Wednesday, June 19, 2019

Às vezes parece todas em Andrequicé são bordadeiras


Tem a associação, colada à casa do Manuelzão, mas você vai no Bar da Roda e conhece a Márcia, vai ver a casa onde Rosa dormiu em 1952 (aqui) e tem a Eliza. Às vezes parece todas em Andrequicé são bordadeiras. E em Cordisburgo tem aquela palrante em frente à Casa e o Morro da Garça terá também as suas

Comentei com uma amiga e ela quer ver de perto. Respondi que temia que ela ficasse de vez, ela respondeu que sim, aí voltávamos mais vezes e combinamos assim, esta solução

E eu encomendando uma cortina para o quarto do Dante, cortina toda ela miguilim












Tuesday, June 18, 2019

O 2o Pouso do Rosa :: Coisa Nova Captada, e Exibida


Vem chegando o padeirinho e Dona Eliza sai de casa, enxotando o cachorro pra dentro. Os galos já berraram tanto nos quintais, estão roucos.

Foi aqui o segundo pouso da mítica (à falta de palavra) boiada de 1952. Guimarães Rosa dormiu aqui.

Anotou na caderneta:

6hs.5 -- Cerepúsculo. Lá poente, sôbre o São Francisco e além, onde o sol se pôs: cor maravilhosa -- um alaranjado ou cobre, que nunca vi antes. É incrível, parece, que aquilo permaneça. Entre longas nuvens horizontais, escuras. É como se uma coisa nova tivesse sido captada, e exibida. 





A Capela do Manuelzão


Continua lá a capela do Manuelzão, em torno da qual Guimarães Rosa escreveu "Uma Estória de Amor", alçando a figura de Manuel Nardi a céus nunca dantes imaginados. A ficção de fato se enlaça à realidade, puras misturas.

Do tanto que eu poderia escrever, registro que foi um dos pontos altos da viagem. De todas as viagens. Meu amigo Eric, que andou um cado perdido, clicava sem parar e suspira "Nunca estive num cemitério tão bonito". Só não posso afirmar igual porque tem Milho Verde.

Do tanto que poderia escrever, as coincidências (já me disseram que não): 

a capelinha minúscula é dedicada à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, cujo dia se celebra em 27 de junho. Aniversário do Guimarães Rosa.

Outra, 'pior':

O nome de pia do Manuelzão é Manuel Nardi. Aqui no Grajaú a bonita igrejona tem como orago Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A igreja tem lindos afrescos. Pintados por um italiano de nome Antonio Maria... Nardi.







Sunday, June 16, 2019

Moro : Merda à Milanesa com Cerol


E o Moro, garotada, quem diria
não passava realmente de um marreco
O bolsogado t(r)eme e se arrepia
O pobre de direita tem um treco

Mestre no power point, Dallagnol
também se afunda até o pescoço
Bolsonaro, nervoso, para o almoço
(que é merda à milanesa com cerol)

E brada: "Não somos Venezuela
*(%$#*)_+nvhfkeurmoiuouovo!"
Olha que assim este governo cai!

Apenas peço, de forma singela
Vocês vão tudo pra Ótica do Povo!
Morô?! Ràrái!




Rosa e Che : Viagens





Eu nunca tinha pensado nisso, foi o Brasinha que me mostrou semelhanças entre as vidas de Guimarães Rosa e Che Guevara, no que ambos realizam viagens míticas em 1952, viagens turning points em suas vidas, Che em sua motocicleta, Rosa no lombo de um cavalo, com Manuelzão, Bindóia, Zito. E ambos morrem em 1967, não sem fazer um tanto. 

Adiciono outras semelhanças: ambos médicos, ambos diplomatas, ambos revolucionários, a seus modos.

Foi Brasinha que me mostrou, por ocasião de minha visita ao seu mundo mágico de Aqui Já É Sertão, em Cordisburgo, de coleções infinitas que proporcionam infinitos enredos e desenredos.Fico devendo o vídeo, que não carregou.

Friday, June 14, 2019

Os Olhos de T. J. Eckleburg num Antebraço


Este ano tenho uma estagiária muito corajosa que tatuou no dorso do antebraço os azuis e gigantescos olhos do Doctor T. J. Eckleburg, aqueles de íris enormes que tudo observam não de um rosto, mas de grandes lentes amarelas. Na pequena descrição, "gigantescos", "enormes", "grandes" e terão de ser assim para que nada lhes escape.

A token of dauntlessness, I would say, could I add words to Fitzgerald's masterpiece.


But above the gray land and the spasms of bleak dust which drift endlessly over it, you perceive, after a moment, the eyes of Doctor T. J. Eckleburg. 

The eyes of Doctor T. J. Eckleburg are blue and gigantic – their irises are one yard high. They look out of no face, but, instead, from a pair of enormous yellow spectacles which pass over a nonexistent nose. Evidently some wild wag of an oculist set them there to fatten his practice in the borough of Queens, and then sank down himself into eternal blindness, or forgot them and moved away. But his eyes, dimmed a little by many paintless days, under sun and rain, brood on over the solemn dumping ground.


