Enquanto durmo fico mais cansado
se não te sonho me vem a exaustão
Quando em vigília tenho-te ao meu lado
em pensamento, na palma da mão.
Tá, amor é lençol amarrotado
mas é também ferrugem, cuspe e chão.
Assim findo o noneto em ado e ão.
E assim acaba o dia, inacabado.
(Diga, querida: estou cansado ou não?)
Esta é uma ópera do Janácek que comprei em Praga, já não lembro se dezembro de 1999 ou janeiro de 2000 porque lá fiquei muitos dias. Mas... só fui abri-la agora, nesta semana que passou.
Não sei se influenciado por algo que li no Otto Maria Carpeaux, sua A História da Música Ocidental, em que ele diz que essa é a ópera mais "pesada" do mundo, algo assim, não sei. Eu nem tenho medo de música pesada, pelo contrário. Mas a verdade é que a caixinha ficou lacrada por anos aqui em casa. Aliás, casas, pois se mudou de casa a outra. Lacrada.
Li Recordações da Casa dos Mortos, do Dosta, em temporada no Caraça. Ora, assim é mole (dirão), mas tem que ser assim. Toda manhã me sentava no banco do pátio, lia as tragédias siberianas e podia lavar meus olhos nas serras mineiras. Sobrevivi mole.
Gosto, sem amar, de óperas do Janácek. Gosto de Jenufa, gosto da Raposinha. Esta, no entanto, pareceu-me superiror em muitos aspectos.
Mas ouvi apenas os dois primeiros atos. Não passarão outros doze anos até eu ouvir o resto, prometo.
By the way, a introdução é linda. Nada, nada de pesado.
Ganhei de presente outro dia um poema da Ana. A Ana Cristina César. Depois descobri tratar-se de um soneto, um soneto disfarçado, mal disfarçado, que essa geração não queria saber de sonetos, ou queria, mas cumpria disfarçar essse querer. Não conheço sonetos do Francisco Alvim nem do Armando. Já o Tite de Lemos, bem, o Tite foi aquilo que se viu: um dos meus mestres soneteiros, macaco de auditório que sou.
Depois, pesquisando um pouquim, descubro outro soneto mal disfaraçdo da moça que usava lentes escuríssimas sob os pilotis. Esse mal disfarçado mesmo, ao citar o Jorge.
Quado digo disfarces, não estou absolutamente diminuindo em nada os poemas. Ambos são lindos. E sobre gatos. Arrisco dizer que Ana queria e não queria o rigor. Mas tudo foi tão rápido para ela.
(E o que fazer ao ganhar poema de Ana? Na confusão, respondo com o que tenho às mãos, alegres: "Encontro", do Montale.)
O nome do gato assegura minha vigília
O nome do gato assegura minha vigília
e morde meu pulso distraído
finjo escrever gato, digo: pupilas, focinhos
e patas emergentes. Mas onde repousa
o nome, ataque e fingimento,
estou ameaçada e repetida
e antecipada pela espreita meio adormecida
do gato que riscaste por te preceder e
perder em traços a visão contígua
de coisa que surge aos saltos
no tempo, ameaçando de morte
a própria forma ameaçada do desenho
e o gato transcrito que antes era
marca do meu rosto, garra no meu seio.
morno medida de tua garra,
o formato e as unhas te fazendo,
tuas certezas, teu único sonho, botas e
cobertas que também desfazem teu salto
e se apronta para sobrevoar o campo alheio
e se lançar meio tigre sobre as marcas
que não sabes nem sabes repousar, e os gemidos
de fome em gato não ouças, mas vive
os cantos da casa e os pêlos amedrontados
e a ameaça acordando o nome gasto
e se deita depois num lento revirar ignorado,
torna a escrita e o desenho que ressonam
desconhecidos traços te seguindo.
[d’après Jorge de Lima - Invenção de Orfeu I, XVIII]
Assim como um compositor regendo sua própria obra não é garantia da melhor interpretação, na verdade nem mesmo de uma boa interpretação, nem sempre um poeta lê bem os seus poemas.
Na literatura norte-americana, não gosto da leitura de Frost, nem da de e. e. cummings nem da do Ginsberg.
Mas Sylvia Plath lendo "Daddy" e "The Applicant" é simplesmente assombroso. Dois poemas já perturbadores ganham fortes matizes de sarcasmo e contundência.
Never mind the images (though interesting sometimes). Focus on the words. And the voice.
