Monday, January 14, 2013
deveria aproveitar esta noite
deveria aproveitar esta noite
para inventariar o que foi esse ano que passou
o que foram esses quatro últimos anos
esse vórtice
deveria aproveitar esta noite
para organizar os livros empilhados os CDs empilhados as fotos perdidas no PC
deveria aproveitar esta noite
para preparar as aulas do semestre inteiro
de modo a calar um pouco a angústia das noites de domingo
deveria aproveitar esta noite
eu sei que deveria aproveitar
para pentear um pouco este caos
jogar fora papeis velhos
voltar a poemas inacabados
cortar artigos dos acabados
comprar um calendário novo
reler todo o Pedro Nava
escutar as sonatas de violoncelo do Britten
organizar a coleção de coasters
usar enfim o aparelho de fondue ganho no casamento
agora que o casamento acabou
eu sei que eu deveria aproveitar
para escrever aquela carta
exorcizar demônios renitentes
para quem sabe chorar
para inaugurar o moleskine
para terminar o Dekalog
para despedir a empregada
para tomar cerveja com o porteiro
para visitar a tia esquecida
tosquear o gato que sofre com o calor
pintar a sala de laranja (uma casa
constantemente amanhecendo)
e as sancas de amarelo
eu deveria é voltar às aulas de russo
e imediatamente partir para o Белые ночи
que já não tenho idade ou paciência para aprender números
deveria aproveitar esta noite
para dividir o ceú em fatias
e encontrar a que me cabe
e dividir e redividi-la
e então contar as suas estrelas
e então ligá-las para formar filigranas de sonho
eu deveria aproveitar esta noite
para quem sabe morrer
e passar a morte inteira com tua imagem presa às minhas retinas
deveria aproveitar esta noite
eu sei que deveria aproveitar
mas tudo que faço
tudo que faço é
Sunday, January 13, 2013
Poema
POEMA
Não fosse o pai
não fosse a mãe
e um e outro esporádicos
seria ele o menino mais só dentre todos os meninos sós
ele e seus delírios
suas palmas fora de hora
as cabeçadas furiosas na parede.
A famíla deu as costas
e correu para papar a hóstia da missa das 10.
Ficou o menino
e também o anjo ou lá sei que visão é essa
que ele descobre no alto das janelas
e com ele ri.
Saturday, January 12, 2013
Retornar ao Iguape
Um de meus princípios de viagem, até 1993, era jamais voltar aos lugares visitados. Sem o saber, punha em prática um provérbio mexicano que reza que jamais se deve voltar aonde se foi muito feliz.
Há vinte anos este princípio caducou e neste tempo fui e voltei a muitos lugares.
Ao fim de 1991 eu estava tão exausto física e emocional e espirutualmente que afirmar que eu morrera seria antes eufemismo que hipérbole.
Estava tão down que até as minhocas tinham que olhar para baixo para dar um oi.
Eu que amo os capicuas.
Aí no comecinho de janeiro fui para o Ceará, e tudo mudou. Tudo.
Passados 21 anos retorno ao Iguape, uma das paradas mágicas da mítica viagem de 1992.
Se conhecer lugares é bom, retornar é extraordinário.
Um dos pontos altos de 92 foi encontrar a galera do coco e botar todo mundo na roda. Fiz isso no Iguape e em Majorlândia e nesta última a dança atingiu contornos oníricos de gravura de Poty quando toda a família dançou ao redor da árvore.
Naturalmente que eu desejava muito reencontrar este pessoal.
No bar onde casualmente entro, para logo descobrir chamar-se Bar O Evandro, perguntem se consegui...
Monday, January 07, 2013
O Viajante Descobre
O viajante descobre divertido
o viajante tão experiente outrora
mesmo invejado
já não sabe fazer malas
isto virá
do interregno de quatro anos e meio
ou da ausência daquela
que a seu lado já não está?
A bermuda
ainda úmida da piscina com o filho
terá que ficar.
As cuecas amarfanhadas
entre a fiarada de iPod celular Canon.
E as sandálias
as sandálias descascadas que não fazem inveja aos clochards do bairro
vão numa sacola plástica das Sendas
com as elegias de John Donne.
