filme O Sexto Sentido? Bom filme, bem feito, perspicaz em seu truque. Mas aquela história de ver gente morta não tem nada de horror para mim. Zumbis, múmias, lobisomens e toda essa palhaçada recente de vampiros não têm absolutamente nada de horror para mim. Horror, horror mesmo, é quando descobrimos, no filme, aquela personagem mãe que mantinha seus filhos doentes para que dela as pessoas tivessem pena. Chegou a matar um dos filhos. The horror.

The horror, the horror são as palavras que me vêm à cabeça quando tomo ciência dos quatro médicos de Taubaté que, na década de 80, retiraram os rins de pacientes AINDA VIVOS para os venderem a pessoas necessitadas de transplante na capital São Paulo. Com isso, mataram quatro. The horror.

Quase trinta anos, são enfim condenados a 17 anos e meio de prisão. Um dos monstros, um neurologista, morreu ano passado. Que o inferno lhe seja doce.

Poderão recorrer em liberdade. The horror.

Durante todos esses anos, continuaram a exercer a profissão, dado que os Conselhos de Medicina não encontrarm motivos para cassar-lhes o registro. The horror.

Não me consta que os beneficiários do esquema (que chegaram a pagar entre 35 e 70 mil reais) tenham sofrido qualquer punição. Receptação também não é crime? The horror.

Quantas vezes usei a palavra horror aqui? Bem mais que Kurtz, não? É que este viu os hororres da colonização belga no Congo, sendo ele mesmo instrumento desse horror.

Mas não conheceu ele os médicos de Taubaté.

Nem a Justiça brasileira.

A Presença dos Gatos nos Pé-Sujos Cariocas

Tenho uma plêiade de ideias para meus pós-doutoramentos, que vão desde "A Inflência dos Single Malts de Islay no Rock Progressivo", passam pela literatura moderna do Sri Lanka e chegam a "Permanência do Kazoo no Rock Progressivo" (até agora encontrei-o em uma música apenas).

Ideias que, no barato, devem render umas 500 páginas.

Outra ideia ainda é esta do título deste post. Not bad, uh?

Agências de fomento - o CAPES, o CNPq, a Faperj - disputam a tapas o privilégio de financiar as pesquisas.


Bar Príncipe - Botafogo




Bar Fica Bem - Benfica




Bar Almeria - Pça. da Bandeira




Bar Flor de Santa Teresa




Bar Poleiro do Galeto - Benfica



(Cadê o gato? Vai lá e sente o onipresente cheirinho...)

Sunday, October 16, 2011

Que las hay, las hay.



Em minha postagem anterior falei no Andy Warhol, com o pretexto de fazer algumas warholices com uma foto do Dante. Quem leu sabe que fiz questão de frisar que o artista norte-americano não é meu artista preferido, não entrando nem em uma TOP 500.

Mas artistas são vaidosos e a mera menção a um colega pode ser suficiente para despertar ondas de gelosias...

Pois não é que a tal da mera menção fez com que meus dois preferidos surgissem inesperadamente à minha frente??? Não em sonhos, que isso serão abstracionices de poetas, mas na materialidade da primeira página do jornal (Modigliani) e em um... queijo no supermercado(Vermeer)?!

É o que sempre digo: no creo en las brujas, pero...

(Y, con efecto, si Vermeer y Modigliani son brujos (lo son), no me vengan con hadas.)

(Na verdade, os dois são dois dos meus favoritos, e não os. Mas deixo assim de propósito, na esperança de que Bruegel, Chagall, Caravaggio, Bosch, Ensor, Delvaux, Klimt e Zizi Sapateiro também dêem as caras...)

Thursday, October 13, 2011

Warholices

Andy Warhol não é de meus artistas preferidos e está mesmo muito longe de o ser. Mas como ontem foi Dia das Crianças, deixem-me fazer minhas warholices.





Dantinho com uma de suas carinhas típicas, a de "Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti"...

