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Tuesday, June 18, 2019

O 2o Pouso do Rosa :: Coisa Nova Captada, e Exibida


Vem chegando o padeirinho e Dona Eliza sai de casa, enxotando o cachorro pra dentro. Os galos já berraram tanto nos quintais, estão roucos.

Foi aqui o segundo pouso da mítica (à falta de palavra) boiada de 1952. Guimarães Rosa dormiu aqui.

Anotou na caderneta:

6hs.5 -- Cerepúsculo. Lá poente, sôbre o São Francisco e além, onde o sol se pôs: cor maravilhosa -- um alaranjado ou cobre, que nunca vi antes. É incrível, parece, que aquilo permaneça. Entre longas nuvens horizontais, escuras. É como se uma coisa nova tivesse sido captada, e exibida. 





A Capela do Manuelzão


Continua lá a capela do Manuelzão, em torno da qual Guimarães Rosa escreveu "Uma Estória de Amor", alçando a figura de Manuel Nardi a céus nunca dantes imaginados. A ficção de fato se enlaça à realidade, puras misturas.

Do tanto que eu poderia escrever, registro que foi um dos pontos altos da viagem. De todas as viagens. Meu amigo Eric, que andou um cado perdido, clicava sem parar e suspira "Nunca estive num cemitério tão bonito". Só não posso afirmar igual porque tem Milho Verde.

Do tanto que poderia escrever, as coincidências (já me disseram que não): 

a capelinha minúscula é dedicada à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, cujo dia se celebra em 27 de junho. Aniversário do Guimarães Rosa.

Outra, 'pior':

O nome de pia do Manuelzão é Manuel Nardi. Aqui no Grajaú a bonita igrejona tem como orago Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A igreja tem lindos afrescos. Pintados por um italiano de nome Antonio Maria... Nardi.







Sunday, June 16, 2019

Rosa e Che : Viagens





Eu nunca tinha pensado nisso, foi o Brasinha que me mostrou semelhanças entre as vidas de Guimarães Rosa e Che Guevara, no que ambos realizam viagens míticas em 1952, viagens turning points em suas vidas, Che em sua motocicleta, Rosa no lombo de um cavalo, com Manuelzão, Bindóia, Zito. E ambos morrem em 1967, não sem fazer um tanto. 

Adiciono outras semelhanças: ambos médicos, ambos diplomatas, ambos revolucionários, a seus modos.

Foi Brasinha que me mostrou, por ocasião de minha visita ao seu mundo mágico de Aqui Já É Sertão, em Cordisburgo, de coleções infinitas que proporcionam infinitos enredos e desenredos.Fico devendo o vídeo, que não carregou.

Thursday, June 13, 2019

Veredas Mortas, Sertão Morto


 Por ocasião das gravações da minissérie global Grande Sertão: Veredas, em 1985, Alan Viggiano, autor de Itinerário de Riobaldo Tatarana, aconselhou a produção que fosse para Goiás, pois aquele sertão do livro já não existia. O jornalista Pedro Fonseca, sobrinho de Manuelzão de quem já falei aqui, insistiu para que as tomadas fossem em Minas, afinal eram ali os locais descritos, estavam ali o Paredão, Guaicuí, Andrequicé, o de-Janeiro, dentre tantos outros. Prevaleceu Minas.

Fosse hoje essa questão, acredito que nem o Pedro defenderia o sertão mineiro.

O sertão do Rosa acabou. Da viagem que fiz em 1992 (aqui) para esta, senti uma diferença absurda. Simplesmente já não se veem mais veredas. JÁ NÃO SE VEEM MAIS VEREDAS. Porque elas simplesmente não existem mais. Foram tomadas pelo eucalipto. Vê-se, sim, uma aqui, outra acoli, que como escondida. Chegamos a um ponto em que as poucas sobreviventes tiveram que ser tombadas pelo município de Três Marias para que não desaparecessem. Isso se deu em 2006, com as veredas São José, da Tolda, e da Ponte Firme. Uma tragédia.

