Tuesday, March 26, 2013

(Acho que) Ganhei um Poema


Santa Teresa 2013

Certa vez perguntaram ao poeta canadense Mark Strand acerca do significado e estratégia de uma dedicatória em um poema, ele que faz uso em profusão. Respondeu ele que as dedicatórias eram simplesmente forma de presentear. Muitas vezes o poema era dedicado a alguém a quem o poeta já sabia que admirava o poema. Se ele conhecesse e gostasse da pessoa, claro.

Acredito que muito mais pode haver em uma dedicatória. Não as uso, ao menos não no sentido usual (A J. Pinto Fernandes). Mas tenho um soneto cujo título é "Sonnet for Tipsy". E outro em que se lê "Para a menina". E tenho a seção inteira do Voo sem Pássaro chamada... "Dante".

Talvez eu não as use no sentido usual porque quando comentei ao poeta Gilberto Mendonça Teles que intencionava dedicar-lhe um poema de Taipa (acho que o "Viagem a Goiás") assim no sentido clássico -- A Gilberto Mendonça Teles --, ele fez uma careta tão feia que acho que traumatizei.

Anyway. Ganhei dedicatória. Se ganhei o poema, ainda não sei. De poeta que admiro um bocado, o João Ricardo Lopes. Segue.

HOJE MESMO

Para Evandro von Sydow Domingues

hoje mesmo é um bom dia
uso uma plaina para descamar a madeira das janelas
uso depois lixa,verniz e diluente para corrigir o inverno
no lado mais exposto da casa.
recebo na volta do correio novidades do Brasil (poesia, dois
volumes dela, código postal 24210-430, Niterói).
ao largo, o sol e a chuva assinam o armistício da Páscoa.
dentro dos meus olhos é terno o arco-íris, sempre assim foi
tão terno quanto a música de Bach que trago no ouvido
como se traz uma palavra, por obsessão.
hoje mesmo é um bom dia para recomeçar.
os barcos passam de ilha em ilha, como peixes irrequietos
à espera de poiso, de sol ou simplesmente de companhia
e eu não, eu nunca estou só.

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Para se ler no blog do João, com direito a curtir a foto, basta clicar aqui.

Aprendi a amar as madrugadas


Ingá 2013



aprendi a amar as madrugadas
amor nascido à minha revelia
todo amor é à revelia a mordida
do grifo na coxa enquanto caminha-
-se esquecido sob as águas da tarde
aprendi a amar teu rosto menino
de súbito tão sério quando amas
a pele arregalada sobre a minha
os olhos eriçados quando encontram
o gozo procurado ::: aprendi
a amá-las e hoje eu que as busco
sob a cortina das pálpebras antes
âncoras que se fazem leves leves
se aprendo a amar às madrugadas

Monday, March 25, 2013

Bares de Sampa II

Só pelo seu ano de nascimento :: 1922 :: e por estar tão próximo do Theatro Municipal, o Ponto Chic já merece respeito. Com certeza aqueles doidos da Semana tomavam chopps aqui, mas falta registro (em que pese uma foto do Mário no salão).

Conservaram-se a fachada do sobrado e um interessante painel dourado de gesso (bem modernista, por sinal) em seu interior. Mas a reforma sofrida foi atroz, exemplo de como não se deve reformar um botequim tradicional. De tudo fizeram para que virasse uma lanchonete, mais uma. Mas pela história, pela tradição (aqui nasceu o bauru) e pelo excelente chopp (prefira a tulipa à caneca), vale a visita.

O Estadão é outro que sofreu reforma assassina. Mas por funcionar a madrugada inteira, atraindo jornalistas, taxistas, policiais e putas, tem ótima atmosfera. A piece de resistance é o sanduíche de pernil, que foi o que me levou até lá, me fazendo andar desde o Municipal (é pertinho). NMHO, bom "lanche" (para usar expressão pauliceia), mas falta tempero. Sem bairrismo: o pernil do Cervantes, do Opus e do Itapicuru dão de 10.










Bares de Sampa I

Não é de hoje que percorro os bares da capital paulista, mas é que antes não tinha eu essa mania (for the good, for the bad) documental.

O Bar Léo é um clássico, a começar pelo endereço. Que outro, do Brasil e do mundo, terá sua localização em Rua Aurora 100? Isso pegaria mal em ficção, dir-se-ia inverossímil. O lema também ::: Bier Über Alles ::: bom demais.

