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Thursday, May 09, 2019

Morrer talvez seja voltar para a poesia :: A Morte de Maria Behú


Qualquer leitor apaixonado do Rosa terá dificuldades em escolher qual a morte mais triste, mais tocante, mais inesquecível, se a de Diadorim, se a de Dito. O público em geral (sim, estou sendo um pouco esnobe, mas só um pouco) ficará com a de Diadorim, mais pela popularidade de Grande Sertão.

Eu não consigo escolher, porque dificulto tudo colocando na lista a de Maria Behú, no final (todas as mortes ocorrem no final) deste monumento que é a novela (romance?) "Buriti", que magistralmente encerra o ciclo do Corpo de Baile.

A de Diadorim nos dói porque a acompanhamos por toda a torrente do Grande Sertão, conduzidos justamente por quem mais a amou, Riobaldo. A do Dito nos dilacera (eu não posso nem lembrar, como o Miguel, seu irmão crescido, diz : "não posso demorar o pensamento nele. Tenho medo de sofrer") porque ele é uma criança, uma criança perfeitinha demais.

Com Maria Behú, "tisna, encorujada, com a feiíce de uma antiguidade", tudo é mais complicado, por não ser cativante, por parecer que só existe para ressaltar o esplendor de sua irmã Glorinha.

Mas não foi por compaixão que ontem chorei a água de dois cocos (re)lendo seu encantamento:

"Meu Deus, e aquilo se dera, atroz, tenramente, na noite, na calada. E era possível! Maria Behú, sem perfil, os olhos fechados, nos lábios nem sofrimento nem sorriso, e a morte a embelezara. Partira, na aurora. (...) Ela se fora antes. Todos, enquanto vivendo, estão se separando, para muitos diferentes lugares. Maria Behú, também princesa.

(...)

O Chefe ainda não soubera da morte de Maria Behú; quando disseram a ele, então foi depositar o caneco num degrau, e chorou muito.

(...)

Lalinha se lembrava -- uma ideia, que na ocasião não criara sentido. E, agora, era capaz de não chorar por Behú -- tanto a amava, tanto a compreendia, de repente. E aquilo, sem razão nenhuma nem causa, sim: -- Morrer talvez seja voltar para a poesia..."

Monday, March 11, 2019

A gente nunca podia apreciar as coisas bonitas

Rio Tupana-AM

Verdade consabida, porém não menos extraordinária esta história de que a viagem continua, forte, após o regresso, quando então formamos dela mínimo entendimento. Não sei se sempre ou quase, desnecessário precisar.

Me vem à cabeça um trecho lindo de "Os Cimos", conto que encerra as assombrosas primeiras histórias do Rosa:

"Que a gente nunca podia apreciar, direito, mesmo, as coisas bonitas ou boas, que aconteciam. Às vezes, porque sobrevinham depressa e inesperadamente, a gente nem estando arrumado. Ou esperadas, e então não tinham gosto de tão boas, eram só um arremedado grosseiro. Ou porque as outras coisas, as ruins, prosseguiam também, de lado e do outro, não deixando limpo lugar. Ou porque faltavam ainda outras coisas, acontecidas em diferentes ocasiões, mas que careciam de formar junto com aquelas, para o completo. Ou porque, mesmo enquanto estavam acontecendo, a gente sabia que elas já estavam caminhando, para se acabar, roídas pelas horas, desmanchadas..."



(E a legenda para a foto retiro-a de um soneto do Afonso Félix  de Sousa:
"Ela ia macambúzia e lenta como um cágado.
A cada flor ou lua ela se dava inteira.")

Vinícius de Manaus :: Crônicas Amazonenses I



Há 45 anos, numa sexta-feira 13 de setembro, Vinícius de Moraes esteve em Manaus acompanhado do Toquinho e do Quarteto em Cy para duas apresentações musicais. A do primeiro dia começava à meia-noite, o que deixava ao poeta tarde imensa com varanda se espraiando para o começo da noite. Vinícius aproveitou-a no Bar Caldeira, no coração da cidade, bem atrás do Teatro Amazonas, em companhia dos boêmios da capital.

O bar continua lá, com poucas modificações. Não por acaso, tornou-se em 2015 patrimônio imaterial, junto com o Jangadeiro e Bar do Armando, outros dois redutos dos pinguços manauaras.