PS: Segredo, talvez dois: leio estes poemas com meus alunos. Numa ocasião, em que eu propusera que cada um lesse uma estrofe de "Daddy" em voz alta, a aluna responsável pela última se engasga, mal conseguindo ler o verso final. Não é mole. Em outra ocasião, eu tinha colocado a Sylvia para ler. Tão logo ela termina, uma aluna exclama: "My father!" (!!!!)
DADDY
You do not do, you do not do
Any more, black shoe
In which I have lived like a foot
For thirty years, poor and white,
Barely daring to breathe or Achoo.
Daddy, I have had to kill you.
You died before I had time ----
Marble-heavy, a bag full of God,
Ghastly statue with one gray toe
Big as a Frisco seal
And a head in the freakish Atlantic
Where it pours bean green over blue
In the waters off the beautiful Nauset.
I used to pray to recover you.
Ach, du.
In the German tongue, in the Polish town
Scraped flat by the roller
Of wars, wars, wars.
But the name of the town is common.
My Polack friend
Says there are a dozen or two.
So I never could tell where you
Put your foot, your root,
I never could talk to you.
The tongue stuck in my jaw.
It stuck in a barb wire snare.
Ich, ich, ich, ich,
I could hardly speak.
I thought every German was you.
And the language obscene
An engine, an engine,
Chuffing me off like a Jew.
A Jew to Dachau, Auschwitz, Belsen.
I began to talk like a Jew.
I think I may well be a Jew.
The snows of the Tyrol, the clear beer of Vienna
Are not very pure or true.
With my gypsy ancestress and my weird luck
And my Taroc pack and my Taroc pack
I may be a bit of a Jew.
I have always been scared of you,
With your Luftwaffe, your gobbledygoo.
And your neat mustache
And your Aryan eye, bright blue.
Panzer-man, panzer-man, O You ----
Not God but a swastika
So black no sky could squeak through.
Every woman adores a Fascist,
The boot in the face, the brute
Brute heart of a brute like you.
You stand at the blackboard, daddy,
In the picture I have of you,
A cleft in your chin instead of your foot
But no less a devil for that, no not
Any less the black man who
Bit my pretty red heart in two.
I was ten when they buried you.
At twenty I tried to die
And get back, back, back to you.
I thought even the bones would do.
But they pulled me out of the sack,
And they stuck me together with glue.
And then I knew what to do.
I made a model of you,
A man in black with a Meinkampf look
And a love of the rack and the screw.
And I said I do, I do.
So daddy, I'm finally through.
The black telephone's off at the root,
The voices just can't worm through.
If I've killed one man, I've killed two ----
The vampire who said he was you
And drank my blood for a year,
Seven years, if you want to know.
Daddy, you can lie back now.
There's a stake in your fat black heart
And the villagers never liked you.
They are dancing and stamping on you.
They always knew it was you.
Daddy, daddy, you bastard, I'm through.
THE APPLICANT
First, are you our sort of a person?
Do you wear
A glass eye, false teeth or a crutch,
A brace or a hook,
Rubber breasts or a rubber crotch,
Stitches to show something's missing? No, no? Then
How can we give you a thing?
Stop crying.
Open your hand.
Empty? Empty. Here is a hand
To fill it and willing
To bring teacups and roll away headaches
And do whatever you tell it.
Will you marry it?
It is guaranteed
To thumb shut your eyes at the end
And dissolve of sorrow.
We make new stock from the salt.
I notice you are stark naked.
How about this suit----
Black and stiff, but not a bad fit.
Will you marry it?
It is waterproof, shatterproof, proof
Against fire and bombs through the roof.
Believe me, they'll bury you in it.
Now your head, excuse me, is empty.
I have the ticket for that.
Come here, sweetie, out of the closet.
Well, what do you think of that ?
Naked as paper to start
But in twenty-five years she'll be silver,
In fifty, gold.
A living doll, everywhere you look.
It can sew, it can cook,
It can talk, talk , talk.
It works, there is nothing wrong with it.
You have a hole, it's a poultice.
You have an eye, it's an image.
My boy, it's your last resort.
Will you marry it, marry it, marry it.
O Ministério da Saúde adverte:
cuidado precaução cautela com
teus olhos e tudo o que deles verte:
luz dardos besourinhos aconchego.
Não sei que faço então, se passo ao largo
ou se cerro os meus para os teus não ver.
É tudo em vão, se mesmo sob as pálpebras
se mesmo em árvores, paredes, brisa
mesmo na superfície de outras faces
rostos antigos das rotinas ásperas
ou novos em instantes tão fugazes
são teus olhos ainda que estou a ver.