Depois da confusão do chopp adulterado, o Léo tem novos donos, ninguém menos que o Bar Brahma. A mundial tendência dos grandes grupos. Ao menos mantiveram nome, ambiente. O chopp... talvez antes fosse ligeiramente melhor, mas a memória trai, inda mais de um nostálgico.

O Bar do Biu foi grata surpresa. Parada obrigatória agora para depois da Feirinha da Calixto. Quiçá antes ou mesmo durante que ninguém é de ferro. Comida nrdestina. Mas vai conseguir lugar lá dentro.


E tem azulejo!


O teto de gesso, a réstia, a carioquice do São Jorge

São-Paulices - Fotos II

Mais algumas são-paulices, em especial para quem acha que Sampa não tem nada digno. Aquela história: fecha os olhos e vê. E deixa o Nokinha N8 cuidar do resto.



Estupendo painel de pastilhas no Centro





Cidade de muitas figueiras. Esta é da República.

E o Gato que Ri.

Algumas São-Paulices - Fotos I

Terá São Paulo, claro, suas são-paulices. Depois de esbarrar com o oroboro na tarde de sexta, achei mesmo que tudo poderia ser possível.



Sta. Cecília

Centro

Centro

Centro

Ainda o Theatro


Wednesday, March 20, 2013

Acordar antes



me entrego tantos nos poemas
que recebo carta até do Equador
'Evandro, você precisa dormir' :::
aprendi a amar as madrugadas
à minha revelia
todo amor é à revelia
eu deveria fingir mais fazer poesia de verdade
eu não consigo
e o susto ao lembrar do que se aproxima
uma madrugada contigo (quem
é o 'contigo'? mesmo eu confundo se
uso para os dois o mesmo secreto nome,
doce e recluso :: alto como ninho no galho mais alto
um nome é um nome há
segredos de cabala aqui)
eu poderia aproveitar e dormir
amar e dormir
e ser acordado
mas não
porque nada nada supera
nem o silêncio absoluto das noites dormidas sob as estrelas da meninice
o acordar antes de ti
e ficar olhando     olhando          olhando

João Ricardo Lopes, poeta português

Conhecer a poesia do poeta português João Ricardo Lopes (n. 1977) foi das coisas boas do ano passado. Aliás, conhecer a poesia sua e a de outros portugueses contemporâneos foi um dos grandes estímulos para este blog no segundo semestre de 2012.

Só por me fazer escrever mais por aqui já me é motivo de gratidão.

Poesia de dicção refinada e sóbria, mas que sabe ser terna.

Seleciono dois poemas -- "Nota de Rodapé" e "Alquimicamente", ambos do livro Reflexões à Boca de Cena, que ele me enviou.

Do primeiro, eu já roubara um verso para meu poema "Sapos", de maio do ano passado e que pode ser lido aqui.

NOTA DE RODAPÉ

lâmpada baça por onde vem o silêncio
segregado e resfolegam os olhos.
faço-o de novo até muito tarde
e tu reclamas-me docemente, por entre
capítulos obscuros de papel pardo
e destroços de carvão.
às vezes distrai-me a asa de um queixume
o teu corpo sai a terreiro, como que a
defender o quinhão de lume que lhe pertence.
é tarde e tu respiras convulsionando
as minhas palavras, adormecida.
não cheguei a dizer-to, nunca chego
a dizê-lo. o amor é sempre tão de repente

ALQUIMICAMENTE

também eu possuo uma retorta enganadora.
transformar em ouro o teu coração de pedra
nunca foi fácil e o fracasso sacode-me o sono em
estremeções desalmados. sou eu quem te
chama e há um caminho de árvores entre nós.
é longínqua e ris de cada vez que me explode
a decepção e eu juro acabar assim, esfarrapado
e vencido e sem ti. mas o poema renasce e eu
renasço devagar. um coração de ouro é coisa de
que não se desiste. nem até à loucura, nem até ela



Monday, March 18, 2013

Musa, parlami di quell’uomo di multiforme ingegno



um pouco mais do demetrio


Ecologia no Rock Progressivo Italiano



Em recente post sobre o Area falamos dos conturbados anos 70 na Itália. Ir a um concerto de rock, ter uma banda de rock era assumir um compromisso político, amiúde no sentido mais mesquinho do termo (o que explica o ostracismo a que foi relegada uma das bandas mais maravilhosas, o Museo Rosenbach, só [só?] porque o artista responsável pela capa incluiu em sua bela colagem uma foto do bufo Mussolini, mas isso é outra história e estes parênteses [com direito a colchetes] já estão muito longos).