Nas paredes, a reprodução de um bilhete do Vinícius e a foto extraordinária.

Encontramos com o homem de paletó escuro que sorri ao lado de Vinícius. Parece que de 1974 até hoje ele saiu do bar apenas duas ou três vezes.

O que já justificaria também o seu tombamento.









Friday, February 22, 2019

O Nilton Bravo no (Ex-) Maior Restaurante Popular do Rio de Janeiro


No final do ano passado encontrei em romance de Antonio Callado a descrição de um Nilton Bravo (aqui) e eis que ele ressurge, nominalmente citado, no conto "São Cristóvão", uma maravilha de Victor Giudice (de quem também já tratei aqui) do livro Do Catálogo de Flores.

Vamos aos fatos.

O narrador está empenhado em travar contato com a misteriosa figura de Pedro Maravella, que enfim o convida para um chope:

Outra hora a gente conversa. Eu moro no trinta e quatro da rua da Quinta. Se você estiver interessado, passa lá no sábado, às cinco da tarde. Depois a gente sai e vai jantar no Sereia. Conhece o Sereia? Fica ali na Elpídio Boa Morte, perto da Praça da Bandeira. Nunca foi lá?

Antes que eu respondesse ele completou:

-- Vamos lá no sábado comer sardinha frita. Você vai gostar. 

Poucas páginas depois, os dois se reencontram:

Partimos para o Sereia, um dos maiores restaurantes populares do Rio de Janeiro. O Sereia tinha noventa e oito mesas, dispostas de maneira semelhante às abcissas e ordenadas da geometria cartesiana. Ao fundo ficava o palco, onde um cenário único destacava a copa, a caixa registradora e um ir-e-vir incessante de garçons equilibrando bandejas pesadas de tulipas de chope ou pratos de sardinhas fritas fumegantes, que o Farofa chamava de "putas de cartola". Tudo isso acontecia sobre um paredão que fazia as vezes de um ciclorama gigantesco ostentando uma sereia de cada lado, pintada a óleo, nas medidas que seriam as prováveis de uma sereia em tamanho natural. O pintor, Nilton Bravo, espalhou sua arte por mil botequins do Rio.

********

O caso, aqui, é mais sério. Não foi só o Sereia que deixou de existir, mas toda a rua, restringindo-se, até onde pude apurar, a um pequeno trecho inominado entre a Leopoldina e a Escola de Circo, próxima do enorme portão do Matadouro onde acamparam as famílias expulsas do Morro do Castelo. 

O que é bem a cara da história (soterrada viva) do Rio.

PS: A foto é de uma outra sereia, de um café e bar na Ronald de Carvalho, em Copacabana. Faz parte do meu catálogo de flores, digo, de sereias.

Wednesday, February 20, 2019

(Minha) Vida de Menina


Fosse necessário provar importância de Minha Vida de Menina (1942), da Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant : ensejou a uma inteligência da envergadura de Roberto Schwarz o delicioso Duas Meninas, pequena obra-prima da crítica brasileira, em que aproxima as figuras da menina do diário e a de Capitu. E aí traça o painel devastador da nossa infeliz sociedade emproada e patriarcal, a mesma que defende e elege bolsonaros da vida.

Fosse necessário mais um pouco: foi traduzido para o inglês pela Elizabeth Bishop e daí criou asas e rompeu as clausuras de Diamantina e Rio de Janeiro. Bishop encontrou no diário secreto encanto, como Drummond e Rosa.

E tem ainda o filme de Helena Solberg, lançado em 2004. Não se espere dele ênfase no enredo, se baseado no diário da menina que tanto reclama da mesmice de enredos de sua vida e de sua cidade. Podia descair para a pieguice, não o faz. Podia desandar na cor local, que dribla. Filme sensível e exato, brisas, viração, das asas de uma abelha.

Fosse necessário ainda: a trilha é do Wagner Tiso.

Monday, February 04, 2019

Frida : O Coração qual cama de dossel



Tendo Frida Kahlo se tornado espécie de ícone pop mundo afora, não surpreende sua ubiquidade em seu país. Ou seja, a pintora não é dos profetas nunca reconhecidos em sua própria terra, estando presente em todas as cidades mexicanas que visitamos. A casa em que ela nasceu e viveu com Diego Rivera é dos museus mais visitados, e estamos falando da cidade que, simplesmente, é a que tem mais museus no mundo.