Cuidado, garota, que vou dar parte
desses olhos que estão em toda a parte.
Um dos meus poetas diletos é o Tite de Lemos, da geração da Ana e do Armando. Por causa dele decidi que também eu teria o meu livro só de sonetos. Por causa do Jorge de Lima também, e do Carlos Nejar e do Sérgio Campos, mas mais por causa dele e para que não pairassem dúvidas copiei-lhe desabridamente o nome do seu Caderno de Sonetos. Depois veio o Outros Sonetos do Caderno. Seus sonetos têm tudo que amo: o respeito à e a rasteira na forma. Forma always, fôrma never. Rigor. Inda que embriagado, rigor. Um lirismo absurdo. Mas com humor. Ler poesia sorrindo.
Pois bem, faltava-me um seu livro em minha coleção, o Marcas do Zorro. Não mais, que o encontrei na Berinjela na sexta-feira passada. E por apenas 15 berinjelas. Detalhe: autografado.
Depois subi o Morro de Santo Antônio. Ao descer tomei chopes no Café e Bar Real na Carioca, amparado por um sanduba de pernil. À frente as igrejas lindas o céu e a brisa. Depois apareceram dois repentistas arretados.
E tem gente que diz que não há Deus.
SONETO
Tite de Lemos
14 tortuosas linhas, 13
labirintos sem fim e sem começo,
12 portas lacradas, 11 vezes
forçadas, talvez 10, até me esqueço.
9 questões de lógica celeste
ou 8 jogos de adivinhação,
7 ou 6 tentativas, todas vãs,
de escutar o que ainda não disseste.
5 metáforas jogadas fora
quando quero dizer-te que te adoro.
4 rimas rebeldes, 3 tropeços,
2 tombos e no entanto, finalmente,
nada que não pudesse resolver-se
em 1 simples bilhete adolescente.
A revista O Globo de hoje traz em sua matéria de capa um texto sobre os cobogós: "Loucos por Cobogó". Ora, conforme escrevi aqui, cobogós são um dos meus principais interesses em botequins. Assim, tenho já reunidas dezenas de fotos da presença destes queridos (sim, sou um louco por cobogó) nos botequins do Rio e Niterói.
A reparar que as fotos aqui selecionadas, sem grande rigor, ilustram a grande variedade de cores, desenhos, tipos e mesmo funções que os cobogós podem ter nos botequins. Quando próximos a azulejos (e quase sempre o estão), o efeito é espetacular. Se próximos a um Nilton Bravo (como no açougue, sim, é açougue, na Lapa) ou a paineis de azulejos (como o outro da Lapa e o do Méier), aí o bicho pega mesmo...
Não acredito ser possível acercar-se da música de Michael Nyman senão com absoluto desprendimento, fervorosa paixão e cega obsessão.
Reparem que não peço muito.
Qualquer outra forma de aproximação será impostora.
O lançamento, ano passado, de seu primeiro disco (1981), permite-nos bem mais que o contato com a formação de um artista e essas coisas de genética. Permitiu-nos, dentre outras, o conhecimento deste absurdo que se chama "Bird List", inicialmente composta para trilha do The Falls, do Peter Greenaway.
Sim, era a época da dobradinha Nyman-Greenaway, que ainda haveria de render as obras-primas A Zed and Two Noughts, Drowning by Numbers, Prospero's Book e The Cook the Thief, his Wife and her Lover.
Nesta peça encontramos Nyman em duas de suas obsessões. Pelo menos. O gosto pela enumeração e o uso de uma soprano em um registro altíssimo, como mais tarde apareceria em "Memorial", de The Cook, em "L'Escargot" de A Zed e no movimento "Images were Introduced", de The Kiss.
Dir-se-ia uma voz vitricida.
Dir-se-ia voz logicida, que endoidece e nos faz repetir a audição até ser posível a solução do mistério. Thank God ainda estamos longe de qualquer solução. Seguimos ouvindo. Absoluto. Fervoroso. Cego.
A peça entrou para o repertório. Está no Live. Mas Mike retirou a voz e a guitarra elétrica. Compreensível que tenha retirado a guitarra, pecaminosa a retirada da voz vitricida.
Compensou com uma aligeirização no tempo e um uma forte carga nos metais.
Não direi jamais que ficou melhor. Mas continuou maravilhosa.
