não cabe dizer que também as casas
morrem posto que morrem muito mais
que nós :: a agonia muito mais
prolongada e exposta aos olhares
indiferentes dos homens :: a casa
que abrigou assistiu contou história
king lear músico de bremen agora
velha ébria que mal se aguenta em pé
que se mija toda diariamente
estuprada abandonada aos próprios
tumores cicatrizes reumatismos
e escaras que lhe infestam pele e entranhas
assim morrem as casas sob a mó
de homens e tempo :: inteiramente sós
uma palavra em meio a tantas outras
me traz os teus olhos tua pele
teus gestos em didascálias
tua voz em gozo
mais adiante outra e logo outra outra
a leitura não avança
os olhos por sobre a página arregalada
a leitura não avança
bem outra coisa que avança aqui
Nossa coleção de livrinhos infantis das línguas do mundo continua a crescer. Há mesmo um post antigo no blog sobre isso aqui. Novas aquisições incluem livros em húngaro, norueguês (os que já tínhamos não eram muito representativos) e parece que há mais vindo aí.
O húngaro atinge em cheio o foco: história de bichinho em língua rara. Chama-se Nyuszikák, que na linda língua do Sándor Márai, do Paulo Rónai e do Bártok quer dizer... coelhinhos. Outra palavra húngara, pois, para a coleção (as demais estão aqui).
Dante curtiu. Do jeitinho nyuszikák dele.
Fica o carinho à amiga que o trouxe. Szerelem szerelem.
Para além do violino, da guitarra, dos pedais, voz e assobios, Andrew Bird também tocou xilofone nos shows aqui no Brasil. Andrew Bird tocando xilofone é Andrew Bird, o Chicagoan que só pode ter estudado na Francis W. Parker: sofisticado, talentoso, cool. Um desleixo aparente, mas ouve lá ::: nem uma notinha fora do lugar.
Andrew Bird faz música de aventura sem que isso implique música difícil ou apenas para os happy few. Tanto que, ao cabo de duas audições, já estamos, errr, assobiando.
No show não fez concessões, o início -- ele solo com o violino por 15 minutos -- prova-o. Músicas mais "famosas" (difícil falar assim, falar em hit em quem está fora do mainstream) como "Imitosis", "Dark Matter", "A Nervous Tic Motion of the Head to the Left" e "Fake Palindromes", que guardou para o bis, somadas a uma seção bem mais folk, quase a cappella, que é o que se ouve em Hands of Glory, o álbum complementar ao Break it Yourself.
Andrew Bird finge que erra em "Orpheo Looks Back" (em São Paulo foi em outra), mas é tudo fake. Tudo como a dizer que não o levenos assim tão a sério.
No Rio teve uma música de bis. Até pedimos mais (euzinho aqui puxei uma saraivada de palmas), mas as luzes acesas e a música ambiente são o balde d'água em nossos pés.
Em São Paulo teve quatro músicas de encore. Além da "Fake Palindromes", a antiga "Don't Be Scared", uma das minhas top 10, e duas folk, do Hands.
Ora, por que isso? Sem bairrismo: é que em Sampa assistiu-se ao show de pé. E com cerveja ao alcance da mão. E o show começou depois da meia-noite. Faz toda a diferença.
Ano que vem, chegamos cedo, retiramos todas as poltronas do teatro (isso é coisa pra teatro) de modo que possamos whistle the nite away.
Faltou alguma coisa? Claro. Pra pular e assoviar, "The Naming of Things" e "Fiery Crash". Pra chorar a água de uns três cocos, "Souverian". Sobre esta post em breve.
Nos vídeos, Bird com a Annie Clark, aka St. Vincent.
Old birds are not caught with chaff, um dos provérbios que trabalho com os alunos para logo depois de ensinar o que é chaff (to separate the wheat from the ~), pedir-lhes a tradução. Literal. Macaco véio não mete a mão em cumbuca.
Oh God this is wrong big time, I see as I age.
Mas tendo chegado um pouco mais cedo para assisitir ao ansiado show do Andrew Bird, sobre o qual post em breve, o chopp de lei. Clipper. Ainda no segundo, congelo, a ponto de o amigo perguntar o que era. Balbucio: acho que vi o Andrew Bird andando ali. A distância era grande, mas o andar era de gringo. De gringo alto que assobia e faz chover pizzicatos lindos. Tudo num olhar.
Levantamos pagamos a conta nem quero troco ::: atrás do homem.
