Tuesday, July 04, 2017

Meu Vinícius Autografado



Eu já tinha o Livro de Sonetos do Vinícius, mas era uma edição nova, anódina, sem autógrafo. Esta relíquia consegui-a ontem, Editora Sabiá (aqui), 3a edição de 1968, sendo que a primeira também é deste (glorioso) ano. O que prova o prestígio do poeta, que assina apenas o primeiro nome, basta.

Esta edição lindinha tem capa do Ziraldo e prefácio do Otto Lara Resende (aqui), ótimo por tratar da trajetória do Vinícius, do Poeta metafísico, que ele mesmo tratou de renegar, inclusive recolhendo edições do primeiro livro, ao poetinha regado a whisky, mulheres, bossa e Botafogo. Sem perder o rigor jamais, tanto que é um livro de sonetos.

O livro traz a data e o local onde quando soneto foi escrito, e daí Florença, Los Angeles, Montevidéu, Oxford e Rio, muito Rio. Curioso que dois dos sonetos mais famosos, o da Separação e o da Fidelidade, tenham sido escritos fora do Brasil, este em Estoril, aquele no Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot, a caminho da Inglaterra.

Difícil escolher um aqui para a postagem. Um do tríptico para Eisenstein? Um dos Quatro Elementos? Bem, como citei o Botafogo, vamos de "O Anjo das Pernas Tortas" ::

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento: ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés -- um pé de vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: -- Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um l. É pura dança!

(Rio, 1962)

Monday, July 03, 2017

Toda Mulher é Linda ::: Panmela Castro

 


O maior grafite do planeta feito por mulher é da Luna Buschinelli (que nome bonito) e está no coração da Presidente Vargas, ali na Rivadávia Correia. Este trabalho da Panmela Castro, aka Anarkia Boladona, -- Toda Mulher é Linda -- está no Catete e é também qualquer coisa de boniteza, tipo uns pirilampos em dia de chuva.

Se baixa um Dória aqui querendo acizentar, apanha de pau.









Saturday, July 01, 2017

Amar a cidade como se fosse



amar a cidade como se fosse
pessoa :: a sua cidade
amar desamar amar
de olhos vidrados  brigar virar a cara
tanta raiva tanta incompreensão
um sorriso porém na forma de
uma torre de igreja tocada pelo sol
de julho de primeiro
de julho
e voltar a amá-la você que nunca
deixou de
acolher a cidade agonizante no peito
e ela que nunca deixou
de

Pavão Azul Eterno

Na dúvida entre o risoto de polvo e o de camarão, pida os dois


Vou dar uma de tiozão, de velho e de esnobe, já que não sou nada dos três: conheço e frequento o Pavão Azul antes da fama, antes do Pavãozinho e outros que tais. Cresceu, quase engoliu a delegacia do Espinoza, o que está certo está tudo muito certo.

Apresentei as pataniscas do Pavão a gente que morava a um salto de pulga, apresentei-o ao meu pai, que até hoje suspira, no meio da noite brasiliense, pelo risoto de camarões. Hoje vou de quando em vez. Se as participações no Comida di Buteco não deixam saudades (o que pouco importa), o trivial continua arrebentando: a informalidade no coração de um dos bairros mais famosos do planeta, o mistério das pataniscas, os pastéis, o risoto de camarão e o risoto de polvo.

Abre ao meio-dia. Antes disso, porém, já está cheio: os clientes em contagem regressiva esperando o alarme de celular para pedir o chope e o pastel.

Passou por reformas. Sumiram com o pavão azul original, o que muito me entristece. Mas de resto um boteco notável. E onde mais se come um risoto de polvo na faixa dos 30 pau?

(O Pavão enche. Mas nunca esqueço que, por cheio que estivesse, sempre que eu pedia a conta, uma das irmãs, Bete ou Vera, perguntava mui sinceramente: "Mas já?')




