Se uma das minhas missões no planeta (que piegas isso) é divulgar Nick Drake, ontem estive em noite particularmente missionária, enviando por inbox algumas de suas canções para pessoas queridas, em quem sinto, por óbvio, que pode haver alguma ressonância.
Costumo dizer que Bryter Layter é um trabalho equivocado, coisa séria, pois isto seria 1/3 de sua obra. O que aconteceu foi uma produção que tentou vestir-lhe roupagem mais comercial. Nada de corinhos fáceis, mas um mood jazzístico e uns arranjos pesados que simplesmente nada tinham a ver com aquele menino triste de Burma. Se era para vender mais, não adiantou nada. Reconhecimento ele só teria quando "Pink Moon" foi usada num comercial da Volkswagen, anos depois de sua morte. E isso tudo, o sucesso póstumo, ele já previra, na assombrosa "Fruit Tree".
Mas voltando a Bryter Layter, bem, qualquer disco que tenha "One of these things first" e "Northern Sky" já será, em que pesem os equívocos da produção, uma daquelas joias que se coloca numa cápsula do tempo ou que se envia numa sonda para dialogar com as luas de Marte.
Eu ouço "Northern Sky" quinhentas vezes, tentando entender a voz de Nick.
Camila não leia isto, mesmo porque não quero mesmo mais nada com a cigana do oceano, cândida pérola ou estrela da manhã, amores maristas adolescentes platônicos que tanto me perturbaram quando eu era isso: marista e adolescente e platônico. Mas os amores musicais conquistados na adolescência calam ainda mais fundo e ressurgem estranhamente numa manhã fria de agosto, hoje.
Este o caso do Slade, sobre quem já escrevi aqui. Aquele Nobody's Fool foi seguramente um dos discos mais ouvidos na vida, na vida de 1981, aquela sétima série complicadíssima em que eu descobriria o Rush, formaria a banda de rock Século XX com o Ronaldo e o Maguila, sonhava acordado com a inacessível Carla, aprendia teatro e marxismo com o colega João Ernesto e, com notas como 0,5 e 1,0, quase me reprovava na matemática do João Fernandes.
E comprava discos compulsivamente nos sebos do centro do Rio, aonde chegava de 217 ou 226, faminto, porque a grana vinha do dinheiro que a mãe dava para os lanches no colégio e que eu guardava para isto: comprar discos.
A prova de que é paixão adolescente mesmo está em que eu ache no mínimo idiota qualquer música que eu conheça, uma e outra que tenha me passado desapercebida no começo dos anos 80.
Continuo achando o Alive I um dos melhores, quiçá O, ao vivos da história do rock. E basta o lado A. E discos como este Nobody's Fool não tenho como defender senão dizendo que são pura paixão adolescente. Pureza em sua inteireza.
O cumprimento usual em tailandês, o nosso "Tudo bem?", é algo como "Já comeu teu arroz hoje?". Na China também, claro, dados o contato e o amor pelo grão. Me identifiquei demais com isso e mesmo adotei a saudação, fã de arroz que sou, fã de arroz com feijão, fã de arroz que possa receber o molho da comida. Na Tailândia esperávamos encontrar o maravilhoso arroz de jasmim e ele estava lá, nos esperando, de fato o rei da parada. Já o encontro com o 'sticky rice', o popularíssimo arroz grudento deles foi de todo inesperado, um blind date no sentido exato da expressão. No começo comparei-o ao nosso 'unidos venceremos', comparação de todo inexata posto que denota ironia para algo que deu ruim. O 'sticky rice' é grudento desde o saco. E é com ele que se faz a onipresente sobremesa (e lanche de rua) manga com arroz grudento.
Jamais esquecerei da tarde em que o Dante quis andar solto, sem mãos dadas, pela Rua Visconde de Santa Isabel, aquela mesma em que morei e que começa de um jeito e termina tão outra (aqui). O trecho em questão era precisamente aquele defronte ao antigo zoológico, que é como todos se referem àquele espaço, nem Negrão de Lima deveria chamá-lo de Recanto do Trovador. A calçada é minúscula e a quantidade de carros e ônibus, afrontosa. E o Dante, ainda não sei por que, querendo andar desgarrado da minha mão. Chamaram-me outro dia de dramático, mas se digo aqui que era uma questão de vida ou morte, estou apenas narrando um acontecimento de maneira jornalística / científica. E ele, nervosíssimo, recusando-se a me dar a mão e eu, esgotadas palavras doces de persuasão, ralhando exasperado. Houve momento em que sentei-o em uns degraus que por lá havia. Ele sentou-se e eu também. Aí levantei os olhos e vi que duas mulheres, esperando para atravessar, me olhavam com os olhos mais críticos que então conseguiam ter. Eu entendi tudo. Eu sustentei o olhar, com tanta raiva e revolta, achando que poderia pular no pescoço de uma ou, menos, irromper numa torrente de palavrões, se ousassem dirigir críticas a mim. Eu estava exausto e frustrado e ali tive raiva delas. Mas também nesse momento dei-me conta de que podia muito bem ser uma dessas mulheres, olhando criticamente para o que julgam ser maus tratos. Tanto que já estive nesse lugar.
A moral da história poderia ser 'não julgue pelas aparências', mas isso é muito pouco.
Esta série anda meio descuidada, sendo as três últimas postagens estas aqui, aqui e aqui. Não foi nada difícil amealhar estas, já que muitos querem fazer registros daqueles tão lindos templos. Com efeito, quase todas aqui são em templos (budistas, escusado lembrar).
A foto pode pecar em sua nitidez. Mas é que 'gozando junto' é assim: tem que ser ligeiro, pois quase sempre há desconfiança. E também sorrisos surpresos.
Encontrei uma mulher que disse, Estou indo ao reino de Sião. Perguntei-lhe o que ia fazer lá, ela respondeu-me que queria ver janelas, as janelas dos templos.
Achei-a meio doida. E fiquei com aquilo na cabeça.
Hoje entendo-a perfeitamente.
Não peçam, por ora, que eu identifique todos os wats, ainda de ressaca que estou.
PS: nem tudo é janela de templo. tem mesmo uma que lembra casa ancestral goesa, como pode-se ver aqui.