Saturday, January 26, 2013

O Pai do Pedro



Não sem emoção encontro foto do pai do Pedro Nava na salinha dedicada à Padaria Espiritual na sede da Academia Cearense de Letras.

Nava escreveu extensamente sobre a Padaria no primeiro volume das memórias, o Baú de Ossos, de que tenho a primeira edição, saída, ao contrário dos demais que viriam, pela Editora Sabiá do Fernando Sabino e do Rubem Braga.

O livro, ele o dedica à memória de seus avós, de seus pais, de seus tios (o formidável Antônio Sales, de quem falarei em post só sobre a Padaria), seu sobrinho, sua prima, sua mulher e um punhado de amigos (mira o nível das amizades: Afonso Arinos, Drummond, Fernando Sabino, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Rachel de Queiroz) P R O F U N D A M E N T E, assim, em letras escandidas, após citar o poema do Bandeira.

Do pai, que tão cedo o deixou, ele escreve á página 85:


"Felizmente, para meu Pai, ele frequentou o grande centro de ensino de seu Estado na fase áurea de 1891 a 1895 -- e ali foi duplamente apertado pelos seus mestres, tanto pelo natural rigor vigente na época, como porque o recomendava a tratos de polé (...). Nesse período meu Pai, sob os pseudônimos de Javany, Josy Norem, Gil Navarra ou com seu próprio nome, faz literatura e versos -- prosa bem aceitável, versos quase inaceitáveis -- os últimos geralmente de circunstância e levando, indiscretamente, para a imprensa de Fortaleza, os nomes bem amados de Ana, Júlia, Cléa e Noemi. E não ficava só no nome. Punha também o sobrenome das deusas, com todas as letras. (...) Mas seu período literário, final e mais intenso, começa em 1894, quando, aos 18 anos, ingressa na Padaria Espiritual e termina em 1896, data do início de seus estudos médicos."

 

É um pássaro? Andrew Bird ::: TOP 16 Songs



Estava mesmo para escrever sobre o Andrew Bird, este tão talentoso singer-songwriter, violinista e assobiador de Chicago com uma carreira que já passa da dezena de trabalhos, se incluirmos os iniciais com a banda The Bowl of Fire.

Pensei mesmo em fazer brincadeira, e antes escrever sobre o Mefistofele do Boito, pois há uma ária memorável em que o próprio, o Capiroto, ao apresentar-se, assobia. E daí eu faria minhas sengracices contumazes.

Mas Bird vem aí, para shows no Rio e em São Paulo, então o diabo que espere, que este post é só para o Andrew.

Conheci-o em 2007, com o trabalho Andrew Bird & The Mysterious Production of Eggs. Lembro que a Receita me pegou e, para além de pagar aquele imposto absurdo, tive que ir no correio retirar o pacotinho. Neguinho faz pirataria adoidado e quem compra legal é assim penalizado. Legal, né,?

A raiva, portanto, era grande. Mas foi ouvir Andrew Bird que tudo passou. Imposto? Correio? Ficou até barato.

Virei macaco de auditório, acompanhando a carreira com avidez. E comprando tudo. Seus dois últimos, Noble Beast e Break it Yourself não atingem as excelências do Armchair Apocrypha (preferido) e o primeiro que conheci, mas terão momentos que tudo justificam.
TOP 16 SONGS

Don't Be Scared
<
A Nervous Tic Motion of the Head to the Left
Fake Palindromes
The Naming of Things
The Happy Birthday Song
Fiery Crash
Imitosis
Plasticities
Herectics
Armchairs
Dark Matter
Scythian Empires
Spare-Ohs
Souverian
Orpheo Looks Back


Friday, January 25, 2013

A partir dos gatos



porque a vida só é possível reinventada.
Cecília

Reinventar a vida
a partir dos gatos.

