Thursday, March 14, 2013

Nape



i learn a word with you
nape
i learn nape with
you i
learn a nape word
toda feita de cintilâncias
madrugadas i
learn i forget i
learn again
just to forget so
you can teach us a
gain
what
does it mean i
*sigh i
kiss again and again again
your naked nape
dressed only with the tiniest species of hair
i kiss the word it
kisses me back

Wednesday, March 13, 2013

Michael Nyman faz 69 ::: Os Sonetos Luxuriosos



Neste mês em que Michael Nyman fará 69 anos parece-me de todo apropriado lembrar de suas 8 Lust Songs: I Sonetti Lussuriosi (2008), as oito canções inspiradas em sonetos de Pietro Aretino, o espantoso poeta libertino italiano do século XVI.

Disse canções "inspiradas"? Ora, é bem mais que isso, posto que Michael musicou os sonetos, para a interpretação da Michael Nyman Band e da soprano Marie Angels, com quem já havia trabalhado na linda trilha de Prospero's Books.

A interpretação de Angels é soberba. A música do Mike, que atualmene reafirma o seu grande interesse por ópera e música vocal em geral, é beautiful as usual.

E aqui o problema. Mike, um romanticão que faz pedra chorar, escreveu música lírica quando, parece-me, o tom geral deveria ser satírico.

A um ouvinte não familiarizado com os textos de Aretino (no original ou, aqui em entre nós, nas ótimas traduções do José Paulo Paes), dificilmente ocorrerá que se está a cantar coisas assim (e digo-o, acho, sem qualquer pudicícia):

Fodamos, meu amor, fodamos presto,
Pois foi para foder que se nasceu,
E se amas o caralho, a cona amo eu;
Sem isto, fora o mundo bem molesto.

Tradução do Zé Paulo Paes para:

Fottiamci, vita mia, fottiamci presto,
Poi che per fotter tutti nati siamo,
E se il cazzo ami tu, la potta io bramo,
Chè il mondo saria nullo senza questo.


Este paroxismo atinge o ápice na última peça da seleta de Mike: mesmo que aqui Angels consiga um efeito sarcástico espetacular na voz que diz "Já no leito! / Vejo-te, puta; fica preparada / Que hei de romper-te as costelas do peito." (no vídeo, em 3:23), o tom geral é do típico lirismo nymaniano que me leva às lágrimas.

Ou a putaria não deveria nos levar às lágrimas?




Prestigie compositores e músicos que não são aerófagos. O CD pode ser comprado aqui.

Tuesday, March 12, 2013

O menino insone




o menino insone


O menino insone não desafia apenas o pai em sua longa jornada noite adentro
o menino insone desafia ciências naturezas simpatias
antipatias
desafia mitos vigabatrina nitrazepam
broncas súplicas os pavios
que ardem à noite na forma de olhos cansados.

Em algum momento da serenata
o pai perguntará pelas horas de sono não gastas
o que será delas :::
ficam como crédito rendem juros (o que
explicaria o sono dos adolescentes) ou
se fazem pó como sacos de notas velhas
de um dinheiro cheio de zeros corroído pela inflação?

:: 3:17
ambos sentados no chão ::

Monday, March 11, 2013

Na ponta dos pés



Até onde sei minha fobia
não foi ainda catalogada
nada de panfobia fobofobia cinofobia
ou as banais claustrofobia agorafobia
minha fobia consiste em querer em precisar
ler alguma coisa e não ter nada para ler
bula de remédio que seja
isso já rendeu boas histórias
que não relato aqui que o poema está ficando
prosaico demais

assim que nesta manhã
na barca
estou preparado com mark strand juan gelman
alvaro mutis
e O Terminal
(fobia é fobia me deixem em paz)
a janela emoldura o azul lavado de um céu iridescente
depois das chuvas da noite
flocos de nuvens timidamente se reúnem
e tudo que faço
durante o percurso
é lembrar
da moça nua andando na ponta dos pés.

Na ponta dos pés.

E isso em minha casa.