Sunday, January 06, 2013
Liga às Três da Manhã
liga às três da manhã me acorda presto
para contar-me o sonho que tiveste
mente o que lembras reinventa o resto
e aproveita e me conta o que te veste
(a camisola roxa tão curtinha?
ou apenas a camiseta hering
que em teu corpo tranforma-se em prodígio?)
deste meu afã destes meus desejos
digo crias daquilo que me deste
e tu dizes que assim parece o início
quando hesitantes ainda tateávamos
(acho estamos em 1/300
não sei se um dia chegaremos lá
certo que início amor sempre será)
O Sexo na Alemanha Nazista
Meu pai órfão, restou-me apenas uma vó, gaúcha que orgulhava de sê-lo mas que quase não carregava no sotaque, exceto em Rio, que pronunciava /riu/ e frio, que pronunciava /friu/. Estava sempre com frio, daí a sua fala viver ainda em mim.
Minha vó era doce, a mais doce das velhas a mais doce das avós, mas só eu conhecia suas facetas inconfessáveis e impublicáveis. Certa vez encontrei-a no caramanchão do hotel em Mendes, onde se refugiara com livro. Naturalmente pergunto o que está a ler. O Sexo na Alemanha Nazista.
Problema nenhum em se ler isso, também eu tenho aqui a Encyclopedia of the Third Reich, cuja lombada já desagradou ao meu pai, mas convenhamos que não se espera encontrar a mais doce das avós lendo isso num caramanchão na serra.
Minha vó também gostava de beber sangue, naqueles horríveis copos de requeijão. Embora eu só fosse me tornar coloecionador de copos muitos anos depois, algo em mim já dizia que aquela combinação não podia prestar.
Quem sou eu para criticar os comportamentos infantis de Felipa, eu que os tenho em borbotões. Um deles é atribuir a certos momentos da vida uma trilha-sonora. Ainda que a atibuição amiúde seja involuntária, é algo bem Felipa.
A trilha-sonora dos dias finais de minha doce vampira resume-se a La Casa del Lago, do Saint Just, e ao Jérémiades, do Wim Mertens.
PS: Sem a foto que eu queria, sem o vídeo que eu queria. O blogspot prossegue boicotando este blog.
PS: Sem a foto que eu queria, sem o vídeo que eu queria. O blogspot prossegue boicotando este blog.
Saturday, January 05, 2013
Epígrafes de "Voo sem Pássaro" - Nicolas
Nem tudo está perdido. Perguntaram-me quem era o Nicolas de uma das epígrafes de Voo sem Pássaro, então ainda há esperança.
Nicolas é Nicolás Guilllén, poeta cubano que se notabilizou por seus poemas de cunho social, às vezes políticos.
Esse Nicolás Guillén respeito, mas não me interessa.
O Nicolas que me interessa é este aqui, de um dos poemas de amor mais bonitos jamais escritos.
E não existe nada mais político que isso.
UN POEMA DE AMOR
No sé. Lo ignoro.
Desconozco todo el tiempo que anduve
sin encontrarla nuevamente.
¿Tal vez un siglo? Acaso.
Acaso un poco menos: noventa y nueve años.
¿O un mes? Pudiera ser. En cualquier forma,
un tiempo enorme, enorme, enorme.
Al fin, como una rosa súbita,
repentina campánula temblando,
la noticia.
Saber de pronto
que iba a verla otra vez, que la tendría
cerca, tangible, real, como en los sueños.
¡Qué explosión contenida!
¡Qué trueno sordo
rodándome en las venas,
estallando allá arriba
bajo mi sangre, en una
nocturna tempestad!
¿Y el hallazgo, en seguida? ¿Y la manera
de saludarnos, de manera
que nadie comprendiera
que ésa es nuestra propia manera?
Un roce apenas, un contacto eléctrico,
un apretón conspirativo, una mirada,
un palpitar del corazón
gritando, aullando con silenciosa voz.
Después
(ya lo sabéis desde los quince años)
ese aletear de las palabras presas,
palabras de ojos bajos,
penitenciales,
entre testigos enemigos.
Todavía
un amor de «lo amo»,
de «usted», de «bien quisiera,
pero es imposible»... De «no podemos,
no, piénselo usted mejor»...
Es un amor así,
es un amor de abismo en primavera,
cortés, cordial, feliz, fatal.
La despedida, luego,
genérica,
en el turbión de los amigos.