A precisão dos gestos
a profundidade do olhar
a agilidade assombrosa, frutos
da ponderação de energia
onde o tolo enxerga apenas preguiça.
(Poeta,
o gato seria Bashô
os mais enxutos haikais)
Muito amar e muito
querer amor
(o jogar-se aos pés)
mas saber cultivar
-- onde o tolo enxerga apenas indiferença --
alheamentos.

Thursday, January 24, 2013

Poemas Escritos na Ponte II - Feast my seldoms



Feast my seldoms
make them oftens
as the sky below
winks at the sea above
as nyman plays on the bridge
to the thee i write with (g)loves.

Quando Dante arranca-me os óculos




Quando Dante arranca-me os óculos
é possível me queira menos míope.
Da miopia não abro mão, mocinho:
forma que acalento
de cultivar esperança.

Sunday, January 20, 2013

12 Tons de David Gray


Os únicos tons de cinza que verdadeiramente me interessam serão aqueles do David Gray: tons, semitons, microtons. O trocadilho já foi feito por um conhecido há um tempão no facebook, o que acho muito justo dado que fui eu que lhe apresentei ao David, nascido poucos dias antes de mim (pobre canceriano) em Manchester, singer-songwriter que honra a escola britânica.

Às vezes me perguntam como conheço "tanta coisa assim". Nem acho que eu conheça tanta coisa assim, é antes aquela história do caolho em mundo de cegos, mas um segredo consiste em ficar, sempre, atento.

Eu estava na Bretanha quando desci à noite para comprar pizza para levá-la ao quarto. Enquanto espero, tomei da Lancelot, e a explosão de sabores, a pungência das especiarias jamais me sairão da memória. Da pizza nada lembro, mas sim que tocava alguma coisa bonita no pub. O que é?, o que não é?, posso ver o CD?, era "This years love", do David Gray. Pronto.


TOP 12 TRACKS, em ordem cronólogica:

My oh my
White Ladder
This years love
Sail away
Freedom
Real Love
From here you can almost see the sea
Hospital food
Now and always
Disappearing world
Forgetting
In God's name



Friday, January 18, 2013

de tanto bater meu coração parou



o coração bate contra a parede
bate até fender-se em dois em três quatro
bate até esquecer-se de onde veio
e que eu já vagamente o possuí
pois o coração já não tem memória
quer uma noite de estrelas e nuvens
quer estrelas de brilhos e distâncias
quer nuvens de rigor e imprecisão
quer brilhos de magia e segredos
quer distâncias de estradas e oceanos
quer rigores de loucos e de monges
e imprecisões de nuvens e de estrelas
o jogo poderia prosseguir
mas de tanto bater meu coração parou

Thursday, January 17, 2013

Leocácio, fotógrafo inventor



O paraibano Leocácio Ferreira da Silva (1921-1983) foi artista e fotógrafo em sentidos plenos (mas não únicos) das palavras: artista amador e fotógrafo inventor.

Para ganhar o pão, funcionário da Marinha. Para fotografar, criava o próprio equipamento, chegando ao ponto de inventar uma máquina a partir de uma caixa de charutos, com o objetivo de tirar fotos panorâmicas com a abrangência angular de 180°. Batizou-a de Jane-pan em homenagem à filha Jane.

Com a Jane registrou a primeira missa campal e a inauguração de Brasília. Fotografou também diversos momentos importantes da história do futebol cearense, como a inauguração do Castelão. A última das três fotos postadas retrata o empate entre o Santos e o glorioso Ferrim em 1968! O Ferrim sagrara-se campeão invicto! E o Santos era o de Pelé!

Algumas dessas fotos (originais!) podem ser vistas no Flórida Bar, tradicional boteco de Fortaleza, que funcionava no centro e mudou-se para Iracema. (Meio assim como o nosso Lamas, sabem? Mas acho que eles carregam os anos para a aposentadoria, que esperamos nunca chegue)




dorme que passa vovô



dorme que passa vovô
é o que Lu diz
após a mãe lhe explicar em muito tortuosas linhas
a doença

o avô
(não chegará ao fim do mês)
acorda de madrugada com as mesmas lancinantes dores
mas lembra e sorri

Tuesday, January 15, 2013

Botequins Tradicionais de Fortaleza II

Aqui duas pérolas, situadas frente a frente naquela região meio que periférica do centro.

