Sunday, February 27, 2011

Morre o cervejeiro mais antigo do Brasil








Em viagem feita em janeiro de 2006 (Bia terminava a sua tese, eu cozinhava a minha em banho-maria), cheguei a Canoinhas depois de passar por Joinville (ainda não existia a Opa) e São Bento do Sul. Viagem temática, de que sempre fui fã, o desta era bem simples: conhecer as cervejarias de Santa Catarina.

Em Canoinhas, tive o privilégio de passar tarde agradabilíssima em companhia de Rupprecht Loeffler, simpático, solícito, profissional. À beira de tornar-se nonagenário, Seu Loeffler falava com paixão de sua vida e de seu trabalho, o que talvez fosse, para ele e para os felizes que fazem do que amam o seu trabalho, falar da mesma coisa. Muito ele falou de sua Canoinhas do passado, de seus namoros, suas caçadas, o que explicam o monte de macaco empalhado espalhado pelo pequeno salão da cervejaria. Bebi de todas, da Nó de Pinho, da Mocinha, da Malzebier e da Jahu. Mas encharquei-me mesmo foi desta última. Não havia bolachas, ele presenteou-me com vários rótulos, hoje tesouros.

Para além dos visitantes eventuais, como eu, havia os habitués, que naturalmente chegavam à mais antiga cervejaria em funcionamento do país, conversavam com o mais antigo cervejeiro, tomavam sua cerveja e se iam.

Seu Loeffler também tomava sua cerveja, uma após a outra, em seu copo de requeijão enfeitado de bichinhos. Copo que euzinho aqui, colecionador e metido, consideraria o copo menos apto do mundo para se tomar cerveja. O alemão era assim: simples. E provavelmente foi essa combinação de simplicidade e trabalho e, claro, muita cerveja (boa!) que o fez alcançar idade tão provecta.

Vá ele agora tomar sua cerveja mais descansadamente. E fique a sua fábrica preservada, tutelada, protegida, tombada em todos suas partes materiais e imateriais. E declarada, incontinenti, Patrimônio da Humanidade.

Friday, February 25, 2011

Largo do Piolho


Bem ali, no coração do Largo do Piolho, tem um boteco cuja graça é Lavradas. Quem toca o negócio hoje, mas não é de hoje, tem anos, é um cearense de Sobral. Peguei pelo sotaque: estado (mole) e cidade. O boteco tem umas sancas azuis encantadoras, além do São Jorge e azulejos.

Não está, como muitos outros maravilhosos, no Guia de Botequins do Guilherme. Não critico o Guia, que tanto ensinou e ensina, mas decido fazer lista off-Guia, e depois off-off-Guia.

Pego leve, bem leve, manjar de passarinho: giló e cerveja pequena.

Ai, minha Santa Genoveva






Alguns bairros têm isso: bairros dentro de bairros. A Tijuca não tem Muda, Usina, Largo da Segunda-Feira? É tudo Tijuca. Jacarepaguá não tem Praça Seca, Taquara, Gardênia Azul, Anil? É tudo Jacarepaguá. Pois São Cristóvão tem sua Santa Genoveva.

A Santa Genoveva que eu conhecia era a do alto de uma colina parisiense, a que se chega, doucement, subindo a Mouffetard. A santa é padroeira de Paris, coisinha à toa. Isso mostra como, ainda em 1917, queríamos os cariocas ser parisienses. Depois das guerras, passamos a querer ser outra coisa.

A entrada hoje tem aquelas grades horrorosas e guarita. Pode-se entrar, conquanto que se deixe documento de identidade e não se tire foto. Percebam que acedi a 50% das requisições.

O "bairro", a "vila", é, de fato, um oásis, com direito a um templo católico grande demais para ser capela, pequeno para igreja. Como uma novela, grande demais para conto, curto para ser romance. Uma capela novela.

As casas, que existem desde 1917, passaram, em sua grande maioria, por grandes transformações. O que se entende. São, creio, comerciantes, majoritariamente portugueses, que prosperaram silenciosos e adornaram suas casas com o mau gosto que puderam. Imagino mesmo a surda competição que não terá havido entre eles.