O caminho para o de-Janeiro é feito em meio a um mar de eucaliptos dos dois lados. Não é nem para papel, é para o ferro-gusa das siderúrgicas. É de sentar e chorar. Tristes "florestas" sem pássaros. Sem água, sem vida sem porra nenhuma. Quando estive na Amazônia, há poucos meses, vi muito mais buritis que aqui.

Maior empresa da região, a Gerdau garante adotar práticas rigorosas de gestão ambiental. Sim, Sra. Gerdau, acreditamos em você. Assim como na Vale, né?

Tristeza.

PS: Veredas-Mortas é onde Riobaldo faz o pacto. Imaginava ele que o Coisa-Ruim era pior que o Hermógenes e, solerte, se apresentava toda apresentável como um executivo da Gerdau? E que as veredas um dia, em breve, estariam de fato mortas?


Ah, um buriti!



Monday, June 10, 2019

Pedras :: Como se um Menino Sozinho Tivesse Morrido


Uma das passagens mais bonitas e enigmáticas de toda a obra do Rosa é a do riacho que seca, em "Uma Estória de Amor". Cito de memória:

"O riacho soluço se estancara, sem resto, e talvez para sempre. Secara-se a lagrimal, sua boquinha serrana. Como se um menino sozinho tivesse morrido"

Tenho um enorme mapa político-rodoviário de Minas, com todos os 853 municípios, além de distritos, vilas e povoados. E serras e rios e estradas e mesmo algumas fazendas. Em Três Marias tem Retiro, Patrimônio, Mato Sujo e, claro, Andrequicé. E, pasmem, Barra do Rio de Janeiro, porventura a localidade mais importante de todo o mapa.

Mas não há Pedras. 

Pedras existe, a nove quilômetros do de-Janeiro, um povoadozinho muito pequeno em que mal cabem você e sua sombra. Amei tanto que combinei comemorar o próximo aniversário por lá, na única vendinha.

Já tinha a vendinha, a igreja, as casas espalhadas, os cachorros, os poucos viventes, a menina que sugere ao pai vender como açafrão a serragem recém-criada por ele em seu trabalho e teve ainda o Pedro Fonseca, sobrinho do Manuelzão, cuja história escreveu em O Xale de Rosa.

Pedro mora do outro lado do ribeirão, que atravessamos de kombi. Não bastasse isso tudo.

Não bastasse, Pedras está ainda, nominalmente citada, em "Uma Estória de Amor". É lá que vão buscar água depois que o riacho seca ::


















Sunday, June 09, 2019

Viajar pelos Gerais : Rosa



De certo e certeiro modo, esta viagem de agora continua a de 92, quando, partindo de Brasília, conheci Buritis, Arinos, Urucuia, São Romão, Barra do Guaicuí, Pirapora. Ambas as viagens com o mesmo inesgotável norte: conhecer localidades da obra e vida do Guimarães Rosa.

Lembro-me razoavelmente bem da aventura de 92, eu sozinho com a câmera analógica, rolos de filme, o xerox do livro Itinerário de Riobaldo Tatarana, do Alan Viggiano, o romance Capela dos Homens, de Benito Barreto.

Lembro que Buritis e Arinos (que já se chamou Barra da Vaca, nome de um conto de Tutaméia) não me impressionaram, mas a coisa começou a crescer em Urucuia. Como não poderia deixar de ser. Urucuia recém se emancipara (essa praga), mas as ruas eram ainda de grama (!), num botequim tocou "Come Together", joguei sinuca com o povo, o espírito de Deus andou sobre as águas e na manhã seguinte, não sem dor de cabeça, naveguei no Rio Urucuia, o rio mítico, onde tanto boi berra. As veredas.

Fortes lembranças também de São Romão, que seria, afinal, o município do Mutum, onde morava Miguilim, o que já justificaria qualquer viagem a qualquer momento. Em Barra do Guaicuí, que já foi Guararavacã do Guaicuí, a igrejona em ruínas, a gameleira, o corpo de Fernão Dias Paes Leme e, mais importante, o lugar próprio em que Riobaldo descobre ser amor mesmo o que sente por Diadorim. Minha conversa com o moço ao pé da igreja, a linguiça enjeitada, os remorsos.