Sobre esta ponte absurda
onde veículos lentos e assassinos
se arrastam tediosamente rumo ao tédio
deixando atrás de si um visgo negro
que chuva alguma jamais apagará
sobre esta ponte torcida pela escoliose
trinta e sete gaivotas
pregadas ao cinza escrínio
confabulam
e hesitam
-- olhos rotos pela salsugem e fuligem --
entre o suicídio coletivo
e um voo maior para o ventre do céu
Especially when the October wind
With frosty fingers punishes my hair,
Caught by the crabbing sun I walk on fire
And cast a shadow crab upon the land,
By the sea's side, hearing the noise of birds,
Hearing the raven cough in winter sticks,
My busy heart who shudders as she talks
Sheds the syllabic blood and drains her words.
Shut, too, in a tower of words, I mark
On the horizon walking like the trees
The wordy shapes of women, and the rows
Of the star-gestured children in the park.
Some let me make you of the vowelled beeches,
Some of the oaken voices, from the roots
Of many a thorny shire tell you notes,
Some let me make you of the water's speeches.
Behind a pot of ferns the wagging clock
Tells me the hour's word, the neural meaning
Flies on the shafted disk, declaims the morning
And tells the windy weather in the cock.
Some let me make you of the meadow's signs;
The signal grass that tells me all I know
Breaks with the wormy winter through the eye.
Some let me tell you of the raven's sins.
Especially when the October wind
(Some let me make you of autumnal spells,
The spider-tongued, and the loud hill of Wales)
With fists of turnips punishes the land,
Some let me make you of the heartless words.
The heart is drained that, spelling in the scurry
Of chemic blood, warned of the coming fury.
By the sea's side hear the dark-vowelled birds.
Tem que ser muito macho pra segurar Dylan Thomas pelos chifres.
O Ivan Junqueira é.
SOBRETUDO QUANDO O VENTO DE OUTUBRO
Sobretudo quando o vento de outubro
Castiga-me os cabelos com álgidos dedos,
E eu, sobjugado pelo sol, caminho entre as chamas
E deito uma garra sombria sobre a terra,
Junto à orla do mar, ouvindo o ruído dos pássaros
E a tosse do corvo nos ramos do inverno,
É que estremece o meu convulso coração quando ela fala
E verte o sangue silábico, ou então se cala.
Enclausurado assim numa torre de palavras, esboço
No horizonte, ao caminhar como as árvores,
As formas verbais das mulheres e, no parque, as filas
de crianças cujos gestos se assemelham às estrelas.
Há quem suponha que eu te criei das faias vocálicas,
Das vozes dos carvalhos, ou que te dê notícias
A partir das raízes de províncias espinhosas.
Há quem suponhas que eu te criei da linguagem das águas.
Atrás de umas jarra de feno, o relógio balouçante
Diz-me a palavra das horas, o significado nervoso
Flutua sobre o disco do pêndulo, declama a manhã
E anuncia a tempestade no cata-vento.
Há quem suponha que eu te criei dos indícios da campina;
A erva memorável que me diz tudo o que sei
Irrompe através do olhar com o inverno cheio de vermes.
Há quem suponha que eu te conte os pecados do corvo.
Sobretudo quando o vento de outubro
(Há quem suponha que eu te criei de magias outonais,
Da saliva das aranhas ou das sonoras colinas de Gales)
Flagela a terra com punhos de tubérculos,
Há quem suponha que eu te criei das palavras sem coração.
Exauriu-se o coração que, renunciando ao tumulto
Da química do sangue, se acautelou contra a fúria que desponta.
Junto à orla do mar, escuta as negras vogais dos pássaros.
Há não muitos dias publiquei aqui o poema "Nós, Passarinho", em que trato (ou aquele impostor que se faz passar por meu eu-lírico) de um passarinho que canta no Clube Português, para alegrias minha e de Dante. Uma das tônicas do poema reside em nossa cumplicidade ante um mistério, mistério que a vida nos emprestou.
Mas não é que... descobri a graça do danado do passarinho? Graças ao querido vizinho Seu Francisquinho, que sempre brinca um monte com o Dante quando o encontra, descobri tratar-se de uma choca.
Aí, recorri ao meu Ornitologia Brasileira, obra monumental de Helmut Sick em 2 volumes que jamais me tivera importância assim tão pontual. Não sei que choca é aquela, se a de-chapéu-vermelho, se a d'água, se a barrada, se a listrada, se a bate-cabo, se a da-mata, se a de-asa-vermelha ou ainda se a choquinha-lisa ou choquinha-estriada ou a de-flancos brancos. Não sei. O que, graças, mostra que o segredo não foi de todos desvendado.