O Camocim tem o prêmio de a melhor caipirinha de Fortal. O El Fomento tem o prêmio deste blog de o mais formidável pé-sujo de Fortaleza.

Imaginemos o que não confabularão os dois com suas portas fechadas, no silêncio das madrugadas frescas (sim, a brisa de Iracema baterá por cá...).

Bar O Camocim - Centro
Bar O Camocim - Centro
Bar El Fomento - Centro
Bar El Fomento - Centro
Bar El Fomento - Centro
A vida de dono de bar é dura. Seu Antônio Gastão do Pinto precisa relaxar
Bar El Fomento - Centro

Botequins Tradicionais de Fortaleza I


Flórida Bar - Praia de Iracema

Flórida Bar - Praia de Iracema
Flórida Bar - Praia de Iracema

Não será o Ceará, terra de mascates, conhecido por seus botequins tradicionais. Na capital, a tendência higienizante e uniformizadora de revestir as paredes de lajotas brancas é forte como aqui, com a desvantagem de não terem os cearenses da capital, em que pese uma Padaria Espiritual, a tradição boêmia de cariocas ou paulistas.

Sem bairrismo, que isso detesto.

No entanto, quem procura acha e acha coisas com as quais nem os boêmios intelectuais siarenses sonhavam....

Segue pequena mostra, de pesquisa corrida.



Escuby Lanches - Centro

Escuby Lanches - Centro
Mercearia Rodriguês - Centro
Mercearia Rodriguês - Centro
Mercearia Rodriguês - Centro

Em minha estante pousa uma pomba negra

em minha estante pousa uma pomba negra
trazida da Argentina há muitos anos
negra negra como poucas pombas
acho que nenhuma pomba
em seu dorso há desenhos
talvez cicatrizes
como as linhas de Nazca
seus olhos são vazados
como os da índia que a moldou
toda a história de estupros e olhos vazados e cicatrizes em suas costas
minha pomba negra é sóbria
responde se lhe pergunto
voa se lhe peço
jamais sorri


Monday, January 14, 2013

Ferroviário X Horizonte ::: A Minha Vida Está Completa








Não sou alegre nem sou triste mas a minha vida está completa agora que realizei sonho acalentado há anos: vi o Ferroviário em ação!!!! O Ferrim querido!

A partida foi contra o Horizonte pela segunda rodada do Campeonato Cearense de 2013, no charmoso estádio Presidente Vargas. O Horizonte, garoto que nem dez anos tem, é time enjoado que ano passado arrancou empate contra o Flamengo no Rio.

Ficou tudo no 0X0, mas nada que impedisse a torcida de aplaudir no final.

Eu junto, claro.

deveria aproveitar esta noite



deveria aproveitar esta noite
para inventariar o que foi esse ano que passou
o que foram esses quatro últimos anos
esse vórtice
deveria aproveitar esta noite
para organizar os livros empilhados os CDs empilhados as fotos perdidas no PC
deveria aproveitar esta noite
para preparar as aulas do semestre inteiro
de modo a calar um pouco a angústia das noites de domingo
deveria aproveitar esta noite
eu sei que deveria aproveitar
para pentear um pouco este caos
jogar fora papeis velhos
voltar a poemas inacabados
cortar artigos dos acabados
comprar um calendário novo
reler todo o Pedro Nava
escutar as sonatas de violoncelo do Britten
organizar a coleção de coasters
usar enfim o aparelho de fondue ganho no casamento
agora que o casamento acabou
eu sei que eu deveria aproveitar
para escrever aquela carta
exorcizar demônios renitentes
para quem sabe chorar
para inaugurar o moleskine
para terminar o Dekalog
para despedir a empregada
para tomar cerveja com o porteiro
para visitar a tia esquecida
tosquear o gato que sofre com o calor
pintar a sala de laranja (uma casa
constantemente amanhecendo)
e as sancas de amarelo
eu deveria é voltar às aulas de russo
e imediatamente partir para o Белые ночи
que já não tenho idade ou paciência para aprender números
deveria aproveitar esta noite
para dividir o ceú em fatias
e encontrar a que me cabe
e dividir e redividi-la
e então contar as suas estrelas
e então ligá-las para formar filigranas de sonho
eu deveria aproveitar esta noite
para quem sabe morrer
e passar a morte inteira com tua imagem presa às minhas retinas