Tuesday, October 11, 2011

Eu poderia ouvir 300.000 vezes



Nos tempos de orkut, tive uma comunidade dedicada ao Penguin Cafe Orchestra. Acho que passamos de 100 membros. Not bad, sendo este o país do segura o tchan.

Se não me engano, eles tiveram vários de seus álbuns incluídos nos 1001 discos para ouvir antes de morrer, o que é mais do que justo, é uma chance de conquistar novos adeptos.

PCO não é rock. Mesmo o elástico "rock progressivo" me soa forçado aqui. Música progressiva, isso sim. Música de aventura. Pero linda e acessível.

Algumas músicas, em especial "Numbers 1 to 4", "Music for a Found Harmonium" e "Dirt", eu poderia ouvir 300.000 vezes seguidas. Sem enjoar.

Certa viagem em julho, acordei no meio da noite no avião escuro. Não conseguia dormir, mas fiquei ouvindo essas 3 músicas ininterruptamente. Fiquei feliz.

Às vezes vou andar na praia. Vou e volto com as mesmas 3 nos ouvidos.

Saturday, October 08, 2011

Viva o Rock Progressivo Sueco!



A brincadeirinha que fiz com o Eric deu ensejo a que ele listasse suas dez bandas suecas favoritas. Só para provocar, deixou o Blåkulla de fora, embora reconhecesse seus méritos. Tudo que posso fazer é cumprir minha ameaça de ficar os cinco dias sem palrar com ele.

E aí fiquei com vontades de fazer a minha lista! Como forma também de homenagear o país do poeta que acaba de ganhar o Nobel de Literatura, Tomas Tranströmer.

De pronto vi que era impossível selecionar apenas dez bandas de uma cena progressiva tão rica. Daí, dividi: anos 70 e anos 90 e 00. E ainda ficou coisa boa de fora...

TOP 10 PROG SUECO ANOS 70 (ordem alfabética):

BLÅKULLA
DICE
FLÄSKET BRINNER
KAIPA
KEBNEKAJSE
KULTIVATOR
MR. BROWN
TRETIOÅRIGA KRIGET
TURID
ÄLGARNAS TRÄDGÅRD


TOP 10 PROG SUECO ANOS 90 e 00 (ordem alfabética):

ANEKDOTEN
BRIGHTEYE BRISON
FIRST BAND FROM OUTER SPACE
FLOWER KINGS
GÖSTA BERLINGS SAGA
LIQUID SCARLET
MOON SAFARI
RITUAL
ZELLO
ÄNGLAGÅRD


Se tiverem, postem suas listas aqui nos comments. Tenho a ligeira impressão que blog é um pouco menos efêmero que rede social...

Sunday, October 02, 2011

Reale Accademia di Musica



Quando postei minhas listas de preferidos do rock progressivo italiano, previ que haveria um chato reclamando ausências, o que de fato aconteceu, na figura do Eric Licen.

Ele tem toda razão, também eu reclamo quando vejo lacunas, buracos e ausências indesculpáveis em tantas listas por aí. Mesmo as que listam 1001 (famosa e deliciosa série de livros) deixam de fora justamente o mais importante.

Vai o próprio Eric listar suas dez bandas suecas favoritas e deixar de fora o BLAKULLA! Fico cinco dias sem falar com ele.

Vai o Raul elencar seus bolinhos de bacalhau favoritos e não incluir o do Caneco Gelado do Mário! Visto na hora minha linda camisa do River.

Vai o Paulo reunir seus locais preferidos de Niterói e ignorar o Bar do Édson! Derreto na hora uma estrelinha vermelha.

E o Gustavo? Imagina ele agrupando os gols mais bonitos da história do futebol sem incluir o terceiro do Diego Souza contra o Cruzeiro? Ponho-me incontineti a baixar todo o catálogo da Masque.

Pois grandes entendedores do rock progressivo italiano às vezes deixam de fora o REALE ACCADEMIA DE MUSICA, para mim TOP 5 fácil. Paolo Barotto listou seus 20 mais importantes, deixou de fora. O Augusto Croce, um dos maiores conhecedores do assunto do mundo, dono de um site, tampouco faz referência ao Reale em sua lista de vinte.