Uma das coisas mais legais dos livrões é a maneira como Helmut descreve o canto das criaturinhas de Deus. Para a choquinha-de-peito-pintado, Dysithamnus stictothorax, ele diz: " voz: tschürr (chamada); tschraü (advertência); sequencia descendente e vagarosa, no fim descendente e acelerada, à feição de Thamnophilus (canto)."
Eu, ai de mim, ornitólogo amador, apenas descrevi como....
É um trinar que a si próprio repete
é canto que a si mesmo ecoa
bolinha de borracha quicando
no vácuo do infinito
gotinhas descalças pingando
um piazinho tonto
sete sílabas se estalando.
Pra quem se lembra do Ser Invisível, partes 1, 2 e 3. Segue abaixo o texto que Luna, revoltada, escreveu outro dia.
Não tivesse o menino tido já milhares de crises epilépticas, não tivesse ele Síndrome de West e neurofibromatose, não tivesse ele harmatomas próximos ao hipocampo, talvez viessem visitá-lo, talvez trouxessem presentes, levassem-no para passear.
Como o caso é o caso, seus fins de semana são especialmente solitários, por mais que pai e mãe, às vezes exaustos, tentem distraí-lo.
Afinal, quem se interessa? Quem, tios e tias e primos e primas e madrinhas e padrinhos? Não é muito melhor tomar cerveja, ir a churrascos, jogos de futebol, shoppings, academias, esfregar-se em bancos de igreja -- não é preferível isso tudo a visitar seu primo / sobrinho / afilhado retardado?
E assim a criança que mais precisa de estimulação, de experimentar situações diferentes, é a que menos tem. Fosse ele normal, sim, vinham, tiravam fotos e postavam no Face.
Em almoço dia desses com amiga, ela me falou que não não tem coragem de rever o filme Fim de Caso, para ela da série "O Ministério da Saúde Adverte". A música, como o sabemos, é do Michael Nyman. Engraçado que estava ela outro dia ouvindo a trilha de Carrington quando sua filha pequenina, Bioca, lhe pediu que tirasse... porque... aquela música 'dava paixão'. Carrington, filme e música, também estão, para ela, no Índex do Ministério da Saúde. Não posso dizer o mesmo: é pegar meu iPod e constatar o absurdo de vezes que já ouvi a trilha, sempre, claro, a partir de "Floating the Honeymoon" (by the way, a música que deu paixão na Bioca).
Também eu tenho minhas perigosas, evitadas, Ministério da Saúde Adverte. Isso varia, claro, e pode ir desde os grandiosos, como Mahler (desde sempre) a coisas mais triviais como "I've Seen All Good People" (Yes), "Where's my Love?" (Blackfield) e "Sonno" (Il Volo).
E hoje peguei pelos chifres uma dessas: o segundo movimento (Largo) da Sexta Sinfonia do Prokofiev. Daquelas que amo tanto que não ouso ouvir. Mas Dante madrugara, estava inquieto, eu só e aí quer saber? molhado, molhado e meio. Peguei a caixinha com a integral pelo Seiji Ozawa, primeiro CD, faixa 6. Se ora escrevo (e ouvindo-a novamente), será para provar que sobrevivi. Música grandiosa, das esferas. Não é tão extática como um adágio de Mahler, tem lá sua inevitáveis e maravilháveis dissonâncias, mas triste, mas triste de não ter jeito.
Engraçado que das sinfonias de Prokofiev lembram da primeira (porque é clássica e "simples"), da terceira (porque tem material de O Pássaro de Fogo) e da quinta (porque é o que é). Minha preferida é esta, a Sexta, mas também só até o segundo movimento. O terceiro, circense, ultrafestivo (música para o proletariado, Sergei?), dispenso. Ficasse ela aqui, Unvollendete, já estaria perfeita.
SONNET FOR TIPSY OU DA ARTE DE SE ADOÇAR O CHÁ # 2
Tua presença nas fotos faz eclipse
aos pobres outros que por lá estão
mas pedes clareza, menos elipses
responde-te apenas, amor, que em ti
pensei uns bons pedaços: rés-do-chão
ao telhado do dia. E tu, tipsy,
me escala e cala-me a boca com a tua
lábia tão fermentada de poesia
que, lá sei, já nem lembro o que queria
te dizer: sei que ladram nesta rua
os meus desejos que te sonham nua
quase uma gueixa a oferecer-me chá
de amora, de mirtilo, um maná
se apenas por teus lábios adoçado.