Tuesday, June 27, 2017

A Face de Deus :: Crônicas Pirenopolinas X



Torno a ver a face de Deus, desta feita em Pirenópolis, eu que O vira há quase quatro anos na Igreja de Santo Antônio do Valongo, em Santos (aqui). No interior da Matriz do Rosário que, devastada por incêndio em 2002 (chuif), guarda em sua sacristia como que peças avulsas do que sobrou da tragédia e de outras menores que tanto arrasaram o patrimônio histórico e artístico de Goiás. 

Trata-se de pequena peça em madeira, imagem da Santíssima Trindade, a não ser confundida com a Sagrada Família. O Pai, o Filho, o Espírito Santo, o Divino Espírito Santo, de que Pirenópolis (e também Paraty) é tão devota.

Numa provocação sem maldades, indago ao gentil jovem funcionário se aquele é Deus. Ele enrola, se enrola, vem com um discurso teológico para me dizer que é o Pai blablablá. E torno a perguntar 'Então, é Deus, né?", ao que ele, encurralado, aquiesce: "Sim, é Deus".

Por que a hesitação? Sei que representações do Velho Barbudo estão longe de serem comuns, mas há tabu aqui?

Ao contrário do Deus de Santos, o daqui não tem os olhos tristes e cansados como os de boi na chuva.

Também agi de modo diferente: nada de mãos pensas. Fiz uma penca de pedidos e voltei para o delicioso sol de inverno contentíssimo que encontro desses não é toda quarta-feira. 


Tornar as igrejas barrocas de Pirenópolis mais bonitas ::: Crônicas Pirenopolinas IX

Carmo

São três as igrejas históricas de Pirenópolis, já foram cinco. A Matriz de Nossa Senhora do Rosário, reconstruída após o mais triste incêndio em 2002, continua sendo a visão mais bonita de todo o centro-oeste e os modos de tentar retê-la no retrato são inúmeros: sobre telhados velhos, ao lado do arco-íris, sob o canto dos galos, em meio à gritaria dos papagaios, a passagem dos curucucus, acima da ponte do Rio das Almas. Eu não enjoo nunca. Aliás, faço tantas fotos dela quanto posso. Não há duas iguais. O mesmo com a do Bonfim.

Mas eu, que voltei a Pirenópolis pela quarta vez, eu que conheço e amo esse Arraial da Meia Ponte desde 1988, achava que havia modo de tornar elas as igrejas ainda mais bonitas.

Bonfim


Rosário


Crônicas Pirenopolinas VIII ::: Alvorada (de São João)



Há tanto que eu não assistia a uma alvorada. Teve a de Santo Antônio aqui no dia 13, Pampi acordando morna de sonos e sonhos apenas para dizer 'Santo Antônio', porque na Vila temos o Santo Antônio de Lisboa (aqui) mas dela não participei senão neste momento.

Teve agora a de Pirenópolis, para São João e mode abrir oficialmente a cavalhadinha, a modalidade infantil da famosa cavalhada da cidade, sendo que aqui são cristãozinhos que combatem os mourinhos, tudo em cavalinho de pau.

Levantei às 5 em meio à noite escura, gritaria divina de galos. Um e outro com que esbarrei hesitava entre 'bom dia' e 'boa noite'. Andei a passos largos para o Campinho, mas acabei me desviando atrás do espocar de foguetes e a música deliciosamente brancaleone da banda de couro. Finalmente os alcancei, quase que na entrada do rancho, quando a dona da casa a todos recebeu com café, guaraná e cachorro quente. Rezas, cantoria, agradecimentos, beijos na bandeira do Divino. Todos reclamando do frio, eu suando da corrida. Aceitei de bom grado o café.

Voltei com a banda de couro. Por amor de ver o sol nascer na campana do trombone.













Monday, June 26, 2017

Crônicas Pirenopolinas VII :: O Pôr do Sol



Não se trata de competição. Ao do Rio Guaíba, ao de Belo Horizonte, ao do Farol da Barra, some-se o pôr do sol de Pirenópolis, o pôr do sol infinito do cerrado, a que assistimos de nossa varanda, o sol relampejando no vidro das janelas da Matriz do Rosário. Dois tucanos voam por cima dos telhados, são como pássaros de ouro, agora entendo o laranja dos bicos. Também o sol é uma gorda laranja, que lentamente baixa para o lado da barra, sempre querendo ficar mais um pedaço antes que as sombras se estendam sobre a pequena aldeia.

