Era jogo de portões fechados. Jogo difícil, o Vasco ainda longe de convencer contra uma das equipes brasileiras mais fortes da atualidade, fazendo bonito no Brasileiro e na Liberta. Por isso mesmo cumpria comparecer, mostrar que o tal do amor infinito não se limita a um verso de um grito de guerra.
Clima apaixonado, porém de absoluta tranquilidade e cordialidade. Gremistas circulam de boas.
Um amigo hesita: incluo este na lista dos meus jogos do Vasco? É este meu jogo de número 200? A dúvida ele a tem só até antes da chegada do ônibus. O próximo, garante, será o 201º.
Também eu quero morrer antes de ficar velho. Como leva-se muito tempo para tornar-se jovem, já disse o Pablo, então ainda espero ficar por aqui um bocado. Sob as tamarindeiras do bairro, sob o sorriso do Dante e as axilas da Camila.
"My Generation" não é apenas o hino mod, com o famoso "Hope I die before I get old", é um dos hinos da história do rock and roll. Que Pete tenha escrito isso logo de entrada, que Keith mostre a que veio sem rodeios, que Roger gagueje e incorpore os gaguejos para sempre e que, acima de tudo, John sole assim com o baixo, isso é mais que uma flor do mal de Baudelaire. Já ouvi baixista (Flea??) dizendo que queria aquela linha de baixo em sua lápide.
Em Woodstock eles improvisam uma versão estendida, tipo os helicópteros do Coppola tocando Wagner uncut. Aos 2:38, em vez da quebradeira contumaz, eles param tudo. Podia-se ouvir uma agulha caindo na grama molhada. O silêncio de meio milhão de pessoas. E aí entram numa jam de tocar o que só anos depois iria se materializar como "Naked Eye". É lindo demais.
Não precisa ter assistido a Dead Poets Society dez ou doze vezes para se lembrar da cena: é hora de os meninos lerem sua produção poética na frente da turma e o apaixonado Knox, muito sem graça por achar o poema ruim, que de fato é, mas muito corajoso para assumir sua paixão, começa: "To Chris".
To Chris.
Postei coisa no face por ocasião de sua morte, reciclando postagens antigas. Chris merece post novo, então digo que não sei por que entrei nas Lojas Americanas anteontem de manhã, acho que foi procurando qualquer coisa pro Dante. Encontrei o DVD do show em Londres em que o Soundgarden toca Superunkown (aqui) de fio a pavio, algo nunca antes feito, em show comemorativo do álbum.
Dizer que o disco resistiu ao tempo é óbvio, ou não estaria no patamar das obras-primas. Resta elogiar o desempenho visceral mas maduro da galera. Enxuto, exato. Sendo obra de muitos timbres, trocam de guitarras quase que o tempo todo. A voz de Chris está do caralho. Fui tomar banho de porta aberta na "Head Down. Quando entrou "Black Hole Sun", eu, que detesto água gelada, desliguei a quente por uns dois minutos, não sei ainda bem por quê, mas foi bom.
Pulei "The day I tried to live" e "Like suicide", que sou fraco pra essas coisas.
E a música que deixo aqui é "Bleed together" (aqui). Nem é do DVD.
Não tenho como provar, mas juro: no show que Celso Blues Boy dedicou inteiramente ao The Who no Circo Voador, primeira metade dos 80 talvez 83, gritei sozinho MY WIFE, MY WIFE!, que ele, claro, não tocou. Sem reproches. A propósito, já foi bom demais que Celso tenha começado e terminado o show.
"My Wife" sempre foi uma das minhas favoritas do The Kids are Alright, que ganhei no Natal de 1980 e por dois anos ouvi até a agulha fazer literalmente um buraco (1,5mm) no disco. Eu achava à época que a letra falava de uma linda relação de amor, achava lindo música assim dedicada à mulher, mulher-esposa. Muitos anos depois descobri não era nada disso: trata-se de uma letra bem-humorada sobre a mulher que quer pegar o marido de porrada porque ele está fora de casa desde sexta-feira, não com outra, mas em bebedeira, então preciso de um segurança faixa-preta com metralhadora porque ela está vindo aí.
