Saturday, July 15, 2017

De um modo que os outros podem apenas sonhar



Dante e eu temos momentos de grande incompreensão entre nós, com ambos caindo para os lados frustrados e exaustos. Mas temos também, perdoem-me se soo pretensioso, e aqui cito o que Alvarez diz a Sylvia Plath no filme Sylvia, acerca da relação dela com Ted Hughes: "You understand each other in ways that, that other people can only dream about".

Foi na tarde de quarta-feira, eu frustrado e exausto, ele não sei. Ele em cima da mesa. Eu fui beber água. Eu sabia que ele me observava. Quando virei o rosto, ele estava com o sorriso mais lindo do mundo.

O sorriso mais lindo do mundo, ali para mim, porque eu bebia água.

A trilha-sonora é "Dry bones in the valley", do John Fahey, em especial os três minutos finais.

Dry bones in the valley I saw the light come shining round and round 







"Epiléptico", de David B.



Não tenho o hábito de ler histórias em quadrinho, livros de histórias em quadrinho para adultos, não tenho o hábito porque não me interessam. Mas encontrar livro de nome Epiléptico no sebo maravilhoso do Catete, livro lacrado a 10 reais, e justo na época em que o Dante volta a fazer crises, periféricas, é mesmo convite irresistível.

O livro é lindo. Estou agora escrevendo sob o impacto dele, angustiado. Obra espantosamente criativa. Mágica e realista. Dolorosa e inefável. Me fez enxergar e reenxergar tantas coisas.






Rancor, Sarcasmo, Remorso, Calúnia, Inocência



Lançamentos da mineira Krug, que eles chamam de "linha expressionista". São sete, encontrei cinco no mercado. A apresentação é impecável.

A Submissão e a Pretensão são as que ficaram faltando, o que é curioso, porque esta última deveria ser a mais fácil de encontrar por aí. A Remorso comprei só por completismo, pois não gosto de stouts e muito menos de imperial stouts, esses desequilíbrios. A Sarcasmo é fraca, a Calúnia é regular / boazinha, a Rancor é ótima e a Inocência, uma tripel com 8%, a melhor da turma.

A Rancor é uma IPA e como sou louco por IPAs, acho melhor não guardar mesmo. (Bem, só para efeito de trocadilho, porque na vida real é o que mais tenho feito.) Quanto à Inocência, poder-se-ia perguntar o que ela faz em meio a sentimentos tão negativos. Quanto à Inocência, bem, não o sejamos: não é toa que o inglês tem as palavras innocent e naïve. E o rótulo mesmo já exorta: "Na cultura cristã, a inocência é vista como candura, pureza. Na prática, porém, pode levar a consequências nefastas. Como na obra de Shakespeare, Otelo, o Mouro de Veneza."

Shakespeare assim, em rótulo de cerveja. Maravilha.




Tuesday, July 11, 2017

Os haikais da Lagoa



Hoje os meninos do 2o ano me levaram para escrever haikais na Lagoa, a que, por conveniência, chamamos de lake, palavra mais poética e mais aberta a rimas que lagoon, perdoe-nos a salinidade da água. 

Uma manhã fria com sol, como deve ser o inverno carioca. Todos se saem absurdamente bem e eu nem sei, do resultado, do que mais gosto, se das fotos se dos versos.

Trilha-sonora: Candy everybody wants :: 10,000 Maniacs

Os versos ::

No one sees
the nature beauty
that it is

(Carol Hisho)

Ducks pass by
in silence.
Don’t know why

(Samuel Bashō)

Try not to break
the silence
of the lake

(Davi Watashi)

It was green
It is gray
Can you imagine what it would have been?

(João Pedo Kotobuki)

Take a
break.
Lake

(Luckas Sintoshi)

 The sun shines upon the lake
Upon the lake
I see your grace.

