Tuesday, January 15, 2013

Botequins Tradicionais de Fortaleza I


Flórida Bar - Praia de Iracema

Flórida Bar - Praia de Iracema
Flórida Bar - Praia de Iracema

Não será o Ceará, terra de mascates, conhecido por seus botequins tradicionais. Na capital, a tendência higienizante e uniformizadora de revestir as paredes de lajotas brancas é forte como aqui, com a desvantagem de não terem os cearenses da capital, em que pese uma Padaria Espiritual, a tradição boêmia de cariocas ou paulistas.

Sem bairrismo, que isso detesto.

No entanto, quem procura acha e acha coisas com as quais nem os boêmios intelectuais siarenses sonhavam....

Segue pequena mostra, de pesquisa corrida.



Escuby Lanches - Centro

Escuby Lanches - Centro
Mercearia Rodriguês - Centro
Mercearia Rodriguês - Centro
Mercearia Rodriguês - Centro

Em minha estante pousa uma pomba negra

em minha estante pousa uma pomba negra
trazida da Argentina há muitos anos
negra negra como poucas pombas
acho que nenhuma pomba
em seu dorso há desenhos
talvez cicatrizes
como as linhas de Nazca
seus olhos são vazados
como os da índia que a moldou
toda a história de estupros e olhos vazados e cicatrizes em suas costas
minha pomba negra é sóbria
responde se lhe pergunto
voa se lhe peço
jamais sorri


Monday, January 14, 2013

Ferroviário X Horizonte ::: A Minha Vida Está Completa








Não sou alegre nem sou triste mas a minha vida está completa agora que realizei sonho acalentado há anos: vi o Ferroviário em ação!!!! O Ferrim querido!

A partida foi contra o Horizonte pela segunda rodada do Campeonato Cearense de 2013, no charmoso estádio Presidente Vargas. O Horizonte, garoto que nem dez anos tem, é time enjoado que ano passado arrancou empate contra o Flamengo no Rio.

Ficou tudo no 0X0, mas nada que impedisse a torcida de aplaudir no final.

Eu junto, claro.

deveria aproveitar esta noite



deveria aproveitar esta noite
para inventariar o que foi esse ano que passou
o que foram esses quatro últimos anos
esse vórtice
deveria aproveitar esta noite
para organizar os livros empilhados os CDs empilhados as fotos perdidas no PC
deveria aproveitar esta noite
para preparar as aulas do semestre inteiro
de modo a calar um pouco a angústia das noites de domingo
deveria aproveitar esta noite
eu sei que deveria aproveitar
para pentear um pouco este caos
jogar fora papeis velhos
voltar a poemas inacabados
cortar artigos dos acabados
comprar um calendário novo
reler todo o Pedro Nava
escutar as sonatas de violoncelo do Britten
organizar a coleção de coasters
usar enfim o aparelho de fondue ganho no casamento
agora que o casamento acabou
eu sei que eu deveria aproveitar
para escrever aquela carta
exorcizar demônios renitentes
para quem sabe chorar
para inaugurar o moleskine
para terminar o Dekalog
para despedir a empregada
para tomar cerveja com o porteiro
para visitar a tia esquecida
tosquear o gato que sofre com o calor
pintar a sala de laranja (uma casa
constantemente amanhecendo)
e as sancas de amarelo
eu deveria é voltar às aulas de russo
e imediatamente partir para o Белые ночи
que já não tenho idade ou paciência para aprender números
deveria aproveitar esta noite
para dividir o ceú em fatias
e encontrar a que me cabe
e dividir e redividi-la
e então contar as suas estrelas
e então ligá-las para formar filigranas de sonho
eu deveria aproveitar esta noite
para quem sabe morrer
e passar a morte inteira com tua imagem presa às minhas retinas


deveria aproveitar esta noite
eu sei que deveria aproveitar
mas tudo que faço
tudo que faço é

Sunday, January 13, 2013

Poema



POEMA


Não fosse o pai
não fosse a mãe
e um e outro esporádicos
seria ele o menino mais só dentre todos os meninos sós
ele e seus delírios
suas palmas fora de hora
as cabeçadas furiosas na parede.

A famíla deu as costas
e correu para papar a hóstia da missa das 10.

Ficou o menino
e também o anjo ou lá sei que visão é essa
que ele descobre no alto das janelas
e com ele ri.

Saturday, January 12, 2013

Retornar ao Iguape



Um de meus princípios de viagem, até 1993, era jamais voltar aos lugares visitados. Sem o saber, punha em prática um provérbio mexicano que reza que jamais se deve voltar aonde se foi muito feliz.

Há vinte anos este princípio caducou e neste tempo fui e voltei a muitos lugares.

Ao fim de 1991 eu estava tão exausto física e emocional e espirutualmente que afirmar que eu morrera seria antes eufemismo que hipérbole.

Estava tão down que até as minhocas tinham que olhar para baixo para dar um oi.

Eu que amo os capicuas.

Aí no comecinho de janeiro fui para o Ceará, e tudo mudou. Tudo.

Passados 21 anos retorno ao Iguape, uma das paradas mágicas da mítica viagem de 1992.

Se conhecer lugares é bom, retornar é extraordinário.

Um dos pontos altos de 92 foi encontrar a galera do coco e botar todo mundo na roda. Fiz isso no Iguape e em Majorlândia e nesta última a dança atingiu contornos oníricos de gravura de Poty quando toda a família dançou ao redor da árvore.