Como abordá-lo? E se eu estivesse errado? Próximo de seu campo auditivo, sem arapuca à mão, ponho-me a assobiar o tema de "Scythian Empires". Nada. Tento a voz: Excuse me, are you...? Yes (respondeu? ou apenas nodded?). Me apresento / identifico como possível e assobio-lhe novamente a Impérios Citas, para provar. Ele se resume a dizer: "Scythian Empires". O bizarro, como se estivera eu a exigir-lhe reconhecimento da própria (maravilhosa, top ten) canção.
Não é antipático, mas surpreso apenas. Tímido surpreso.
E eu e meu amigo felizes como quem tivesse visto passarinho.
"And do they do" é uma composição de Michael Nyman para balé datada de 1986. Um de seus primeiros trabalhos, portanto. Trata-se de quatro "canções", ainda que não haja voz em nenhuma delas. A terceira tem elementos da ópera "The man who mistook his wife for a hat", escrita no mesmo ano, o que, por sua vez, equivale a dizer que tem elementos da canção do Schumann "Nachtlied", que na ópera assume certa relevância.
Tenho-a em duas versões: a da própria Michael Nyman Band e uma da London Saxophonic, um ensemble para 10 (!) saxofones, nesta que é uma das pérolas da minha nyminiana. Ambas as versões são belas ::: a da Saxophonic é assombrosa. Só não entendo por que omitiram justo a terceira canção. Se bem que, ao fim da quarta, depois daqueles três voos de Ícaro, a gente nem se lembra de que uma das canções foi omitida ou que existe imposto de renda ou que faz calor no Rio.
depois de amar deitar os pés na grama
sentir como acolhe e refresca as plantas
que este milagre que se chama orvalho
é o amor que se faz enquanto as roldanas
baixam e alçam as cores do céu
e o sangue pingado nas quaresmeiras
é o amor que se faz como brincadeira
de bichos vadios vagando ao léu
-->
fazer-se bicho
fazer-se bicho devorar a grama
será este o segredo de quem ama
ver nos olhos o céu descomedido
ao borrifar de orvalho quente a grama
na casa em que o jardim chamava inverno
na casa em que os cream crackers se guardavam
numa lata de flores amarelas
na casa prenhe de aves do passado
nesta casa o menino passou férias
menino que morava em rua quieta
fica assombrado pelas madrugadas
rasgadas pelos ruídos dos ônibus
::: e a memória amiúde um copo sujo
com a crosta de borra colada ao fundo
aqui assume contornos de alva vela
que embora ameaçada pelo vento
das rotimas alumia luz trêmula
e depura as memórias do menino
a delícia de receber os teus
sonetos de manhã no celular
às vezes atravesso a longa ponte
noutras leio e noutras ouço música
quase sempre dormito :: cabeçadas
para a quieta diversão dos colegas
de viagem :: e noutras já desci
do ônibus todo concentração
em minha média com pão e manteiga
quando então os teus vivos versos vibram
brilhos chocalhos chuva de ambrosia
desatam os nós cegos da agonia
e embora me pergunte se sonhei
é só então que sinto que acordei
a moça se espreguiça sobre a rede
os olhos coça com a polpa dos dedos
a moça se espreguiça sobre a tarde
que não cai : dói : dói uma dor fininha
oculta no alarido dos pardais
a moça se espreguiça sob os dedos
a tarde roça numa dor fininha
do sol cansado alguns restos de lava
escorrem sobre moça pardais rede
e se a tarde assim dói mais do que cai
a moça no sol os seus olhos lava
cumpre a vida os seus velhos rituais
apenas tola troca de palavras
e a moça coça as costas dos pardais
esta, amor, a viagem que não termina
viagem espelho que se reflete em outro
espelho viagem trazendo em seu ventre
viagens múltiplas que se desdobram
e se escorrem e assim indefini
damente :: miçangas em um fio
que não se fecha bem mais que palíndromos
que nós somávamos amamos somos
oroboro a chegada é só pretexto
para novas partidas (onde? ai,
ceús, suécia? ou roma, que me tem
tanto amor?) na minha a tua sempre mão
e se amor é viagem na neblina
este amor a viagem que não termina
verdade: quando fixo numa música
sim, ouço-a a tal das trezentas mil vezes
que eu achei fosse só uma expressão
mas como não ouvir isso trezentas
mil vezes ::: os teus olhos são vitrais que mudam de cor com o céu na voz
da Teresa? e teu rosto era apenas
um reflexo no espelho da varanda
ainda assim olhos ainda assim o céu
ainda assim os vitrais ainda assim as
cores criavam novas novas cores
as cores do sol, ao longe o mar
vem, ajuda, recebe o meu amor
desajeitado que só faz amar
PS: Bem, não se trata de 'explicar' o poema. Mas registre-se que nos versos 12 e 13 enfileirei as quatro últimas canções do álbum O Espírito da Paz: "As Cores do Sol", "Ao Longe o Mar", "Vem", "Ajuda" :: quatro canções que, vira e mexe, ouço trezentas mil vezes.
