Wednesday, June 14, 2017

Se a minha pele fosse a pele mesma



Se tua noite fosse a minha pele
se a minha pele fosse a pele mesma
da noite
com que
pudesse
guardar estrelas esquecidas que brilham
em teus cabelos estrelas cadentes
que brilham



Um Igrejas pra chamar de meu



Graças ao Ivo Korytowski, companheiro de blogs e de descobertas cidade afora e adentro, que ontem postou foto de painel do Manoel Félix Igrejas que encontrara à venda no Cachambi, adquiri meu primeiro Igrejas, cousa que, confesso, me alegra imenso inda que nunca estivesse realmente nos planos.

Foi eu ver a postagem do Ivo ontem à noite e a minhoquinha entrar na cabeça. Ele incentivou, Sheila Castelo também (será ganharam comissão?) e hoje corri para lá tão logo pude. Há vários 'museus de azulejos' ali em Del Castilho, na esquina da Cachambi com a Suburbana. A que vendia o Igrejas era logo o primeiro que visitei, mas fiz questão de perguntar nos demais, onde fui recebido com desconfiança e incredulidade.Voltei à loja, joguei verdes, regateei, eu sempre ruim nisso. Para culminar, fui no Evandro's ver a quantas andava aquele pastel de lagosta. Pastel comido, fechei negócio pelo telefone, com uma segunda e ótima pechinchada.

Um Manoel Félix Igrejas de 1986, 48 peças, já emoldurado. Na platibanda de uma casa, teria tamanho mediano, aqui no apartamento parece enorme. Retrata aquelas tão típicas cenas naïf bucólicas e escapistas: castelo e duas casas, mas o que predomina é o verde da paisagem. Nenhuma presença humana, e tão Nilton Bravo isso.

Concedi-me este presente de aniversário. Pelos Igrejas, mereço. É guglar azulejos e Irmãos Igrejas e este bloguinho aparece mais do que qualquer coisa. 

Ao chegar na sala, deitei-me sobre ele e o céu, cinza até então, fez-se cores.

( Algumas outras postagens sobre os Igrejas: aqui, aqui, aqui e aqui e aqui )







Tuesday, June 13, 2017

O Navegador ::: Clube Naval



Foi ruim minha primeira experiência com o Navegador, restaurante situado no sexto andar do histórico prédio do Clube Naval na Rio Branco: eu barrado por estar de bermuda, ainda tendo que lidar com a grosseria do leão de chácara e da gerente falando um 'Absolutamente' pelo telefone. Mas insisti, queria conhecer o lugar e não seriam aqueles idiotas que iriam me impedir. Voltei depois para dois almoços memoráveis, em 2001 e no ano seguinte, para comer coelho ao molho de chocolate e bacalhau na cama de alho.

Voltei ontem, quinze anos, portanto, com a namorada. O restaurante mudou big time, não fisicamente, o pé-direito alto e os vitrais magníficos estão lá desde 1910, mas o menu, que agora Teresa Corção abraçou a brasilidade e a parada orgânica (sem exageros bela, espero), com grande mapa do Brasil na parede a indicar de onde vêm os ingredientes. 

Dia dos Namorados, fomos de arroz de pato e tapioca rosa de vatapá. *Sigh. Se o suculento arroz de pato é mais pato com arroz e bate de frente com os do Adegão e o do Fernando's, exceto no tamanho da porção, não tão generosa, a tapioca é conto de fadas, aquele rosa adquirido com o sumo de beterrabas orgânicas de país de sonhos, talvez Taprobana. Para comer de vagar.

No couvert, tão bonito, teve ainda um patê de foie gras orgânico com geleia de jabuticaba que, meu Deus, comemos dois copinhos.







A Foto Zero



Na Senador Dantas, moça sentada sobre caixote de feira comendo melancia. Tem seios fartos e short curto e come melancia, levemente inclinada para frente, o que, naturalmente, facilita a vida de quem quer ver melancia, short, seios. É tudo muito rápido. Pampi logo comenta 'Que foto daria', ao que só posso responder 'Que foto'.