Naturalmente que eu desejava muito reencontrar este pessoal.

No bar onde casualmente entro, para logo descobrir chamar-se Bar O Evandro, perguntem se consegui...

Monday, January 07, 2013

O Viajante Descobre





O viajante descobre divertido
o viajante tão experiente outrora
mesmo invejado
já não sabe fazer malas
isto virá
do interregno de quatro anos e meio
ou da ausência daquela
que a seu lado já não está?

A bermuda
ainda úmida da piscina com o filho
terá que ficar.
As cuecas amarfanhadas
entre a fiarada de iPod celular Canon.
E as sandálias
as sandálias descascadas que não fazem inveja aos clochards do bairro
vão numa sacola plástica das Sendas
com as elegias de John Donne.

Sunday, January 06, 2013

Liga às Três da Manhã



liga às três da manhã me acorda presto
para contar-me o sonho que tiveste
mente o que lembras reinventa o resto
e aproveita e me conta o que te veste
(a camisola roxa tão curtinha?
ou apenas a camiseta hering
que em teu corpo tranforma-se em prodígio?)
deste meu afã destes meus desejos
digo crias daquilo que me deste
e tu dizes que assim parece o início
quando hesitantes ainda tateávamos
(acho estamos em 1/300
não sei se um dia chegaremos lá
certo que início amor sempre será)

O Sexo na Alemanha Nazista



Meu pai órfão, restou-me apenas uma vó, gaúcha que orgulhava de sê-lo mas que quase não carregava no sotaque, exceto em Rio, que pronunciava /riu/ e frio, que pronunciava /friu/. Estava sempre com frio, daí a sua fala viver ainda em mim.

Minha vó era doce, a mais doce das velhas a mais doce das avós, mas só eu conhecia suas facetas inconfessáveis e impublicáveis. Certa vez encontrei-a no caramanchão do hotel em Mendes, onde se refugiara com livro. Naturalmente pergunto o que está a ler. O Sexo na Alemanha Nazista.

Problema nenhum em se ler isso, também eu tenho aqui a Encyclopedia of the Third Reich, cuja lombada já desagradou ao meu pai, mas convenhamos que não se espera encontrar a mais doce das avós lendo isso num caramanchão na serra.

Minha vó também gostava de beber sangue, naqueles horríveis copos de requeijão. Embora eu só fosse me tornar coloecionador de copos muitos anos depois, algo em mim já dizia que aquela combinação não podia prestar.

Quem sou eu para criticar os comportamentos infantis de Felipa, eu que os tenho em borbotões. Um deles é atribuir a certos momentos da vida uma trilha-sonora. Ainda que a atibuição amiúde seja involuntária, é algo bem Felipa.

A trilha-sonora dos dias finais de minha doce vampira resume-se a La Casa del Lago, do Saint Just, e ao Jérémiades, do Wim Mertens.



PS: Sem a foto que eu queria, sem o vídeo que eu queria. O blogspot prossegue boicotando este blog.

Saturday, January 05, 2013

Epígrafes de "Voo sem Pássaro" - Nicolas


Nem tudo está perdido. Perguntaram-me quem era o Nicolas de uma das epígrafes de Voo sem Pássaro, então ainda há esperança.

Nicolas é Nicolás Guilllén, poeta cubano que se notabilizou por seus poemas de cunho social, às vezes políticos.

Esse Nicolás Guillén respeito, mas não me interessa.

O Nicolas que me interessa é este aqui, de um dos poemas de amor mais bonitos jamais escritos.

E não existe nada mais político que isso.


UN POEMA DE AMOR

No sé. Lo ignoro.
Desconozco todo el tiempo que anduve
sin encontrarla nuevamente.
¿Tal vez un siglo? Acaso.
Acaso un poco menos: noventa y nueve años.
¿O un mes? Pudiera ser. En cualquier forma,
un tiempo enorme, enorme, enorme.

Al fin, como una rosa súbita,
repentina campánula temblando,
la noticia.
Saber de pronto
que iba a verla otra vez, que la tendría
cerca, tangible, real, como en los sueños.
¡Qué explosión contenida!
¡Qué trueno sordo
rodándome en las venas,
estallando allá arriba
bajo mi sangre, en una
nocturna tempestad!
¿Y el hallazgo, en seguida? ¿Y la manera
de saludarnos, de manera
que nadie comprendiera
que ésa es nuestra propia manera?
Un roce apenas, un contacto eléctrico,
un apretón conspirativo, una mirada,
un palpitar del corazón
gritando, aullando con silenciosa voz.
Después
(ya lo sabéis desde los quince años)
ese aletear de las palabras presas,
palabras de ojos bajos,
penitenciales,
entre testigos enemigos.
Todavía
un amor de «lo amo»,
de «usted», de «bien quisiera,
pero es imposible»... De «no podemos,
no, piénselo usted mejor»...
Es un amor así,
es un amor de abismo en primavera,
cortés, cordial, feliz, fatal.
La despedida, luego,
genérica,
en el turbión de los amigos.
Verla partir y amarla como nunca;
seguirla con los ojos,
y ya sin ojos seguir viéndola lejos,
allá lejos, y aun seguirla
más lejos todavía,
hecha de noche,
de mordedura, beso, insomnio,
veneno, éxtasis, convulsión,
suspiro, sangre, muerte...
Hecha
de esa sustancia conocida
con que amasamos una estrella.