Verla partir y amarla como nunca;
seguirla con los ojos,
y ya sin ojos seguir viéndola lejos,
allá lejos, y aun seguirla
más lejos todavía,
hecha de noche,
de mordedura, beso, insomnio,
veneno, éxtasis, convulsión,
suspiro, sangre, muerte...
Hecha
de esa sustancia conocida
con que amasamos una estrella.
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PS: Não sei por que não estou conseguindo fazer upload de fotos para a postagem. Tive que reaproveitar foto já publicada aqui há tempos. Tirada em Goa.
Segue em português. Fico devendo o nome do tradutor. Seu trabalho é bonito, mas ese aletear de las palabras presas é mesmo intraduzível. Por isso utilizei.
UM POEMA DE AMOR
Não sei. Ignoro-o.
Desconheço todo o tempo que andei
sem encontrá-la novamente.
Quem sabe um século? Talvez.
Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.
Ou um mês. Poderia ser. De qualquer forma
um tempo enorme, enorme, enorme.
Ao fim como uma rosa súbita,
repentina campânula tremendo,
a notícia.
Saber de pronto
que ia voltar a vê-lá, que a teria
perto, tangível, real, como nos sonhos.
Que troar surdo
Rodando-me nas veias,
estalando lá em cima
sob meu sangue, em uma
noturna tempestade!
E o achado, em seguida? E a maneira
como ninguém compreenderia
que essa é nossa própria maneira?
Um roçar apenas, um contato elétrico,
um apertão conspiratório, uma olhada,
um palpitar do coração
gritando, ululando com silenciosa voz.
Depois
(já o sabeis desde os quinze anos)
esse ruflar das palavras presas,
palavras de olhos baixos,
penitenciais,
entre testemunhas inimigas,
ainda
um amor de “o amo”
de “você”, de “bem gostaria,
mas é impossível…” De “não podemos,
não, você deve pensar melhor…”
É um amor assim,
é um amor de abismo na primavera,
cortês, cordial, feliz, fatal.
A despedida, logo,
genérica,
no turbilhão dos amigos.
Vê-la partir e amá-la como nunca;
e já sem olhos seguir a vê-la ao longe,
lá longe, e ainda segui-lá
ainda mais longe,
feita de noite,
de mordida, beijo, insônia,
veneno, êxtase, convulsão,
suspiro, sangue, morte…
Feita
dessa substância conhecida
com que amassamos uma estrela.
Segue em português. Fico devendo o nome do tradutor. Seu trabalho é bonito, mas ese aletear de las palabras presas é mesmo intraduzível. Por isso utilizei.
UM POEMA DE AMOR
Não sei. Ignoro-o.
Desconheço todo o tempo que andei
sem encontrá-la novamente.
Quem sabe um século? Talvez.
Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.
Ou um mês. Poderia ser. De qualquer forma
um tempo enorme, enorme, enorme.
Ao fim como uma rosa súbita,
repentina campânula tremendo,
a notícia.
Saber de pronto
que ia voltar a vê-lá, que a teria
perto, tangível, real, como nos sonhos.
Que troar surdo
Rodando-me nas veias,
estalando lá em cima
sob meu sangue, em uma
noturna tempestade!
E o achado, em seguida? E a maneira
como ninguém compreenderia
que essa é nossa própria maneira?
Um roçar apenas, um contato elétrico,
um apertão conspiratório, uma olhada,
um palpitar do coração
gritando, ululando com silenciosa voz.
Depois
(já o sabeis desde os quinze anos)
esse ruflar das palavras presas,
palavras de olhos baixos,
penitenciais,
entre testemunhas inimigas,
ainda
um amor de “o amo”
de “você”, de “bem gostaria,
mas é impossível…” De “não podemos,
não, você deve pensar melhor…”
É um amor assim,
é um amor de abismo na primavera,
cortês, cordial, feliz, fatal.
A despedida, logo,
genérica,
no turbilhão dos amigos.
Vê-la partir e amá-la como nunca;
e já sem olhos seguir a vê-la ao longe,
lá longe, e ainda segui-lá
ainda mais longe,
feita de noite,
de mordida, beijo, insônia,
veneno, êxtase, convulsão,
suspiro, sangue, morte…
Feita
dessa substância conhecida
com que amassamos uma estrela.