(Luisa Assataro Banku)

Lake shining in the dark
Life runs so fast
Can’t breathe without the past

(Fernanda Mataro Caxa)
 
I stay awake
Calm and peacefully
Staring at the lake

(Daniela Fujiro Nakombi)

 Don’t know what’s blue
The sky these waters
Or me.

(Victoria Sashimi)

Little waves on the lake
Cover me completely
Just like my grave.

(Arthur Mishima)

Duck falls
In love
We fall

(Evandro Sake)

Into the water
My feet refreshes
Like breeze

(Daneil Daissuki)

I dream with this lake
Even if awake
Makes me shake.

(Igor Sayonara)

If the root comes out
We lose the beat
The melody teaches

 (Camila ア系アメリカ人である)

As fotos :::

















Monday, July 10, 2017

Noll




Noll deixou-nos este ano. Em texto (aqui), Fabrício Carpinejar lamenta que ele foi assassinado, "morreu de solidão nesta cidade abandonada às bestas, onde os livros são uma seita para pouquíssimos e corajosos". Bem, Fabrício, não é apenas Porto Alegre abandonada às bestas, é todo um país, todo um mundo.

Meu Hotel Atlântico é primeira edição autografada, dedicada ao Jornal Verve.

Ô romance david-lynchiano, deus meu.

Parei um pouco na sombra de uma árvore e bufei de calor. Fiz assim porque imaginei que os habitantes de Viçoso gostariam de alguém que demonstrava tão claro os seus sentimentos.

Como aquela criança no alpendre do chalé em frente. Ela dá voltas, salta, às vezes espia por uma das janelas. Como poucos passavam pelas ruas de Viçoso, a criança num momento me notou, e ela estava sorrindo, não sei se estava feliz por algum motivo, o que sei é que ela sorria, e quando me viu não desfez o sorriso, aquele sorriso me incluía também, e eu sorri.

E com o sorriso na boca recomecei a andar. 




Friday, July 07, 2017

John Fahey ::: Todo músico folk tem seu dia de Judas


Com o lançamento de Old-Fashioned Love em 1975, John Fahey viveu o que Dylan vivera nove anos antes: a galera folk hardcore torceu o nariz, vendo nele um outro Judas.

John estava é cansado da galera folk e produziu aqui outra de suas joias. Se nas faixas centrais do lado 2, ele toca com uma banda para pagar tributo ao jazz da primeira metade do século (e isso poderia estar em qualquer Woody Allen), se na primeira faixa, "In a Persian Market", ele faz um cover deslumbrante da obra bonita porém melosa e orientalista de Ketèlbey, será nas composições suas ("Marilyn", "Dry Bones in the Valley") e na tradicional "Jaya Shiva Shankara", que ele atinge, aparentemente sem esforço, os píncaros de Princesa Amarela e da Voz da Tartaruga.





Olá, vô Olavo!



Camila conheceu Olavo na fila do show do Focus em 2012, ficaram amigos e amigos dos amigos. Vim a conhecê-lo no ano seguinte, sempre em meio ao progressivo ou às empanadas chilenas do El Guatón. Houve ocasião mesmo em que, Camila no Rio, fui pra Sampa pro show do Steve Wilson e lá estava o indefectível Olavo.

Olá, vô Olavo é nosso gentle giant, que enfim veio ao Grajaú nos visitar. Dante ficou impressionado com aquele japa grande, um São Cristóvão japonês que, de quebra, ministrou-lhe lições de peteca. Dante ficou doido, quase mais do que o normal.

Felizmente, ao contrário da maioria dos progheads, Olavo não é reaça, muitíssimo pelo contrário. Infelizmente, porém, não gosta de comida japonesa.

Mas faz um molho de tomates todo dele que puta que o pariu. A tomatada vai pra panela de manhã cedo. À noite, depois de alguns retoques, o molho está pronto.

Fica a casa toda recendendo a tomate, aliás, toda a rua, como já dissera Neruda: "La calle / se llenó de tomates".