A visita à Casa Azul, no delicioso bairro de Coyocán, vale? Por óbvio. Talvez nem tanto pelas pinturas ali presentes, mas por tudo que tem de encantatório e evocativo.

Uma pouco com as casas de Neruda (aqui) ou a de Jorge Amado e Zélia no Rio Vermelho.

E é preciso visitá-la, à Frida e à casa, para melhor acercar-se do poema que Marty McConnell escreveu-lhe.


Frida Kahlo to Marty McConnell


leaving is not enough; you must
stay gone. train your heart
like a dog. change the locks
even on the house he’s never
visited. you lucky, lucky girl.
you have an apartment
just your size. a bathtub
full of tea. a heart the size
of Arizona, but not nearly
so arid. don’t wish away
your cracked past, your
crooked toes, your problems
are papier mache puppets
you made or bought because the vendor
at the market was so compelling you just
had to have them. you had to have him.
and you did. and now you pull down
the bridge between your houses.
you make him call before
he visits. you take a lover
for granted, you take
a lover who looks at you
like maybe you are magic. make
the first bottle you consume
in this place a relic. place it
on whatever altar you fashion
with a knife and five cranberries.
don’t lose too much weight.
stupid girls are always trying
to disappear as revenge. and you
are not stupid. you loved a man
with more hands than a parade
of beggars, and here you stand. heart
like a four-poster bed. heart like a canvas.
heart leaking something so strong
they can smell it in the street.











Sunday, December 02, 2018

Um Beiral para os Sabiás


Ontem fui à Feira do Subsolo da Livraria Berinjela, um dos melhores programas para as manhãs cariocas de sábado (aqui). Como sempre, não voltei de mãos vazias ou não teria estado lá: Outras Cores, de Pamuk; Teatro, de Bernardo Carvalho; A Inglesa Deslumbrada, de Fernando Sabino.

Dos três, o que ora enseja postagem e início de coleção é este último: primeira edição de 1967, capa da Ziraldo, Editora Sabiá.

A Editora Sabiá é uma dissidência da Editora do Autor, tocada por Fernando Sabino e Rubem Braga. Durou 'apenas' seis anos, de 1966 a 1972, mas que anos! e quanta história!

Basta dizer que, em 13 de dezembro de 1968, Sabiá planejou lançamento de quatro livros no MAM. Coisinha pouca: Márcio Moreira Alves, Dom Hélder Câmara, Che Guevara. E Roda Viva, do Chico.

Justo no dia em que os vermes baixaram o AI-5. O lançamento, por óbvio, nunca aconteceu.

Começo a minha coleção de primeiras edições da Sabiá, de que já tenho exemplares, inclusive edição autógrafa do Vinícius (aqui).



Monday, November 19, 2018

A Era da Ansiedade


Bar Don Juan (1971) , romance de Antônio Callado que tematiza a malograda tentativa de um grupo desunido para pôr fim à ditadura então mais violenta que nunca, é divido em três partes, em que se espraiam 12 capítulos.

A serendipity aqui é que comprei o livro (a primeira edição numa rua do Leblon) justo quando ouvia muito Bernstein, pelo centenário.

E as epígrafes são justo retiradas de The Age of Anxiety (1947), de W. H. Auden, que Bernstein musicou já no ano seguinte na peça que seria a sua segunda sinfonia.

E tudo tão ligado a novembro de 2018, a era da ansiedade.


Parte1

"When the historical process breaks down... when necessity is associated with horror and freedom with boredom, then it looks good to bar business"

Parte II

"I must go away with my terrors
until I have taught them to sing."

Parte 3
But we mustn't, must we? Moses will scold
If we're not all there for the next meeting
     At some brackish well or broken arch,
                                         Tired as we are."





Saturday, November 17, 2018

Callado e Meu Avô


Escrevi recente sobre o romance Don Juan (1971), de Antônio Callado, para tratar, feliz, da referência, logo nas primeiras páginas, a um quadro, a um qualquer quadro, de Nilton Bravo em um botequim (aqui).

O romance, por óbvio, merece lembranças e postagens por outros diversos motivos. Ele começou bem (e não apenas pelo Nilton Bravo), depois esfriou, mas terminei de olhos molhados.