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PS: Não sei por que não estou conseguindo fazer upload de fotos para a postagem. Tive que reaproveitar foto já publicada aqui há tempos. Tirada em Goa.


Segue em português. Fico devendo o nome do tradutor. Seu trabalho é bonito, mas ese aletear de las palabras presas é mesmo intraduzível. Por isso utilizei.

UM POEMA DE AMOR

Não sei. Ignoro-o.

Desconheço todo o tempo que andei
sem encontrá-la novamente.
Quem sabe um século? Talvez.
Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.
Ou um mês. Poderia ser. De qualquer forma
um tempo enorme, enorme, enorme.

Ao fim como uma rosa súbita,
repentina campânula tremendo,
a notícia.
Saber de pronto
que ia voltar a vê-lá, que a teria
perto, tangível, real, como nos sonhos.
Que troar surdo
Rodando-me nas veias,
estalando lá em cima
sob meu sangue, em uma
noturna tempestade!
E o achado, em seguida? E a maneira
como ninguém compreenderia
que essa é nossa própria maneira?
Um roçar apenas, um contato elétrico,
um apertão conspiratório, uma olhada,
um palpitar do coração
gritando, ululando com silenciosa voz.
Depois
(já o sabeis desde os quinze anos)
esse ruflar das palavras presas,
palavras de olhos baixos,
penitenciais,
entre testemunhas inimigas,
ainda
um amor de “o amo”
de “você”, de “bem gostaria,
mas é impossível…” De “não podemos,
não, você deve pensar melhor…”
É um amor assim,
é um amor de abismo na primavera,
cortês, cordial, feliz, fatal.
A despedida, logo,
genérica,
no turbilhão dos amigos.
Vê-la partir e amá-la como nunca;
e já sem olhos seguir a vê-la ao longe,
lá longe, e ainda segui-lá
ainda mais longe,
feita de noite,
de mordida, beijo, insônia,
veneno, êxtase, convulsão,
suspiro, sangue, morte…
Feita
dessa substância conhecida
com que amassamos uma estrela.

Thursday, January 03, 2013

Gato num Apartamento Vazio



Ao publicar poema em que faço alusão a um outro de Wisława Szymborska (repita comigo:  Vissuava Chemborska), Giana reclama que não se faz isso a um leitor: falar no poema de raspão e não transcrevê-lo.

Aliás, no poema sequer menciono o nome da poeta (repita comigo: Vislava Zimborska), que aquilo era poesia, não tinha obrigação para com nada a não ser para consigo mesma (lembrando, com Wallace Stevens, que a poesia é o assunto do poema).

Mas tá, Giana, acedo. Que nunca será demais.



GATO NUM APARTAMENTO VAZIO

Morrer –  isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato
num apartamento vazio.
Trepar pelas paredes.
Esfregar-se nos móveis.
Nada aqui parece mudado
e no entanto algo mudou.
Nada parece meido
e no entanto está diferente.
E à noite a lâmpada já não se acende.

Ouvem-se passos na escada
mas não são aqueles.
A mão que põe o peixe no pratinho
também já não é a mesma.

Algo aqui não começa
na hora costumeira.
Algo não acontece
como deve.
Alguém esteve aqui e esteve,
e de repent desapareceu
e teima em não aparecer.

Cada armário foi vasculhado.
As prateleiras percorridas.
Explorações sob o tapete nada mostraram.
Até uma regra foi quebrada
e os papéis remexidos.
Que mais se pode fazer.
Dormir e esperar.
Espera só ele voltar,
espera ele aparecer.
Vai aprender
que isso não se faz a um gato.
Para junto dele
como quem não quer nada
devagarinho,
sobre patas muito ofendidas.
E nada de pular miar no princípio.

(Tradução de Regina Przybycien).


Este post, obviamente, dedico-o à Giana.

Mas serve também para a Irene, que quer conhecer o Oriente da Europa.

E para a menina com quem aprenderei a pronunciar o L diacrítico do alfabeto polonês: Ł, tão bonitinho!







Wednesday, January 02, 2013

Felipa



De todos os muitos comportamentos infantis de Felipa, o que mais me irritava era o de querer forçosamente usar palavras recém-aprendidas. Aqui me lembro de quando fomos a Porto Alegre, nossa primeira viagem grande, e ficamos na casa da minha Tia Glória.

Naquela tarde a Tia se popusera a fazer um bolo com a bela Felipa. Como Felipa insistia em abrir o forno, ela teve que advertir que não fizesse mais isso ou o bolo iria desandar. "Desandar, como assim?" E a tia explicou. Pronto.

Naquela noite, quando estávamos transando, Felipa subitamente parou de cavalgar e disse: "Acho que nossa relação desandou". Puta que pariu. Que ódio. Tudo tão ridiculamente ensaiado na cabecinha dela. Ela achava mesmo que estava num filme de Godard?

Tive que ir para o banheiro. Não conseguiria na frente dela. Tem homem, tem mulher que faz para dar raiva, eu não conseguiria tamanha a raiva.

Raiva dela e da Tia Glória.

Glória começou naquele mesmo janeiro um câncer que iria devorá-la por nove anos.

O nosso começara um pouco antes e sobreviveria à tia.

Ora (direis), sonetos!