Pode ser que seja por eu ter conhecido há tantos anos, ainda adolescente, mas a combinação magistral das singelas músicas ímpares com as mais elaboradas e complexas músicas pares faz deste álbum homônimo uma das pérolas da cena progressiva italiana dos anos 70. Lindo demais.

E já sonhei casar ao som de FAVOLA à margem do Rio Preto...

(Este registro ao vivo é raro e mítico. Vocês acham que esta canção é par ou ímpar?)

Saturday, October 01, 2011

José (um tal de)



Troppo clichê falar de globalização, mas que otra palabra should I use quando se é um brasileiro, se está na Dinamarca, e se compra o CD de um sueco que se chama... José González? Marco Polo perde.

Quanto ao José, eis um legítimo herdeiro do Nick, não tanto pelo timbre, mas pelo ethos...

Veneer é de 2006, In Our Nature, 2007. Dizer que todas as canções limitam-se a voz e violão pode ser tecnicamente correto, mas é sobremaneira estúpido falar em limitações.

Daqueles trabalhos que dificilmente batem de prima. Requerem repetidas audições para que, o inglês aqui define bem, possam grow on you...

E alto lá. Como assim, as canções têm apenas voz e violão? Em "Broken Arrows" temos alguns segundos de trompete...

Cool bagaray...

Friday, September 30, 2011

O Filho Eterno

Enfim li O Filho Eterno, do Cristovão Tezza. Lembro-me de que quando comentei com uma amiga acerca da condição do Dante (recém-descoberta), ela pronto perguntou: "Você já leu O Filho Eterno?" Não tinha, e relutei. Enfim.

Chega a ser pueril que eu selecione, de um romance extraordinário, duro e corajoso, um trecho lá do final sobre... futebol. Mas esta coisa nenhuma que, como se lerá, ajudou na inserção do Felipe (é ele o filho eterno) no mundo, também aproximou-me deste mesmo Felipe, personagem, ser de papel, mas também ser de carne e osso, torcedor apaixonado do Atlético Paranaense e colecionador de camisas de futebol. Falarei disso depois.

Bem, o trecho foi também selecionado porque poucas vezes (if ever) vi o ludopédio assim tão bem descrito...

"O futebol, esse nada que preenche o mundo, o pai imagina, logo o futebol, uma instituição de importância quase superior à da ONU e que ao mesmo tempo congrega em sua cartolagem universal algumas das figuras mais corruptas e vorazes do mundo inteiro, um esporte que onde quer que se estabeleça é sinônimo de falcatrua, transformado num negócio gigantesco e tentacular, criador de mitos de areia, a mais poderoasa máquina de rodar dinheiro e ocupar o tempo jamais inventada, a derrota final das inquietações do dasein de Heidegger, o triunfo definitivo das massas, o maior circo de todos os tempos, vastas emoções sobre coisa alguma -- o pai vai se irritando sempre que pensa, escravizado também ele àquela dança defeituosa que jamais completa mais de cinco lances seguidos sem um erro, um esporte que sequer tem arbitragem minimamente honesta até mesmo por impossibilidade do olhar dos juízes de dar conta do que acontece (em todos os jogos do mundo acontecem falhas grotescas), e no entanto urramos em torno dele, a alma virada do avesso -- pois o futebol, essa irresistível coisa nenhuma, passou lentamente a ser para o Felipe uma referência de sua maturidade possível" (pp. 218-219)




(Meu filho eterno, já quase preso a essa coisa nenhuma...)

Tuesday, September 27, 2011

Oa Azulejos do meu Bairro

Como hoje se derrubam mais casas por aqui do que árvores na Amazônia, passa o Ingá por célere processo de descaracterização. Em sua volúpia de arrecadação, a prefeitura não apenas permite como encoraja que as casas do bairro, amiúde importantes para o patrimônio e o imaginãrio espiritual dos moradores, deem lugar a espigões da Cyrella e da Soter.