Havia um folclore entre os von Sydow que quando Callado esteve preso no terrível quartel da Barão de Mesquita, meu avô, que morava ali perto na Rua Uruguai, foi visitá-lo. Callado de fato foi preso, em duas ocasiões, e teria dito a meu avô que foi dele sua única visita recebida.

Biruta do jeito que meu avô era (aqui), não duvido que ele tenha subestimado os riscos e de fato ido, a pé, visitá-lo.

A postagem é para dizer isso. Era para outra coisa, era pra falar das epígrafes do livro, retiradas do Auden, mas botei meu avô no meio e agora já acho que isso inunda a postagem inteira.

Saturday, November 10, 2018

O Tio de Guimarães Rosa e Joãozito


O dia amanheceu nublado e foi abrindo. Dante já saudoso de piscina e pracinha, irritado irritável na manhã de sábado. Apostei num passeio que sói dar certo: o 606 até o ponto final; de lá, o VLT até a Praça XV, onde tomamos sundae de chocolate no Bob's. Depois passeamos pela feira que amo e isso é mais pra mim que pra ele que então ficou irritadíssimo. Na barraca de livros vi belíssimo de azulejos portugueses modernos e outro de capas de livros no Brasil, mas o pequeno era tão irritado que tive que me retirar para achar banheiro, conversar, acalmar.

Quando voltei, coisa de quinze minutos, o de azulejos já fora vendido!!! Mas descobri outro, quieto em seu canto, do tio do Guimarães Rosa, primeira edição autografada de 1972, justo sobre a infância de Rosa, eterno Miguilim. O mais precioso é: o livro tem correções à mão, com certeza do próprio autor. Correção até errada: o tio setentão cansado coloca o 'João' do sobrinho antes da preposição.

Depois escrevo sobre o livro. De qualquer modo, fui dormir ontem sem saber que isso existia.

O dia amanheceu tão nublado e abriu de todo




Wednesday, November 07, 2018

Um Nilton Bravo em Antônio Callado


Começa muito, muito bem Bar Don Juan, romance de 1971 de Antônio Callado. Em pleno anos-chumbo pós-AI-5 tem que ter culhão para iniciar uma obra com dois personagens, os lindos João e Laurinha, relembrando em seu apartamento em Santa Teresa a tortura e o estupro que esta sofrera nas mãos de um torturador de nome Salvador.

João vai em seu encalço na Polícia Central na Rua da Relação. De tocaia no Bar Atlas, botequim na Rua dos Inválidos aonde os policias iam tomar café, o que João encontra?

"E muitos comiam ali também, na base do ovo duro e do sanduíche de pernil com uma cerveja, sentados nas cadeiras azuis do bar, de armação metálica. Tomando seu primeiro cafezinho no Atlas, João não viu ninguém que pudesse ser Salvador. Voltou na manhã do dia seguinte, para uma média com pão torrado, e deixou-se ficar um tempo à mesa (...) Voltou à mesa e, como quem faz cálculos de cabeça, deixou vagar os olhos pelo mural do botequim, um grande lago enluarado, bordado de salgueiros, com um misterioso castelo à direita e dois cisnes se beijando entre nenúfares"

João encontra um Nilton Bravo, no qual descansa atormentados olhos.

Callado é fiel -- e isso nem é mérito ou demérito -- ao Rio factual do final dos 60. Provável que o Atlas tenha de fato existido. Não deixou traços, não consta do inventário de João Antônio (aqui) e muito menos (*sigh) constará do meu (aqui). Permanece, no entanto, eterno. Intacto, suspenso no ar.


Sunday, October 28, 2018

Perdi (ganhei) um livro


Às nove da manhã (eran las nueve en punto de la mañana) postamos no face (essas nossas ninhices) foto de livros que poderíamos levar debaixo do braço para votar no Haddad. Eram eles: Sartre, Drummond, Neruda, Moacyr Felix, uma coletânea sobre a Guerra Civil Espanhola, outro sobre resistência indígena, um em xhosa sobre Mandela e um coelho.

Isso foi às 9. Às 9:30 eu não tinha mais meu Neruda, esquecido no banco do 232.

