Saturday, May 06, 2017

Crônicas Sergipanas V : Dias e Águas



Havia algo de ominous em Laranjeiras. Por três ou quatro vezes nos vimos em meio a enxame de vespas, surgindo do nada. Perto da igreja do Carmo uma música evangélica infernal altíssima e o muro conspurcado 'Bolsonaro 2018'. Não bastasse, por três vezes fomos advertidos por moradores, sem que perguntássemos, a não prosseguir por determinado caminho, fosse uma ponte que levaria a um bairro, uma colina que levaria a uma igreja. Quando nos informamos, disseram-nos que de fato seria perigoso continuar.

Havia algo de aziago, dias e águas. Em mais de trinta anos de viagens, primeira vez que, numa cidade pequena, sinto a violência assim palpável no ar, ou a ameaça dela, por si já também violência. Como na linda cidade histórica de Laranjeiras as igrejas foram plantadas sobre as colinas, visitá-las significa necessariamente andar por descampados.

Foi minha segunda visita, num intervalo de vinte anos. Também desta não foi possível visitar a Comandaroba e a Sant'Aninha (da primeira tentei esta, mas fui afastado por cachorros). Life is a long song e espero ainda voltar, nem que seja daqui a vinte anos, in the sweet light of dawn, sem vespas, músicas evangélicas e ameaças. E o sujeito pixado no muro tenha já tido uma morte tão absoluta que, ao lerem seu nome em meu blog, perguntem "Quem foi?...".



Friday, May 05, 2017

Bar Opus :: Opus 68 Allegro Vivace



Como outras coisas boas deste mundo (pense no Álbum Branco, no Yes, Led Zeppelin, Black Sabbath, na Princesa Amarela do John Fahey, na juventude indo às ruas, neste que vos escreve), também o Bar Opus deu o ar de sua graça, e já exalando pernil, em 1968. Em uma cidade que definitivamente não cultua seus botequins tradicionais, ou não haveria tantos defuntos, estar à beira de tornar-se cinquentão é digno de registro. 

Porque falar em Opus é falar no sanduíche de pernil preparado ali à vista de todos, e que talvez só encontre rival no Cervantes. Ao contrário deste, o Opus participa feliz do Comida di Buteco, não encontrando revezes em conciliar o dia a dia com o mês especial, mesmo porque o seu petisco para o festival foge ao trivial sem no entanto perder a linha do carro-chefe da casa. Assim que em 2015 tivemos os bolinhos de pernil com pasta de abacate e agora temos os Três Porquinhos, com três variações de carne de porco: torresmo de Barriga, linguiça mineira e pernil com abacaxi. Não dá para saber quem é o Heitor, quem o Cícero, quem o Prático, de modo que se aconselha devorar a todos por igual. Acompanha dose de cachaça, que doei ao flamenguista ao meu lado.

Não bastasse, o Opus inda inventou de agora ter a sua própria cerveja, para quem não quiser ficar no ótimo chope. Só não entendi bem por que uma se chama Pilsen e a outra Lager, quando todos sabemos que a pilsen é um tipo de lager.





Crônicas Sergipanas IV :: O Jenner Augusto do Cacique Chá


 Fundado como casa de chá na década de 50, o Cacique Chá foi reduto da boemia e intelectualidade de Aracaju até os anos 80, quando enfim sopravam-nos os ventos da Abertura. Essa casa de chá possuía diversos painéis 'azulejares' (em lajotas) e afrescos do artista sergipano Jenner Augusto (1924-2003). Com a decadência, ficou fechado por mais de dez anos, o Jenner lá, se deteriorando.

Em 2015, o espaço foi não apenas modernizado (continuará sendo um restaurante, mas como unidade de gastronomia do Senac), com a restauração de todas as obras do Jenner, como ganhou, ali mesmo, um Memorial em homenagem ao artista. 

Parece-me exemplo muito interessante de restauração e revitalização de um patrimônio histórico e artístico.

O Bar Savoy, em Recife, poderia tentar algo semelhante em relação ao legado de Carlos Penna Filho.