Mas a referência principal (versos 5 e 6 e vídeo) são "Ecos na Catedral", do Movimento.
Me surpreendi agora ao verificar aqui, neste post antigo sobre as músicas mais tristes ever, que eu não tenha incluído "Collected songs where every verse is filled with grief", do Alfred Schnittke. Por ocasião do post, eu já conhecia essa peça há anos, na interpretação sempre sensível do Quarteto Kronos.
Há algo de Barber aqui (que incluí, claro), mas discordo do próprio Alfred: não me parece que todos os versos estejam cheios de tristeza. Há um quê de ironia também, basta ouvir o trecho em 1:07. Não há ironia em Barber.
Sim, é verdade, ironia pode ser um bocado triste, sobretudo se vinda de quem escrevera uma ópera chamada Life with an idiot, que é pauleira. A ironia, quando há, é mais que riso sardônico, é um esgar.
E a peça é toda ela tarja preta, daquelas "O Ministério da Saúde Adverte". Não é para qualquer salta-pocinhas. Approach with care.
Em 1979 o Le Orme goesunplugged e passa assinar Orme ao lançar o Florian. Podia faltar luz na sala que continuavam a tocar, isso avant la lettre, antes da coqueluche unplugged do MTV (que rendeu ótimos resultados).
Em 1980 dão continuidade a esta guinada e lançam Piccola Rapsodia dell'Ape.
Para uma banda que tinha já seus momentos de imensa dolcezza, poderiam achar que, ptooff, agora viram new age de vez.
Jamais. A tensão está sempre presente, ouvide a marvilhosa faixa título instrumental.
Tenho este disco em vinil. Lembram do Balcão? Saía às quintas. E por meio dele parei na casa de sujeito e comprei o belo álbum em março de 1984.
E a faixa que amo é esta.... Para quem ama a língua de Dante, para ouvir de joelhos...
Recebo torpedo de amiga querida pedindo que lhe fizesse lista com os 10 mais da literatura brasileira. Adorei a incumbência, pensando: bem, se ela pede a mim é porque espera algo idiossincrático e meio amalucado porque se quisesse coisa séria pediria ou procuraria em pessoas sérias e competentes.
Mas aí, só pra contrariar, decido fazer algo sério, inda que de jorro, sem sequer olhar para a estante do lado direito, que é onde está a lit. bras.
1. Os romances de maturidade do Machado.
2. Fagundes Varela ébrio, errando pela matas fluminenses.
3. O triste final do Policarpo, sobretudo se lido ao som de "Destino", do Madredeus.
4. Cruz e Sousa cuidando da Gavita no bairro do Encantado, subúrbio do Rio.
5. A viagem de Mário a Minas.
6. A boa poesia do Drummond.
7. Dito e Miguilim; Riobaldo e Diadorim.
8. A correspondência entre João Guimarães Rosa e seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri.
9. O coco-de-praia do Iguape e de Majorlândia.
10. Os sonetos do Tite.
Ai de mim, 10 é muito pouco.... =(
PS: Toda a obra do Nava -- memórias, desenhos, "o Defunto" -- não entrou por ser hors-concours.
Já falei da Penguin Cafe Orchestra por aqui e aqui e nunca terá sido o bastante. Simon Jeffes, que era quem escrevia o cardápio do café, olhava com bons olhos a 'intromissão' do acaso, do aleatório, em sua música.
Em 1982 episódio sui generis: em excursão ao Japão, que Jeffes já amava por ser o berço do zen budismo e do compositor Ryuichi Sakamoto, com quem ele, aliás, trabalhou neste período, ele encontra um harmônio jogado fora na rua. Depois de contactar o proprietário, indiferente à sorte do instrumento, Jeffes decide levá-lo para casa e adotá-lo.
Algum tempo depois nascia "Music for a Found Harmonium", um dos clássicos da PCO e, estranhamente (ou não) um dos clássicos do repertório folk irlandês (ouvi-a em meu pub em Dublin).
E hoje enfim, o harmônio jogado fora me rende este soneto.