Saí tão atarantado (ainda estou) com esta eleição que, sim, deixei o livro sobre o banco do ônibus quase vazio que peguei para votar. Só percebi na hora mesmo de me dirigir à cabine.

O primeiro sentimento é de perplexidade. Depois, chateação. O livro foi presente de Natal que me dei em 1986, comprado na Feira do Livro do Largo do Machado. Mas logo percebo que não é nenhum desastre, pelo contrário. Era livro que tinha história e perdê-lo assim só o aumenta. Porque imagino, ainda em Vila Isabel, a Maria Vitória abrindo-o e lendo "Não se perdeu a vida, irmãos pastorais" e deixando-o de volta no banco para que, no Maracanã, o Felipe o abra para ler "Na fertilidade crescia o tempo". Foi devolvê-lo ao banco para que o Sérgio, na Praça da Bandeira, lesse "A poderosa morte me convidou muitas vezes / era como o sol invisível nas ondas". Na Presidente Vargas será a surpresa Pietra que o colherá para ler "Hoje à tua boca venho, hoje a teu rosto". 

E antes ainda que o 232 chegue ao ponto final, será a Laura que o abrirá para ler:

"Feliz ano-novo para minha pátria em trevas".

Monday, October 01, 2018

TUTAMÉIA Ou Como um Fraquejada derrota os Truculentos



Foi seu amigo Paulo Rónai quem disse, acerca de Tutaméia, que "cada qual descobrirá dentro das quarenta histórias a sua, a que mais lhe desencadeia a imaginação", ficando ele mesmo ("Seja-me permitido citar as duas que mais me subjugaram pela sua condensação") com "Antiperipléia" e "Esses Lopes".

Acabei de ler Tutaméia pela terceira vez. Na primeira, em 88, fiquei aturdido demais e talvez seja apropriado dizer que não é livro para se iniciar em Rosa, mas mais apropriado é que não há o livro para se iniciar em Rosa. A segunda, sete anos depois, foi profunda. Mas porventura interessada demais: era livro para o ingresso no mestrado na PUC-Rio. A terceira foi esta, totalmente desinteressada, naquela hora entre 6 e 7 da manhã, papagaios e sabiás em algazarra por sobre meu ombro esquerdo.

Eu amei essa nonada toda, esses ossinhos de borboleta, eu quero agora voltar pro Serro.

E "Esses Lopes", o que é isso? Como sublinha com exatidão estes nossos dias, como deve inspirar a quem quiser lutar contra a misoginia chancelada por grande parte da população. (Ver aqui)



Má gente, de má paz; deles, quero distantes léguas

Quero falar alto

Com eles, nenhum capim, nenhum leite.

Ainda achei o fundo do meu coração

Regi de alisar por fora a vida

Custoso que nem guardar chuva em cabaça, picar fininho a couve


Que em meu corpo ele não mexa fácil

#EleNão :: Machismo Escorraçado às Dentadas em Tutaméia


De todo redundante defender a permanência de Guimarães Rosa no atual panorama das letras brasileiras. Mas a atualidade de "Esses Lopes", décima estória de Tutumaéia, no panorama social, político e, vá, literário brasileiro, é veramente assombrosa.

Senão vejamos.

O conto trata de mocinha de nome Flausina, mas ela nem gosta do nome, queria chamar-se Maria Miss. Assediada, menina ainda, por um Lopes, "má gente, de má paz", ela é enfim estuprada e arrastada para sua companhia. Seus pais nada podem fazer.

Flausina aguenta o repuxo (Ninguém põe ideia nesses casos: de se estar noite inteira em canto de catre, com o volume do outro cercando a gente, rombudo, o cheiro, o ressonar, qualquer um é alheios abusos), mas faz suas tramas e suas beberagens: mata o bruto.

Varri casa, joguei o cisco para rua, depois do enterro.

Depois vêm outros dois Lopes, irmão e primo do brutamontes primeiro. Maria Miss enreda a ponto de colocá-los em duelo mortal. Não sem antes fazer seu pé-de-meia.

Vem o velho, o patriarca e, assegurada de que agora "só muito casada", dá a ele o que ele pedira: "gordas, temperadas comidas, e sem descanso agradadas horas".

O velho morre da morte macaca.

Uma mocinha, uma fraquejada, derrota toda a raça dos Lopes: UM PAI E TRÊS FILHOS.