Acerca do soneto, Paulo Mendes Campos disse que "quando um está pronto, isto significa que uma série de complexas operações mentais ocorreram, conseguindo o homem, de uma coisa frágil e ilusória como a palavra, um objeto que resiste à inteligência, à cultura e ao tédio do leitor. Essa peça bem acabada se incorpora à vida de algumas pessoas". Conclui o poeta mineiro (injustamente lembrado apenas como ótimo cronista, conforme escrevi aqui): que "a glória de um soneto é ser inesgotável".

O genial Glauco Mattoso escreveu mais sonetos que o romano oitocentista Giuseppe Belli, que compôs apenas 2.279.  Nosso Glauco, tributário de Belli na irreverência, já tem mais de 4 mil. Afirma ele ser o soneto "universal como o alfabeto e perene como os ciclos solares e lunares" E continua com "dou-me ao luxo de pilheriar que o soneto vem a ser a maior invenção do Homem, depois da roda, do alfabeto latino, do algarismo arábico e da própria notação musical.

Escrever o que depois desses dois aí de cima? Bem, quando escrevo qualquer coisa que me pareça razoável (em releituras isso pode mudar, o que é bom e mau), sinto-me como aquele doido do Strinberg ao pintar, ele que foi mais dramaturgo e alquimista que pintor.

Mas quando escrevo um soneto que pareça razoável (isso pode...), bem, aí chego ao ponto de dispensar comida, posto que alimentado.

Uma Tábua de Salvação



Minha mãe abre o livro de poesia sobre a mesa
e me chama
olha que bonito:
Morrer -- isso não se faz a um gato.
Tomo-lhe devagar o livro das mãos
e leio pausadamente o poema inteiro
para ao fim encontrá-la boquiaberta e marejada.

Isso não se faz a uma mãe.

Ao chegar em casa
pede-me ao telefone:
lê de novo aquele poema daquela mulher de nome difícil
e quando chego à janela para tomar ar
tudo são luzes no céu distante de Cracóvia.

Tuesday, January 01, 2013

É um Soneto que me Pedes?



Pois é um soneto que me pede a moça?
Oram vejam só quanta bizarria
soneto escreve-se em dias de alegria
ou em dias nublados pela fossa.

Isto aqui, mocinha, não é juke box
insere ficha e pede dois quartetos
pede o esquema de rimas dos tercetos
como quem pede heavy metal ou bossa.

Mas se estiverem soltas as amarras
se enamorado eu perceber teu nome
chiado nos cicios das cigarras

se eu for tocado pela sede e fome
em ti pensando a esmo pela praia
aí pode ser que alguma coisa saia.

Sunday, December 30, 2012

Nós, Aliás



Ambos dotados de memórias prodigiosas
de causar inveja às velhas aliás
sentamo-nos para inventariar nossos trinta anos.
Se a sessão assume às vezes tons de disputa
será disputa de frescobol sem vencedores
ou vencidos: um pega a bolinha caída
e a devolve com novas lembranças
assim completando o mosaico.

A única.
A única dúvida que não se resolve
da única
da única vez EM QUE NÓS
é: afinal
afinal de onde saímos naquela noite de lua sobre a Igreja de São José?

Digo que foi do Bar Luiz.
Teimas que do Bar Urich.

Saturday, December 29, 2012

OS VELLOS non deben de namorarse



Trouxe Os vellos non deben de namorarse de Santiago de Compostela, para onde eu fora estudar galego, de que me tornei eterno defensor.

À época estudante de Psicologia da UERJ, emprestei-o a uma tal de Adriana, com quem tinha afinidades literárias e musicais. Ela tocava violoncelo e na certa eu quis impressioná-la.

Me dei mal: ela não só nunca devolveu o livro como teve a audácia de vendê-lo. Pelo menos assim, numa interpretação perfunctória, o parece.

Minha querida ex-aluna Letícia, aquela para quem cometi este soneto, comprou-o no sebo da Letras da UFRJ e ora me devolve, em mãos, passados 24 anos, 2 meses e 27 dias. Letícia sequer nascida quando a trapalhada se deu.

Os vellos non deben de namorarse, peça do Alfonso Castelao, grande autor e genial desenhista galego que em galego escreveu e desenhou. Emprestei-a jovem e recebo-a velho.

Quero dizer, vello é o cacete, que o que mais faço é enamorar-me. Os xóvenes é que non deben prestar os libros.

Friday, December 28, 2012

O Coro dos Anjos. E a Minha Vó.



Eu tinha grandes dificuldades de levar minha vó à ópera. Em verdade, nunca consegui. As poucas vezes em que fomos juntos (uma Aida, um Rigoletto) não foi porque eu a tivesse convidado, eu é quem estava sendo levado. Porque a partir do momento em que decidi tomar a iniciativa e a convidava, a réplica era sempre a mesma: "Ah, não, é muito triste!...". Ao que não adiantava eu insistir: "Mas é bonito, vó!".

Sempre me lembro, e às vezes conto, dessa história quando trabalho algum texto ou alguma canção que seja, digamos, "triste". Há sempre quem torça o nariz, e muito. Como se não houvesse beleza na "tristeza". E como se literatura, arte, tivesse que ser disneylândia ou paulo coelho. Uso aspas em "triste" e "tristeza" porque nem vejo tristeza aí. Triste é música medíocre, é texto idiota.