1982
os penguins excursionam no Japão
olhos para os pássaros do céu de Kyoto
e para a vida que fervilha no chão
os olhos dos olhos se sonham zen
os ouvidos absorvem Sakamoto
e a música se vai fiando além
de rótulos e fronteiras: o ignoto
os move quando saem em passeio
na tarde das cerejeiras em flor
há, pois, que andar com calma : walk don't run
Simon esbarra no harmônio posto fora
onde viram fim ele vê o começo
e o sublime nasce de um tropeço
seu corpo ubíquo flana pelo espaço
e sua voz tedesca escande o vale
sem que jamais se alteie, espreme
o sumo das tardes, com o bagaço
faz manjar delicioso de compota
apascenta gansos e madrugadas
para dar de mamar aos cabritinhos
:: esta será sua lhana resposta
se certos dias lhe sabem daninhos ::
o tempo, o tempo, claro, nunca sobra
daí ela o carda e fia e tece e doba
e em sua oficina exerce a arte primeva
se terá tantos nomes quantos dons
fico com o primeiro :: chamo-lhe Eva
ensinaste cartografias mínimas
às polpas destes dedos distraídos
teu corpo recém-lavado ainda
sabia a alfazema mas também almíscar
o corpo é o corpo de quem se arrisca
os remansos são de quem nunca finda
só quem elegeu a amnésia e o gozo
à vil putrefação da hipocrisia
só quem se fez múltipla poderia
conter dos dez meninos a arritmia
para ensinar-lhes doces disciplinas
recompensadas oh recompensadas
que a mais simples memória da viagem
já lhes eriça a pele ::: e a fantasia
enquanto bebo mais uma cerveja
eu contemplo a cachorra velha e doce
que atende pelo nome de Peteca
os olhos mansos são de um cavalo
a voz rouca e gasta é de um lavrador
a dura espera é de quem nada espera
Peteca Peteca oh que pieguice
teu outro nome há-de ser amor
o amor dos velhos em tarde de terça
de um fevereiro que ninguém mais lembra
o amor que move (além de sol e estrelas)
a mão que ainda e sempre sôfrega parte
em busca da mão amada que repousa
e assim a aquece no amor dos dedos
gosto da luz que escorre pela fresta
da porta como gosto destes gansos
que desfilam tão sérios pelo vale
guardado pelas coxas destes morros
gosto
do sapo que martela ensimesmado
gosto do lago que espelha as estrelas
diminuindo distâncias entre o rigor
e sonhos ::: gosto do cheiro o cheiro
que nos impregna que nos faz noite
gosto do monjolo :: monjolo vida
lembrar de ti : lembrança que me move
como gosto do PCO que ouço
trezentas mil vezes em meu iPod.
quero faças das pálpebras lençóis
deixe-as cair gentis sobre os meninos
castanhos que também se fazem verdes
quando tocados pelo si bemol
do sexto brandemburgo todo allegro
todo novelo, todo arroio e giga
a reinventar o mundo em suas texturas
quero me faças, quero que me digas
como desato os nós destas costuras
outros com violinos fiquem ::: nós
queremos os segredos das violas
temperadas com mel, cravos e sóis
faz das pálpebras lençóis :: e eu, barroco,
toque adagio os vibratos do teu corpo
Não irei reproduzir aqui a piada do primeiro encontro do ex-detento, que cumprira pena de 12 anos, com a prostituta, que é piada pesada e suja, além de tecnicamente falha. Mas engraçada bagaray.
Tampouco reproduzirei a formidável resposta do Prokofiev quando perguntado se usaria jazz / elementos jazzísticos em suas composições: "Não tenho tempo pra isso", respondeu o mestre. Êpa. É o que sinto em relação ao whiskies blendados: não tenho tempo pra eles. Mas um 30 anos é um 30 anos. Perguntem à prostituta.
Pois então. Para comemorar duas amizades iniciada no mágico ano de 1982 no mítico São José "de baixo" com duas pessoas ainda relevantes (claro, ou não haveria celebração), optei por um... er, 30 anos, e eis que meu amigo Alexandre Campos (de quem falei aqui) me consegue o Whyte & Mackay 30 anos.
O Whyte & Mackay gosta de produzir expressões etárias pouco comuns no mercado do whisky: 13 (em vez de 12) anos, 19 (em vez de 18), 22 (ao invés de 21), e 30 anos, com o argumento de que aquele aninho extra deu à bebida a chance de amadurecer um pouco mais, conferindo-lhe uma suavidade graciosa e distinta. Parece marketing. E é. Mas prove pra ver.