Hoje vive com seu amor, não quer nem os filhos perto de si (também são Lopes), quer o bom-bocado, quer gente sensível, pois achou o fundo do seu coração.


Quero falar alto. Lopes nenhum me venha, que às dentadas escorraço.




Esta postagem continua aqui

Saturday, September 29, 2018

Serendipity II :: (Ainda) Cajus


Na manhã de segunda-feira Camila e eu conversamos sobre Vinícius de Moraes, suas fases, faces, frases, o epíteto 'poetinha' carinhoso e pejorativo, o fato de eu ter tido nas mãos, num sebo em Fortaleza em janeiro de 1992, a primeira edição de seu primeiro livro e não ter comprado. Nada demais, mas foi, pelo que lembre, a vez primeira em que falamos dele por sobre nossos nescafés com leite.

Pois.

Aí, à noite, no lançamento do Pedro Tostes, conheço Daniel Gil, que publicara, no primeiro semestre deste ano, A Poesia Esparsa de Vinícius de Moraes: Uma Leitura de Inéditos e (Des)conhecidos. Eu já tinha ouvido falar neste lançamento, mas não atentara para o autor.

Claro que foi serendipity. Das grossas.

Ainda mais porque o último poema do livro é um "Soneto ao Caju" e foi sobre caju a primeira serendipity do blog (aqui).

Outra: pensando nesta postagem, perguntava-me, com alguns fumos, se seria esta a primeira vez que o soneto iria para a rede. Fui checar. Não é a primeira vez, já teve publicação, inclusive num blog que traz por epígrafe a frase de Einstein sobre o 'silêncio dos bons'. Frase que me viera à mente há pouco quando pensei nas manifestações de logo mais na Cinelândia.

Claro que foi serendipity. Para todos os efeitos, consulte-se "A Escova e a Dúvida", um dos prefácios de Tutaméia


Amo na vida as coisas que têm sumo
E oferecem matéria onde pegar
Amo a noite, amo a música, amo o mar
Amo a mulher, amo o álcool e amo o fumo.

Por isso amo o caju, em que resumo
Esse materialismo elementar
Fruto de cica, fruto de manchar
Sempre mordaz, constantemente a prumo.

Amo vê-lo agarrado ao cajueiro
À beira-mar, a copular com o galho
A castanha brutal como que tesa:

O único fruto – não fruta – brasileiro
Que possui consistência de caralho
E carrega um culhão na natureza.

Sunday, September 23, 2018

Serendipity I ::: Cajus



Estávamos eu, Camila e Dante no banco de trás do carro do meu cunhado, que dirigia e tinha a seu lado minha irmã Kátia. Seguíamos para a festa de aniversário da Patrícia, prima do Dante que completava quatro anos com festa. Quase na entrada do túnel, Afonso, o cunhado, diz estar levando caixa de caju para meu pai, que sempre foi a louca das frutas em especial o caju e a manga. Aproveito para comentar que em Goa fazem um aguardente de caju famoso, o poderoso fenim, e sublinho que não é cousa como cachaça com caju, mas de. Nisso, digo à Camila que é este um dos poucos casos em que uma palavra da língua inglesa veio do português, no caso, caju > cashew, os indo-portugueses de antanho pronunciando /cashu/.

Camila se pergunta se jackfruit também teria vindo de jaca.

Não sei. Sei que ao entrar na Sala de Inglês na terça-feira seguinte havia esta mensagem no pequeno quadro-negro que mantemos para variedades.

*******

Uma coincidência veramente espantosa

Sem dúvida que estamos aqui em pleno território da serendipity, confira-se o quarto e último prefácio de Tutaméia, "Sobre a Escova e a Dúvida".

Un certo Miguilim viveva con la madre :: Guimarães Rosa em italiano


Contrariando bons-sensos, Guimarães Rosa foi taduzido. Por razões óbvias, não tanto quanto Jorge Amado, mas numa qualidade tal que, Rosa, num de seus exageros, chegou a afirmar que para se entender sua obra seria necessário ler sua tradução para o italiano.

Sua correspondência com Edoardo Bizzarri é capítulo alto na história das traduções literárias brasileiras. Bizzarri descobria coisas que nem Rosa (ambiguidade, per favore) e chegavam a um nível de detalhamentos que só mesmo amantes pela palavra podem ter.