Exemplo clássico é "Paul's Case", da Willa Cather. Todo o conto, mas sobretudo a cena final do suicídio. E tantas vezes parecia que eu era o único na sala a cada vez achar aquilo lindo, a cada vez me emocionar. Muitos alunos torciam narizes e bocas e eu só não ficava zangado porque me lembrava da minha vó.

Que estava longe, não será difícil imaginar, de ser grande conhecedora de ópera ou música em geral. Mas ela me falava de uma ópera pouco conhecida entre nós, o Mefistofele, do Boito, e seus olhinhos se enchiam d'água quando dizia Ah, o Coro dos Anjos!....

Vim a conhecer enfim esses anjos em 1993. Toquei para ela, que, claro, se desmanchou.

Há, de fato, dois coros dos anjos no prólogo (que, logicamente, se passa no céu). O primeiro é apenas a Falangi Celesti ("apenas"), enquanto no segundo temos a Falangi, os Penitenti e os Cherubini. Imaginem ensaiar tudo isso.

Achar no youtube não é muito fácil, pois o que geralmente aparece é a "Ave Signor" do Mefistofele, ele mesmo, o anjo caído, a debochar do que os anjos tinham cantado.

O que ora posto é a versão que tenho.

Música, er, celestial. Daquelas de se  enfiar numa sonda e mandar para o espaço ou enterrar numa cápsula para que resista aos apocalipses.



PS: O menino da foto não é o Dante. Não deu tempo.

Thursday, December 27, 2012

A Flauta na Cena Progressiva Italiana



Em almoço recente com o Eric Licen no Evandro's, o melhor pastel de lagosta do Cachambi, este (o Eric, não o Evandro's nem o Cachambi) me reclama que eu quase não escrevo mais de música por aqui, só poesia, poesia, poesia.

Ora, como o Eric é meu paulista dileto e como ele veio de Sampa prestigiar o lançamento dos meus livros, direi que as estatísticas estão erradas, ele tem razão e daí este post aqui.

O rock progressivo italiano dos anos 70, sabemos bem, é pródigo em flautas memoráveis. Se dos três grandes, só o Premiata com Mauro Pagani, no resto da enorme cena pense num Jumbo, num Delirium, num Celeste, nun Biglietto e molti, molti altre.

Mas como sou um apaixonado de nariz empinado, nesta mini-antologia cito três temas lindos bastante obscuros para a flauta do prog italiano.

São eles:

1) La Casa del Vento - Le Mani
2) Il Vento ha Cantato - Franchi Giorgetti Talalamo, disco de que tratei aqui.
3) Serenesse - de Alan Sorrenti, de quem já escrevi aqui também. Neste último a flauta é... David Jackson (VdGG)...

Tem algum flautista por aí? Poderia me dar de presente isto assim ao vivo, hein?

Lembrando que meu niver é amanhã.



Saturday, December 22, 2012

A Primavera se foi, não sem pena


Não sem pena vejo que a primavera se foi.

Tá, sei que aqui no hemisfério sul não temos isso assim tão definido, Vivaldi não teria feito o que fez tivesse ele vivido no Rio de Janeiro.

Mas por outro lado temos cigarras e parece que gritam mais forte e precoces.

Queria que essa primavera, que me trouxe tantas coisas boas, durasse mais. Retê-la nos dentes.

Mas o verão chegou nesta canção com o Dante e nada posso senão amar.

Seguem então duas músicas: "Primavera nos Dentes" (toda ela em decassílabos) e "Dante", do Tir na Nog, que fala da chegada do verão.

A tradução é da Pampi.


 


 
 
O verão veio de algum lugar
Ele estava em todo o país
A terra era boa e quente na mão
O pastorinho teve uma visão linda, linda
Em noites estreladas os carneirinhos gordinhos saltitavam

Porque o verão veio de algum lugar
Agora já fez seu caminho
Dante ama o sol de verão.

Árvores e montanhas, Um espetáculo lindo, lindo
Dante volta para casa novamente com as bochechas rosadas durante a canção da tarde
ele não vai deixar os carneirinhos sozinhos

Porque o verão veio de algum lugar
Agora já fez o seu caminho
Dante ama o sol de verão.

Wednesday, December 19, 2012

Voo sem Pássaro e Caderno de Sonetos (ou Bartleby, Goodbye)



Óbvia e merecidamente a personagem mais conhecida de Herman Melville é Moby Dick, seguida talvez pelo seu algoz Capitão Ahab. Mas não nos esqueçamos de Bartebly, aquele escrivão em um escritório de Wall Street que, ao monocordicamente repetir "I'd prefer not to", desestrutura seu chefe e todo o trabalho do escritório. E todos nós leitores.

Bartleby é a peça da engrenagem que se recusa a sê-lo. Bartleby é a desobediência civil de Thoreau e a ahimsa de Gandhi. Bartleby é a revolução silenciosa, é o espelho, a chance do espelho, à nossa frente.

O escritor catalão Enrique Vila-Matas viu na recusa do escrivão uma "pulsão negativa ou a atração pelo nada" e, por antonomásia, diagnosticou uma "Síndrome de Bartebly". Seriam bartlebies aqueles escritores que não escrevem ou, mais bartlebysianamente, escrevem um ou ou dois livros para depois renunciar à escrita.

J.D. Salinger será porventura o caso mais conhecido. Entre nós, citaria Raduan Nassar.