Cheio, ANTES de abrir

Friday, June 30, 2017

Voltar à Santa Dica ::: Crônicas Pirenopolinas XIII



Os planos para Pirenópolis desta vez incluíam forçosamente visita a Lagolândia, onde reinou Benedita Cipriano Gomes, aka Santa Dica. Mas ars longa vita brevis, os dias são curtos, as distâncias longas e não quisemos abrir mão de molhar as almas no Rio das Almas, de modo que Lagolândia ficou para a próxima, junto a outros povoados e o mosteiro budista e a Fazenda Babilônia.

Mas retorno à Cervejaria Santa Dica, teve. A primeira visita à cervejaria foi registrada aqui, em postagem que, ao ser publicada na página oficial, teve repercussão para além do esperado. Na postagem prometia voltar. Viram?

Desta vez a fresquinha da teta da vaca era a adorável kolsch. A gente se empolgou tanto que virou curucucu.





Grajaú (alguma coisa)


Nova pequena série do Grajaú, figurinha fácil no blog, como atestam postagens como esta e esta. A maioria é foto de feira, como já fiz aqui e aqui












Lolipa : my sin, my soul



Quando estive no centro-oeste no começo do ano, provei da inesquecível Santa Dica (aqui) e da Colombina, esta de Goiânia. Quando volto no meio do ano descubro que Goiânia já tem a Seresta e a Lolipa, da Cervejaria Lola, esta com cinco tipos de lúpulos americanos, todos cítricos, um verdadeiro hop-burst. Como ter sede ao lado de Lolipa? Ter sede ao lado de Lolipa. Nem pensar em dormir.

Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta. In my arms she was always Lolita.



Amo-te perdidamente :: Vinho Mariana


 Reencontro a angustiada e perdida de amor Mariana Alcoforado num rótulo de vinho. Conheci a freira graças à Bia Lessa, coisa de anos, e agora a reencontro em Pirenópolis em loja de dono português. Aliás, este me informou que cada rótulo traz, em seu verso, um trecho das cartas, das cinco cartas originalmente escritas em francês no século XVII pela sóror portuguesa para seu amado Noel Bouton de Chamilly, oficial do exército francês.

Isto é um perigo, porque faz coçar o instinto, dos mais baixos, de coleção e aqui no Grajaú já mal cabem livros e copos de cerveja e pratos da BL e camisas de futebol e discos.

A nossa garrafinha trazia: "Encontro-me dilacerada por mil movimentos contrários. Poder-se-á imaginar estado tão deplorável? Amo-te perdidamente", trecho da terceira carta. 

Pobre Mariana! Pudesse ao menos beber do excelente alentejano para aplacar um pouco tão deplorável estado.

Ou mandar o oficial à merda.


A Associação da Boa Lembrança



Colecionei avidamente os pratos da Boa Lembrança de 1999 até 2012, nos três últimos anos com mais obrigação que fervor, o que é ruim. De qualquer modo, uma parede da sala tornou-se quase parede de restaurante boa lembrança, com os divertidos pratos coloridos emoldurando uma quilt norte-americana. Com o fim desta parede e com o início da vita nuova com a Camila, achei / achamos não fazia sentido manter a coleção e, sim, começar nova. Afinal, ou se faz jus ao nome ou não. 

Mas na verdade eu já tinha brigado um pouco com a Associação da Boa Lembrança, ao perceber cada vez mais nitidamente que muitos restaurantes violavam (e violam) uma cláusula que deveria ser pétrea, ao cobrar a mais pelo prato especial. Reclamei em fóruns, escrevi para a associação, nada.

De qualquer modo, fiz as pazes, como em outras brigas (Dante, Camila, Beatles, Vasco, redes sociais, sociedade, eu mesmo). E parece até que Camila, que, ao contrário do escriba, não é de coleções, se empolgou um pedaço com esta, principalmente com a chegada do livrão do Anesio Fassina. Mas isso fica para outra postagem.