Mas quem enfeiou, enfeiou, quem não o fez, não faz mais. As poucas casinhas originais foram tombadas.

Sunday, February 20, 2011

Subi o Morro do Pinto





Estive no Morro do Pinto, na busca do Bar do Carlinhos, que já foi do Manoel, que já foi armazém, construído em 1910, reformado em 1922, que é a data do frontão encimado pela águia.

O boteco é dos sonhos. Velho, de um despojamento franciscano absoluto. A imponência (decadente, é verdade) da fachada contrasta com o interior, pobre em atrativos aparentes, rico em segredos. Localização ímpar. Quase nada para comer, só o trivialíssimo para beber. Dois papagaios, Dunga e Taffarel. Nas prateleiras, onde deveriam figurar bebidas, temos, err, produtos de limpeza. Ainda assim, dos sonhos.

Tomo cervejas, ando ao redor. Na hora de fechar, puxo assuntações, e sou bem recebido. O dono e o amigo estendem copo para mim, conta da casa. A dona me fala de projetos de reformas, ao que esboço leve protesto. Como conhecem bem as cercanias, as palavras são valiosas. Na empolgação, prometo comemorar um meu aniversário ali, só que com Heinekens, ao que não objetam. Fica o croqui do plano.

João do Rio, em seu clássico As Religiões no Rio, disse que "no Morro do Pinto, a feitiçaria impera". Já não saberia dizer se há feitiçaria, mas com certeza há feitiços. Que los hay, los hay.

Tuesday, February 15, 2011

E o Castelo, quem diria, foi parar na Tijuca





Imagine uma cidade que guarda seu marco de fundação, bem como o túmulo de seu fundador, em uma igreja que é, nada mais nada menos, a de seu santo padroeiro.

Imagine esta cidade envolvida em batalha sanguinolenta contra um inimigo cruel. Que faria este inimigo ao se apossar destes tesouros - marco, túmulo, igreja? Naturalmente os destruiria, na tentativa de apagar a história da cidade e a cidade da história, deitando em seguida sal grosso sobre o solo para que nada mais nele vicejasse.

Esta cidade, meus caros, existe, atende pelo nome de Rio de Janeiro e o inimigo são seus próprios governantes que muito fizeram para obliterar sua história. Se não, como entender a derrubada do Morro do Castelo em 1922? Como entender que a existência da igreja dos capuchinhos, dedicada a São Sebastião e guardiã das relíquias de Estácio de Sá, não fosse motivo para poupá-lo? Isso em 1922!!! Ah, Mário, não te culpo, pois estavas apenas começando...

Fica o consolo que o túmulo de Estácio de Sá e o marco da fundação vieram para a igreja nova dos capuchinhos (construída para este fim?), localizada na Tijuca.

Sempre tive preconceito em relação a esta igreja. Achava-a grandona demais, abrutalhada, mal proporcionada.

Ela continua grandona, não lembra as atuais barcas Rio-Niterói? Mas seu interior é lindo! Neobizantina! Veneza a queimar na Haddock Lobo! E com belíssimos vitrais!

E aqui, em 5 de março de 1960, casaram-se o tímido Hélio de Almeida Domingues e a menor Maria de Lourdes von Sydow, que o amava, é verdade, mas que queria mesmo era sair de casa.

Abençoaram-nos Estácio, capuchinhos e Tião com uma enchente que, nas palavras da mãe, inaugurou a temporadas das águas de verão desta muy leal cidade.

Saturday, February 12, 2011

A propósito





Estas são pinturas realmente interessantes, localizadas em um pé-sujíssimo na Gamboa. Ao retratarem atividades indígenas de um modo um tanto idealizado, teriam caído nas graças dos nossos românticos. Porque são, claro, naïf, daí o seu imenso charme.

O pintor se chama Amaro Anacleto Gonçalves Ribeiro, que as fez na década de 1960. Parece que ele pintava motivos assim em botecos de Niterói, mas não sei se por aqui sobrou alguma. As retratadas resistem porque, pasmem, são tombadas pelo Patrimônio que, no entanto, não as restaura e tampouco retira a madeira que cobre a mais interessante delas: uma Iara. A madeira foi posta para que colocassem uma... televisão.