E o Bar Arco Teles, no Rio de Janeiro, também, já que possui nove painéis de Nilton Bravo que hoje se deterioram em esquecimento e escuridão.
















Wednesday, May 03, 2017

Crônicas Sergipanas III :: A Cantaria em São Cristóvão

Sta. Casa da Misericórdia


Clarival do Prado Valladares já exortara que "a talha do acervo sergipano deve ser estudada amplamente, profundamente", e por talha aqui ele não se refere apenas à madeira, mas também (talvez principalmente) à cantaria. Segundo ele, o legado dos canteiros-escultores de Sergipe continuará provocando a quem possa explicar o mistério desse barroco-arcaico com raízes intemporais, até góticas.

Não é pouco.

Encantado, Clarival viu aqui uma cantaria trabalhada como se em madeira fosse, destacando que quando enriquecida com figuras humanas (mascarones, grotescos, carrancas, efígies), "assumia ainda estilo escultórico diferente, incomparável a tudo que conhecemos como padrões ornamentais".

Não é nada pouco.

Aprender com a pedra, conversar com a pedra. João Cabral fazendo poesia.

São Francisco

Carmo

Rosário (e as demais)

Morde-se a queijadinha morde-se a pedra



Tuesday, May 02, 2017

Crônicas Sergipanas II :: O Samba de Pareia de Mussuca



Quando chegamos na casa da Dona Nadir no Mussuca, distante seus sete quilômetros de Laranjeiras, ela, que pitava seu cachimbinho reclinada no sofá, pôs-se de pé num átimo como se esperasse por nós há muitos anos. E de certo modo esperava e de algum modo esperávamos. 

Logo passou a contar fagueira sobre o samba de pareia, que ela, descendente de escravos haussás, é praticamente a guardiã imortal única. 

Dançam o samba de pareia na véspera de São João (com muita meladinha) e dançam, principalmente, para comemorar a chegada de um novo membro da comunidade quilombola, quando este completa quinze dias, que o samba é um ritual de nascimento. Nesses dias cantam e dançam das 2 da tarde às 7, que depois o neném tem que dormir e os pais, descansar.

Disse que Dona Nadir é a guardiã imortal única, mas o tempo pede cuidados e hoje, sábios, têm eles o grupo adulto e o grupo mirim.

Saímos de lá, o trocadilho é inevitável, renascidos, inda mais depois de ela dar uma palhinha pra nós.


 









Monday, May 01, 2017

Sergipe em Preto e Branco

São Cristóvão

Todos sabemos que nosso Nordeste é sol é sal são muitas cores. Então segue pequena messe de registros em p&b.

Aracaju

Aracaju

Aracaju

Aracaju

Aracaju

Laranjeiras
Laranjeiras

São Cristóvão < até o final >






Crônicas Sergipanas I : Cabeça de Galo (Já tomou a sua hoje?)



Já li Crônica de uma Morte Anunciada três vezes, inclusive enquanto estudante de espanhol na minha high school em Chicago, por isso me lembro de monte de coisas, como a sopa de crista de galo muito apreciada pelo bispo que chegou justo no dia em que mataram Santiago Nasar. Sopa de crista de galo, aquilo calou fundo em mim, não a ponto de desejar provar, pois nas duas primeiras leituras eu era ainda vegetariano radical.

Nunca provei a sopa, que hoje faria com imenso prazer. Cheguei perto agora em Sergipe ao tomar a famosa cabeça de galo, prato da culinária nordestina que também atende por caldo da caridade, caldo da fome (!!) e mingau de cachorro (!!!).

De galo não entra nem crista nem nada, só o nome. É um caldo de ovos engrossado com farinha. Tem-se o cuidado de manter o ovo inteiro na mistura, ao menos a gema. De resto, temperos triviais, como tomate, cebola, alho, pimentão, coentro. Ótimo exemplo de cucina povera, de que já tratei aqui, lembrou-me também certa sopa que tomei em Bucareste (aqui).

Bom para ressaca e para convalescentes. Eu tomei antes da moqueca de sururu e fiquei comovido com o dourado daquela gema.

Laranjeiras-SE