Monday, June 11, 2018

Paranapi, então, também acaba?



Leminski escreveu "Amor", que é assim:

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

Que eu rasuro:

Paranapi, então,
também acaba?
Não que eu saiba.

E seguem alguns registros da Vila de Paranapiacaba, distrito de Santo André, Serra do Mar, tantas neblinas.

Diadorim, minha neblina




















Sunday, June 10, 2018

Gozando Junto XXXII (SP e Paranapiacaba)


Não é como estar em locais onde todos tiram fotos freneticamente, talvez por isso a euforia de encontrar cliques no Anhangabaú, nas escadarias do Teatro Municipal, no grafite do Kobra.

E ainda teve Paranapiacaba.






 Mais da série: aqui, aqui e aqui.


Tuesday, June 05, 2018

Manfred Mann :: Cantar como um Galo na Madrugada



Henry David Thoreau, leitura tão indispensável para resistir no Brasil hoje, postou no início do Walden:

I do not propose to write an ode to dejection, but to brag as lustily as chanticleer in the morning, standing on his roost, if only to wake my neighbors up.

Não foi outra coisa que Manfred Mann fez no início de The Good Earth, trabalho de 74, que tinha a responsabilidade de suceder Solar Fire: postou o canto de um chanticleer para acordar os vizinhos para a ecologia, então incipiente, para a injustiça na sua África do Sul e para a beleza de uma banda que começara beat e que agora fazia um progressivo da melhor qualidade.

Que disco maravilhoso. Lamentável que até hoje muitos só lembrem desta banda por causa dos covers de Dylan e Bruce Springsteen. Maravilhoso de fio a pavio. Começa apenas rock and roll e na mesma música de abertura (são 8 minutos) se transforma. E ainda tem todo o lado B, com as duas partes de "Earth Hymn" que recebem entre elas "Sky High" e "Be Not to Hard" (obra-prima sobre a qual escrevi aqui).

Prestigie os artistas comprando seus trabalhos e indo aos seus shows. Posto o link para que conheçam.



Sunday, June 03, 2018

O Estilo Missões por aí ::: Nova Série

Santa Teresa

Não sei bem por quê, mas uma postagem de dois anos atrás sobre o estilo Missões, aka neocolonial hipânico (aqui), é das mais lidas de todos os tempos. A ela seguiu-se outra, só com exemplares de Quintino (aqui). Então fui espanar uns arquivos por aqui e vi que já dava, com sobras, para uma outra seleção, do imponente semi-palacete de Santa Teresa às casinhas de subúrbio.

Engenho de Dentro
Engenho de Dentro

Higienópolis

idem

Madureira (e as duas seguintes)



Maria da Graça

idem


Olaria

idem

Paquetá

também

Praça Seca

idem

Rio Comprido


Tijuca

idem

Vila da Penha

Mestre Cascudo e Coelho Neto



Dentre os livros do Cascudo da biblioteca do meu pai que estavam endereçados à Livramento e que subtraí no caminho (aqui), o ótimo Gente Viva, primeira edição, Recife, 1970. Livro original na vasta bibliografia original do mestre Luís da Câmara. Aqui ele escreve 41 perfis de homens (nenhuma mulher) que admirou, do seu tio Chico Pimenta ao Coelho Neto. Por aqui descobri que ele só chamava o Guimarães Rosa de Sagarana e só por isso meu roubo justificava-se.

Com Coelho Neto, autoproclamado "o último heleno", foi generoso, sem no entanto deixar de ser crítico ("Para exibir um flor, trazia todo o jardim"; "Irritava a mania de citar a Grécia e seus modelos"). 

Quando ele escreve "Mandou para mim livros, cartas, com aquela letra incomparável de desenho heráldico", lembrei que tenho edição autógrafa do Coelho Neto, de 1927, e que sua descrição é precisa. 

Nunca li.


Arroz-de-Coco


Em Etiópia Oriental, obra de Frei João dos Santos de 1891, lê-se:

"Do miolo do coco fresco se tira leite com que cozem arroz, ralado com um ralo e bem lavado em duas ou três águas, e espremido entre as mãos, de modo que lhe façam lançar toda a umidade que tem. E desta maneira fica o coco tão seco e miúdo, como farelo de pau, e pelo contrário a água em que foi lavado fica tão grossa, que parece leite de vacas muito alvo, ou de amêndoas, e com esta água se faz o arroz de leite tão bom que fica mais saboroso que pudera ficar, se fora cozido com qualquer outro leite".

É este o primeiro registro do arroz-de-coco, que sempre quis fazer. Enfim. Poderíamos ter usado o leite de coco industrializado e mesmo as lascas igualmente industrializadas, mas optamos pelo coco seco, que se quebra arremessando ao chão e com a ajuda mesma de martelo. A diferença é como a de um queijo ralado pronto e a do parmesão fragrante ralado na hora.

Uma vez partido, do coco usamos toda a carne e também a água, que entrou no cozimento. Não era para ficar doce! Não ficou, que pusemos sal, gengibre e cebolinha.

"Com leite de coco, come-se areia!", ensina Cascudo. Mas, à falta desta, foi com uns camarõezinhos que encontramos por aí, com pápricas doce e picante, sendo esta lá do país dos magiares.





Saturday, June 02, 2018

Treze Cascudos na Livramento


Lembrou um pouco a longa viagem da biblioteca dos reis: fazer com que parte da grande Cascudiana (entenda-se: livros de Luís da Câmara Cascudo) do meu pai chegasse às mãos da Livramento que, hoje, como ninguém, perpetua esse grande homem feliz que por aqui tivemos.

Primeiro tive que ir a Brasília ajudar o pai no desmonte de sua colossal livrarada, cousa que acabou sendo menos dolorosa do que prevíamos. Vendemos quase tudo (*sigh), trouxe alguns na mala e separei os do Cascudo para a Conceição, minha amiga que tem um espetáculo lindo sobre o homem inigualável que hoje quase ninguém conhece.

Do Planalto Central a Cascudiana seguiu para Copacabana e hoje, enfim, para Paquetá, onde mora Livramento. No caminho enfrentei trânsito absurdo no Aterro, o motorista fazendo manobras improváveis, subindo em gramados e vingando meio-fios enormes para que eu não perdesse a barca. A Guarda Municipal atrás, tirando fotos, para grande desconsolo dele que já prevê multa das grandes.

Nunca me peçam que eu transporte livros. Antes ouro em pó. Na barca, duas bolsas de livros em mãos, torno a examinar tudo e acabo subtraindo quatro para mim (também eu tenho minha Cascudiana), na certeza de que Luisinho e Livramento me perdoariam. Desembarco, saúdo o tamoio, saúdo Maria Gorda e já estou no camarim da Livramento que, em minutos, descerá para o espetáculo. Malgrado a subtração, são ainda treze livros do mestre para sua sala linda. O seu sorriso paga tudo.

E que apresentação emocionante.