Só as pinturas já valeriam o passeio, mas tem mais. O boteco (Tapajós? Harmonia?) fica em rua que se chama... do Propósito.

E foi aqui, exatamente aqui, que se deu a batalha final da Revolta da Vacina, em 1904, com as tropas federais fazendo verdadeira blitzkrieg no local que a imprensa da época denominou, meio sério meio debochadamente, de Porto Artur. Aqui caiu Prata Preta, líder dos descamisados que não queriam ser vacinados à força, não queriam ter seus cortiços arrasados (olha o Bota-Abaixo do Pereira Passos aí, gente!) e que talvez não quisessem mesmo era ingressar no século XX afrancesado.
Mas eu devo estar romantizando, o que se justifica, dadas as pinturas. É possível, e mesmo provável, que o fantasma do Prata ronde a Praça. Não vi, que a cerveja que tomei foi pouca. Topei foi com o Baiano, nascido e criado na área, estivador aposentado, a falar pelos cotovelos. Ele me levou para ver as pinturas do Nilton Bravo em um outro bar, muito próximo. Mas essa história fica para outro post.

Monday, February 07, 2011

Patrimônio Histórico - A Difícil Questão

Meu texto sobre o Santo Cristo inquietava em mim, mesmo já escrito e postado. Como, aliás, inquietam-me as questões sobre patrimônio. Bem, folheando em casa o belo livro Morro da Conceição - Da Memória o Futuro, comprado, por sinal, na mesma feirinha em que minha mãe arrematou sua fantástica piorra, encontro trecho exemplar, que me acalma, me alegra, me organiza. Diz ele:

"reinscrever o Morro da Conceição na paisagem física e histórica da cidade, sem transformá-lo em um cenário turístico ou em um patrimônio do espetáculo, como a sociedade contemporânea tende a fazê-lo."

Ah, isso sim. Limpar as fachadas azulejadas daquelas pichações porcas, mas não fazer da Zona Portuária um shopping a céu aberto com aquelas lojinhas cheias de bibelôs bonitinhos.

Sunday, February 06, 2011

A Piorra da Vó









Não se vai à Feira da Praça XV em busca de um coisa específica, não se sai de casa pensando: Hoje compro aquela estatueta do Buda ou aquele vaso de Murano ou aquele chaveiro do Bangu ou aquele cartão-postal do Aterro da Glória. Não é assim. A feirinha, como bom sebo, é para flanar, para surpresas, para descobertas.

Foi graças à feirinha que comecei minha coleção de bolachas de cerveja. Eu juntara um punhado em Praga e em Bratislava (1999-2000), mas foi só quando vi um monte de bolachas na barraca do Saul que descobri, Ah, é? Pode colecionar isso? Então eu quero.

À feirinha devo também o pontapé inicial da minha tese (circa 2005), pois lá comprei o livro India Portuguesa, panegírico anacrônico da presença portuguesa em Goa. O prefácio é de ninguém menos que Salazar, que fala, em 1951, das belezas da colonização portuguesa! Cáspite!, pensei, vou mostrar como a literatura rasura, oblitera esse discurso oficial. Aí, nasceu a tese. Graças à feirinha.

E quando fui lá recentemente com a mãe, ela quedou hipnotizada pela piorra que descansava em uma barraca. Era isso!, disse, que eu estava querendo comprar para o Dante e não encontrava de jeito e maneira.

À moda da feira, e como é típico dela, pechinchou e logo a piorra arrebatou. A foto mostra ela me ensinando como funiciona a coisa. Na mesa do Ál-Fárrabi, que parou para ver. Hoje já piorro que é uma beleza. E Dante adora.

Saúde!











Amo fachadas azulejadas. As daqui são ora em policromia, ora em estampilha, formando tapeçarias que deleitam olhos.

Tuesday, February 01, 2011

Ai, meu Santo Cristo!