Esta a foto zero, na esteira do conto zero de Sérgio Sant'Anna sobre o qual escrevi aqui e aqui, a que ficou apenas imaginada e não se realizou / realiza. Se você não escreve não é um conto, mas para você é, a foto zero se você não tira não é uma foto, mas para nós foi.

Não há descoberta de água quente aqui. Meu amigo fotógrafo Eric (aqui) passeando em Copacabana com a Carla têm diálogos assim "Você não fez aquela foto?", "Não", porque foto zero. Terá sido Beethoven, terá sido Michelangelo que, ao ouvirem sinfonia e escultura elogiadas, teriam dito, tocando a atormentada cabeça: "Você precisava ver a sinfonia / escultura que tenho aqui!".

E ficamos tristes com isso? Nada disso, tetrarca, utopia é utopia. So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past





“So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.” - See more at: http://www.scribnermagazine.com/2015/04/so-we-beat-on-on-the-great-gatsbys-last-lines/#sthash.PoVX5t6A.dpuf
“So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.” - See more at: http://www.scribnermagazine.com/2015/04/so-we-beat-on-on-the-great-gatsbys-last-lines/#sthash.PoVX5t6A.dpuf

Sunday, June 11, 2017

Um Bon Iver para todos



Claro que é uma delícia uma trilha-sonora original, uma ost, eu que tanto gosto de trilhas ou não teria Nyman, Glass e Mertens entre meus preferidíssimos, ainda que, claro, eles não se restrinjam a músicas para filmes.

Mas é igual delícia  assistir a algo recheado de coisas lindas conhecidas, pelo prazer de ouvi-las em contexto diferente ( e um terceiro espaço, imagem e música, é então criado ) e pela expectativa qual que vem agora?

Foi muito assim, por exemplo, com Breaking the Waves, do Lars von Trier. E agora com Ferrugem e Osso (2013), do Jacques Audiard. Tem a ost, a cargo do onipresente Alexandre Desplat. Mas o mais legal foi ouvir e reconhecer o Bon Iver. Foi esbarrar com um amigo na pracinha sob o céu de junho. Então hoje ouvi por toda a manhã.





O Conto Zero, Sérgio Sant'Anna



Em seu mais recente livro de contos, O Conto Zero e Outras Histórias, Sérgio Sant'Anna persegue o que seria este conto zero, assim descrito na página 7: a prosa solta, não-escrita e, portanto e naturalmente, sem a necessidade de continuação e muito menos desfecho. Pode-se argumentar : "se você não escreve não é um conto, mas para você é'.

Neste livro Sérgio escreve e reescreve por vezes o mesmo conto, um por cima do outro, assim como o "Entre as Linhas", do livro Páginas sem Glória.

E, de fato, entre as linhas do meu texto, ela fora rabiscando outro texto. (...) Me fascinava de tal modo o texto que ela ia pronunciando, que essa peça crítica – e, por que não dizer?, também literária e até poética – terminou por tomar, com retoques meus de acabamento, o lugar de minha novela, tornando-se um novo produto que deve ser debitado a nós dois, como se poderá conferir pelo seu resultado. (pp. 7- 8)

Assim são "O Conto Zero", "O Conto", "O Museu da Memória". O projeto, portanto, é de todo utópico: no encalço do conto zero, produz o conto +1 e o ++1 e o +++1. Quando abandona o projeto, na obra em questão, nos saiu com o chatíssimo "Vibrações", o tiozão machista e falastrão querendo impressionar os sobrinhos boquiabertos na mesa da noite de Natal, depois que Papai Noel já passou (já malhei este conto aqui).

Penso na dicotomia sausseriana entre langue e parole. O conto zero é a parole, o que lemos é a langue. Se esta é instrumento e produto da parole, aquela e constitui de atos individuais, múltipla, imprevisível, irredutível a uma sistematização.