A questão transcende meu lado romântico e afeito às questões relativas ao patrimônio. Não se trata de querer engessar um bairro. Tal veticalização (ou adensamento ou copacabanização, como queiram) ocorreu e ocorre no mundo inteiro. Nesta mesma cidade, não é o Ingá o único bairro a sofrer isso, haja vista Santa Rosa e São Francisco, verdadeiros canteiros de obras. Mesmo o Cubango, que esses empreiteiros marqueteiros de merda querem agora chamar de... Jardim Santa Rosa!

Não se trata apenas de preservação ou preservação como fim em si. O problema é que as licenças para novos prédios são concedidas sem que se façam estudos de impacto e obras de infra-estrutura. Jamais me esquecerei de certa segunda-feira em que voltávamos do médico do Dante em Botafogo: gastamos mais tempo no trânsito da Visconde e Morais do que durante todo o trajeto no Rio!

Estas fotos, portanto, têm valor estético e documental. Não é necessário um poder nostradâmico par afirmar que todas (sim, todas) as casas daqui virarão pó nos próximos meses.

Com alegria e pesar as reúno aqui. Foi preciso um certo olhar amoroso-arqueológico para encontrar estes azulejos tão bonitos no meu bairro.


Detalhe de uma fachada na Fagundes Varela, com azulejos em relevo:

Singelo azueljo no muro entre duas casas:

Não eram incomuns varandas assim. Os azulejos verdes eram constante:

E as varandas ficavam ainda mais bonitas se, para além dos azulejos verdes, tinham ainda outros como friso:





Nem sempre eram / são verdes:

Estupenda azulejaria em casa da Fagundes Varela:



E este friso, com detalhes em relevo. Em casa onde hoje funciona um pet shop:

Viva o Rock Progressivo Italiano!


Embora o ano de 1970 tenha presenciado o surgimento de alguns discos interessantes, com as estreias do Balletto di Bronzo, Circus 2000, Formula Tre e Trip, parece-me apropriado demarcar 1971 como o ano inaugural do rock progressivo italiano. Neste ano
surgem o Dolce Acqua (Delirium), Concerto Grosso n°1 (New Trolls), L'Uomo (Osanna), In the Beginning (Nuova Idea), Uno (Panna Fredda), Volo Magico n°1 (Claudio Rocchi) e La Bibbia (Rovescio della Medaglia), dentre outros. Mais importante, bandas beat tornam-se progressivas, seja por apenas um disco (infelizmente), como o I Giganti (Terra in Bocca), seja por toda uma carreira, como o Le Orme (Collage).


Isso significa que neste ano do Senhor de 2011 o rock progressivo italiano torna-se um belo quarentão, o que não pode passar em branco.

Pretendo, como pálida homenagem a esta riquíssima cena do rock progressivo, escrever uma série de posts de modo a divulgar um pouco músicas, discos e bandas que há anos admiro, pesquiso, leio, vejo. E, sobretudo, nunca canso de ouvir.

Para começo de conversa, pensei em uma lista com as melhores músicas. Logo percebi que juntar "Zarathustra" com "Dolce Acqua" era meio como a alhos bugalhos juntar. Assim, de uma lista fizeram-se duas: suítes e canções.

Toda lista é idiossincrática e, amiúde, chama mais a atenção pelo que não está lá. Enfim, se sua música preferida não está aqui, melhor, contribua, ou crie a sua. Em alguns casos, era quase ímpossível escolher apenas uma música da banda. Pense o Biglietto, ad exempio. Em que "Il Nevare" é 'melhor' que "Confessione" ou "L'Amico Suicida"? Em nada, gosto tanto de uma quanto de outra. O que não podia era o Biglietto ficar de fora.

No caso das suítes: em alguns casos, temos em mãos realmente uma suíte, dividida em partes etc e tal. Em outros, a música é suíte só porque é longa? Discussão válida, mas que deixo para um segundo momento. Vamos a elas, em ordem absolutamente aleatória.