O whisky? O aroma impregnou o apê de tal modo que os vizinhos chatos quase reclamaram. Os legais bateram à porta com a desculpa de que tinha acabado a farinha de trigo. Isso enfiando a cabeça porta adentro. Na boca, rico e profundo, (um) pouco amadeirado. Jerez e cerejas. No fim, algo de especiarias, mas o tom geral é de mel e grande suavidade. Se tomado depois de um Islay, trará notas de couro. Em uma palavra: equilíbrio, algo que meus amados Islay nem sempre terão. Nem eu.
PS: Os amigos são a Ariadne e o Renato, que perdeu a barca da história para o whiskão. O Felipe da foto é amizade feita em Chicago em 1986. 27 anos apenas.
Olho no padre, outro na missa. Se bobear, outro ainda naquela moça do banco ao lado. Na viagem ligeira a Fortaleza, o olhar sempre se detém na beleza dos pisos de azulejos hidráulicos...
Pequena messe, colhida em farmácias, botecos, teatros, igrejas, lojas.
deixa-me que te escreva com atraso
deixa-me que me atrase nas carícias
que à falta de ti deito no papel
deixa-me que te ame por acaso
esquecido de mim de ti de tudo
deixa-me que te ame pelo ocaso
naquela hora aberta em que a vida para
deixa-me que te ame com atrasos
quando chegares ::: deixe-me que escreva
pelo teu corpo o que escrito ficou
em versos espalhados por aí
deixa-me que aprenda o que já sei
deixa-me que eu saiba o que apreender
nasça em tua pele o fim que seguirei
Desça ao ponto de ônibus mais próximo (municipal ou intermunicipal) e pergunte à galera quem tocou no lendário Festival da Ilha de Wight de 1970, documentado em Message to Love.
Todos lembrarão do Jimi Hendrix e do The Who, muitos citarão Doors e Emerson, Lake & Palmer. Uns gatos pingados irão se emocionar ao evocar o Taste, o Ten Years After, o Jethro Tull. Creio que uns cinco responderão Fairfield Parlour e Pentangle. Apenas um rapaz, professor e poeta, não deixará o Family de fora.
Ninguém se lembrará do Leonard Cohen.
Um dos mínimos que se pode esperar de quem organiza um festival é a divisão das bandas pelos dias e a ordem da apresentação destas. Naqueles tempos, não se poderia JAMAIS permitir que qualquer mortal tocasse depois do The Who ou Jimi Hendrix. Não digo que fossem os melhores, mas as apresentações eram de tal modo incendiárias (outras o eram, sei, sei) que subir ao palco depois poderia causar traumas irreversíveis. The Who e Jimi só poderiam mesmo fechar, tanto que Jimi fechara Woodstock um ano antes.
Pois é. Mas na Ilha de Wight os malucos escalaram um tal de Leonard Cohen para tocar depois do Jimi Hendrix. E para uma plateia de 600.000 doidos. Naquele estado pós-hendrixiano.
E o poeta e singer-songwriter Leonard subiu ao palco. Havia algo a ser feito e ele fez.
Dizem que Joan Baez e Kris Kristofferson (o autor da maravilhosa "Me and Bob McGee", 'da' Janis, que fora impiedosamente vaiado quatro noites antes) a tudo assistirarm, quietinhos no palco, estupefatos ao ver Orfeu acalmando as feras.
Naturalmente que ele não tocou a maravilhosa canção que ora posto, que esta só viria no álbum New Skin for the Old Cerimony, de 1974.
LOVER LOVER LOVER
I asked my father,
I said, "Father change my name."
The one I'm using now it's covered up
with fear and filth and cowardice and shame.
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me,
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
He said, "I locked you in this body,
I meant it as a kind of trial.
You can use it for a weapon,
or to make some woman smile."
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
"Then let me start again," I cried,
"please let me start again,
I want a face that's fair this time,
I want a spirit that is calm."
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
"I never never turned aside," he said,
"I never walked away.
It was you who built the temple,
it was you who covered up my face."
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
And may the spirit of this song,
may it rise up pure and free.
May it be a shield for you,
a shield against the enemy.
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
na tarde quente Dante dorme azul
na rede que o recebe como útero
na tarde útero ressona Dante
quente protegido pelas varandas
tramadas por mãos quentes e recém
saídas do útero da tarde ::: o sono
untuoso tranca Dante em si e o trança
à memória dos bilros que ressoam
ainda na pele desta rede azul
e larga como o sono dos moluscos
na tarde quente Dante é caramujo
e a rede é uma casa de casquinha
tecida por ágeis dedos marujos
em tardes quentes azuis e marinhas