Monday, February 04, 2013

deixa-me que te escreva com atraso



deixa-me que te escreva com atraso
deixa-me que me atrase nas carícias
que à falta de ti deito no papel
deixa-me que te ame por acaso
esquecido de mim de ti de tudo
deixa-me que te ame pelo ocaso
naquela hora aberta em que a vida para
deixa-me que te ame com atrasos
quando chegares ::: deixe-me que escreva
pelo teu corpo o que escrito ficou
em versos espalhados por aí
deixa-me que aprenda o que já sei
deixa-me que eu saiba o que apreender
nasça em tua pele o fim que seguirei






Sunday, February 03, 2013

Leonard Cohen, singer-songwriter




Desça ao ponto de ônibus mais próximo (municipal ou intermunicipal) e pergunte à galera quem tocou no lendário Festival da Ilha de Wight de 1970, documentado em Message to Love.

Todos lembrarão do Jimi Hendrix e do The Who, muitos citarão Doors e Emerson, Lake & Palmer. Uns gatos pingados irão se emocionar ao evocar o Taste, o Ten Years After, o Jethro Tull. Creio que uns cinco responderão Fairfield Parlour e Pentangle. Apenas um rapaz, professor e poeta, não deixará o Family de fora.

Ninguém se lembrará do Leonard Cohen.

Um dos mínimos que se pode esperar de quem organiza um festival é a divisão das bandas pelos dias e a ordem da apresentação destas. Naqueles tempos, não se poderia JAMAIS permitir que qualquer mortal tocasse depois do The Who ou Jimi Hendrix. Não digo que fossem os melhores, mas as apresentações eram de tal modo incendiárias (outras o eram, sei, sei) que subir ao palco depois poderia causar traumas irreversíveis. The Who e Jimi só poderiam mesmo fechar, tanto que Jimi fechara Woodstock um ano antes.

Pois é. Mas na Ilha de Wight os malucos escalaram um tal de Leonard Cohen para tocar depois do Jimi Hendrix. E para uma plateia de 600.000 doidos. Naquele estado pós-hendrixiano.

E o poeta e singer-songwriter Leonard subiu ao palco. Havia algo a ser feito e ele fez.

Dizem que Joan Baez e Kris Kristofferson (o autor da maravilhosa "Me and Bob McGee", 'da' Janis, que fora impiedosamente vaiado quatro noites antes) a tudo assistirarm, quietinhos no palco, estupefatos ao ver Orfeu acalmando as feras.

Naturalmente que ele não tocou a maravilhosa canção que ora posto, que esta só viria no álbum New Skin for the Old Cerimony, de 1974.



LOVER LOVER LOVER

I asked my father,

I said, "Father change my name."
The one I'm using now it's covered up
with fear and filth and cowardice and shame.
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me,
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.

He said, "I locked you in this body,
I meant it as a kind of trial.
You can use it for a weapon,
or to make some woman smile."
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.

"Then let me start again," I cried,
"please let me start again,
I want a face that's fair this time,
I want a spirit that is calm."
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.

"I never never turned aside," he said,
"I never walked away.
It was you who built the temple,
it was you who covered up my face."
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
And may the spirit of this song,
may it rise up pure and free.
May it be a shield for you,
a shield against the enemy.

Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.



Saturday, February 02, 2013

Na tarde quente Dante dorme azul




na tarde quente Dante dorme azul
na rede que o recebe como útero
na tarde útero ressona Dante
quente protegido pelas varandas
tramadas por mãos quentes e recém
saídas do útero da tarde ::: o sono
untuoso tranca Dante em si e o trança
à memória dos bilros que ressoam
ainda na pele desta rede azul
e larga como o sono dos moluscos
na tarde quente Dante é caramujo
e a rede é uma casa de casquinha
tecida por ágeis dedos marujos
em tardes quentes azuis e marinhas



Iguape 2013

Thursday, January 31, 2013

Revejo aquele homem no telhado



revejo aquele homem no telhado
o dia inteiro ele passa a consertá-lo
o que há de vento chuva madrugadas
entra-lhe pele adentro encharca o céu
contra o qual conserta ele o seu telhado
todo muda resignação extática
os meninos que lhe atiravam pedras
hoje o têm por secreto raro amigo
os homens que lhe tinham indiferença
hoje lhe têm suprema indiferença
há um telhado para ser consertado
o homem portanto faz o seu trabalho
e dentre as mulheres que um dia o amaram
há uma ainda que o ama secretamente
e joga fora as escadas que tem