"El regalo / de su color fogoso"


Tuesday, July 04, 2017

Meu Vinícius Autografado



Eu já tinha o Livro de Sonetos do Vinícius, mas era uma edição nova, anódina, sem autógrafo. Esta relíquia consegui-a ontem, Editora Sabiá (aqui), 3a edição de 1968, sendo que a primeira também é deste (glorioso) ano. O que prova o prestígio do poeta, que assina apenas o primeiro nome, basta.

Esta edição lindinha tem capa do Ziraldo e prefácio do Otto Lara Resende (aqui), ótimo por tratar da trajetória do Vinícius, do Poeta metafísico, que ele mesmo tratou de renegar, inclusive recolhendo edições do primeiro livro, ao poetinha regado a whisky, mulheres, bossa e Botafogo. Sem perder o rigor jamais, tanto que é um livro de sonetos.

O livro traz a data e o local onde quando soneto foi escrito, e daí Florença, Los Angeles, Montevidéu, Oxford e Rio, muito Rio. Curioso que dois dos sonetos mais famosos, o da Separação e o da Fidelidade, tenham sido escritos fora do Brasil, este em Estoril, aquele no Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot, a caminho da Inglaterra.

Difícil escolher um aqui para a postagem. Um do tríptico para Eisenstein? Um dos Quatro Elementos? Bem, como citei o Botafogo, vamos de "O Anjo das Pernas Tortas" ::

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento: ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés -- um pé de vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: -- Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um l. É pura dança!

(Rio, 1962)

Monday, July 03, 2017

Toda Mulher é Linda ::: Panmela Castro

 


O maior grafite do planeta feito por mulher é da Luna Buschinelli (que nome bonito) e está no coração da Presidente Vargas, ali na Rivadávia Correia. Este trabalho da Panmela Castro, aka Anarkia Boladona, -- Toda Mulher é Linda -- está no Catete e é também qualquer coisa de boniteza, tipo uns pirilampos em dia de chuva.

Se baixa um Dória aqui querendo acizentar, apanha de pau.









Saturday, July 01, 2017

Amar a cidade como se fosse



amar a cidade como se fosse
pessoa :: a sua cidade
amar desamar amar
de olhos vidrados  brigar virar a cara
tanta raiva tanta incompreensão
um sorriso porém na forma de
uma torre de igreja tocada pelo sol
de julho de primeiro
de julho
e voltar a amá-la você que nunca
deixou de
acolher a cidade agonizante no peito
e ela que nunca deixou
de

Pavão Azul Eterno

Na dúvida entre o risoto de polvo e o de camarão, pida os dois


Vou dar uma de tiozão, de velho e de esnobe, já que não sou nada dos três: conheço e frequento o Pavão Azul antes da fama, antes do Pavãozinho e outros que tais. Cresceu, quase engoliu a delegacia do Espinoza, o que está certo está tudo muito certo.

Apresentei as pataniscas do Pavão a gente que morava a um salto de pulga, apresentei-o ao meu pai, que até hoje suspira, no meio da noite brasiliense, pelo risoto de camarões. Hoje vou de quando em vez. Se as participações no Comida di Buteco não deixam saudades (o que pouco importa), o trivial continua arrebentando: a informalidade no coração de um dos bairros mais famosos do planeta, o mistério das pataniscas, os pastéis, o risoto de camarão e o risoto de polvo.

Abre ao meio-dia. Antes disso, porém, já está cheio: os clientes em contagem regressiva esperando o alarme de celular para pedir o chope e o pastel.

Passou por reformas. Sumiram com o pavão azul original, o que muito me entristece. Mas de resto um boteco notável. E onde mais se come um risoto de polvo na faixa dos 30 pau?

(O Pavão enche. Mas nunca esqueço que, por cheio que estivesse, sempre que eu pedia a conta, uma das irmãs, Bete ou Vera, perguntava mui sinceramente: "Mas já?')




Cheio, ANTES de abrir