deveria aproveitar esta noite
eu sei que deveria aproveitar
mas tudo que faço
tudo que faço é

Sunday, January 13, 2013

Poema



POEMA


Não fosse o pai
não fosse a mãe
e um e outro esporádicos
seria ele o menino mais só dentre todos os meninos sós
ele e seus delírios
suas palmas fora de hora
as cabeçadas furiosas na parede.

A famíla deu as costas
e correu para papar a hóstia da missa das 10.

Ficou o menino
e também o anjo ou lá sei que visão é essa
que ele descobre no alto das janelas
e com ele ri.

Saturday, January 12, 2013

Retornar ao Iguape



Um de meus princípios de viagem, até 1993, era jamais voltar aos lugares visitados. Sem o saber, punha em prática um provérbio mexicano que reza que jamais se deve voltar aonde se foi muito feliz.

Há vinte anos este princípio caducou e neste tempo fui e voltei a muitos lugares.

Ao fim de 1991 eu estava tão exausto física e emocional e espirutualmente que afirmar que eu morrera seria antes eufemismo que hipérbole.

Estava tão down que até as minhocas tinham que olhar para baixo para dar um oi.

Eu que amo os capicuas.

Aí no comecinho de janeiro fui para o Ceará, e tudo mudou. Tudo.

Passados 21 anos retorno ao Iguape, uma das paradas mágicas da mítica viagem de 1992.

Se conhecer lugares é bom, retornar é extraordinário.

Um dos pontos altos de 92 foi encontrar a galera do coco e botar todo mundo na roda. Fiz isso no Iguape e em Majorlândia e nesta última a dança atingiu contornos oníricos de gravura de Poty quando toda a família dançou ao redor da árvore.

Naturalmente que eu desejava muito reencontrar este pessoal.

No bar onde casualmente entro, para logo descobrir chamar-se Bar O Evandro, perguntem se consegui...

Monday, January 07, 2013

O Viajante Descobre





O viajante descobre divertido
o viajante tão experiente outrora
mesmo invejado
já não sabe fazer malas
isto virá
do interregno de quatro anos e meio
ou da ausência daquela
que a seu lado já não está?

A bermuda
ainda úmida da piscina com o filho
terá que ficar.
As cuecas amarfanhadas
entre a fiarada de iPod celular Canon.
E as sandálias
as sandálias descascadas que não fazem inveja aos clochards do bairro
vão numa sacola plástica das Sendas
com as elegias de John Donne.

Sunday, January 06, 2013

Liga às Três da Manhã



liga às três da manhã me acorda presto
para contar-me o sonho que tiveste
mente o que lembras reinventa o resto
e aproveita e me conta o que te veste
(a camisola roxa tão curtinha?
ou apenas a camiseta hering
que em teu corpo tranforma-se em prodígio?)
deste meu afã destes meus desejos
digo crias daquilo que me deste
e tu dizes que assim parece o início
quando hesitantes ainda tateávamos
(acho estamos em 1/300
não sei se um dia chegaremos lá
certo que início amor sempre será)

O Sexo na Alemanha Nazista



Meu pai órfão, restou-me apenas uma vó, gaúcha que orgulhava de sê-lo mas que quase não carregava no sotaque, exceto em Rio, que pronunciava /riu/ e frio, que pronunciava /friu/. Estava sempre com frio, daí a sua fala viver ainda em mim.