CANÇÕES - TOP 20

1) AQUILE E SCOIATTOLI - Latte e Miele
2) FAVOLA - Reale Accademia di Musica
3) R.I.P. - Banco del Mutuo Soccorso
4) L'EVOLUZIONE - Banco del Mutuo Soccorso
5) PRINCIPE DI GIORNO - Celeste
6) DOLCE ACQUA - Delirium
7) APPENA UN POCO - Premiata Forneria Marconi
8) EPILOGO (da suite "Ys") - Balleto di Bronzo
9) CORPI DI CRETA (da suíte "Mu") - Riccardo Cocciante
10) CROMA - Alphataurus
11) IL NEVARE - Biglietto per Inferno
12) LUGLIO, AGOSTO, SETTEMBRE (NERO) - Area
13) UN GIORNO, UN AMICO - Quella Vecchia Locanda
14) PROFUMO DI COLA BIANCA - Locanda delle Fate
15) COFFEE SONG - Acqua Fragile
16) IL MUSICISTA - Le Orme
17) UNA DOLCEZZA NUOVA - Le Orme
18) DELLA NATURA - Museo Rosenbach
19) LA TERRA DELLA VERITÀ - Saint Just
20) SPECCHIO - Jumbo


SUÍTES - TOP 12

1) TERRA IN BOCCA - I Giganti
2) SUITE PER IL SIG. K - Jumbo
3) ORO CALDO - Osanna
4) ANIMALE SENZA RESPIRO - Osanna
5) ZARATHUSTRA - Museo Rosenbach
6) IL GIARDINO DEL MAGO - Banco del Mutuo Soccorso
7) FRUTTI PER KAGUA - Capitolo Sei
8) FELONA E SORONA - Le Orme
9) STORIA MAI SCRITTA - Enzo Capuano
10) ARIA - Alan Sorrenti
11) MORETTO DA BRESCIA - Garybaldi
12) CONCERTO GROSSO No. 1 - New Trolls

E tanta coisa maravilhosa ficou de fora....

A fazer: TOP das capas, dos músicos, das músicas instrumentais, dos discos...

Saturday, September 24, 2011

O Quarto do Filho




Reza o segundo princípio do DOGMA 95 que "o som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa". Em outras palavras, a música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena. Em outras palavras ainda: fim da trilha-sonora. A não ser.

A não ser que seja incidental. Depois de assistir a Sociedade dos Poetas Mortos com meus alunos, toco-lhes trechos da trilha, pedindo que identifiquem a que cena cada trecho corresponde. Eles, que já assitiram ao filme, em pedaços, há muitos dias atrás, cumprem a tarefa com perfeição e entendem bem a distinção entre os dois tipos de trilha. Neal, Knox, Charles não ouviam música alguma quando seguiam para a caverna à noite, mas nós, espectadores, sim, ouvimos Jean Michel Jarre. Tampouco eles ouviam harpa e gaita de foles quando, na última e inesquecível cena, subiram nas carteira para desafiar a educação opressora... Entretanto, eles, os personagens, ouviam a música tocada in loco durante a apresentação teatral de Neal. Segundo o Dogma, apenas este último exemplo seria válido.

Em O Quarto do Filho, de Nanni Moretti (bom cineasta e ator quando consegue frear seu narcisismo), esses dois tipos de trilha aparecem numa mesma cena (ou quase). É ver o vídeo e comprovar. O persoangem ouve a extraordinária canção de Brian Eno ("By this River") tocada na loja de Cds... Mas não a ouve quando perambula, desolado (sim, seu filho já morreu) pelas ruas de Ancona. A menos, claro, que ela estivesse ressoando em sua cabeça... O que, ocorreu-me agora, não seria nada improvável... O que faria o Dogma com isso?




(Aliás, como diria Didi Mocó: caiu aqui... Durante madrugadas passadas com o Dante, me sinto exatamente como pai, mãe e filha na última cena deste filme. Isso dá um post. Mas este post não escreverei.)