O conto zero mesmo nós não lemos. O conto zero mesmo já fora também descrito no conto "Prosa" do livro anterior O Homem-Mulher:

E sinto que não serei eu a realizá-lo, mas, por acaso, não me bastará este pressentimento, permitindo que eu repouse como um criador no silêncio da alta noite, que, no entanto, não é bem silêncio, mas o som do fluir da corrente sanguínea?

Se isso tudo me lembra também algo do grau zero da escritura de Barthes, sem suas implicações políticas imediatas, me lembra ainda mais "O Último Poema", do Bandeira, a pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos, a paixão dos suicidas que se matam sem explicação, certo de que, enquanto rabiscamos estas conjecturas, talvez haja agora um sujeito a fumar um cigarro à janela de seu apartamento em Laranjeiras, pondo no papel seu conto +1 e sonhando porventura com seu -1.

PS: Esta postagem fora prometida aqui. Quase nunca cumpro as postagens que prometo, mas desta vez fiz. Para a Susana Rodrigues, leitora portuguesa, que incentivou. Para a Pampi, tão envolvida.







Saturday, June 10, 2017

Paul McCartney ::: As últimas palavras de Pablo




Paul gosta de contar a história por trás de "Picasso's last words" sempre que perguntado sobre o seu processo criativo: na Jamaica, onde trabalhava em Papillon, Dustin Hoffman diz a Paul, então de férias por lá, que não acreditava que ele pudesse escrever músicas sobre qualquer assunto. O ator pega uma revista ao acaso e lê matéria recente sobre a morte de Picasso, com suas famosas últimas palavras "Drink to me, drink to my health. You know I can't drink anymore". Paul começa a música na hora, a partir dessas palavras, levando Hoffman a cutucar a mulher: "Olha, olha, ele tá fazendo!".

Terminasse aqui, já seria ótima a história. Mas Paul acabou fazendo, isso depois no estúdio etc, claro, uma música cubista, para justamente fazer jus ao seu tema. Parece óbvio, mas é justo uma preocupação formal como essa -- forma e fundo de mãos dadas, "Forma é conteúdo", já dissera Marx -- que distingue Paul de pelo menos 90% de outros compositores de rock / pop. Penúltima faixa de Band on the Run (1973), "Picasso's" incorpora trechos de "Jet" e "Mrs. Vandebilt", com mudanças inesperadas de tempo: a música cubista. Se atentarmos bem, a própria faixa-título já é um pouco assim.

Terminasse aqui, a história já seria muito boa e ótima, mas aí não custa lembrar que a gravação final foi em Lagos, na Nigéria, com Ginger Baker, o lendário baterista do lendário Cream, tocando uma lata cheia de cascalho.

Nas apresentações ao vivo, "Picasso's" abria o set acústico, maravilhosamente seguida por "Richard Cory", cover de Simon & Garfunkel. Funciona muito bem, mas a música é simplificada e a parada cubista inteiramente perdida.

Não se pode ter tudo, já dizia Lao-Tsé. Ou Hebe Camargo, lá sei.




Friday, June 09, 2017

Dante Balanços Aterro


Outro dia amiga falou que entendia minha vontade de chorar quando penso no Dante sempre que estou longe dele e que, por isso, embora não por vergonha de chorar, eu simplesmente evite deter meu pensamento aí.

São bem poucos os dias em que não fico com Dante. Para minha alegria, orgulho e exaustão. Sendo começo de noite de sexta com um cheiro delicioso de chuva, e após comer o melhor omelete de Portobello do mundo e assistir ao documentário da Janis ao lado da Camila, penso nele e decido enfim escrever postagem há muito pensada sobre balanços.

Não é ainda a postagem sobre balanços, em cujo encalço continuamente estamos, por toda a cidade. Os da pracinha do Grajaú são ótimos, mas apenas quatro. Depois das 5, quando a criançada linda sai da escola, a disputa é acirrada. Dante nem sempre espera paciente. Algumas mães e pais extremamente cooperativos querem incontinenti dar a vaga ao Dante, o que nego, agradecendo: ele aprenda a esperar. E na espera às vezes cabeçadas e chutes na terra, mas que aprenda.