Na enorme maioria dos casos o compromisso político pendia para a esquerda e nesta agenda política residia o que considero um dos legados mais duradouros e válidos de todo o envolvimento político jovem do final dos anos 60 e início dos 70: a ecologia.

Vêm-me à mente agora três bandas que trataram do assunto: Blocco Mentale (em seu álbum Πoa, de 1973), Le Orme (em "Cemento Armato", do Collage, de 1971) e Reale Accademia de Musica (em "Lavoro in Città", do álbum homônimo de 1972).

O álbum do Blocco Mentale é inteiramente dedicado ao assunto. Πoa, palavra grega, significa "grass". O disco, considerado menor por fãs e crítica, é simplesmente ótimo, com destaque para o Lato B, em que figuram "La Nuova Forza" (a canção mais elaborada, com 8:08) e "Ritorno", que, como o título anuncia, retoma o tema que abre o disco. Aliás, o disco poderia ter ficado por aqui, poupando-nos da fraca e comercial "Verde", que corporifica o que a banda não tem de bom: a ingenuidade. (Mas a faixa tem mellotron!!!, tá, deixa ela lá!)

"Cemento Armato" e "Lavoro in Cittá", em sua oposição campo X cidade, em que aquele é glorificado em detrimento desta, ilustram certo rousseaunismo romântico típico do período.

Em ambas forma e fundo entrelaçam-se perfeitamente. Na música do Le Orme, que começa literalmente com um grito de alerta, toda uma atmosfera opressiva e claustrofóbica criada por Micchi, Aldo e Toni, sublinha versos como "Cimento Armado, a grande cidade / Sentir a vida que se esvai / Perto de casa não se respira / é sempre escuro." A banda pode dar vazão às suas habilidades instrumentais, mostrando que à influência do ELP, a começar pela formação triangular, podia-se juntar um tempero mediterrâneo.

A canção do RAM é semelhante neste aspecto. Ao menos parcialmente. Dividida em três partes, a primeira assemelha-se muito à do Le Orme: atmosfera sombria de modo a transmitir o trabalho rotineiro e mecânico a que os pobres mortais são submetidos nos grandes centros urbanos. Toda essa atmosfera, no entanto, dá lugar a uma segunda seção na qual há espernaça (ça ira!) e temos aqui de volta o Reale soberbo das faixas ímpares (esta é a quinta do disco). Tutto è divino. Acho que para não serem acusados de maniqueísmo, a banda, uma das minhas top 5, termina a faixa em um mood inteiramente diverso, mesmo jazzístico.





Saturday, March 16, 2013

Nossa música é violenta porque há violência nas ruas :: Area



Em entrevista, Demetrio Stratos, a lendária e carismática voz do Area, acusou o Premiata Forneria Marconi de alienação, dizendo ser estúpido e absurdo que se fizessem canções como "Dolcissima Maria" enquanto bombas caíam em Brescia. Concluiu: "a nossa música é violenta porque há violência nas ruas".

Sem entrar no mérito do que é alienação (na opinião deste blogueiro, um artista "engajado" pode ser muito mais alienado do que um, digamos, "lírico"), Stratos pegou pesado, sobretudo se lembrarmos que, "Dolcissima Maria" ou não (linda por sinal), a Premiada Padaria Marconi chegou a participar de show pró-PLO (a Organização para a Liberação da Palestina), além de, às vésperas de entrar no mercado norte-americano, ter lançado álbum denominado Chocolate Kings, verdadeiro tapa na cara (sem pelica) do público a ser conquistado.

A zanga de Stratos, porém, é emblemática do que foram os anos 70 na Itália e como eles influíram em bandas como Osanna, Stormy Six e, sobretudo, Area, uma das bandas mais perturbadoras e de difícil assimilação de todo o movimento.

O encantamento precoce de Demetrio privou-nos de uma das vozes mais poderosas de todo o rock progressivo italiano.

O vídeo abaixo tem grande valor histórico. Tocam, em playback, minha canção favorita, "Luglio, agosto, settembre". Quanto ao playback, será que alguém acreditava naquela pantomima??? =) Chega a lembrar o Chacrinha das tardes de sábado... Mas vale, pelas ótimas músicas. E pela fala do Demetrio.




Compostela



David Pintor, talentoso ilustrador galego de A Coruña, publicou no final do ano passado belo livro de desenhos intitulado simplesmente Compostela. Nele, um homem passeia pela capital da Galícia em sua bicicleta, pretexto para David realizar seus belos desenhos. Não se trata de um guia, no sentido referencial ou jornalístico. O que há aqui é sobretudo mágica. E poesia.