Thursday, June 13, 2019

Veredas Mortas, Sertão Morto


 Por ocasião das gravações da minissérie global Grande Sertão: Veredas, em 1985, Alan Viggiano, autor de Itinerário de Riobaldo Tatarana, aconselhou a produção que fosse para Goiás, pois aquele sertão do livro já não existia. O jornalista Pedro Fonseca, sobrinho de Manuelzão de quem já falei aqui, insistiu para que as tomadas fossem em Minas, afinal eram ali os locais descritos, estavam ali o Paredão, Guaicuí, Andrequicé, o de-Janeiro, dentre tantos outros. Prevaleceu Minas.

Fosse hoje essa questão, acredito que nem o Pedro defenderia o sertão mineiro.

O sertão do Rosa acabou. Da viagem que fiz em 1992 (aqui) para esta, senti uma diferença absurda. Simplesmente já não se veem mais veredas. JÁ NÃO SE VEEM MAIS VEREDAS. Porque elas simplesmente não existem mais. Foram tomadas pelo eucalipto. Vê-se, sim, uma aqui, outra acoli, que como escondida. Chegamos a um ponto em que as poucas sobreviventes tiveram que ser tombadas pelo município de Três Marias para que não desaparecessem. Isso se deu em 2006, com as veredas São José, da Tolda, e da Ponte Firme. Uma tragédia.

O caminho para o de-Janeiro é feito em meio a um mar de eucaliptos dos dois lados. Não é nem para papel, é para o ferro-gusa das siderúrgicas. É de sentar e chorar. Tristes "florestas" sem pássaros. Sem água, sem vida sem porra nenhuma. Quando estive na Amazônia, há poucos meses, vi muito mais buritis que aqui.

Maior empresa da região, a Gerdau garante adotar práticas rigorosas de gestão ambiental. Sim, Sra. Gerdau, acreditamos em você. Assim como na Vale, né?

Tristeza.

PS: Veredas-Mortas é onde Riobaldo faz o pacto. Imaginava ele que o Coisa-Ruim era pior que o Hermógenes e, solerte, se apresentava toda apresentável como um executivo da Gerdau? E que as veredas um dia, em breve, estariam de fato mortas?


Ah, um buriti!



Monday, June 10, 2019

Pedras :: Como se um Menino Sozinho Tivesse Morrido


Uma das passagens mais bonitas e enigmáticas de toda a obra do Rosa é a do riacho que seca, em "Uma Estória de Amor". Cito de memória:

"O riacho soluço se estancara, sem resto, e talvez para sempre. Secara-se a lagrimal, sua boquinha serrana. Como se um menino sozinho tivesse morrido"

Tenho um enorme mapa político-rodoviário de Minas, com todos os 853 municípios, além de distritos, vilas e povoados. E serras e rios e estradas e mesmo algumas fazendas. Em Três Marias tem Retiro, Patrimônio, Mato Sujo e, claro, Andrequicé. E, pasmem, Barra do Rio de Janeiro, porventura a localidade mais importante de todo o mapa.

Mas não há Pedras. 

Pedras existe, a nove quilômetros do de-Janeiro, um povoadozinho muito pequeno em que mal cabem você e sua sombra. Amei tanto que combinei comemorar o próximo aniversário por lá, na única vendinha.

Já tinha a vendinha, a igreja, as casas espalhadas, os cachorros, os poucos viventes, a menina que sugere ao pai vender como açafrão a serragem recém-criada por ele em seu trabalho e teve ainda o Pedro Fonseca, sobrinho do Manuelzão, cuja história escreveu em O Xale de Rosa.

Pedro mora do outro lado do ribeirão, que atravessamos de kombi. Não bastasse isso tudo.

Não bastasse, Pedras está ainda, nominalmente citada, em "Uma Estória de Amor". É lá que vão buscar água depois que o riacho seca ::


















Entre os Índios Kaxixó ~~ Capão do Zezinho-MG


Para além de enfrentar os usuais, frequentes e brutais problemas que os indígenas brasileiros enfrentaram e enfrentam, os Kaxixó mineiros tiveram que lidar com a sistemática negação de sua identidade. 'Não são índios', diziam, de modo a roubar-lhes direitos que poderiam vir a ter. Como a terra. Nisso perdem-se vidas e esperanças, nisso perde-se a língua.

Num cenário mais hostil que nunca, a luta dos Kaxixó continua. Contra a sistemática negação da identidade, contra os eucaliptos e mineradoras e o agronegócio. Davi e Golias é metáfora inexata. 

Agradeço às professoras Lorena e Letícia, agradeço aos caciques pela visita. A recuperação da língua é pequena prova de que a luta continua.