Também eu fui um bartleby e dizia isso aos meus alunos já lá para o fim da interpretação do texto. Tendo publicado Taipa em 1994, os anos passavam e o pequeno volume da Editora Mundo Manual continuava filho único. Não havia glória aqui, mas tampouco demérito. Menos ainda comparava-me a Salinger e Nassar. Leitor voraz, não sou sem noção para essas coisas.

Mas...Bartleby, meu irmão, ainda te chamo assim, I will love you forever, mas saí do clube, tá? Eis que 18 anos depois Taipa ganha dois irmãos. Gêmeos. Voo Sem Pássaro e Caderno de Sonetos sairão pela Editora Laphroaig e virão a público amanhã na Livraria Al-Farabi.


Sunday, December 16, 2012

Jehan Alain: Litanies ou Plágio do Renaissance?



Seria no mínimo de mau gosto levantar qualquer suspeita contra o Renaissance, não transcorrido nem um mês do passamento do Michael Dunford.

Não se trata disso. Este é um post antigo, estava nos rascunhos há pouco mais de ano e como vivi circunstância que me fez revisitá-lo, resolvo terminá-lo e publicá-lo.

Janeiro de 2005. Estava eu em um recital de órgão na fabulosa catedral de Strassbourg (sim, aquela que muda de cor e, sim!, aquela imortalizada pela linda música do Focus, com direito a repicar de sinos) quando... de repente... lá para o meio da aprersentação, epa, espera, eu conheço isso! CONHEÇO ISSO, MON DIEU, DE ONDE? Sabe aquela sensação absolutamente torturante de que se tenta lembra que música é e não se consegue? O programa, todo clássico, me informava: "Litanies", de Jehan Alain. Ora, mas nunca tinha ouvido falar nesse sujeito. A música continua, gloriosa, e eu descabelando-me a alma, a vendida e a por vender quando: HA! ISSO É RENAISSANCE!!!!

Dias depois, back in Paris, encontro um CD duplo com a integral para órgão do Jehan Alain. Em casa, a prova dos 9. Pego os Cds do Renaissance, leio encartes de cima abaixo, reviro capas e nada, nem uma referenciazinha....

E aí, plágio? Citação? Intertextualidade? Diálogo? Apropriação?

Não dá para fazer isso com Bach, Brahms, Beethoven, são conhecidos demais, mas um obscuro compositor francês morto na flor da idade na Segunda Guerra...

Tampouco dá para dizer que "não tem nada a ver". Ou, pior, que foi coincidência.







Quem acordar primeiro chama o outro




QUEM ACORDAR PRIMEIRO CHAMA O OUTRO

Quem acordar primeiro chama o outro
eterna senha dos meninos quando
se dormiam pelas casas dos amigos
tão grande a ânsia de nada perder
do dia que infinito se abriria.

Quem acordar primeiro beija o outro
fazemos nosso trato ao sucumbir
exauridos deste primeiro round
(eterna sanha de nós dois meninos)
para que logo o enlace reinicie
exatamente ali onde paramos
o voo deslumbrado em precipício

tão grande a ânsia de nada perder
desta noite infinita que nos veste.

Saturday, December 15, 2012

As Cartas Eróticas de James Joyce



Há exatos 112 anos James Joyce escrevia mais uma de suas cartas eróticas para Nora. Dizer erótico é eufêmico, suas cartas são desabridamente pornográficas, oh docemente pornográficas.

Reparem que a carta faz referências a cartas passadas, estas sim!, ainda mais "sujas".

Não há sujeira aqui, apenas traduzi um termo do inglês.

Não há sujeira aqui, mas Jim bem teve que lavar as mãos ao fim da escrita.

E não peçam que traduza nada, que ando em fase muito pudica.


To NORA


Dublin 15 December 1909

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No letter! Now I am sure my girlie is offended at my filthy words. Are you offended, dear, as what I said about your drawers? That is all nonsense, darling. I know they are spotless as your hearth. I know I could lick them all over, frills, legs and bottom. Only I love in my dirty way to think that in a certain part they are soiled. It is all nonsense, too, dear, about buggering you. It is only the dirty sound of the word I like, the idea of a shy beautiful young girl like Nora pulling up her clothes behind and revealing her sweet white girlish drawers in order to excite the dirty fellow she is so fond of; and then letting him stick his dirty red lumpy pole in through the split of her drawers and up up up in the darling little hole between her plump fresh buttocks.

Darling, I came off just now in my trousers so that I am utterly played out. I cannot go to the G.P.O. though I have three letters to post.

To bed - to bed!

Goodnight, Nora mia!

JIM

Wednesday, December 12, 2012

While My Sitar Gently Weeps pt. 2



Agora para realmente chorar a água de uns três cocos....

O álbum Chants of India é de 1997 e foi produzido pelo George.

O vídeo de "Prabhujee" começa com foto clichê da Índia, mas depois tem uma monte de foto linda do George. E a música me faz pensar o que ainda faço neste calor do Rio de 12 do 12 de 2012.

Em Goa faz calor também. Mas lá tem monção.

Vamos viver de monção, Anarina.


While My Sitar Gently Weeps



Ontem Ravi Shankar partiu, aos 92 anos. Foi se encontrar com George e ouvir histórias diretamente da boca infinita de Ganesha.