Em Pirapora, sobretudo o Rio São Francisco e, fora das razões da viagem, a piranha no Bar do Egnaldo.

Então, uma viagem que retomo bagatela de 27 anos depois. Uma vida.

Thursday, May 09, 2019

Morrer talvez seja voltar para a poesia :: A Morte de Maria Behú


Qualquer leitor apaixonado do Rosa terá dificuldades em escolher qual a morte mais triste, mais tocante, mais inesquecível, se a de Diadorim, se a de Dito. O público em geral (sim, estou sendo um pouco esnobe, mas só um pouco) ficará com a de Diadorim, mais pela popularidade de Grande Sertão.

Eu não consigo escolher, porque dificulto tudo colocando na lista a de Maria Behú, no final (todas as mortes ocorrem no final) deste monumento que é a novela (romance?) "Buriti", que magistralmente encerra o ciclo do Corpo de Baile.

A de Diadorim nos dói porque a acompanhamos por toda a torrente do Grande Sertão, conduzidos justamente por quem mais a amou, Riobaldo. A do Dito nos dilacera (eu não posso nem lembrar, como o Miguel, seu irmão crescido, diz : "não posso demorar o pensamento nele. Tenho medo de sofrer") porque ele é uma criança, uma criança perfeitinha demais.

Com Maria Behú, "tisna, encorujada, com a feiíce de uma antiguidade", tudo é mais complicado, por não ser cativante, por parecer que só existe para ressaltar o esplendor de sua irmã Glorinha.

Mas não foi por compaixão que ontem chorei a água de dois cocos (re)lendo seu encantamento:

"Meu Deus, e aquilo se dera, atroz, tenramente, na noite, na calada. E era possível! Maria Behú, sem perfil, os olhos fechados, nos lábios nem sofrimento nem sorriso, e a morte a embelezara. Partira, na aurora. (...) Ela se fora antes. Todos, enquanto vivendo, estão se separando, para muitos diferentes lugares. Maria Behú, também princesa.

(...)

O Chefe ainda não soubera da morte de Maria Behú; quando disseram a ele, então foi depositar o caneco num degrau, e chorou muito.

(...)

Lalinha se lembrava -- uma ideia, que na ocasião não criara sentido. E, agora, era capaz de não chorar por Behú -- tanto a amava, tanto a compreendia, de repente. E aquilo, sem razão nenhuma nem causa, sim: -- Morrer talvez seja voltar para a poesia..."

Sunday, April 14, 2019

Dona Tatá, Milho Verde-MG


O endereço de Dona Tatá: entre a Nossa Senhora do Rosário e a dos Prazeres, numa das bem poucas ruas que formam Milho Verde. Se você botar assim na caixa com goiabada cascão: Dona Tatá / Entre a Rosário e Prazeres / Milho Verde-MG, chega, o carteiro acha.

Mas talvez seja tolo presenteá-la com goiabada cascão, que ela encontra por lá, então talvez seja melhor azeite de dendê. Ou uns tamarindos daqui do Grajaú, catados depois de ventania.

Em seu pequeno repertório lexical, em que nomeia apenas as suas coisas importantes -- como 'rua', 'não' e 'chocolate' (tssss) --, Dante só chama Pampi de Tatá. Tatá, oxítona, que se ele diz táta já está dizendo batata.

Pois. Não foi um encontro bom ali em Milho Verde?

E Tatá podia ficar sendo Rosalina, Lina, mas sem perder o nome:


"Velhinha, os cabelos alvos. Mas, mesmo reparando, era uma velhice contravinda em gentil e singular -- com um calor de dentro, a voz que pegava, o aceso rideiro dos olhos, o apanho do corpo, a vontade medida de movimentos, -- que a gente a queria imaginar quando moça, seu vivido. Velhinha como-uma-flor. O rastro de alguma beleza que ainda se podia vislumbrar. Como de entre as folhas de um livro-de-reza um amor-perfeito cai, e precisa de se pôr outra vez no mesmo lugar, sim sem perfume, sem veludo, desbotado, uma passa de flor. Disse: -- "Meu Mocinho..." Mas dizia depressa, branda e enérgica, que nem que "meu-mocinho" um nome fosse, e que ele mesmo fosse dela, por bem que tantos cuidados não o prendiam nem vexavam. Ela olhava reto. O que falava -- a gente fazia. Mandava sem querer. Lélio se sentou no banquinho baixo. Ela disse que ele ia ficar para almoçar. E ali reinava um sossego." 