Aí descobri este parque no Aterro. São cerca de dezesseis balanços e ninguém além de nós. Ninguém. Muitos donos passeando seus cachorros, para excitação do pequeno, e só. Dezesseis balanços. Aquela história do pinto no lixo, da mosca no purê de batata, os dois tolos ali, pulando de balanço em balanço. Outro dia saí correndo com ele, às 5:55, com medo o parque fechasse. O parque não fecha.











A trilha-sonora é do Tangerine Dream ::


Thursday, June 08, 2017

Largo do Poeta ::: Drummond



Bem perto de onde Drummond morou em Copacabana, o Largo do Poeta. Falei deles aqui, do largo e do poeta, mas acabei falando mais do personagem adorável que conheci, o Jorge Scévola.

No Largo, há versos do Carlos nas quatro esquinas, na calçada em pedras portuguesas. São eles: Ó vida futura! Nós te criaremos, de "Mundo Grande"; E agora, José, de "José"; Vontade de cantar. Mas tão absoluta que me calo, repleto, de "Canto Esponjoso" e Toda história é remorso, de "Museu da Inconfidência".

São versos grandes, avessos à fotografia e, assim, tão Drummond. Mas nem critico: fosse eu a escolher o verso a ser imortalizado em pedras portuguesas ("imortalizado", rá!, como se eu não conhecera como é tratado o patrimônio nesta cidade), eu escolheria:"Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos /assim te levo comigo, tarde de maio", conforme já confessei aqui.






Tuesday, June 06, 2017

Relendo O Conto Zero



Hoje aconteceu coisa meio bizarra. Como eu dormira bem e não precisava do ônibus como extensão de meu sono, peguei O Conto Zero e Outras Histórias, do Sérgio Sant'Anna, para reler.

Comecei pelo primeiro conto, o conto zero, e reli


Mas se poderia argumentar: se você não escreve não é um conto, mas para você é, existe um protagonista, um ser que habita um corpo e agora se põe em situação, está sentado em um banco individual de lotação, você o pegou na rua São Francisco Xavier, nas cercanias de Vila Isabel, depois de ter saído do Maracanã, digamos que de um jogo entre Vasco e América

Eu estava na rua São Francisco Xavier. Sentado em ônibus que peguei em Vila Isabel.

Quatorze páginas adiante, leio:

Até aqui, a história que não é bem uma história se deu em Londres. Mas a verdadeira anti-história se passa no Rio de Janeiro, você está ao lado do motorista no lotação e se se sentia dominando com ele a cidade, passando pela praça da Bandeira, onde muita gente descia e entravam outras pessoas

Eu levantei os olhos e vi que estava na Praça da Bandeira. Onde ninguém descia e entravam muitas outras pessoas. 

Depois de dois espantos desses, elaborei uma como que teoria desse conto zero do Sérgio Sant'Anna, do Sérgio, do S., do você, mas isso fica pra próxima postagem.

Monday, June 05, 2017

Crônicas Sergipanas VIII ::: Renda Irlandesa



A princípio soa esquisito que haja em Sergipe coisa chamada renda irlandesa. Passado o susto inicial, o maravilhamento continua, que as coisas bonitas são assim, a tal da joy forever do Keats. 

Patrimônio imaterial tombado, o modo de fazer renda irlandesa configura um saber tradicional que vem sendo ressignificado principalmente pelas rendeiras de Divina Pastora, a partir de fazeres seculares que remontam à Europa seiscentista.

Cumpria, pois, ir à Divina Pastora, pela renda e pela sua linda matriz, com linda pintura no forro da nave e linda e curiosa imagem do orago bastante incomum no Brasil. Não conseguimos, dada a distância de 39 quilômetros e o pouco tempo. A peça que trouxemos foi comparada na capital, ainda que seja, e disso fazia questão, proveniente de Divina Pastora, feita pela rendeira Dona Aurora.