Para os que ficamos, seu legado é imenso. A visão que um músico indiano clássico teve ao aproximar-se dos Beatles, ao dar aulas de cítara ao George. A visão que teve para logo depois viajar para o Ocidente onde faria dueto com o violinista Yehudi Menuhin e, mais tarde, compor concerto para a London Symphony.

E ele estava apenas começando.

Arrisco dizer que este é um dos legados de todo aquele movimento mágico da segunda metade dos anos 60. O lado que deu certo.

Dois vídeos absolutamente geniais: o mestre em Woodstock e uma lição de cítara para o George.




Apelidos Inventamos




APELIDOS  INVENTAMOS


Para nós inventamos apelidos
ao achar pouco o que nos deu a vida.
Tu crias sempre mais e sempre ávida
teces anagramas, diminutivos

e do apelido jorram apelidos.
Temos mil nomes e mil nomes somos
(É pouco ainda, apenas começamos)
como se fossem infindas mitoses

vida em primavera brotando ramos.
Mas para que eu ria, para que tu gozes
seja tudo segredo de oráculo

interdito a este mundo de espetáculos.
Deles falo, a ele louvo mas, perverso,
não os revelo no final de um verso.

Sunday, December 09, 2012

Viagem, de Cecília



Não tenho nenhuma edição autógrafa da Cecília, mas esta primeira edição do seu primeiro livro (Editoral Império, uma editora portuguesa, de 1939) é um tesouro. Seu lindo ex-libris ("Como uma cegonha que sonha, que sonha e sonha"), a precisa dedicatória: "A meus amigos portuguêses", que me inspirou "Aos meus amigos goeses" da minha tese.

Cecília diz a que veio. Neste Viagem figuram três de seus poemas fundamentais: "Motivo", "Estirpe" e "Destino",

O primeiro é, creio, o seu mais conhecido. Merecidamente. Cecília pura: simples e exato, asa de borboleta e força.

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

O segundo, em versos livres, trata do alheamento do eu-lírico, um dos seus motivos mais caros.

Os mendigos maiores não dizem mais, nem fazem nada.
Sabem que é inútil e exaustivo. Deixam-se estar. Deixam-se estar.
Deixam-se estar ao sol e à chuva, com o mesmo ar de completa coragem,
longe do corpo que fica em qualquer lugar.
(...)
Ah! os mendigos maiores são um povo que se vai convertendo em pedra.
Esse povo é que é o meu.

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Nunca me foi difícil enxergar nessa tribo apátrida os próprios poetas.

"Destino" lança mão de um metro pouquissimamente empregue entre nós: onze sílabas (hendecassílabos ou de arte maior).  Só me lembro do Fagundes Varela fazendo isso. Onze sílabas, com o acento caindo na 2a, 5a, 8a e, claro, 11a.

O efeito é espetacular.

Como em "Motivo", também aqui a quebra de metro: depois dos versos tão longos, o dissílabo "Eu, não".

O efeito é espetacular.

Pastora de nuvens, fui posta a serviço
por uma campina tão desamparada
que não principia nem também termina,
e onde nunca é noite e nunca madrugada.

(Pastores da terra, vós tendes sossego,
que olhais para o sol e encontrais direção.
Sabeis quando é tarde, sabeis quando é cedo.
Eu, não.)

(...)

Pastora de nuvens, com a face deserta,
sigo atrás de formas com feitios falsos,
queimando vigílias na planície eterna
que gira debaixo dos meus pés descalços.

(Pastores da terra, tereis um salário,
e andará por bailes vosso coração.
Dormireis um dia como pedras suaves.
Eu, não.)

Friday, December 07, 2012

Soundgarden e o Elefante

 
 
É de todo lamentável que uma das mais absurdas canções do Soundgarden tenha sido interpretada como um bilhete (de) suicida. Eu, que defendo todas as interpretações. Acho isso.

"The Day I Tried to Live" é o próprio Elefante do Dummond, um dos poemas mais belos jamais escritos.

O elefante termina destroçado e (não usarei 'mas') conclui: "Amanhã recomeço".

O I da canção de Chris é impiedoso ao lembrar que " The day I tried to live \ I wallowed in the blood and mud with \ All the other pigs", mas o refrão, afinal, é: "One time around \ Might do it."

Joga no google translator: One time around might do it = Amanhã recomeço.


O post não ficou grande coisa.

Amanhã recomeço.

THE DAY I TRIED TO LIVE

I woke the same as any other day
Except a voice was in my head
It said seize the day, pull the trigger, drop the blade
And watch the rolling heads

The day I tried to live
I stole a thousand beggar's change
And gave it to the rich
The day I tried to win
I dangled from the power lines
And let the martyrs stretch
Singing

One more time around
Might do it
One more time around
Might make it
One more time around
Might do it
One more time around
The day I tried to live

Words you say never seem
To live up to the ones
Inside your head
The lives we make
Never seem to ever get us anywhere
But dead

The day I tried to live
I wallowed in the blood and mud with
All the other pigs

I woke the same as any other day you know
I should have stayed in bed

The day I tried to live
I wallowed in the blood and mud with
All the other pigs

And I learned that I was a liar
Just like you

Trecho final do Drummond:

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.

Thursday, December 06, 2012

O Amor na Ópera-Rock



De maneira que não será possível qualquer estudo sério sobre as óperas-rock sem levar em conta a temática do amor de tal modo este sentimento esquisito surge em canções tão maravilhosas.