Minha vó era doce, a mais doce das velhas a mais doce das avós, mas só eu conhecia suas facetas inconfessáveis e impublicáveis. Certa vez encontrei-a no caramanchão do hotel em Mendes, onde se refugiara com livro. Naturalmente pergunto o que está a ler. O Sexo na Alemanha Nazista.

Problema nenhum em se ler isso, também eu tenho aqui a Encyclopedia of the Third Reich, cuja lombada já desagradou ao meu pai, mas convenhamos que não se espera encontrar a mais doce das avós lendo isso num caramanchão na serra.

Minha vó também gostava de beber sangue, naqueles horríveis copos de requeijão. Embora eu só fosse me tornar coloecionador de copos muitos anos depois, algo em mim já dizia que aquela combinação não podia prestar.

Quem sou eu para criticar os comportamentos infantis de Felipa, eu que os tenho em borbotões. Um deles é atribuir a certos momentos da vida uma trilha-sonora. Ainda que a atibuição amiúde seja involuntária, é algo bem Felipa.

A trilha-sonora dos dias finais de minha doce vampira resume-se a La Casa del Lago, do Saint Just, e ao Jérémiades, do Wim Mertens.



PS: Sem a foto que eu queria, sem o vídeo que eu queria. O blogspot prossegue boicotando este blog.

Saturday, January 05, 2013

Epígrafes de "Voo sem Pássaro" - Nicolas


Nem tudo está perdido. Perguntaram-me quem era o Nicolas de uma das epígrafes de Voo sem Pássaro, então ainda há esperança.

Nicolas é Nicolás Guilllén, poeta cubano que se notabilizou por seus poemas de cunho social, às vezes políticos.

Esse Nicolás Guillén respeito, mas não me interessa.

O Nicolas que me interessa é este aqui, de um dos poemas de amor mais bonitos jamais escritos.

E não existe nada mais político que isso.


UN POEMA DE AMOR

No sé. Lo ignoro.
Desconozco todo el tiempo que anduve
sin encontrarla nuevamente.
¿Tal vez un siglo? Acaso.
Acaso un poco menos: noventa y nueve años.
¿O un mes? Pudiera ser. En cualquier forma,
un tiempo enorme, enorme, enorme.

Al fin, como una rosa súbita,
repentina campánula temblando,
la noticia.
Saber de pronto
que iba a verla otra vez, que la tendría
cerca, tangible, real, como en los sueños.
¡Qué explosión contenida!
¡Qué trueno sordo
rodándome en las venas,
estallando allá arriba
bajo mi sangre, en una
nocturna tempestad!
¿Y el hallazgo, en seguida? ¿Y la manera
de saludarnos, de manera
que nadie comprendiera
que ésa es nuestra propia manera?
Un roce apenas, un contacto eléctrico,
un apretón conspirativo, una mirada,
un palpitar del corazón
gritando, aullando con silenciosa voz.
Después
(ya lo sabéis desde los quince años)
ese aletear de las palabras presas,
palabras de ojos bajos,
penitenciales,
entre testigos enemigos.
Todavía
un amor de «lo amo»,
de «usted», de «bien quisiera,
pero es imposible»... De «no podemos,
no, piénselo usted mejor»...
Es un amor así,
es un amor de abismo en primavera,
cortés, cordial, feliz, fatal.
La despedida, luego,
genérica,
en el turbión de los amigos.
Verla partir y amarla como nunca;
seguirla con los ojos,
y ya sin ojos seguir viéndola lejos,
allá lejos, y aun seguirla
más lejos todavía,
hecha de noche,
de mordedura, beso, insomnio,
veneno, éxtasis, convulsión,
suspiro, sangre, muerte...
Hecha
de esa sustancia conocida
con que amasamos una estrella.