Como foram desfigurados os bairros da Zona Portuária, por meios de sucessivos aterros, reformas modernizantes (o Bota-Abaixo do Pereira Passos tem início aqui), e, posteriormente, grandes obras como a Perimetral e a Presidente Vargas. Mas (ou por isso mesmo???) ainda conservam um bocado de charme. Mas charme difícil, não aquele charme multicor do Pelourinho, de Tiradentes ou do Mercado Municipal de São Paulo, charme para turista que expulsa os moradores históricos para longe. O charme daqui é feito de decadência e ruínas, e aqui é impossível não lembrar de conversa que tive com o ilustrador goês Mário Miranda, em seu casarão secular decadente: "Gosto da decadência".

Também eu. Tenho mesmo medo (egoísta?) da "revitalização" prometida para esta área, com Vila Olímpica, plano inclinado e outros que tais. São não desejo, claro, que derrubem os casarões. E as casinhas. No mais, por mim ficam assim os galpões, os trapiches, os armazéns, as fábricas, alguns fechados, outros em funcionamento. E, assim, neste charme decadente, a que não falta forte componente de resistência, seja das construções seja dos moradores, encontram-se pequenas jóias (e algumas grandes, como o Cemitério dos Ingleses e a Escola José Bonifácio). Malconservadas, porém não menos jóias.

A igreja que dá nome ao bairro é isenta de grandes interesses em seu interior, mas uma fachada em que há imagem envidraçada é rara por estas terras. A imagem francesa do chafariz da praça, A Fonte da Criança, executada em Val d'Osne como muitas outras desta cidade, só faz aumentar a beleza externa do templo.

Thursday, January 27, 2011

5000 Vezes ou Bar Flor do Tâmega


Fiz cálculos e, juro, cheguei ao número exato 5.000. Foram 5 mil as vezes em que passei, na ida e na volta, em frente ao Bar Flor do Tâmega, na Praça Santo Cristo.

5 mil. Pegando o 996 (agora 751): Charitas-Gávea-Charitas, desde 1993, quando comecei a namorar a Bia.

5.000 vezes passando por esta fachada com quatro portas em arco e cantaria, que dão acesso a um botequim de pé-direito alto, estantes espelhadas, azulejos e uma como que exposição permanente de pinturas naïf, ou seja, vários elementos que amo. Mas eu jamais tinha entrado. Bem, um pecado a menos em minha vida, já que lá passei em minhas andanças pelo Santo Cristo. Aliás, foi precisamente o Flor que motivou o passeio pelo Santo Cristo.

Como na véspera eu tivera forte piriri, decido não pegar leve (um raio não cai duas vezes no mesmo lugar), e vou de dois clássicos da baixa culinária: caldinho de feijão e risoto de camarão. O caldinho é de improviso, sequer consta do "cardápio", também este improvisado. Chega sem mimos: sem salsinha, sem torresmos. Para piorar, em copo de requeijão, copo que, creio, mal serve ao fim à que se destina. Moral da história: estava delicioso, pois tempero é tudo. O risoto, claro, é risoto brasileiro, nada tem de italiano, posto que não é feito de arroz de grano duro, como o arboreo ou carnaroli. Mais apropriado seria chamar-lhe "arroz de camarão", como os portugueses o fazem, de modo a não conspurcar o glorioso nome da iguaria do Piemonte. Moral da história: estava divino, não deixei grão sobre grão e mais comera se mais houvera.

No boteco a conversa é animadíssima e logo me encontro dividindo a cerveja dos habituês, gente da área, de boa saúde, boa gamboa e, claro, de Santo Cristo.

Indignação



É o terceiro romance de Philip Roth que leio, depois de Dying Animal e A Humilhação, e o melhor até agora. Não digo que é o melhor disparado porque também gostei imenso dos outros dois, mas enquanto estes lidavam, basicamente, com a dura questão do envelhecimento, do amor no envelhecimento, Indignação, para além de tratar de questões humanas igualmente complexas, também lida com os problemas de uma nação. Quando Roth tenta fazer isso em Dying Animal, o faz mal, a narrativa para para que o autor (e não o narrador) disserte sobre a liberação da sexualidade nos EUA. Ou seja, tecnicamente falando, o romance (Dying Animal, não este) falha neste aspecto.