Na segunda ópera-rock do The Who, Quadrophenia (1973), muito melhor que a primeira e mais badalada Tommy, "Love reigns o'er me" fecha toda a história e, God, que fechamento. Ela vem mesmo depois de mais um interlúdio instrumental, "The Rock", que faz às vezes de conclusão clássica ao recapitular trechos do álbum, os quatro trechos que representavam as quatro facetas da persoanlidade de Jimmy e, de certo modo, os quatro membros do The Who. Ou seja, os acordes iniciais da música vêm depois do fim.

Épica, grandiosa, transbordante, "Love reigns o'ever me" mostra-nos um Jimmy já completamente frustrado e derrotado. Restou-lhe a chuva. E o sentimento esquisito, ouso afirmar. A ambiguidade da homofonia aqui é tão óbvia quanto verdadeira e bela: love reigns, love rains. love, reign!, love, rain!.



Foi preciso que 21 anos se passassem para que outra obra-prima tematizasse o sentimento esquisito, e agora falamos do Brave, do Marillion. Pobre Marillion, too mainstream to be progressive, too progressive to be mainstream. Água. Marillion é o que é, nasceu influência cuspida e logo estava cuspindo influência para todo lado. Brave é repleto de musicão, daquelas de encher estádio e, portanto, fazer torcer o nariz de tanto proghead.

Canção definitiva sobre o esquisito sentimento ("It makes you desperate and it makes you dream / It makes you dangerous and it makes you scream / But it's all worthwhile / Just lie back and smile"), "Hard as Love" surge quando a jovem encontrada pela polícia à beira de pular da ponte discorre sobre suas experiências amorosas fracassadas, seja com namorados seja na família. Não fica claro se ela se dirige aos policias (como claramente antes, em "Standing in the Swing": "I appreciate your concern / But don't waste your time on me").



E vieram mais oito anos para que a nova onda de prog, já gloriosa e defininivamente instalada, e ainda em plena pulsação, produzisse Snow do Spock's Beard. Aqui, mais uma vez: o êxtase, bliss, celebração. Walt Whitman lido de cima de uma mesa.  Snow, que podia ver o interior das pessoas, apaixona-se perdidamente por mulher que o despreza. E, claro, isso ele não pode ver. "Open wide the flood gates / And let love take your soul / Open wide the flood gates / 'Til there's so much you overflow". O amor rebenta as fronteiras e os diques e as represas. To hear with ears wide open. To feel with skin wide open.






(Só está aqui a parte 1. Fico devendo a segunda. A passagem de uma à outra é soberba)

Wednesday, December 05, 2012

Sangremos Juntos, com Soundgarden



Nirvana, Alice in Chains e Mudhoney me perdoem. Mesmo Pearl Jam, do belo e carismático Eddie Vedder, me desculpe, porque minha banda favorita daquela cena grunge de Seattle foi e sempre será o Soundgarden.

O grupo de Chris Cornell lançou álbuns seminais na primeira metade dos 90 até culminar com a obra-prima Superunknown. Depois, como poucos, souberam a hora de parar.

Tanta música para destacar, mas fico exatamente com a última de uma coletânea (eu, que as repudio), que jamais saíra em disco.

O extremo senso de urgência que a tinge somado à pungência das letras faz dela uma obra-prima do grunge existencial. E essencial. E Chris pode gritar do alto de seus pulmões, mas sempre melodicamente.

Funny thing: ouvi muito esta música em algumas fossas lá pelos idos de 2000. Hoje a reouvi, várias vezes já, e foi como esbarrar com velho amigo na rua e naturalmente retomar a conversa onde a havíamos deixado.



I know you're half awake

And no hate and I know how to do it
Hold the door and let it out
Don't get it right or wrong
No I don't get it

I know you're half afraid
Half amazed, all insane
I know it's all a cage
And all the rage
And all together gone

You and me we're average
With simple minds and lungs, eyes and skin
You and me we're hopeless
We're nowhere hearts so tear it out
And open it

I'm giving blood tonight
I don't care how, don't care why
I'm giving blood tonight
I'm feeling just like I could give it all


[Chorus]
I know you're sick and alone
Mothers and suckers alike
We can bleed together

Show me and hand me down
And hang me up alone and cold and bury me
Show me and throw me out
And hold me down, air me out
And wear me

I know you're half afraid
Half amazed, all insane
I know it's all a cage
And all the rage
And all together gone

So altogether cold
Too altogether numb

I know you're sick and alone
I know you're sick and alone

Come away and come with me
And come around and come and see
And cover up and come along
Before race before the calm
And he walks out and fires the gun
Happy with the things he won
The head of God on the wall
Ahead of us the heads of us

Sunday, December 02, 2012

Amor é Privilégio


 

AMOR É PRIVILÉGIO

Amor é privilégio de maduros
Carlos

Para a menina.


Amor é privilégio de quem ama
e com amor constrói secreta ciência.
Amor é privilégio dos devassos
amor é privilégio da inocência.

Amor é privilégio dos insones
que cismam cuidados pela noite adentro.
Amor é o nome da palavra fome
e é a sede que não se dessedenta.

Insone e boêmio, amor começa cedo
na madrugada dos corpos que se atam
e segredam segredos que se calam.

Pelas ânsias e gozos, pelos medos,
pelos incêndios, ternuras, desatinos
amor é privilégio de meninos.