Por ocasião do lançamento o próprio David editou este pequeno vídeo com imagens do livro. A voz é de Eliane Elias.


Friday, March 15, 2013

À noite a estante com os romances




 
à noite a estante com os romances não
lidos fica maior :: cresce de tal forma
que mesmo assusta : são lombadas e
lombadas sobre prateleiras e
nações de prateleiras desgastadas
pela maresia

ainda leio bastante até arder
o pavio dos meus olhos miguilins
mas sei que jamais darei contas desses
romances todos (nunca li tolstoy)
que continuo comprando e à noite
a certeza da minha não-leitura
é levantar pedaço da cortina
e vislumbrar a morte que me espera


com ana lúcia merege e letícia leal






A moça que queria atravessar a ponte a pé



A moça queria atravessar a ponte a pé. Tão logo soube onde eu morava, tão logo soube ponte. Não pergunta se podia: quer.

Desde os primórdios de seus quereres, esse querer me lembrava o conto "O vello que quería ve-lo tren", do Rafael Dieste, ao menos na sonoridade da sintaxe.

A ponte, bem o sabeis, administrada pela CCR, é difícil de ser atravessada mesmo de carro e ônibus, motivo pelo qual iniciei minha série "Poemas Escritos na Ponte", que consiste no poema e em foto tirada no dia de dentro do ônibus. Objetivo? Não ficar maluco.

A moça queria, a moça chegou perto. Pertinho, pertinha. No domingo a atravessamos de táxi. Eu very excited pensando que que ela vai dizer, ela otherworldly. No percurso, como faz, deita-se no meu colo e depois de me atordoar uns minutos pergunta ao motorista se tem música. Musiquinha. Ele grunhe qualquer coisa e liga o rádio. Começa a tocar o maior pagode. A princípio continuamos quietos. Depois sorrimos. Em seguida rimos. Para logo começarmos gargalhada irrrefreável. Ainda mais que o pagode diz "Saudade, meu amor, saudade...". Rimos de perder as certidões. Cheguei a temer que o motorista pensasse que estivéssemos a zoar dele. Já briguei com muito motorista de táxi, hoje não. E não estávamos a zoar. E estávamos.

E a travessia da ponte?

Desembarcamos no aeroporto. Motorista feliz com a dispensa do troco.

Caminhamos silenciosos para o check-in. Até ela pular no meu pescoço e dizer

Viu? E você dizia que não dava!....

Tua Presença


Ponta da Areia 2012

tua presença me confunde tanto
que às vezes já nem sei se é quarta-feira
ou domingo este hoje que me sabe
a trufas embriagadas ao rum
a frutas roxas com o seu trescalo
à turfa que se evola sobre o co(r)po
às ostras escondidas nesta stout
ao viço das formigas esmagadas
ao húmus que recobre os jardins
encharcados pelas chuvas de março

tudo esquenta-me o rosto de umidade
e gotas de suor ::: já nem sei mesmo
se esta madrugada é já o ontem
ou ainda resquício do amanhã

Janela às 4 da manhã


Goa 2007


Me aproximo da janela às 4 da manhã para descobrir a chuva
o que é veramente impressionante
ninguém espera chuva às 4 da manhã
nem o meteorologista que a previra
ao redor do poste ela adquire novos tons
ao redor de Adiós Nonino que sussurra aqui baixinho
ela também adquire novos tons
ao redor de teu corpo pequeno e infinito
o que é veramente impressionante
ela se veste de conchas diminutas espraiadas num jardim


Thursday, March 14, 2013

Nape



i learn a word with you
nape
i learn nape with
you i
learn a nape word
toda feita de cintilâncias
madrugadas i
learn i forget i
learn again
just to forget so
you can teach us a
gain
what
does it mean i
*sigh i
kiss again and again again
your naked nape
dressed only with the tiniest species of hair
i kiss the word it
kisses me back

Wednesday, March 13, 2013

Michael Nyman faz 69 ::: Os Sonetos Luxuriosos



Neste mês em que Michael Nyman fará 69 anos parece-me de todo apropriado lembrar de suas 8 Lust Songs: I Sonetti Lussuriosi (2008), as oito canções inspiradas em sonetos de Pietro Aretino, o espantoso poeta libertino italiano do século XVI.