Uma canção de hard rock com letra bem-humorada, que o próprio Pete gostava de escrever até se espiritualizar e escrever "coisas mais sérias".
Gosto de Pete depois do seu encontro com Meher Baba, gosto de John sem encontrar nenhum guru, gosto que essa música tenha encontrado espaço no seminal Who's Next.
Ninguém se declare surpreendido. Já desde a contracapa do segundo disco do The Who, aprendia-se que John Entwistle tocava french horn / trompa. Na verdade, ali consta que ele não era um baixista que também tocava french horn, mas um tocador de french horn, tuba e trompete que também tocava baixo. Numa banda de rock and roll.
Tocaria por toda a discografia do The Who. "Red, Blue and Gray", música acústica de apenas dois minutos do By Numbers, é basicamente apenas Pete cantando com o ukelele. E uns fraseados divinos de french horn ao fundo. Se disserem que aquilo é Brahms, muita gente compra.
Eddie Vedder, fã do Who e do ukelele, não deixaria passar.
Voltando ao John: aquela metaleira toda do Quadrophenia ("The Real Me" e "5:15", por exemplo), aquilo é o John. A abertura épica, econômica e revolucionária do Tommy (escrevi aqui) é John também.
"Pictures of Lily" também tem. E posto o clip em que aparece o homem tocando o tal instrumento de sopro. De quebra, um cover do Bowie. Sem french horn, que isso só com o John.
PS: E já ia esquecendo de "Whiskey Man", dele próprio. Lindo solo de trompa.
Desde que se separara, coisa de seis meses, Felipa fazia festa toda sexta-feira. O intuito era tirar fotos e parecer feliz. Esta de agosto foi especialmente esfuziante, as garrafas no chão da cozinha (e na sala, no banheiro e mesmo nos quartos) estão aí. Agora todo mundo foi embora e ela está na cozinha. Nicole, a filha de 14 anos até então em seu quarto, aparece e se senta à mesa. Felipa bebeu mais whisky que o habitual e teve aquela mistura com cerveja. Como ainda toca música na sala, Felipa dança e nisso quebra copo que lavava. Xinga palavrões, palavrões descolados. Em seguida, ainda bufando, junta os cacos com a pá e vai jogá-los num saco plástico de supermercado. Aí, Nicole intervém: Mãe, não faz assim, que isso pode machucar o lixeiro. Tem que embalar com cuidado e botar etiqueta. Felipa congela. Então é assim? Onde ela aprendeu isso? Talvez seu ex-marido tivesse razão: essa escola pública em que ela estuda desde o início do ano fosse mesmo antro de esquerdopatas. E então ela agora vai me ensinar a como jogar fora o lixo? Felipa hesita. Felipa pergunta: Ah, é? E onde vocezinha viu isso, meu amor? Nicole responde: No facebook, mãe. Felipa pergunta de volta: E desde quando lixeiro tem facebook? E despeja triunfante os cacos no saco plástico do Zona Sul.
Se um dia fomos conhecer as Kayan (aqui), no dia seguinte estávamos entre os Hmong (o h é mudo e eu segui falando errado), uma das muitas etnias, e minorias, que habitam a região de Chiang Mai conhecidas como 'hill tribes'. A vibe foi um pouco diferente da primeira visita. Se, por um lado, não houve aquele maravilhamento face a diferença, sentimos aqui um sentido maior de aldeia, aldeia viva, com "casinhas de gente", como gostamos de dizer em nosso léxico familiar, e não um espetáculo para turistas.
Esses hmong vieram do Laos, após a implantação do regime comunista por lá. Como durante a Guerra do Vietnã eles acabaram ficando do lado errado, comeram o pão que Mara amassou depois que os estadunidenses caíram fora, agarrando o último helicóptero possível. De resto, nada sei acerca do comunismo no Laos, mas se foi minimamente como no Camboja (acho que foi), fizeram muito bem em vazar, aliás, miraculoso que tenham logrado fazê-lo.
Não sabíamos que produziam café assim tão bom. Bebemos in loco e trouxemos para o Grajaú, porque vai que bate vontade ao ver as fotos.