Saturday, May 04, 2019

Comida di Buteco :: Brasília Teimosa, Recife



Triste a dificuldade / quase impossibilidade de visitar botequins participantes do Comida di Buteco fora do Rio: dura apenas um mês, tudo corrido. Ano retrasado, a caminho de Ouro Preto, visitamos um, foi ótimo.

E este ano, coincidindo com minha visita aos Pankararu em Tacaratu, deu para fazer alguma coisa em Recife.

Escolhi os dois de Brasília Teimosa, comunidade / ocupação mais que cinquentenária, mais velha mesmo que a capital federal (a parada começou em 47), embora boa parte de sua luta tenha se dado exatamente durante a implantação de Brasília, daí o nome.

Os poderosos não gostam que pobre more em lugar bonito, tão colado ao mar. Já fizeram poucas e boas. Mas não é à toa que a comunidade se chama Brasília Teimosa.

Fui ao Bar do Cabo e ao Bar do Peixe. No primeiro comi uma mini-caldeirada de camarão, sururu, peixe, polvo e marisco e, no segundo, uma moqueca (pequena, claro) de cação.

Enquanto o Bar do Peixe fica na orla, o do Cabo fica no meio das ruelas mesmo. Comunidade, favela, prazer.

Amei de um jeito: dei 10 pros dois.



Friday, May 03, 2019

Gozando Junto no Recife ~~ Gozando Junto # 40 ~~


Seria injusto dizer em Pernambuco, quando o grosso do gozo foi mesmo no Recife Antigo, em tarde de domingo infinita.

As exceções ficam por conta das três últimas fotos: a coruja e o maravilhoso bolo Souza Leão em Olinda, meu amigo Bau em Caruaru.









Amaury, pintor de azulejos


Descubro belo painel azulejar na Tijuca com 256 peças (16 X 16), em ruazinha próxima ao Bode Cheiroso. É assinado e datado: Amaury Pereira, no maravilhoso ano de 1968. Uma influência clara de Debret, pois não?

Pensar que era isso o que faziam as construtoras para conquistar a pequena burguesia carioca. Saudades.

Revisitando arquivos aqui, vejo que eu já tinha coisa deste Amaury: dois pequenos, ladeando a porta de entrada em casa no Cachambi. Aqui o tema é mais genérico, parecendo mesmo os Igrejas.










Thursday, May 02, 2019

Azulejos Enxaquetados ::: Melhor Descoberta (em Tacaratu)



De todas as obsessões, uma das mais fortes é a dos azulejos enxaquetados, que persigo e estimo como criança. Criança cega e seu brinquedo preferido.

Claro que a imensa maioria deles se encontra nos velhos botequins cariocas. Cada vez mais vende-se a ideia do botequim maneiro com azulejos azuis e brancos enxaquetados e a cada dia esses botequins são derribados, como recentemente o Bar Escorrega, na Muda.

Já fiz diversas postagens no blog, como estas aqui, aqui e aqui.

Estes tão raros aqui e aqui

Mas foi em Tacaratu, sertão de Pernambuco, na varanda de Seu Preguinho, que encontrei a combinação mais única: um verde-piscina com fúcsia.

Meu Deus, quantas tardes não passara aqui, memorizando os sonetos do Carlos Pena Filho





Viver é uma estratégia de pardais


Dentro da previsão, meu ônibus para Tacaratu chegou às 4:30 da manhã. Desde Inajá, antepenúltima parada, mantive-me acordado e foi bom porque é sempre bom atravessar as cidades de madrugada no lugar privilegiado de um ônibus.

Receberam-me uma madrugada muito cálida, a agulha de N.S. da Saúde, miríade de galos e trezentos pardais espremidos em duas árvores miúdas atrás da igreja.

Os pardais todos que sumiram do Rio, que faziam algaravia semelhante nos caramanchões da Edmundo Rego no Grajaú, vieram para cá, também passando por Caruaru e Inajá. Exceção de um, Drão, que agora adentra nossa cozinha pelas manhãs, não em busca de grãos (os farelos no parapeito intactos), mas tão somente para sentar-se à mesa de pedra, a cabecinha explorando tudo. 

Lembrei-me de Sérgio Campos ::

'O meu amigo amava estes pardais
que agasalhava em fogo de lareira
E como são as coisas naturais
são naturais as coisas verdadeiras

Viver é uma estratégia de pardais
é se buscar nas perdas derradeira'



PS: Sim, fiz vídeo da algazarra, mas não consigo postar. Fico devendo.

Tuesday, April 30, 2019

Lembra-te que afinal te resta a vida :: Paisagens Humanas (Pernambucanas)


São todxs pernambucanxs, como Lula: Dona Norma que lembra histórias de Lampião (roubou as joias da sua avó), o vaqueiro que ainda usa chapéu de couro na feira de Caraibeiras, o feirante vascaíno com muito orgulho, os índios pankararu, a galera do maracatu, o moço do leite maltado, o amigo fã do Moacyr Franco, os feirantes que tomam pitu enquanto comem cabeça de bode em Taquaritinga, as loiceiras Nila e Cida do Altinho, Seu Preguinho na sua varanda de azulejos enxaquetados na combinação que nenhum boteco carioca tem. Todos pernambucanos, menos Lampião, vendedor de cordel, que é paraibano.

O título da postagem roubei-o do soneto que Carlos Pena Filho fez pro Brennand, tão a propósito e que termina assim:

Arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.














O Casario de Tacaratu


Estive em Águas Belas em julho de 91, ocasião em que comprei, em Recife, o excelente e pormenorizado Inventário do Patrimônio Cultural do Estado de Pernambuco : Sertão do São Francisco, levantamento de 1987 que abrange dez cidades, dentre elas a velhíssima Tacaratu.

O estudo já advertia que, não havendo nenhuma proteção na ocasião, a parte antiga corria iminente risco de descaracterização, contra a qual propunha-se tombamento a nível estadual e elaboração de um plano de desenvolvimento local.

Creio que o tombamento não veio e duas lindas casas achalesadas foram derribadas. Dentre outras tantas. Ainda assim, embora não haja um conjunto digno de nota (o que alçaria a cidade, junto a seus indígenas, à sua cerâmica e a seus teares, a uma posição de enorme interesse no sertão pernambucano), o olhar atento descobre ainda pequenas (e uma grande) joias. Ah, a singeleza dos detalhes em estuco das platibandas!...

Bem naquele estilo tão amado por Anna Mariani, que para elas fez o livro mais lindo.