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PS: Não sei por que não estou conseguindo fazer upload de fotos para a postagem. Tive que reaproveitar foto já publicada aqui há tempos. Tirada em Goa.


Segue em português. Fico devendo o nome do tradutor. Seu trabalho é bonito, mas ese aletear de las palabras presas é mesmo intraduzível. Por isso utilizei.

UM POEMA DE AMOR

Não sei. Ignoro-o.

Desconheço todo o tempo que andei
sem encontrá-la novamente.
Quem sabe um século? Talvez.
Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.
Ou um mês. Poderia ser. De qualquer forma
um tempo enorme, enorme, enorme.

Ao fim como uma rosa súbita,
repentina campânula tremendo,
a notícia.
Saber de pronto
que ia voltar a vê-lá, que a teria
perto, tangível, real, como nos sonhos.
Que troar surdo
Rodando-me nas veias,
estalando lá em cima
sob meu sangue, em uma
noturna tempestade!
E o achado, em seguida? E a maneira
como ninguém compreenderia
que essa é nossa própria maneira?
Um roçar apenas, um contato elétrico,
um apertão conspiratório, uma olhada,
um palpitar do coração
gritando, ululando com silenciosa voz.
Depois
(já o sabeis desde os quinze anos)
esse ruflar das palavras presas,
palavras de olhos baixos,
penitenciais,
entre testemunhas inimigas,
ainda
um amor de “o amo”
de “você”, de “bem gostaria,
mas é impossível…” De “não podemos,
não, você deve pensar melhor…”
É um amor assim,
é um amor de abismo na primavera,
cortês, cordial, feliz, fatal.
A despedida, logo,
genérica,
no turbilhão dos amigos.
Vê-la partir e amá-la como nunca;
e já sem olhos seguir a vê-la ao longe,
lá longe, e ainda segui-lá
ainda mais longe,
feita de noite,
de mordida, beijo, insônia,
veneno, êxtase, convulsão,
suspiro, sangue, morte…
Feita
dessa substância conhecida
com que amassamos uma estrela.

Thursday, January 03, 2013

Gato num Apartamento Vazio



Ao publicar poema em que faço alusão a um outro de Wisława Szymborska (repita comigo:  Vissuava Chemborska), Giana reclama que não se faz isso a um leitor: falar no poema de raspão e não transcrevê-lo.

Aliás, no poema sequer menciono o nome da poeta (repita comigo: Vislava Zimborska), que aquilo era poesia, não tinha obrigação para com nada a não ser para consigo mesma (lembrando, com Wallace Stevens, que a poesia é o assunto do poema).

Mas tá, Giana, acedo. Que nunca será demais.



GATO NUM APARTAMENTO VAZIO

Morrer –  isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato
num apartamento vazio.
Trepar pelas paredes.
Esfregar-se nos móveis.
Nada aqui parece mudado
e no entanto algo mudou.
Nada parece meido
e no entanto está diferente.
E à noite a lâmpada já não se acende.

Ouvem-se passos na escada
mas não são aqueles.
A mão que põe o peixe no pratinho
também já não é a mesma.

Algo aqui não começa
na hora costumeira.
Algo não acontece
como deve.
Alguém esteve aqui e esteve,
e de repent desapareceu
e teima em não aparecer.

Cada armário foi vasculhado.
As prateleiras percorridas.
Explorações sob o tapete nada mostraram.
Até uma regra foi quebrada
e os papéis remexidos.
Que mais se pode fazer.
Dormir e esperar.
Espera só ele voltar,
espera ele aparecer.
Vai aprender
que isso não se faz a um gato.
Para junto dele
como quem não quer nada
devagarinho,
sobre patas muito ofendidas.
E nada de pular miar no princípio.

(Tradução de Regina Przybycien).


Este post, obviamente, dedico-o à Giana.

Mas serve também para a Irene, que quer conhecer o Oriente da Europa.

E para a menina com quem aprenderei a pronunciar o L diacrítico do alfabeto polonês: Ł, tão bonitinho!