Disse canções "inspiradas"? Ora, é bem mais que isso, posto que Michael musicou os sonetos, para a interpretação da Michael Nyman Band e da soprano Marie Angels, com quem já havia trabalhado na linda trilha de Prospero's Books.

A interpretação de Angels é soberba. A música do Mike, que atualmene reafirma o seu grande interesse por ópera e música vocal em geral, é beautiful as usual.

E aqui o problema. Mike, um romanticão que faz pedra chorar, escreveu música lírica quando, parece-me, o tom geral deveria ser satírico.

A um ouvinte não familiarizado com os textos de Aretino (no original ou, aqui em entre nós, nas ótimas traduções do José Paulo Paes), dificilmente ocorrerá que se está a cantar coisas assim (e digo-o, acho, sem qualquer pudicícia):

Fodamos, meu amor, fodamos presto,
Pois foi para foder que se nasceu,
E se amas o caralho, a cona amo eu;
Sem isto, fora o mundo bem molesto.

Tradução do Zé Paulo Paes para:

Fottiamci, vita mia, fottiamci presto,
Poi che per fotter tutti nati siamo,
E se il cazzo ami tu, la potta io bramo,
Chè il mondo saria nullo senza questo.


Este paroxismo atinge o ápice na última peça da seleta de Mike: mesmo que aqui Angels consiga um efeito sarcástico espetacular na voz que diz "Já no leito! / Vejo-te, puta; fica preparada / Que hei de romper-te as costelas do peito." (no vídeo, em 3:23), o tom geral é do típico lirismo nymaniano que me leva às lágrimas.

Ou a putaria não deveria nos levar às lágrimas?




Prestigie compositores e músicos que não são aerófagos. O CD pode ser comprado aqui.

Tuesday, March 12, 2013

O menino insone




o menino insone


O menino insone não desafia apenas o pai em sua longa jornada noite adentro
o menino insone desafia ciências naturezas simpatias
antipatias
desafia mitos vigabatrina nitrazepam
broncas súplicas os pavios
que ardem à noite na forma de olhos cansados.

Em algum momento da serenata
o pai perguntará pelas horas de sono não gastas
o que será delas :::
ficam como crédito rendem juros (o que
explicaria o sono dos adolescentes) ou
se fazem pó como sacos de notas velhas
de um dinheiro cheio de zeros corroído pela inflação?

:: 3:17
ambos sentados no chão ::

Monday, March 11, 2013

Na ponta dos pés



Até onde sei minha fobia
não foi ainda catalogada
nada de panfobia fobofobia cinofobia
ou as banais claustrofobia agorafobia
minha fobia consiste em querer em precisar
ler alguma coisa e não ter nada para ler
bula de remédio que seja
isso já rendeu boas histórias
que não relato aqui que o poema está ficando
prosaico demais

assim que nesta manhã
na barca
estou preparado com mark strand juan gelman
alvaro mutis
e O Terminal
(fobia é fobia me deixem em paz)
a janela emoldura o azul lavado de um céu iridescente
depois das chuvas da noite
flocos de nuvens timidamente se reúnem
e tudo que faço
durante o percurso
é lembrar
da moça nua andando na ponta dos pés.

Na ponta dos pés.

E isso em minha casa.

Sunday, March 10, 2013

Little Rituals



a dim shimmering light from across the street
echoes here on my wall

this is funny

it's 11 o'clock
i know you by this time
go over your little rituals of sleep
you undo the makeup
you remove the lenses
you put on your tiny purple gown
you so many streets away

and this echoes here

there must be a name :: god

Wednesday, March 06, 2013

Poemas Escritos na Ponte III - Um Desastre de Pássaros



Mandinga para sonhar com pássaros
e ser quem sabe
por eles despertado em meio à noite
lacro os olhos com imagens do sabiá
os ouvidos com o canto da choca
durmo ao som dos assobios do Andrew Bird
e me agarro aos fiapos do que lembro de você
aperto olhos e mãos de tal modo
logo um desastre de pássaros doidos
daqueles que sobem às costas e pedem cavalinho na cama onde há pouco se amou
logo essa legião de penados compenetrados
se deixa rolar nas águas da noite
e escorre silenciosa na superfíce do sonho