Sunday, March 10, 2013

Little Rituals



a dim shimmering light from across the street
echoes here on my wall

this is funny

it's 11 o'clock
i know you by this time
go over your little rituals of sleep
you undo the makeup
you remove the lenses
you put on your tiny purple gown
you so many streets away

and this echoes here

there must be a name :: god

Wednesday, March 06, 2013

Poemas Escritos na Ponte III - Um Desastre de Pássaros



Mandinga para sonhar com pássaros
e ser quem sabe
por eles despertado em meio à noite
lacro os olhos com imagens do sabiá
os ouvidos com o canto da choca
durmo ao som dos assobios do Andrew Bird
e me agarro aos fiapos do que lembro de você
aperto olhos e mãos de tal modo
logo um desastre de pássaros doidos
daqueles que sobem às costas e pedem cavalinho na cama onde há pouco se amou
logo essa legião de penados compenetrados
se deixa rolar nas águas da noite
e escorre silenciosa na superfíce do sonho





Tuesday, March 05, 2013

E continuas molhada de estrelas



e continuas molhada de estrelas
mesmo depois de tantas tantas vezes
na verdade assim pois de tantas vezes
tuas mãos nuas desgarradas reses
são garras de água a molhar a noite
:: de pé contra a parede és um l
a consoante líquida em meu léxico
líquida líquida em minha pele
consoante os desejos do teu sexo
fundeei-me bateau ivre em teu delta
que sabe ser áspero doce estreito
delírio de anêmonas luzes guelras
uma voz que sussurra rarefeita
quando a noite se escorre liquefeita

prerrogativas



Quando o avô surpreendeu
o filho violentando a neta
pensou:
ah eu não perco essa boquinha
ou algo do tipo ora
tenho as minhas prerrogativas
mas não assim que é homem muito simples
e eu não sou narrador omnisciente
mas daí passou o avô a violentar a neta
também

ninguém aguenta

na terça-feira ela toma veneno de rato

pai e avô no enterro luto fechado
(sentirão falta)
recebem condolências

Monday, March 04, 2013

Helplessness


Precisamos falar sobre Kevin


Precisamos falar sobre Kevin

Frustração, exaustão, sobretudo desamparo e impotência traduzem bem. Em inglês, helplessness.




Precisamos falar sobre Kevin

Sunday, March 03, 2013

escutar michael nyman no escuro




escutar michael nyman no escuro

love reign o'er me
pete


escutar michael nyman no escuro
no vértice da longa noite clara
sob este céu de estrelas e de nuvens
junto do meu o corpo teu deitado
pensar três modos de escrever a chuva
todos os três passando pelos dois
olhos teus :: esse mistério que a vida
me emprestou :: o fulgor e o relâmpago
e a clareira germinando à noite
o que germina nasce nessas tablas
e no tamborilar dos nossos dedos
e se a aurora de olhos róseos chega
let's press << voltemos pro começo
chuva e reinações deste amor travesso



Saturday, March 02, 2013

"Water Dances" :: Michael Nyman




"Water Dances" é uma peça antiga de Michael Nyman, beirando os 30 anos de existência. Foi composta originalmente para um filme de Peter Greenaway, na verdade um pequeno documentário, sobre nado sincronizado. No documentário, no entanto, a música aparece muito mutilada e sequer é tocada até o fim. Para Mike, que acreditava e acredita que uma trilha-sonora não é mero apêndice de imagens, coisas assim aborreciam muito e acabaram pondo fim, amargamente, à sua parceira com Greenaway.

Agora os problemas para os nymaníacos: a trilha-sonora jamais foi lançada (e se fosse não ajudaria muito, por motivos já citados). Três movimentos -- "Stroking", "Gliding" e "Synchronizing" -- aparecem no álbum The Kiss and Other Movements, de 1985. No Live (1994) temos dois movimentos, "Dipping" e Stroking", sendo este último tocado em uma amplificação absurda.

É apenas num outro CD, Michael Nyman: Music for Two Pianos (que comprei em York, conforme post muito antigo aqui), do The Zoo Duet, que temos os 5 primeiros movimentos da peça. Mas aqui já se trata de uma leitura (ótima) da obra e não a própria como concebida, digo-o sem preciosismos.
 
O problema é que "Water Dances" consiste em oito movimentos, ou seja, há material aqui que, até onde sei, jamais foi lançado. O que é de todo lamentável. Inda mais se atentarmos para a beleza da música. E para o fato de "Synchronizing" ser uma das músicas MAIS ENTUSIASMANTES DE TODA A HISTÓRIA DE NOSSA VIL HUMANIDADE.