Assim como o arraiolo de Minas, aqui não há muito lugar para barganhas. Uma peça grande chega mole aos quatro dígitos. Trouxemos peixinhos amarelos, que agora nadam em nossa sala. Fios de um amarelo muito brilhoso fixado a um debuxo feito em papel manteiga -- isto, a renda irlandesa sergipana.





Saturday, June 03, 2017

Na Estepe contra os Ventos / Os olhos cobertos de areia :: A Quinta de Prokofiev



É tão difícil falar (e ler e escrever) sobre música erudita russa (evito a palavra imperialista 'soviética') do século XX. Foi difícil até, mas na verdade deve-se dizer 'principalmente', para aqueles que a viveram / fizeram. Prokofiev descrever sua Quinta Sinfonia como "um hino para o Homem livre e feliz, para suas poderosas forças, e seu espírito puro e nobre" coloca-o em paz com a cartilha zhdanovista mas não descreve nada. Ou descreve, mas errado, umas palavras estéreis que podem até mesmo afastar quem esteja em busca de música moderna da primeira metade do século XX.

Sua Quinta Sinfonia é uma obra-prima, primus inter pares, mas não tem nada de hino feliz para o homem livre.

O movimento mais perfeito, de beleza estranha, seguirá sendo o Adagio. Ouvi umas vinte versões no Youtube. Minha preferida segue sendo a do Bernstein com a Filarmônica de Nova York, o primeiro vinil erudito que comprei, aos 16 anos. Mas esta não está nesta máquina do mundo que é o Youtube. Versões apressadas, que desrespeitam a "lenta cólica de um caracol", eu logo limava e nem ouvia até o fim. Se já tem o segundo e o quarto movimento para correr à vontade, indesculpável que se faça isso no Adagio. 

Gostei imenso desta versão que posto.

O trecho do Adagio que vai de 33' a 33'40'' é a melhor ilustração do final de "A Legião Estrangeira", da Clarice : Ofélia se unindo, reunindo, à sua tribo de nômades do deserto. Na estepe contra os ventos, como os olhos cerrados pela areia. (Eu já falara um pouco aqui)



Era junho de manhã e Jorge Scévola de Semenovitch



Minha ideia inicial era fotografar o Largo do Poeta, ali em Copacabana, perto de onde Drummond morou. Com as fotos iniciaria pequena série lembrando os 30 anos de sua morte -- pequeno projeto que não exclui, enfim, visita a Itabira ainda neste 2017.

Fotografei o "Toda história é remorso" e em seguida o "Ó vida futura! Nós te criaremos". Neste momento somos interrompidos por um senhor de 87 anos que nos pergunta que língua falamos. Se a princípio pensamos que Jorge Scévola de Semenovitch queria ajuda, logo descobrimos que ele queria é ajudar. Ou apenas conversar.

E assim ele nos fala de Drummond, com quem tantas vezes pegou o outrora famoso ônibus camões para ir ao Castelo. E assim ele nos fala do Rei Alberto, sob cujo busto conversávamos, e da Rainha Elizabeth, a rua onde estávamos, mulher do rei, do rei-soldado, e não a homônima britânica, como todos pensam.

Despedimo-nos em russo.

A postagem sobre o Largo do Poeta pode esperar.

Ganhei (perdi) meu dia.
E já não sei se é jogo, ou se poesia.


Camões

Thursday, June 01, 2017

Nikka : Whiskey Japonês



Sempre quis provar whiskey japonês e a única vez em que vi à venda foi no estonteante freeshop de Istambul há coisa de dois anos. Istambul, Turquia, país muçulmano, Deus, Alá whatever mantenha essa certa tolerância.