Thursday, January 03, 2013
Gato num Apartamento Vazio
Ao publicar poema em que faço alusão a um outro de Wisława Szymborska (repita comigo: Vissuava Chemborska), Giana reclama que não se faz isso a um leitor: falar no poema de raspão e não transcrevê-lo.
Aliás, no poema sequer menciono o nome da poeta (repita comigo: Vislava Zimborska), que aquilo era poesia, não tinha obrigação para com nada a não ser para consigo mesma (lembrando, com Wallace Stevens, que a poesia é o assunto do poema).
Mas tá, Giana, acedo. Que nunca será demais.
GATO NUM APARTAMENTO VAZIO
Morrer – isso não se faz a um gato.
Pois o que há de fazer um gato
num apartamento vazio.
Trepar pelas paredes.
Esfregar-se nos móveis.
Nada aqui parece mudado
e no entanto algo mudou.
Nada parece meido
e no entanto está diferente.
E à noite a lâmpada já não se acende.
Ouvem-se passos na escada
mas não são aqueles.
A mão que põe o peixe no pratinho
também já não é a mesma.
Algo aqui não começa
na hora costumeira.
Algo não acontece
como deve.
Alguém esteve aqui e esteve,
e de repent desapareceu
e teima em não aparecer.
Cada armário foi vasculhado.
As prateleiras percorridas.
Explorações sob o tapete nada mostraram.
Até uma regra foi quebrada
e os papéis remexidos.
Que mais se pode fazer.
Dormir e esperar.
Espera só ele voltar,
espera ele aparecer.
Vai aprender
que isso não se faz a um gato.
Para junto dele
como quem não quer nada
devagarinho,
sobre patas muito ofendidas.
E nada de pular miar no princípio.
(Tradução de Regina Przybycien).
Este post, obviamente, dedico-o à Giana.
Mas serve também para a Irene, que quer conhecer o Oriente da Europa.
E para a menina com quem aprenderei a pronunciar o L diacrítico do alfabeto polonês: Ł, tão bonitinho!
Wednesday, January 02, 2013
Felipa
De todos os muitos comportamentos infantis de Felipa, o que mais me irritava era o de querer forçosamente usar palavras recém-aprendidas. Aqui me lembro de quando fomos a Porto Alegre, nossa primeira viagem grande, e ficamos na casa da minha Tia Glória.
Naquela tarde a Tia se popusera a fazer um bolo com a bela Felipa. Como Felipa insistia em abrir o forno, ela teve que advertir que não fizesse mais isso ou o bolo iria desandar. "Desandar, como assim?" E a tia explicou. Pronto.
Naquela noite, quando estávamos transando, Felipa subitamente parou de cavalgar e disse: "Acho que nossa relação desandou". Puta que pariu. Que ódio. Tudo tão ridiculamente ensaiado na cabecinha dela. Ela achava mesmo que estava num filme de Godard?
Tive que ir para o banheiro. Não conseguiria na frente dela. Tem homem, tem mulher que faz para dar raiva, eu não conseguiria tamanha a raiva.
Raiva dela e da Tia Glória.
Glória começou naquele mesmo janeiro um câncer que iria devorá-la por nove anos.
O nosso começara um pouco antes e sobreviveria à tia.
Ora (direis), sonetos!
Acerca do soneto, Paulo Mendes Campos disse que "quando um está pronto, isto significa que uma série de complexas operações mentais ocorreram, conseguindo o homem, de uma coisa frágil e ilusória como a palavra, um objeto que resiste à inteligência, à cultura e ao tédio do leitor. Essa peça bem acabada se incorpora à vida de algumas pessoas". Conclui o poeta mineiro (injustamente lembrado apenas como ótimo cronista, conforme escrevi aqui): que "a glória de um soneto é ser inesgotável".
O genial Glauco Mattoso escreveu mais sonetos que o romano oitocentista Giuseppe Belli, que compôs apenas 2.279. Nosso Glauco, tributário de Belli na irreverência, já tem mais de 4 mil. Afirma ele ser o soneto "universal como o alfabeto e perene como os ciclos solares e lunares" E continua com "dou-me ao luxo de pilheriar que o soneto vem a ser a maior invenção do Homem, depois da roda, do alfabeto latino, do algarismo arábico e da própria notação musical.