Já a ação de Indignação tem a Guerra da Coreia como pano de fundo, até que esta ocupe o centro das ações de forma magistral. A única coisa que falha aqui é a tentativa (machadiana) de o narrador apresentar-se como defunto-autor (ou autor defunto?). Pra quê isso? Não se desenvolve, não convence, não nada.... Mas está aqui este painel maravilhoso dos EUA do pós-guerra, está aqui a mediocridade asfixiante do Midwest norte-americano (Winesburg não foi proposital: é a Winesburg do Sherwood Anderson) e, principalmente, estão aqui personagens maravilhosos (este, o forte de Roth): Marcus Messner, seu pai (!), sua mãe, Flusser, Elwyn, Caudwell, Lentz. E, claro, Olivia. Por mais achatados que alguns destes personagens sejam, não são menos fascinante e inesquecíveis.


Marcus Messner, aliás, embora inteligente demais e calculista demais (com o que este too much tem de negativo) lembou-me mais tarde o Quentin, personagem imortal de The Sound and the Fury, de Faulkner.


E, ao tecer esta comparação, não posso pensar em homenagem maior a Philip Roth.

Wednesday, January 19, 2011

O Disco do Ano

Bem, não ouvi o Lover's End do Moon Safari ainda, o que talvez pudesse alterar minha escolha.

Do que ouvi, fico com o Il Tempio delle Clessidre, com o retorno realmente triunfal do Stefano Lupo., ex-vocalista do Museo Rosenbach.

Erra quem diz que o disco é meramente derivativo. Claro que a influência do Museo é patente, não só por causa do vocal, mas por causa da tecladista Elisa, fã confessa. Mas há também traços de Anglagard e Finisterre (à época já devidamente influenciados pelo Museo). Enfim, é um trabalho de rock progressivo italiano sinfônico no sentido pleno do termo. Superou minhas expectativas.

Claro que gostei muito também do Areknamés.

Em termos de descoberta do ano, fico com o primeiro do Magma, que ainda não conhecia. Descoberta do disco, claro, não da banda. Não esperava muito e caí de quatro. Mais jazzístico sim, mais Coltrane, nem tanto zeuhl, por vezes deliciosamente datado. Mas se estamos falando de um disco "datado", e sua data é precisamente 1970, pode sossegar...

Em termos de redescobertas, fico com o David Gray, singer-songwriter de primeira, nem tanto pelo Foundling, disco duplo de 2010, também ótimo, mas pelo "conjunto da obra".

Ainda neste quesito, menções honrosíssimas: One, do Neal Morse, e Pequeñas Anécdotas, do Sui Generis, que voltei a ouvir até gastar...

Tuesday, January 18, 2011

Dante goes downtown!




Não é o Dante, até hoje, menino de muitos passeios longínquos, embora passeie demasiado pelo bairro nosso e pelos vizinhos a norte a a sul, sempre margeando a boca banguela também conhecida por Guanabara.

Quando se aventura por bairros distantes, no Rio, é sempre para... consultas, o que, venhamos, não merece o nome eufemístico de passeio, embora do táxi ele goste um bocado.

Mas não é que uma dessas consultas converteu-se mesmo em passeio? A ida, de praxe, de táxi. A volta, esta que foi boa, de barca, com direito a Paço Imperial. Fiquem seus olhos e memória encharcados da cantaria barroca do Paço e do Mestre Valentim.

Friday, January 14, 2011

Al-Fárábi





Eu já conhecia o Al-Fárábi, nele comprara A Arte de Goa, Damão e Diu, assim como já conhecia o Maurício desde os seus tempos de Berinjela. Eu já bebera um chopp no Al-Fárábi, desfrutando deste luxo que é tomar chopp em meio a livros.

Mas desde que o simpático sebo, situado na Rua do Rosário, passara a trabalhar com cervejas especiais, eu ainda não tinha ido.

Chego cedo, entrando nas 10 horas (da manhã!), vindo a pé do Santos Dumont, o que de pronto me faz indagar: a que horas mesmo minha religião permite que eu comece a tomar cerveja? Quando é dia de Bola Preta, quando é dia de clube, sei que os horários são mais permissivos e premite-se mesmo que os trabalhos sejam abertos ainda pela hora do café. Mas e hoje? Enrolo um pouco, mas logo não resisto: peço um Backer Brown, cerveja que nunca me encheu os olhos e continua a não o fazer.