Comprei essa garrafinha fofa, parece de botica e a revistei hoje. Um whiskey desses sempre será um bálsamo, ainda que não tenha nada de medicinal como o Laph (aqui). Floral e frutado, laranja, frutos secos. Muito corpo, longo retrogosto. Dulçor. Nada de turfa ou fumaça, mas eu nem procurava isso. É um blend. Agora não lembro por que não comprei um single malt, provavelmente por causa do preço. De qualquer modo, um whiskey excelente. DNA, terroir japonês? Isso não sei dizer. Ótimo do jeito que é.

Heartbreaker, Grand Funk



Há muitos anos tive amigo que dizia que 'Heartbreaker' pra ele era a do Grand Funk. Com isso queria dizer que esta era muito melhor que a mais conhecida homônima do Led Zeppelin. Bem, nem consigo imaginar contexto onde se esteja a discutir qual a melhor 'Heartbreaker' do rock, talvez em alguma cozinha fria em um fim de festa, mas achava bonito ele colocar a coisa assim, defender sua preferência, defender sua paixão.

Eu gosto muito das duas. A do Led é tão emblemática quanto o álbum inteiro, Jimmy Page parando tudo para solar e mostrar que doravante a guitarra (pós-Hendrix, claro) assumiria um novo patamar. Eddie Van Halen faria algo semelhante, sete anos depois, em "Eruption". Para o bem e para o mal.

Ao procurar 'Heartbreaker' no youtube hoje, a primeira é a do Led. As quatro seguintes são Dionne Warwick, Mariah Carey, Bee Gees e Pat Benatar. Nada mais tem sentido / que sorte Seu Inacinho / já ter ido para o céu.

Mas a do Grand Funk Railroad está lá, em várias versões, incluindo as duas clássicas dos álbuns ao vivo: Live e Caught in the Act, de cinco anos depois.

O Live Album, de 1970, não recebeu quase que tratamento nenhum no estúdio, para o desgosto da maioria da crítica. Algo como o Slade Alive I. Eu nem tenho palavras para descrevê-los. 

Ah, o amigo, o Seu Inacinho, também falava que a música tinha a melhor 'virada' de todas os tempos, aquelas coisas quando a gente acha que a música acabou sqn. Exatamente. Isso lá pelos 5:15.



PHORA TEM !!!!



Há uns bons anos trabalho com figuras de linguagem em minha oficina de Songs no 1o Ano do Ensino Médio. Dir-se-ia que é mesmo o ponto central do curso, localizado estrategicamente em meados do segundo trimestre: é a chance que os meninxs têm de trazer músicas de casa e, ao fim, depois de tanta prática, elas saem encontrando metáforas, hipérboles, aliterações e personificações em tudo, ou pelo menos em tudo que é letra de música, seja em inglês seja em português.

Eu falei metáfora?

Naturalmente que faço uma seleção das figuras que julgo mais rentáveis, relevantes. Pra que falar de anacoluto? Pra que falar de hipálage ("Estavam as tias fazendo as meias sonolentas", ainda lembro do exemplo da temida Maria Teresa de Souza Tibúrcio na minha 8a série no São José de Baixo, 1982)? Pra que falar de catacrese, muito mais processo de formação que figura? Pra que falar de sinédoque, se basta metonímia?

Mas trabalhamos com quase dúzia e meia.

Como não costumo facilitar-lhes a vida, depois de um preâmbulo em que falamos de denotação e conotação e antes que eu comece a ilustrar as figuras com trechos dos Beatles, coloco no quadro o nome de algumas das figuras com as letras embaralhadas, para que eles descubram quais são.

Faço isso há anos. Nunca fez tanto sentido quanto hoje.

A primeira, claro, é metáfora, a figura de linguagem por excelência, tanto que, amiúde, em vez de se falar 'linguagem figurada' fala-se 'linguagem metafórica'.

E esta primeira figura sempre escrevia-a.... PHORATEM! Que nada mais é que 'metaphor' com as letras embaralhadas....

Pegaram na hora.

Muito embora esse 'phora tem' nem deva ser lido como metafórico... Nem vampiro usurpador.