Escrever o que depois desses dois aí de cima? Bem, quando escrevo qualquer coisa que me pareça razoável (em releituras isso pode mudar, o que é bom e mau), sinto-me como aquele doido do Strinberg ao pintar, ele que foi mais dramaturgo e alquimista que pintor.
Mas quando escrevo um soneto que pareça razoável (isso pode...), bem, aí chego ao ponto de dispensar comida, posto que alimentado.
Uma Tábua de Salvação
Minha mãe abre o livro de poesia sobre a mesa
e me chama
olha que bonito:
Morrer -- isso não se faz a um gato.
Tomo-lhe devagar o livro das mãos
e leio pausadamente o poema inteiro
para ao fim encontrá-la boquiaberta e marejada.
Isso não se faz a uma mãe.
Ao chegar em casa
pede-me ao telefone:
lê de novo aquele poema daquela mulher de nome difícil
e quando chego à janela para tomar ar
tudo são luzes no céu distante de Cracóvia.
Tuesday, January 01, 2013
É um Soneto que me Pedes?
Pois é um soneto que me pede a moça?
Oram vejam só quanta bizarria
soneto escreve-se em dias de alegria
ou em dias nublados pela fossa.
Isto aqui, mocinha, não é juke box
insere ficha e pede dois quartetos
pede o esquema de rimas dos tercetos
como quem pede heavy metal ou bossa.
Mas se estiverem soltas as amarras
se enamorado eu perceber teu nome
chiado nos cicios das cigarras
se eu for tocado pela sede e fome
em ti pensando a esmo pela praia
aí pode ser que alguma coisa saia.
Sunday, December 30, 2012
Nós, Aliás
Ambos dotados de memórias prodigiosas
de causar inveja às velhas aliás
sentamo-nos para inventariar nossos trinta anos.
Se a sessão assume às vezes tons de disputa
será disputa de frescobol sem vencedores
ou vencidos: um pega a bolinha caída
e a devolve com novas lembranças
assim completando o mosaico.
A única.
A única dúvida que não se resolve
da única
da única vez EM QUE NÓS
é: afinal
afinal de onde saímos naquela noite de lua sobre a Igreja de São José?
Digo que foi do Bar Luiz.
Teimas que do Bar Urich.
Saturday, December 29, 2012
OS VELLOS non deben de namorarse
Trouxe Os vellos non deben de namorarse de Santiago de Compostela, para onde eu fora estudar galego, de que me tornei eterno defensor.
À época estudante de Psicologia da UERJ, emprestei-o a uma tal de Adriana, com quem tinha afinidades literárias e musicais. Ela tocava violoncelo e na certa eu quis impressioná-la.
Me dei mal: ela não só nunca devolveu o livro como teve a audácia de vendê-lo. Pelo menos assim, numa interpretação perfunctória, o parece.
Minha querida ex-aluna Letícia, aquela para quem cometi este soneto, comprou-o no sebo da Letras da UFRJ e ora me devolve, em mãos, passados 24 anos, 2 meses e 27 dias. Letícia sequer nascida quando a trapalhada se deu.
Os vellos non deben de namorarse, peça do Alfonso Castelao, grande autor e genial desenhista galego que em galego escreveu e desenhou. Emprestei-a jovem e recebo-a velho.
Quero dizer, vello é o cacete, que o que mais faço é enamorar-me. Os xóvenes é que non deben prestar os libros.
Friday, December 28, 2012
O Coro dos Anjos. E a Minha Vó.
Eu tinha grandes dificuldades de levar minha vó à ópera. Em verdade, nunca consegui. As poucas vezes em que fomos juntos (uma Aida, um Rigoletto) não foi porque eu a tivesse convidado, eu é quem estava sendo levado. Porque a partir do momento em que decidi tomar a iniciativa e a convidava, a réplica era sempre a mesma: "Ah, não, é muito triste!...". Ao que não adiantava eu insistir: "Mas é bonito, vó!".
Sempre me lembro, e às vezes conto, dessa história quando trabalho algum texto ou alguma canção que seja, digamos, "triste". Há sempre quem torça o nariz, e muito. Como se não houvesse beleza na "tristeza". E como se literatura, arte, tivesse que ser disneylândia ou paulo coelho. Uso aspas em "triste" e "tristeza" porque nem vejo tristeza aí. Triste é música medíocre, é texto idiota.