Un certo Miguilim viveva con la madre, il padre e i fratelli, lontano, assai lontano di qui, molto piú in là della Vereda-della-Gallinella-d'Acqua, e di altre veredaas senza nome o poco conosciute, in un punto remoto, nel Mutúm. In mezzo ai Campos Gerais, ma in un avvallamento in zona di foreste, terra nera, alle falde delle montagne. Miguilim aveva otto anni. Quando ne aveva compiuit sette, si era allontanato dí lí per la prima volta: lo zio Terés l'aveva portato a cavallo, sul davanti della sella, perché fosse cresimato a Sucurijú, dove passava il vescovo. Del viaggio, che durò vari giorni, Miguilim aveva conservato intontiti ricordi, che si confondevano nella sua testolina. Di una cosa, non poteva dimenticarsi: qualcuno, che era stato nel Mutúm, aveva detto: "È un bel posto, tra i monti, con molte petraie e molta foresta, fuori di mano; e ci piove sempre..."



Postagem dedicada a meu colega português Ricardo António Alves, leitor de Rosa, e que desde 2005 toca o ótimo blog Abencerragem.

Saturday, September 22, 2018

A Coleção de Livrinhos do Mundo


Tirando proveito desta primeira tarde de sábado de primavera para organizar a coleção querida que Dante e eu mantemos de livrinhos. Livrinhos das línguas do mundo vasto mundo

Temos em português, castelhano, francês, alemão, italiano.

E nestas que seguem, alfabéticos ::

africâner 
alguerês
alsaciano
amárico
árabe
árabe do Líbano
balinês
bretão
búlgaro
catalão
cingalês
concanim
coreano
croata
dinamarquês
finlandês
galês
gatês
georgiano
grego
hebraico
hindi
holandês
hñähñus
húngaro
indonèsio
irlandês
japonês
letão
luxemburguês
macedônio
maltês
nepalês
quéchua
rapanui
romeno
samoano
sérvio
sotho
sueco
tailandês
tcheco
turco
vietnamita
xhosa
zulu

E falta tanta coisa ainda

Friday, September 21, 2018

Os Hai-Kais do Millôr (incluindo um para o Bozo)


Publicado pela Editora Nórdica em 1986, este pequeno tesouro reúne não apenas 81 hai-kais do Millôr mas também suas ilustrações, uma "pequena introdução para os não-iniciados" e um posfácio de Alfredo Grieco.

Quando digo 'ilustração' é porque Millôr, fiel à tradição do haiga, ilustra ele mesmo cada um dos poemetos. É fiel aqui para poder ser gostosamente infiel ali.

Uma pequena seleção de quase 27 anos de produção, de 1959 a 1986, todos atualíssimos como este escrito para o Bozo:

Com que grandeza
Ele se elevou
Às maiores baixezas!




Tuesday, September 11, 2018

Rosa, Soberbo


Preciso como minha vó contando seus causos: esquecia tudo. Pois: sei que foi um escritor brasileiro falando de um francês e o que dizia era: invejava quem nunca o tivesse lido porque aí poderia fazê-lo pela primeira vez.

Possível que fosse Jorge de Lima ou Murilo Mendes falando de algum escritor católico, talvez Bernanos.

Eu sentia assim em relação a Guimarães Rosa, pois quando descobri de amar li tudo de uma vez só, li e reli, que sou assim completista

Faltavam "Os Chapéus Transeuntes".

No Dia dos Namorados deste ano almoçamos e depois esbarrei num sebo, desses de calçada, onde comprei Os Sete Pecados Capitais, 1964, em que cada romancista escreve sobre um pecado.

O primeiro é precisamente o já então consagrado João Guimarães Rosa, a tratar da soberba. Deixei para o final e quando a ele cheguei, já animadíssimo com a alta beleza dos outros seis pecados, a cargo de Mário Donato (ira), Guilherme Figueiredo (gula), Carlos Heitor Cony (luxúria), Otto Lara Rezend (avareza), José Condé (inveja) e Lygia Fagundes Telles (preguiça), foi para encontrar nonadas assim:

Eu queria que ela quisesse, que aquiescesse, que viesse, longe dos outros, só para me comigo, igual à minha ternura, só para mim.