Tuesday, March 05, 2013

E continuas molhada de estrelas



e continuas molhada de estrelas
mesmo depois de tantas tantas vezes
na verdade assim pois de tantas vezes
tuas mãos nuas desgarradas reses
são garras de água a molhar a noite
:: de pé contra a parede és um l
a consoante líquida em meu léxico
líquida líquida em minha pele
consoante os desejos do teu sexo
fundeei-me bateau ivre em teu delta
que sabe ser áspero doce estreito
delírio de anêmonas luzes guelras
uma voz que sussurra rarefeita
quando a noite se escorre liquefeita

prerrogativas



Quando o avô surpreendeu
o filho violentando a neta
pensou:
ah eu não perco essa boquinha
ou algo do tipo ora
tenho as minhas prerrogativas
mas não assim que é homem muito simples
e eu não sou narrador omnisciente
mas daí passou o avô a violentar a neta
também

ninguém aguenta

na terça-feira ela toma veneno de rato

pai e avô no enterro luto fechado
(sentirão falta)
recebem condolências

Monday, March 04, 2013

Helplessness


Precisamos falar sobre Kevin


Precisamos falar sobre Kevin

Frustração, exaustão, sobretudo desamparo e impotência traduzem bem. Em inglês, helplessness.




Precisamos falar sobre Kevin

Sunday, March 03, 2013

escutar michael nyman no escuro




escutar michael nyman no escuro

love reign o'er me
pete


escutar michael nyman no escuro
no vértice da longa noite clara
sob este céu de estrelas e de nuvens
junto do meu o corpo teu deitado
pensar três modos de escrever a chuva
todos os três passando pelos dois
olhos teus :: esse mistério que a vida
me emprestou :: o fulgor e o relâmpago
e a clareira germinando à noite
o que germina nasce nessas tablas
e no tamborilar dos nossos dedos
e se a aurora de olhos róseos chega
let's press << voltemos pro começo
chuva e reinações deste amor travesso



Saturday, March 02, 2013

"Water Dances" :: Michael Nyman




"Water Dances" é uma peça antiga de Michael Nyman, beirando os 30 anos de existência. Foi composta originalmente para um filme de Peter Greenaway, na verdade um pequeno documentário, sobre nado sincronizado. No documentário, no entanto, a música aparece muito mutilada e sequer é tocada até o fim. Para Mike, que acreditava e acredita que uma trilha-sonora não é mero apêndice de imagens, coisas assim aborreciam muito e acabaram pondo fim, amargamente, à sua parceira com Greenaway.

Agora os problemas para os nymaníacos: a trilha-sonora jamais foi lançada (e se fosse não ajudaria muito, por motivos já citados). Três movimentos -- "Stroking", "Gliding" e "Synchronizing" -- aparecem no álbum The Kiss and Other Movements, de 1985. No Live (1994) temos dois movimentos, "Dipping" e Stroking", sendo este último tocado em uma amplificação absurda.

É apenas num outro CD, Michael Nyman: Music for Two Pianos (que comprei em York, conforme post muito antigo aqui), do The Zoo Duet, que temos os 5 primeiros movimentos da peça. Mas aqui já se trata de uma leitura (ótima) da obra e não a própria como concebida, digo-o sem preciosismos.
 
O problema é que "Water Dances" consiste em oito movimentos, ou seja, há material aqui que, até onde sei, jamais foi lançado. O que é de todo lamentável. Inda mais se atentarmos para a beleza da música. E para o fato de "Synchronizing" ser uma das músicas MAIS ENTUSIASMANTES DE TODA A HISTÓRIA DE NOSSA VIL HUMANIDADE.

 Evitemos a caixa alta, quase sempre desnecessária.  

Entusiasmo = en theos.
 
 

Friday, March 01, 2013

Leite e Mel - Rock Progressivo Italiano



Bem, ao menos não preciso forçar pra ser do contra, já o sou naturalmente. Porque para falar deste trio genovês, o Latte Miele, mais uma vez terei que dizer que o disco que mais me agrada é o que menos agrada à galera em geral. Fiquem eles com o Passio Secundum Mattheum (72) e o Papillon (73), cheios de influência do ELP, o que levo pra ilha deserta (quando, Dio mio?!) é o de.... 76!!!: o Aquile e Scoiattoli.

A "influência" maior aqui é Pink Floyd. The Wall, inclusive. Êpa, mas The Wall nem existia, então what the f...?

Talvez Auerbach, com seu conceito de "figura" explique.

A faixa clássica, a "Opera 21", bem beethoviniana é, de fato, patética. A faixa longa é boa, poderia ser Mutantes (1974). Bastam as três primeiras pra fazer disso aqui uma obra-prima, leite e mel, aos golinhos em colherinha de prata.