Tuesday, January 29, 2013

se vale a pena respirar a chuva



se vale a pena respirar a chuva
nesta noite tranquila de janeiro

[aqui no quarto ::: mundaréu de livros
fotografias música rascunhos]

se vale a pena ora me levanto
peço licença à gata aos meus pés
e enfio meu nariz janela afora

se vale a pena sempre vale a pena
a chuva agora preguiçosa pinga
pingos últimos :: folhas fios chão

são gestos de senhora comedida
fingindo indiferença se recolhe

o que causou aqui não lhe interessa
se vale a pena aprender a chuva

Manhãs com Cheiro de Viagem


Sri Lanka :: 2008



tenho manhãs com cheiro de viagem
tenho tido, mesmo aquelas que não
trazem o café forte a evolar
de brancas chaminés inexistentes
mesmo aquelas que não trazem telhados
molhados pela chuva impertinente
serão manhãs de viagem: as reconheço
pelo cheiro e forma e perfil e cor
mesmo que meus pés tenham ido apenas
do escritório (onde chove na janela)
à cozinha (onde bebo o café forte
e bom) :: serão viagens tão antigas
que me afloram confusas abraçando-se
às viagens interditas por fazer


Monday, January 28, 2013

Uma Leitora Atenta



Ao publicar poemas aqui, recebo alguns comentários no facebook, onde ponho o link, e, bem menos frequentemente, aqui.

Em relação aos dois livros recém-publicados, pouco feedback, e isto é uma constatação, serve para contextualizar o que vem a seguir, não devendo, portanto, ser entendido como um resmungo.

Mas não é que me surgiu pela frente uma leitora crítica, daquelas de fazer inveja ao Sílvio Romero?

Disse que meus poemas pornográficos (a palavra é dela) são todos dispensáveis.
Que há excesso de metalinguagem nos sonetos, o que cansa.
Que sou hermético demais, às vezes.
E que nem tudo ali no Dante é tão bom assim.

Finalizou dizendo:
que gosta mais do Taipa.
E que o melhor de tudo era mesmo o Prefácio (que não é meu).


Ai de mim, o que de bom fiz para ganhar leitora tão atenta? Mal, muito mal comparando, lembrei-me de certa história anedótica entre Mahler e sua mulher Alma (por quem, o trocadilho é inevitável, ele perdeu a sua):

Mahler [executando a Quarta Sinfonia ao piano]: Gostas?
Alma: Acho que Haydn fez melhor.

da minha inveja às cicatrizes



dizer que acordo com saudades é
impreciso quando é a própria saudade
que me acorda nesta e noutras manhãs
dizer da minha inveja às cicatrizes
é dizer que foi mesmo por um triz
que (não) me salvei quando o que mais quis
foi atar a minha alma aos flamboyants
como fazem cigarras aturdidas
dizer o que preciso te fará
ouvir? dizer dos acordos já há
muito selados te fará voltar?
dizer o já dito dizer o não...
não. dizer apenas desta saudade
brasa e sal no cristal desta manhã.

Saturday, January 26, 2013

Alguns Botequins Tradicionais do Ceará

A viagem foi ligeira, ligeira, pero intensa. Revi lugares da mítica viagem de 1992: Iguape e Pindoretama. Com a diferença de que agora faço esta seriíssima pesquisa de botequins. Então vamos à pequena messe.











O Pai do Pedro



Não sem emoção encontro foto do pai do Pedro Nava na salinha dedicada à Padaria Espiritual na sede da Academia Cearense de Letras.

Nava escreveu extensamente sobre a Padaria no primeiro volume das memórias, o Baú de Ossos, de que tenho a primeira edição, saída, ao contrário dos demais que viriam, pela Editora Sabiá do Fernando Sabino e do Rubem Braga.

O livro, ele o dedica à memória de seus avós, de seus pais, de seus tios (o formidável Antônio Sales, de quem falarei em post só sobre a Padaria), seu sobrinho, sua prima, sua mulher e um punhado de amigos (mira o nível das amizades: Afonso Arinos, Drummond, Fernando Sabino, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Rachel de Queiroz) P R O F U N D A M E N T E, assim, em letras escandidas, após citar o poema do Bandeira.