Wednesday, January 02, 2013

Felipa



De todos os muitos comportamentos infantis de Felipa, o que mais me irritava era o de querer forçosamente usar palavras recém-aprendidas. Aqui me lembro de quando fomos a Porto Alegre, nossa primeira viagem grande, e ficamos na casa da minha Tia Glória.

Naquela tarde a Tia se popusera a fazer um bolo com a bela Felipa. Como Felipa insistia em abrir o forno, ela teve que advertir que não fizesse mais isso ou o bolo iria desandar. "Desandar, como assim?" E a tia explicou. Pronto.

Naquela noite, quando estávamos transando, Felipa subitamente parou de cavalgar e disse: "Acho que nossa relação desandou". Puta que pariu. Que ódio. Tudo tão ridiculamente ensaiado na cabecinha dela. Ela achava mesmo que estava num filme de Godard?

Tive que ir para o banheiro. Não conseguiria na frente dela. Tem homem, tem mulher que faz para dar raiva, eu não conseguiria tamanha a raiva.

Raiva dela e da Tia Glória.

Glória começou naquele mesmo janeiro um câncer que iria devorá-la por nove anos.

O nosso começara um pouco antes e sobreviveria à tia.

Ora (direis), sonetos!




Acerca do soneto, Paulo Mendes Campos disse que "quando um está pronto, isto significa que uma série de complexas operações mentais ocorreram, conseguindo o homem, de uma coisa frágil e ilusória como a palavra, um objeto que resiste à inteligência, à cultura e ao tédio do leitor. Essa peça bem acabada se incorpora à vida de algumas pessoas". Conclui o poeta mineiro (injustamente lembrado apenas como ótimo cronista, conforme escrevi aqui): que "a glória de um soneto é ser inesgotável".

O genial Glauco Mattoso escreveu mais sonetos que o romano oitocentista Giuseppe Belli, que compôs apenas 2.279.  Nosso Glauco, tributário de Belli na irreverência, já tem mais de 4 mil. Afirma ele ser o soneto "universal como o alfabeto e perene como os ciclos solares e lunares" E continua com "dou-me ao luxo de pilheriar que o soneto vem a ser a maior invenção do Homem, depois da roda, do alfabeto latino, do algarismo arábico e da própria notação musical.

Escrever o que depois desses dois aí de cima? Bem, quando escrevo qualquer coisa que me pareça razoável (em releituras isso pode mudar, o que é bom e mau), sinto-me como aquele doido do Strinberg ao pintar, ele que foi mais dramaturgo e alquimista que pintor.

Mas quando escrevo um soneto que pareça razoável (isso pode...), bem, aí chego ao ponto de dispensar comida, posto que alimentado.

Uma Tábua de Salvação



Minha mãe abre o livro de poesia sobre a mesa
e me chama
olha que bonito:
Morrer -- isso não se faz a um gato.
Tomo-lhe devagar o livro das mãos
e leio pausadamente o poema inteiro
para ao fim encontrá-la boquiaberta e marejada.

Isso não se faz a uma mãe.

Ao chegar em casa
pede-me ao telefone:
lê de novo aquele poema daquela mulher de nome difícil
e quando chego à janela para tomar ar
tudo são luzes no céu distante de Cracóvia.

Tuesday, January 01, 2013

É um Soneto que me Pedes?



Pois é um soneto que me pede a moça?
Oram vejam só quanta bizarria
soneto escreve-se em dias de alegria
ou em dias nublados pela fossa.

Isto aqui, mocinha, não é juke box
insere ficha e pede dois quartetos
pede o esquema de rimas dos tercetos
como quem pede heavy metal ou bossa.

Mas se estiverem soltas as amarras
se enamorado eu perceber teu nome
chiado nos cicios das cigarras

se eu for tocado pela sede e fome
em ti pensando a esmo pela praia
aí pode ser que alguma coisa saia.