Percorro o sebo. A seção de literatura estrangeira é ótima. Para se ter ideia, há dois títulos diferentes de Dino Buzzati, o grande escritor italiano difícil de se encontrar por aí. O Al-Fárrábi, corram que vai esgotar, tem também livro de 1975 sobre arte uzbeque, quando ainda existia a URSS. Por aí, repito, se avalia o quão gostoso é correr suas estantes com um copo na mão.

Quando encontro livro da chinesa Shan Sa (A Jogadora de Go, em ótimo estado por apenas 13 pilas), resolvo fazer um upgrade nas birras. Por sugestão do Maurício, abro uma Brew Dog, escocesa simplesmente excepcional. A vida se me torna boa, o estresse, ainda morno do aeroporto, parece distante. Depois emendo uma Flying Dog. Ora, sou grande apreciador desta cerveja norte-americana, em especial da Double Dog, uma double pale ale. Mas o que Maurício me apresenta é uma edição de aniversário, uma Indian pale ale, meu estilo preferido, e ainda por cima Belgian Style! Uma cerveja estupenda, arrasa-quarteirão, que atende pelo nome doce e carinhoso de Raging Bitch.

Quem souber reponde: em que outro lugar se pode tomar cervejas como essas (a carta é extensa, eles têm todas as trapistas), namorar gravuras de Carybé e comprar um romance de Shan Sa? Tudo em um dos espaços mais deliciosos do Rio...

Dante ri


Sei que há. Quem controle com exatidão a primeira palminha, a primeira palavra, primeira risada. Com Dante não foi assim. Temos dados imprecisos, inexatos, não menos amorosos.

Neste ano que passou, porém, preciso: em Maio pôs-se sentado. Claro que já sentara antes, mas foi entrar o mês (May Queen) que se pôs definitivamente sentado. E aquele menino, calvinho nas costas da cabecinha de tanto ficar deitado, passou a... detestar ficar deitado. Quer é sentar-se e em seguida gatinhar aonde for possível, segura ele.

Este foi um dos ganhos de Dantuca em 2010. No último dia do ano, põe-se a gargalhar. Novamente, não pela primeira vez, mas de maneira sistemática. Se é para escrevermos em livro ou blog de recordação, fique em memória o dia de 31 de dezembro de 2010 para assinalar as gargalhadas do Dante. Na esperança de que o dia tenha sido simbólico, e ele muito gargalhe neste ano.

(i do not not know what it is about you that closes

and opens; only something in me understands

the voice of your eyes is deeper than all roses)

Tuesday, January 11, 2011

Libertação

Termino 10 e começo 11 lendo Libertação, de Sándor Márai, algo nada auspicioso, é um ano que fecha e outro que se inaugura mal, dado que o livro é insuportável.

Entende-se que um escritor húngaro nascido em 1900 precise acertar contas com o passado político de seu país, em século tão turbulento. Lamenta-se que, para tal, lance mão de uma alegoria tão pesada quanto pueril.

O romance é de um didatismo intolerável. Trechos como:

"Mas um dia é preciso arrumar as coisas. Não se pode viver assim. Os judeus, os burgueses, os nazistas, os bolcheviques, o ódio, todos odeiam todos... não, assim não se pode viver"

"Erzsébet compreendeu e descobriu naquele momento que a guerra não apenas consistia em ações militares, nas casernas e nos campos de batalha, mas também existia na alma das pessoas."

São trechos que parecem extraídos de uma cartilha de catequese para alunos da quarta série de colégio católico. Ou de uma campanha da fraternidade. Fizeram-me esfregar os olhos e voltar para a capa do livro. Este é o Sándor Márai de Rebeldes?

O diálogo entre a protagonista e o professor paralítico, quando deixados a sós no porão, lembraram-me outro romance insuportável: o Canaã, de Graça Aranha, romance de tese, no que tem este de mais típico. E pior.

Nem tudo se perde. A cena final é bem construída, a ideia toda do enredo é ótima, o que faz pensar que as 144 páginas poderiam ser condensadas de modo a dar um bom conto.