 Evitemos a caixa alta, quase sempre desnecessária.  

Entusiasmo = en theos.
 
 

Friday, March 01, 2013

Leite e Mel - Rock Progressivo Italiano



Bem, ao menos não preciso forçar pra ser do contra, já o sou naturalmente. Porque para falar deste trio genovês, o Latte Miele, mais uma vez terei que dizer que o disco que mais me agrada é o que menos agrada à galera em geral. Fiquem eles com o Passio Secundum Mattheum (72) e o Papillon (73), cheios de influência do ELP, o que levo pra ilha deserta (quando, Dio mio?!) é o de.... 76!!!: o Aquile e Scoiattoli.

A "influência" maior aqui é Pink Floyd. The Wall, inclusive. Êpa, mas The Wall nem existia, então what the f...?

Talvez Auerbach, com seu conceito de "figura" explique.

A faixa clássica, a "Opera 21", bem beethoviniana é, de fato, patética. A faixa longa é boa, poderia ser Mutantes (1974). Bastam as três primeiras pra fazer disso aqui uma obra-prima, leite e mel, aos golinhos em colherinha de prata.


Thursday, February 28, 2013

Tantas vezes cachorro





O cachorro velho e cego
conhece os intestinos da casa a ponto do
desembaraço em sua perene escuridão
uma cadeira esquecida fora do lugar entanto
e a topada a dor surda o atordôo

eu tantas vezes cachorro tantas vezes cego
movimentos mecânicos de sobrevivência nas rotinas
a cadeira fora do lugar inesperada foi você
a topada o atordôo
seu outro nome é amor

À noite tranca a gata no elevador



O número 29 da Poesia Sempre, de 2008, apresenta uma antologia de poetas sérvios, mais de 40. As questões complicadíssimas da Sérvia, incluindo e principalmente o embate com a Croácia, soem interessar-me imenso e não com pouca sede, portanto, atirei-me aos poemas.

Coisas interessantes aqui e ali, mas nada tão apaixonante.

Tirante, claro, a Ielêna Lengold, que paga todo o volume.


PASSION
Ielêna Lengold

Ele confessou-me que à noite tranca a gata no elevador.
Os urros dela, deseperados, coléricos,
as pancadas nas paredes e, acima de tudo, o selvagem miado
lembram-no de mim, afirma.
A noite toda a calma mulherzinha loira dorme ao lado dele.
Ele ouve: a gata no elevador, enlouquecida,
bate a cabeça no vidro
e com as garras rasga a própria pele o animal selvagem
e a floresta guincha ao longo da espinha eriçada,
a cabeça contra a parede, os miúdos ossos das patas direto na parede!
E justo quando a gata solta o terrível último grito
ele estremece no escuro, em segredo, debaixo do cobertor.
De madrugada, antes de todos, o meu amado arrasta-me pela cauda morta
e atira-me ao monte de lixo.

Vai uma abóbora na sua cerveja?



Nova Friburgo poderá ser o símbolo deste boom cervejeiro que o Brasil vive hoje, tendo não apenas a sua cerveja própria, artesanal, mas a bagatela de quatro: a Bräun & Bräun (produzida pela Mistura Clássica), em Mury, a Barão Bier, na sede do município, a Ranz, em Lumiar, e a Rock Valley, em algum lugar do vale e serras.

Quando estive em Mury, tive a oportunidade de tomar várias Pumpkin Ales, da Rock Valley. Eu já a provara por aqui, mas tomá-la in loco, no clima, com um pastel ou croquete de truta fica ligeiramente mais interessante.

O nome Rock Valley faz referência a um dos sócios da cervejaria, o Daniel do Valle Rocha (a-há!). Faz referência também ao roquenrol, já que Daniel e Valney Oliveira, o outro sócio, acreditam que o rock ajuda na fermentação e maturação da cerveja. Se são doidos, estão em boa companhia :: Teo Musso, o mago do Piemonte, também toca música para seus levedos, conforme escrevi aqui.