Thursday, June 29, 2017

Rimar Bonfim com Miguilim



Não sei se sabem, mas Bandeira, gozando de prestígio de poeta bem instalado na cidade das letras (Elizabeth Bishop tirava sarro disso) achava porque achava que o Rosa tinha que ser seu colega na ABL. Rosa não queria saber do chá das cinco e quando enfim cedeu, deu no que deu (aqui).

Mas nessas idas e vindas teve o cortejo poético do Manuel. Em 58 escreveu esta nonada:

Miguilim pediria a Rosa:

-- “Rosa, não seja ruim.
Faça a vontade do bardo,
Ainda que bardo chinfrim!”


E Manuel continuaria:

E eu secundo:  Mano Rosa,
Rosa, rosai, rosae, rosæ,
Vou aos meus dias pôr um fim.
Antes, porém, me prometa,
Pelo senhor do Bonfim,
Que à minha futura vaga
Você se apresenta, sim?
Muito saudar a Riobaldo,
Igualmente a Diadorim!

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Lembrei-me disso ao escrever a postagem do Senhor do Bonfim goiano (aqui). Não é todo dia se rima Bonfim com Miguilim. E ainda Diadorim e Riobaldo.

São Pedro Príncipe do Rio Comprido



Em uma cidade pródiga na destruição de seu patrimônio, amiúde levada a cabo por aqueles que por ele deveriam zelar, creio que ocupa lugar de destaque a destruição da Igreja de São Pedro dos Clérigos, em 1943, para a abertura da Presidente Vargas. (Bem, refiro-me aqui ao patrimônio construído; fosse levar em conta o natural e o humano, a devastação da Mata Atlântica e o extermínio das populações locais fazem o desmanche do Morro do Castelo e a destruição do Palácio Monroe parecerem brincadeira de dente-de-leite.)

O templo era um bem tombado, aliás, dos primeiros a serem tombados no país, com a fundação do Patrimônio em 1937, mas eram anos de Estado Novo.

Para além das talhas do Mestre Valentim, a igreja de 1733 era notável por sua planta elíptica, hoje só encontrada na maravilhosa Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Ouro Preto. O templo era um bem tombado, mas eram anos de ditadura. Apesar da defesa apaixonada de Rodrigo Melo Franco de Andrade, apesar mesmo de um projeto que pretendia transplantar a igreja, em sua inteireza, para outro sítio, foi posta abaixo com mais outras três (ou quatro?) e hoje é apenas uma fotografia no Google.

Para "substituí-la", construiu-se a Igreja de São Pedro Príncipe dos Apóstolos no Rio Comprido. Não tem culpa de nada ela, e é mesmo muito bonita em meio ao céu azul de junho. E a imagem do orago no altar-mor, bem como outra de mármore logo à entrada do lado direito, a porta talhada e seu umbral -- tudo isso pertencia à velha construção setecentista. Uma maneira de perpetuar talvez.







Wednesday, June 28, 2017

Crônicas Pirenopolinas XII ::: A Igreja do Bonfim



Chega-se a ela por duas ruas: a da Aurora e a do Bonfim e o mais conveniente será sempre subir por uma e descer por outra, de preferência depois de marejar os olhos no pôr do sol. Por ela nutro carinho todo especial e uma como que compulsão por fotografá-la sempre. Lembra a Matriz do Rosário, que está abaixo, também em colina, mas de menores proporções. Tem pintura no forro da nave, cousa rara em Goiás e hoje talvez única, depois que a do Rosário pegou fogo. Rosas, anjos e nuvens, o Senhor do Bonfim, também presente na maravilhosa imagem mandada trazer da Bahia, dos 1700. Não é pouco.

Querida pela comunidade, que a ela acorre para pedir bênção antes da Festa do Divino e antes de viagens e casamentos.

No transepto esquerdo, uma imagem antiga de roca do Senhor dos Passo. No direito, uma imagem meio modernosa do Divino. Inexplicavelmente, me ajoelhei e rezei, eu que nunca faço isso.

O altar, ao qual subimos, tem proteção, como que um para-vento, com pintura original. Sensacional.