O que me alegra é que, graças, só li este romance agora. Fosse a primeira obra de Sándor lida, teria eu certamente parado por aqui mesmo com o escritor, o que me furtaria do contundente As Brasas, e das obras-primas Divórcio em Buda, De Verdade, O Legado de Eszter e Rebeldes.

Monday, January 10, 2011

Modern Sound (II)

Mas engana-se quem pensa que comi satisfeito o frio prato da vingança com o destino da Modern Sound. Acho o seu fechamento lamentável. Uma boa loja de CDs, assim como uma boa livraria, é um dos poucos refúgios de civilização em um mundo inóspito, ainda que o atendimento, como frisei no post anterior, deixe às vezes a desejar. Mas esta é uma das escolhas do mundo contemporâneo, não apenas dos cariocas ou brasileiros. Escolheram baixar, baixar tudo em vez de comprarem CDs. Há os que baixam para conhecer e depois compram. A maioria apenas baixa, julga-se mesmo no direito de fazer downloads ilegais. Lembro-me de quando começou essa história, conversei a respeito com o dono da Penny Lane, loja de CDs especializada em rock progressivo situada no Flamengo. Que, claro, já fechou. Um colega tinha gostado do CD da trilha de As Horas (comprado da Modern Sound) que eu lhe mostrara e o tinha baixado em casa. O dono da finada Penny Lane disse simplesmente: “É um CD a menos que vou vender...”. E assim, de CD a menos a CD a menos, fecham-se lojas. Em breve, post sobre o assunto.

Tenho muitas lembranças boas da Modern Sound. Lá comprei dois Nymans difíceis: o The Kiss e o já mencionado O Marido da Cabeleireira. Lá, por volta de 2000, adquiri o célebre livro do Paolo Barotto, The Return of the Italian Pop, então única referência sobre a cena progressiva italiana e que me serviu de bíblia por anos. Aliás, a MS tinha uma vasta seção de rock progressivo, algo inédito nesta cidade, excetuando-se, claro, as lojas especializadas como a Halley. Lá, em quente janeiro de 1997, comprei a integral das sinfonias do Prokofiev, regência de Seiji Osawa, bem como o Alexander Nevski. Lá comprei (2001?, 2002?), o Sandinista, do The Clash, e, de rock progressivo italiano, o Frontiera, do Procession, o Duello Madre, e alguns itens raros como o Laser, o Franco Maria Giannini e o fabuloso Enzo Capuano, dentre outras coisas. Lá comprei também o vídeo (VHS!) do Unplugged, show memorável do 10,000 Maniacs. E foi na MS também que redescobri (e comprei) um dos melhores discos infantis brasileiros, o Brincando de Roda, da Solange Maria, que só conhecia em fita cassete. Tudo, claro, a peso de ouro, que para a loja o dólar estava sempre altíssimo e ele não eram de dar descontos (a não ser, claro, fosse você um Chico, um Ed, uma Rita).

Bem antes disso, foi lá, em 1982, que fiz minhas primeiras compras de disco importado. Depois de meses economizando o dinheiro da merenda, meu irmão e eu vamos lá com a grana suficiente para dois discos. Compro o Live I, do Cream; ele, o primeiro do Iron Maiden, totalmente no escuro, atraído unicamente pela capa. O Iron aportava assim na cidade, nas caixas que ficavam logo à entrada, antes de serem catalogadas nas respectivas seções. Poucos meses depois, no meu aniversário, o pai generoso concede-me três (!) discos importados. Nessas célebres caixas, que ficavam no chão, descubro os dois primeiros do Ozzy e o ao vivo do Judas Priest, o Unleashed in the East que tornar-se-ia um de meus discos de cabeceira pelos próximos anos, fazendo mesmo com que eu passasse a assinar Evandro Luis Halford.

Tudo isso na Modern Sound, que ora fecha as portas para sempre.

Wednesday, January 05, 2011

E a Modern Sound, hein?

Muitos bytes foram escritos na imprensa ultimamente acerca da Modern Sound, tradicional loja de discos de Copacabana, que fechou suas portas no fim de 2010.