Exemplo clássico é "Paul's Case", da Willa Cather. Todo o conto, mas sobretudo a cena final do suicídio. E tantas vezes parecia que eu era o único na sala a cada vez achar aquilo lindo, a cada vez me emocionar. Muitos alunos torciam narizes e bocas e eu só não ficava zangado porque me lembrava da minha vó.
Que estava longe, não será difícil imaginar, de ser grande conhecedora de ópera ou música em geral. Mas ela me falava de uma ópera pouco conhecida entre nós, o Mefistofele, do Boito, e seus olhinhos se enchiam d'água quando dizia Ah, o Coro dos Anjos!....
Vim a conhecer enfim esses anjos em 1993. Toquei para ela, que, claro, se desmanchou.
Há, de fato, dois coros dos anjos no prólogo (que, logicamente, se passa no céu). O primeiro é apenas a Falangi Celesti ("apenas"), enquanto no segundo temos a Falangi, os Penitenti e os Cherubini. Imaginem ensaiar tudo isso.
Achar no youtube não é muito fácil, pois o que geralmente aparece é a "Ave Signor" do Mefistofele, ele mesmo, o anjo caído, a debochar do que os anjos tinham cantado.
O que ora posto é a versão que tenho.
Música, er, celestial. Daquelas de se enfiar numa sonda e mandar para o espaço ou enterrar numa cápsula para que resista aos apocalipses.
PS: O menino da foto não é o Dante. Não deu tempo.
Thursday, December 27, 2012
A Flauta na Cena Progressiva Italiana
Em almoço recente com o Eric Licen no Evandro's, o melhor pastel de lagosta do Cachambi, este (o Eric, não o Evandro's nem o Cachambi) me reclama que eu quase não escrevo mais de música por aqui, só poesia, poesia, poesia.
Ora, como o Eric é meu paulista dileto e como ele veio de Sampa prestigiar o lançamento dos meus livros, direi que as estatísticas estão erradas, ele tem razão e daí este post aqui.
O rock progressivo italiano dos anos 70, sabemos bem, é pródigo em flautas memoráveis. Se dos três grandes, só o Premiata com Mauro Pagani, no resto da enorme cena pense num Jumbo, num Delirium, num Celeste, nun Biglietto e molti, molti altre.
Mas como sou um apaixonado de nariz empinado, nesta mini-antologia cito três temas lindos bastante obscuros para a flauta do prog italiano.
1) La Casa del Vento - Le Mani
2) Il Vento ha Cantato - Franchi Giorgetti Talalamo, disco de que tratei aqui.
3) Serenesse - de Alan Sorrenti, de quem já escrevi aqui também. Neste último a flauta é... David Jackson (VdGG)...
Tem algum flautista por aí? Poderia me dar de presente isto assim ao vivo, hein?
Lembrando que meu niver é amanhã.
Saturday, December 22, 2012
A Primavera se foi, não sem pena
Não sem pena vejo que a primavera se foi.
Tá, sei que aqui no hemisfério sul não temos isso assim tão definido, Vivaldi não teria feito o que fez tivesse ele vivido no Rio de Janeiro.
Mas por outro lado temos cigarras e parece que gritam mais forte e precoces.
Queria que essa primavera, que me trouxe tantas coisas boas, durasse mais. Retê-la nos dentes.
Mas o verão chegou nesta canção com o Dante e nada posso senão amar.
Seguem então duas músicas: "Primavera nos Dentes" (toda ela em decassílabos) e "Dante", do Tir na Nog, que fala da chegada do verão.
A tradução é da Pampi.
O verão veio de algum lugar
Ele estava em todo o paísA terra era boa e quente na mão
O pastorinho teve uma visão linda, linda
Em noites estreladas os carneirinhos gordinhos saltitavam
Porque o verão veio de algum lugar
Agora já fez seu caminho
Dante ama o sol de verão.
Árvores e montanhas, Um espetáculo lindo, lindo
Dante volta para casa novamente com as bochechas rosadas durante a canção da tarde
ele não vai deixar os carneirinhos sozinhos
Porque o verão veio de algum lugar
Agora já fez o seu caminho
Dante ama o sol de verão.