Do pai, que tão cedo o deixou, ele escreve á página 85:


"Felizmente, para meu Pai, ele frequentou o grande centro de ensino de seu Estado na fase áurea de 1891 a 1895 -- e ali foi duplamente apertado pelos seus mestres, tanto pelo natural rigor vigente na época, como porque o recomendava a tratos de polé (...). Nesse período meu Pai, sob os pseudônimos de Javany, Josy Norem, Gil Navarra ou com seu próprio nome, faz literatura e versos -- prosa bem aceitável, versos quase inaceitáveis -- os últimos geralmente de circunstância e levando, indiscretamente, para a imprensa de Fortaleza, os nomes bem amados de Ana, Júlia, Cléa e Noemi. E não ficava só no nome. Punha também o sobrenome das deusas, com todas as letras. (...) Mas seu período literário, final e mais intenso, começa em 1894, quando, aos 18 anos, ingressa na Padaria Espiritual e termina em 1896, data do início de seus estudos médicos."

 

É um pássaro? Andrew Bird ::: TOP 16 Songs



Estava mesmo para escrever sobre o Andrew Bird, este tão talentoso singer-songwriter, violinista e assobiador de Chicago com uma carreira que já passa da dezena de trabalhos, se incluirmos os iniciais com a banda The Bowl of Fire.

Pensei mesmo em fazer brincadeira, e antes escrever sobre o Mefistofele do Boito, pois há uma ária memorável em que o próprio, o Capiroto, ao apresentar-se, assobia. E daí eu faria minhas sengracices contumazes.

Mas Bird vem aí, para shows no Rio e em São Paulo, então o diabo que espere, que este post é só para o Andrew.

Conheci-o em 2007, com o trabalho Andrew Bird & The Mysterious Production of Eggs. Lembro que a Receita me pegou e, para além de pagar aquele imposto absurdo, tive que ir no correio retirar o pacotinho. Neguinho faz pirataria adoidado e quem compra legal é assim penalizado. Legal, né,?

A raiva, portanto, era grande. Mas foi ouvir Andrew Bird que tudo passou. Imposto? Correio? Ficou até barato.

Virei macaco de auditório, acompanhando a carreira com avidez. E comprando tudo. Seus dois últimos, Noble Beast e Break it Yourself não atingem as excelências do Armchair Apocrypha (preferido) e o primeiro que conheci, mas terão momentos que tudo justificam.
TOP 16 SONGS

Don't Be Scared
<
A Nervous Tic Motion of the Head to the Left
Fake Palindromes
The Naming of Things
The Happy Birthday Song
Fiery Crash
Imitosis
Plasticities
Herectics
Armchairs
Dark Matter
Scythian Empires
Spare-Ohs
Souverian
Orpheo Looks Back


Friday, January 25, 2013

A partir dos gatos



porque a vida só é possível reinventada.
Cecília

Reinventar a vida
a partir dos gatos.

A precisão dos gestos
a profundidade do olhar
a agilidade assombrosa, frutos
da ponderação de energia
onde o tolo enxerga apenas preguiça.
(Poeta,
o gato seria Bashô
os mais enxutos haikais)
Muito amar e muito
querer amor
(o jogar-se aos pés)
mas saber cultivar
-- onde o tolo enxerga apenas indiferença --
alheamentos.

Thursday, January 24, 2013

Poemas Escritos na Ponte II - Feast my seldoms



Feast my seldoms
make them oftens
as the sky below
winks at the sea above
as nyman plays on the bridge
to the thee i write with (g)loves.

Quando Dante arranca-me os óculos




Quando Dante arranca-me os óculos
é possível me queira menos míope.
Da miopia não abro mão, mocinho:
forma que acalento
de cultivar esperança.

Sunday, January 20, 2013

12 Tons de David Gray


Os únicos tons de cinza que verdadeiramente me interessam serão aqueles do David Gray: tons, semitons, microtons. O trocadilho já foi feito por um conhecido há um tempão no facebook, o que acho muito justo dado que fui eu que lhe apresentei ao David, nascido poucos dias antes de mim (pobre canceriano) em Manchester, singer-songwriter que honra a escola britânica.

Às vezes me perguntam como conheço "tanta coisa assim". Nem acho que eu conheça tanta coisa assim, é antes aquela história do caolho em mundo de cegos, mas um segredo consiste em ficar, sempre, atento.