Uma das últimas lembranças que tenho foi algo que li há uns 3 anos: o filho do dono, Pedro filho, afirmava que o que vai fechar são essas lojas de porta de rua, com fumaça de carro, essas vão fechar mesmo. Afirmação categórica, deselegante, arrogante. Acreditava ele que a MS era impermeável às mudanças e que pelo fato de ter sido transformada em casa de shows com restaurante iria sobreviver à, digamos, era digital.

Aliás, arrogância sempre foi uma das marcas registradas da loja. (Sobre isso não li uma linha nos artigos recentes). Os donos, os vendedores, os seguranças deviam ser muito cordiais com os artistas, com o Chico, com a Marina, com a Adriana, com a maioria dos turistas, mas professor, fisioterapeuta ou dona de casa que lá entrasse era tratado como se estivesse recebendo favores das Suas Excelências.

Um fato é inesquecível: procurava eu a trilha sonora de O Marido da Cabelereira, do Michael Nyman. A filha do dono, a Carolina, estava no caixa, e havia me dito que a o CD estava lá, na seção das trilhas. Ora, eu já percorrera duas vezes toda a seção, de fio e pavio, e nada encontrara e daí voltei a ela. O que faz a moça? Sem uma palavra, sai de seu altar irritada, vai até a seção, encontra o CD e coloca-o sobre o balcão. Sem uma palavra. Eu não tinha encontrado o CD porque era uma edição japonesa (como eu saberia?) e a lombada vinha toda escrita em caracteres japoneses! Ousei mesmo comentar com ela: "Desculpe, é que me esqueci de todo o japonês que aprendi no Segundo Grau", ao que a alta dama nada respondeu.

Mas devo ser honesto e lembrar que tratamento grosseiro em lojas de discos não era privilégio da Modern Sound. Eu já passara por experiências semelhantes em Bruxelas e em Paris (duas vezes, a última, então, só faltou eu quebrar aquilo tudo). Devo ser honesto também e lembrar que voltas a vida dá. Poucos anos depois, tenho esta mesma Carolina como aluna! No curso de Produção Fomográfica da Estácio! Era boa aluna e pessoa razoavelmente afável. Num dia em que saímos com a turma para tomar cerveja, lembrei-lhe do episódio. Ela, naturalmente, ficou muito impressionada, mesmo incrédula, afirmando que não se lembrava de nada... É que as feridas, minha cara, ficam em que as sofre, não em quem as causa.

Tuesday, January 04, 2011

Fala, Brasil!


Dia 24/12 marco almoço com o pai no Bar Brasil. A caminho, ouço a voz aflita da mana ao telefone: "Hoje é dia 24, vai estar fechado!". Bem, fechados estavam Belmonte, Mofo, Juca e outros que tais arrivistas, mas uma casa centenária (1907) como esta não deixa seus fregueses na mão.
O Bar Brasil não sai de moda porque nunca nela esteve. Era tradicional quando a Lapa era boêmia (anos 30 a 60), continuou a sê-lo quando a Lapa virou off do off e segue impávido agora que o bairro voltou a ser in.
É daqueles em que se entra e não se tem vontade de sair. Não posso dizer "e de onde só se sai no dia seguinte" porque, alheio a toda a badalação do entorno, fecha à meia-noite, fazendo dos boêmios Cinderelas.
Tem pé direito alto, geladeira de madeira, ilustrações de Jorge Selarón. Tem duas entradas: pela Mém de Sá e pela Lavradio. A culinária alemã é mestiça: o kassler vem com tutu de feijão. Tem bolo de carne famoso (tô fora). Não tem caldinho de feijão, mas a lentilha garni. Tem garçons sóbrios, de uma honestidade desconcertante. Ao recolher nossas cumbucas vazias, Adauto disse da lentilha: "Hoje não está muito boa, né? Está dura..." Pai e eu nem respondemos, menos pela perplexidade, mais por estarmos ocupados lambendo beiços.
Tem chope famoso, que desce de chopeira com torre de bronze. Mas cá entre nós, o chope da Inbev anda tão aguado, tão anódino, que não há serpentina que o salve...