Carrington



Das dezenas trilhas-sonoras do Michael Nyman que tenho, é possível, e mesmo provável, que minha preferida seja a do Carrington, pouco falada e nunca lembrada entre os nymaníacos. Mas, atenção, somente da faixa 10 em diante. Isso não quer dizer que eu desgoste das nove primeiras músicas: gosto, mas não são elas que me fazem entronizar Carrington como minha trilha preferida.

É quando os gentis acordes de "Partridge" começam a tocar (com sua maravilhosa, inda que sutil, mudança de tempo a 1'11''), que o negócio fica sério. Aliás, muito sério. Poucas vezes (A la Follie, talvez) Nyman foi tão pesado. Músicas como "Brenan", "The Infinite Complexity of Christmas" e "Something Rather Impulsive" são de um complexidade, de uma sensibilidade, de uma pungência dificilmente igualada em todo o seu repertório. Approach with care.


Para os fãs da maravilhosa "Floating the Honeymoon", uma dica: no filme ela é bem mais longa que os 2'48'' do disco. O que, por si só, já valeria o filme de Hampton. Aqui, compositor e diretor chegam a ser covardes: botar uma música dessas em uma cena em que aparece Veneza....


To be continued...

Tuesday, September 20, 2011

Saudades de Goa

Há um soneto de Sidônio Muralha, em Poemas de Abril, que termina com estes dois versos:

"a minha volta é só formalidade.
Voltar não voltarei. Sempre lá estive."

Não sei o que deu em mim que sou assaltado por saudades de Goa ultimamente. Saudades daquelas que doem, daí a ponho no pilão e soco, macero, faço dela cataplasma e ponho sobre a ferida. Revejo as fotos, folheio os livros (como os maravilhosos da Heta Pandit), penso textos. Mais que isso, reencontro Goa ali e aqui.


Há alguns meses conheci a capelinha de Nossa Senhora das Cabeças (post em breve) no Jardim Botânico, situado em uma escola que até recentemente era um orfanato. A escola é mantida pelas Irmãs Carmelitas Descalças.

Não digo nem a capelinha em si, maravilhosa e genuína construção colonial do início do século XVII (!!), a única capela com alpendre de nossa cidade, mas o prédio central, as casinhas das cercanias, o isolamento, tudo trazendo-me à mente e ao coração a ilha de Divar, no coração das Velhas Conquistas goesas...

Tanto que coloco duas fotos: uma do Jardim Botânico, outra de Goa, logo ali... Qual é qual?

E assim carrego Goa comigo. Quando voltar, mera formalidade, poderei dizer que voltar não voltei. Sempre cá estive.


Friday, September 16, 2011

Futebol em Goa

A Índia não é lá muito fã de futebol, preferindo o críquete a ele. Uma partida de críquete entre Índia e Paquistão é o que de maior rivalidade pode existir no mundo do esporte. Esqueçam Vasco X Flamengo, Barcelona X Real Madri, Celtic X Rangers, Partisan X Estrela Vermelha, Inter de Milão X Milan, Boca Juniors X River Plate, Bonsucesso X Bangu, pálidas sombras, ninharias, ossinhos de borboleta perto da paixão despertada quando se confrontam Índia e seu eterno rival no críquete.

Claro que há críquete em Goa, mas esta, que passou séculos de costas para a Índia, trai o sangue luso que já correu em si ao demonstrar paixão maior pelo futebol. Em nossas muitas jornadas pelas aldeias, quantas e quantas partidas, qualquer hora, qualquer dia.



Não existe um time chamado "Goa". Mas essas camisas, puramente fantasia, são lindas, não? Claro que trouxe uma. No mercado de Arpora.



Jogo em Talaulim. Aos pés e à sombra da fantasmagórica igreja de Santana.


Bate-bola durante o recreio em escola da aldeia de Cuncolim...


Ainda em Cuncolim. Vejam a forte presença do futebol no imaginário...

Thursday, September 15, 2011

Goesas Janelas

Um post da Potira em seu lindo blog motivou-me a revisitar fotos nesta madrugada e garimpar algumas janelas de Goa.

De quebra, segue o poema da Adélia.

Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
clarabóia na minha alma,
olho no meu coração.