Eu estava na Bretanha quando desci à noite para comprar pizza para levá-la ao quarto. Enquanto espero, tomei da Lancelot, e a explosão de sabores, a pungência das especiarias jamais me sairão da memória. Da pizza nada lembro, mas sim que tocava alguma coisa bonita no pub. O que é?, o que não é?, posso ver o CD?, era "This years love", do David Gray. Pronto.


TOP 12 TRACKS, em ordem cronólogica:

My oh my
White Ladder
This years love
Sail away
Freedom
Real Love
From here you can almost see the sea
Hospital food
Now and always
Disappearing world
Forgetting
In God's name



Friday, January 18, 2013

de tanto bater meu coração parou



o coração bate contra a parede
bate até fender-se em dois em três quatro
bate até esquecer-se de onde veio
e que eu já vagamente o possuí
pois o coração já não tem memória
quer uma noite de estrelas e nuvens
quer estrelas de brilhos e distâncias
quer nuvens de rigor e imprecisão
quer brilhos de magia e segredos
quer distâncias de estradas e oceanos
quer rigores de loucos e de monges
e imprecisões de nuvens e de estrelas
o jogo poderia prosseguir
mas de tanto bater meu coração parou

Thursday, January 17, 2013

Leocácio, fotógrafo inventor



O paraibano Leocácio Ferreira da Silva (1921-1983) foi artista e fotógrafo em sentidos plenos (mas não únicos) das palavras: artista amador e fotógrafo inventor.

Para ganhar o pão, funcionário da Marinha. Para fotografar, criava o próprio equipamento, chegando ao ponto de inventar uma máquina a partir de uma caixa de charutos, com o objetivo de tirar fotos panorâmicas com a abrangência angular de 180°. Batizou-a de Jane-pan em homenagem à filha Jane.

Com a Jane registrou a primeira missa campal e a inauguração de Brasília. Fotografou também diversos momentos importantes da história do futebol cearense, como a inauguração do Castelão. A última das três fotos postadas retrata o empate entre o Santos e o glorioso Ferrim em 1968! O Ferrim sagrara-se campeão invicto! E o Santos era o de Pelé!

Algumas dessas fotos (originais!) podem ser vistas no Flórida Bar, tradicional boteco de Fortaleza, que funcionava no centro e mudou-se para Iracema. (Meio assim como o nosso Lamas, sabem? Mas acho que eles carregam os anos para a aposentadoria, que esperamos nunca chegue)




dorme que passa vovô



dorme que passa vovô
é o que Lu diz
após a mãe lhe explicar em muito tortuosas linhas
a doença

o avô
(não chegará ao fim do mês)
acorda de madrugada com as mesmas lancinantes dores
mas lembra e sorri

Tuesday, January 15, 2013

Botequins Tradicionais de Fortaleza II

Aqui duas pérolas, situadas frente a frente naquela região meio que periférica do centro.

O Camocim tem o prêmio de a melhor caipirinha de Fortal. O El Fomento tem o prêmio deste blog de o mais formidável pé-sujo de Fortaleza.

Imaginemos o que não confabularão os dois com suas portas fechadas, no silêncio das madrugadas frescas (sim, a brisa de Iracema baterá por cá...).

Bar O Camocim - Centro
Bar O Camocim - Centro
Bar El Fomento - Centro
Bar El Fomento - Centro
Bar El Fomento - Centro
A vida de dono de bar é dura. Seu Antônio Gastão do Pinto precisa relaxar
Bar El Fomento - Centro

Botequins Tradicionais de Fortaleza I


Flórida Bar - Praia de Iracema

Flórida Bar - Praia de Iracema
Flórida Bar - Praia de Iracema

Não será o Ceará, terra de mascates, conhecido por seus botequins tradicionais. Na capital, a tendência higienizante e uniformizadora de revestir as paredes de lajotas brancas é forte como aqui, com a desvantagem de não terem os cearenses da capital, em que pese uma Padaria Espiritual, a tradição boêmia de cariocas ou paulistas.

Sem bairrismo, que isso detesto.

No entanto, quem procura acha e acha coisas com as quais nem os boêmios intelectuais siarenses sonhavam....

Segue pequena mostra, de pesquisa corrida.



Escuby Lanches - Centro

Escuby Lanches - Centro
Mercearia Rodriguês - Centro
Mercearia Rodriguês - Centro
Mercearia Rodriguês - Centro