Wednesday, December 19, 2012
Voo sem Pássaro e Caderno de Sonetos (ou Bartleby, Goodbye)
Óbvia e merecidamente a personagem mais conhecida de Herman Melville é Moby Dick, seguida talvez pelo seu algoz Capitão Ahab. Mas não nos esqueçamos de Bartebly, aquele escrivão em um escritório de Wall Street que, ao monocordicamente repetir "I'd prefer not to", desestrutura seu chefe e todo o trabalho do escritório. E todos nós leitores.
Bartleby é a peça da engrenagem que se recusa a sê-lo. Bartleby é a desobediência civil de Thoreau e a ahimsa de Gandhi. Bartleby é a revolução silenciosa, é o espelho, a chance do espelho, à nossa frente.
O escritor catalão Enrique Vila-Matas viu na recusa do escrivão uma "pulsão negativa ou a atração pelo nada" e, por antonomásia, diagnosticou uma "Síndrome de Bartebly". Seriam bartlebies aqueles escritores que não escrevem ou, mais bartlebysianamente, escrevem um ou ou dois livros para depois renunciar à escrita.
J.D. Salinger será porventura o caso mais conhecido. Entre nós, citaria Raduan Nassar.
Também eu fui um bartleby e dizia isso aos meus alunos já lá para o fim da interpretação do texto. Tendo publicado Taipa em 1994, os anos passavam e o pequeno volume da Editora Mundo Manual continuava filho único. Não havia glória aqui, mas tampouco demérito. Menos ainda comparava-me a Salinger e Nassar. Leitor voraz, não sou sem noção para essas coisas.
Mas...Bartleby, meu irmão, ainda te chamo assim, I will love you forever, mas saí do clube, tá? Eis que 18 anos depois Taipa ganha dois irmãos. Gêmeos. Voo Sem Pássaro e Caderno de Sonetos sairão pela Editora Laphroaig e virão a público amanhã na Livraria Al-Farabi.
Sunday, December 16, 2012
Jehan Alain: Litanies ou Plágio do Renaissance?
Seria no mínimo de mau gosto levantar qualquer suspeita contra o Renaissance, não transcorrido nem um mês do passamento do Michael Dunford.
Não se trata disso. Este é um post antigo, estava nos rascunhos há pouco mais de ano e como vivi circunstância que me fez revisitá-lo, resolvo terminá-lo e publicá-lo.
Janeiro de 2005. Estava eu em um recital de órgão na fabulosa catedral de Strassbourg (sim, aquela que muda de cor e, sim!, aquela imortalizada pela linda música do Focus, com direito a repicar de sinos) quando... de repente... lá para o meio da aprersentação, epa, espera, eu conheço isso! CONHEÇO ISSO, MON DIEU, DE ONDE? Sabe aquela sensação absolutamente torturante de que se tenta lembra que música é e não se consegue? O programa, todo clássico, me informava: "Litanies", de Jehan Alain. Ora, mas nunca tinha ouvido falar nesse sujeito. A música continua, gloriosa, e eu descabelando-me a alma, a vendida e a por vender quando: HA! ISSO É RENAISSANCE!!!!
Dias depois, back in Paris, encontro um CD duplo com a integral para órgão do Jehan Alain. Em casa, a prova dos 9. Pego os Cds do Renaissance, leio encartes de cima abaixo, reviro capas e nada, nem uma referenciazinha....
E aí, plágio? Citação? Intertextualidade? Diálogo? Apropriação?
Não dá para fazer isso com Bach, Brahms, Beethoven, são conhecidos demais, mas um obscuro compositor francês morto na flor da idade na Segunda Guerra...
Tampouco dá para dizer que "não tem nada a ver". Ou, pior, que foi coincidência.
Quem acordar primeiro chama o outro
QUEM ACORDAR PRIMEIRO CHAMA O OUTRO
Quem acordar primeiro chama o outro
eterna senha dos meninos quando
se dormiam pelas casas dos amigos
tão grande a ânsia de nada perder
do dia que infinito se abriria.
Quem acordar primeiro beija o outro
fazemos nosso trato ao sucumbir
exauridos deste primeiro round
(eterna sanha de nós dois meninos)
para que logo o enlace reinicie
exatamente ali onde paramos
o voo deslumbrado em precipício
tão grande a ânsia de nada perder
desta noite infinita que nos veste.
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