(...)

"E dona Rosalina, que nunca mudava, tinha como que naqueles olhos, diversos de todos, um exato de coisas que ele precisaria de um existir sem fim para aprender, mas que cabiam também no momento de um só olhar de bem-querer."


'A Estória de Lélio e Lina' 
Guimarães Rosa












Wednesday, April 10, 2019

Quando Rosa é doce



Quando Rosa pega pra ser doce e terno, não tem pra ninguém. Às vezes acho ele escrevia meio bêbo, no sentido baudelairiano ao menos, de que é preciso sempre estar.

-- "O burití é a palmeira de Deus!" -- ela disse, disse. Lélio se lembrava dos gestos de sua mãe, e, como êsses vaqueiros do Alto Urucúia, relatava coisas ao cavalo. Mais se contentava, sem pensamento, perto de tudo. Ela estava com um plastro branco na ponta de um dedo, machucado em qualquer parte. Seu nome era que lindo por lindo, qual retinia. No que não havia risco de ninguém ver, pois já estavam de saída, êle o escreveu, porção de vêzes, nas costas das fôlhas das piteiras. Mas ao cavalinho pampa os nomes que dela disse foram outros: Minha-Menina, a Môcinhazinha, Sinhá-Linda...

"A Estória de Lélio e Lina"

 

Tuesday, March 12, 2019

Crônicas Amazonenses II :: Buritis


São tantos os buritis no caminho entre Careiro da Várzea e o bravo Rio Tupana, tão enfurnado no meio da mata. Não esperava encontrá-los por aqui, e assim em quantidades, e assim robustos. A diferença é que no norte de Minas ao agrupamento de muitos no terreno onde há sempre alguma água dá-se o nome de vereda, enquanto que por aqui chamam de charco

Quando desci o Rio Urucuia em viagem de 1992 (Buritis-Arinos-Urucuia) para chegar ao São Francisco (São Romão- Guararavacã do Guaicuí-Pirapora), esbarrei em muitas veredas, mas hoje, com tanto eucalipto, cana e soja, elas vão rareando, o que é triste demais.

Ao menos no caminho entre Careiro da Várzea e o Rio Tupana os há a mancheias. E, para glória do Senhor, havia ainda dois em meu hotel.

Me deu saudade de algum buritizal, na ida duma vereda em capim. Saudade, dessas que respondem ao vento; saudade dos Gerais.

Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus-buritizais levados de verdes... Buriti, do ouro da flor 






Monday, March 11, 2019

A gente nunca podia apreciar as coisas bonitas

Rio Tupana-AM

Verdade consabida, porém não menos extraordinária esta história de que a viagem continua, forte, após o regresso, quando então formamos dela mínimo entendimento. Não sei se sempre ou quase, desnecessário precisar.

Me vem à cabeça um trecho lindo de "Os Cimos", conto que encerra as assombrosas primeiras histórias do Rosa:

"Que a gente nunca podia apreciar, direito, mesmo, as coisas bonitas ou boas, que aconteciam. Às vezes, porque sobrevinham depressa e inesperadamente, a gente nem estando arrumado. Ou esperadas, e então não tinham gosto de tão boas, eram só um arremedado grosseiro. Ou porque as outras coisas, as ruins, prosseguiam também, de lado e do outro, não deixando limpo lugar. Ou porque faltavam ainda outras coisas, acontecidas em diferentes ocasiões, mas que careciam de formar junto com aquelas, para o completo. Ou porque, mesmo enquanto estavam acontecendo, a gente sabia que elas já estavam caminhando, para se acabar, roídas pelas horas, desmanchadas..."



(E a legenda para a foto retiro-a de um soneto do Afonso Félix  de Sousa:
"Ela ia macambúzia e lenta como um cágado.
A cada flor ou lua ela se dava inteira.")