Foi a primeira cerveja com abóbora que tomei :: provei e aprovei. O estilo, no entanto, não é invenção tupiniquim. A edição mais recente da The Beer Connoisseur traz resenhas de diversas pumpkin ales, como a Elysian Brewing (de Washington), a Cigar City Brewing (Florida), a Schlafly Beer (Missouri), a Pumking (de New York), dentre outras.





PS: Na sempre simpática e surpreendente Al-Fárabi encontro dias depois uma caixa de "Post Road", uma pumpkin ale, em que se lê:

"In the 18th Century colonial Americans brewed wonderful and interesting ales by using local ingredients. Barley was the principal ingredient but pumpkins were also used. Pumpkins were favored by brewers for their rich spicy flavors, which melded perfectly with the malted barley. Post Road brings you a delicious rendition of this traditional American classic."

A coisa lá é antiga, então!







agora que o outono suave falls



agora que o outono suave falls
repara aqui e ali os tons de roxo
das quaresmeiras que invadem o campus
agora que te encontras em meio a elas
bem mais que acolhida mimetizada
peço-te apenas que me escolhas uma
não precisa ser a maior a mais
frondosa uma que a ti te escolha ::
amor :: em segredo chama-a nossa
a nossa chama nossa madrinha
mesmo passada a Páscoa (nós renascidos)
e ela perder todo o roxo :: nossa
para nós sempre cúmplice do sonho
do sonho que perpassa as estações

Wednesday, February 27, 2013

outside

São Cristóvão 2012


é este o mais recente pesadelo
em pé diante da porta a chave em mãos
entra sem esforço como filhote
aconchegado ao calor materno
como o sexo dos bichos experientes
como o corpo na camisa velha caseira
dizia ::: a chave entra facilmente
ponho-me a girá-la uma duas três
quatro cinco seis sete oito nove
a chave gira infinitamente
com as cópias a história se repete
ouço vozes lá dentro risos
tenho enfim porta chave fechadura
imóvel à porta a girar a chave

Uma Canção para o Outono - Harmonium




Janeiro não foi tão cruel, fevereiro foi de lascar. Voltar de Mury e sentir o calor pegajoso e entorpecente foi um direto na cara.

Sobrevive-se e é possível que o outono chegue. Oficialmente faltam umas três semanas. Mas ontem choveu um bocado e o ar hoje já era tão mais fresco que dá para ver mesmo que, ao levantar as grossas cortinas do verão, ele já se faz sentir.

Pergunte a dez fãs do Harmonium a música preferida do Si On Avait Besoin D'Une Cinquième Saison (1975) e os dez responderão "Histoires Sans Paroles", o encerramento épico e majestoso da obra-prima. É a tal da quinta estação, é a terceira margem, para as quais não haverá muitas palavras ::: sans paroles.

Eu concordo. Aliás, tenho um amor tão grande por essa música que só de escrever agora fico arrepiado ao lembrar do ritual que tinha: por anos a primeira música que eu ouvia ao retornar das viagens.

Mas minha música preferida é a do outono: "Depuis L'Automne".

Perdoem a pieguice, mas não tenho palavras. As words fail me, deixem-me usar algumas de minha amiga Cordelia: "I cannot heave / my heart into my mouth". Ou apenas: "Love, and be silent".

Mas, tá, digo apenas que a música extraordinária, um paraíso para quem ama mellotron, começa a chover em 8:25. Com Dante: "Piovve dentro all'alta fantasia". E aí o Serge Fiore canta rindo.




também as casas morrem


Ingá 2012



também as pedras morrem
Vieira

não cabe dizer que também as casas
morrem posto que morrem muito mais
que nós :: a agonia muito mais
prolongada e exposta aos olhares
indiferentes dos homens :: a casa
que abrigou assistiu contou história
king lear músico de bremen agora
velha ébria que mal se aguenta em pé
que se mija toda diariamente
estuprada abandonada aos próprios
tumores cicatrizes reumatismos
e escaras que lhe infestam pele e entranhas
assim morrem as casas sob a mó
de homens e tempo :: inteiramente sós

Tuesday, February 26, 2013

Slow Reading





uma palavra em meio a tantas outras
me traz os teus olhos tua pele
teus gestos em didascálias
tua voz em gozo
mais adiante outra e logo outra outra
a leitura não avança
os olhos por sobre a página arregalada
a leitura não avança
bem outra coisa que avança aqui