Temos o mais belo Frans Post em frente dos nossos olhos.

Isso tudo me lembra Baltazar e Blimunda e afianço que "Dormiram nessa noite os sóis e as luas abraçados, enquanto as estrelas giravam devagar no céu, Lua onde estás, Sol aonde vais".







Wednesday, June 21, 2017

Às vezes meia bêbada escorrega




às vezes meia bêbada ela escorrega
isso acontece quase todo dia
quando não está meio bêbada
faz poesia

Nos 70 Anos de Egberto III ::: Lakshminarayana Shankar



Meu lado preferido do Circense sempre foi o A, de modo que não causa espécie que minhas duas músicas diletas sejam "Cego Aderaldo" e "Mágico". ("Palhaço" não entra na disputa, para justiça de todas as demais músicas do mundo.)

Há um violino mágico na fantasmagórica "Cego Aderaldo", o que muito contribui para sua tensão. Este violino, toca-o Lakshminarayana Shankar, músico indiano de raízes cingalesas de família profundamente musical, mas a que não pertence o Ravi.

Lakshminarayana Shankar é daquelas figurinhas fáceis quando o papo é "east meets west" blablablá. Já tocou com Phil Collins, Peter Gabriel, Elton John, Eric Clapton, Sting, Bruce Springsteen, Yoko Ono, Lou Reed, U2, a lista é comprida.

Mas isso tudo veio depois. Porque o Circense é de 1980, apenas um ano depois do primeiro álbum solo de Lakshminarayana, Touch me there, com produção do Frank Zappa. Mas então como o Egberto já o conhecia, a ponto de convidá-lo para a participação em uma faixa de seu disco? Será que ele estava, er..., sendo precursor? Parece que sim.

Então no próximo post eu conto uma novidade.



Tuesday, June 20, 2017

Só agora durante a chuva



só agora durante a chuva lembrei
em meio ao adágio do Shostakovich
que ouço ininterruptamente há trinta anos
ontem à noite você descobriu
meus olhos abertos no escuro
e perguntou em sílabas sussurradas
se eu não tinha sono
respondi que ouvia a chuva

teu corpo então sorri
chega (ainda) mais perto

Hoje é dia / de Varal de Poesia



Quase sempre nesta época assim, basta ver as roupas que eles usam: inverno chegando e, portanto, uma atividade outdoors, à falta de uma caverna vamos para o parquinho ler poemas pendurados num varal. Tem Poe, Longfellow, Shakespeare, Whitman: the biggies. Mas tem também Neruda, Mark Strand, Elizabeth Bishop. Outros biggies. Tem até meu soneto inglês # 2. Que leiam e apenas sintam, com corações e mentes. Não se detenham em vocabulário, mas todo mundo me pergunta o que é thee. Depois é escolher um e partilhar. E só.

E quando a aula acaba e perguntam se podem levar pra casa, aquele sentimento bom que deu certo.













Sunday, June 18, 2017

A Polonesa, Restaurante



Aquela história: talvez A Polonesa não saia de moda porque nunca realmente esteve na moda. De qualquer modo, notável que chegue aos 69 anos (epa!) numa cidade tão avessa a cozinhas étnicas, numa cidade que segue se achando mas mal tem um indiano básico.

A Polonesa continua lá. O Pavão Azul, delicioso, cresceu, talvez mais do que devesse, só falta engolir a delegacia do delegado Espinosa enquanto A Polonesa continua lá, com seu letreiro de acrílico vermelho. Le Bec Fin e tantos outros morreram.

Por dentro, perto das paredes chalpiscadas tão anos 70, tudo a mesma coisa.

A grande entendedora de curry Pampi pediu o frango ao curry e aprovou. Também eu aprovei, especialmente por não quererem eles fazer curry indiano.

Os pirogis de funghi estavam ótimos, nós que fracassáramos tanto ao tentar em casa (aqui).

Chato esse negócio de TV ligada.... Pirogis e Aécio pra cá e pra lá não combinam.

E a sobremesa é o suflê de chocolate, que a gente pede assim que senta. Ela vem pegando fogo, o que me lembrou Maiakóvski apaixonado, mandando chamar os bombeiros. Só isso, já diria Dom Pedro, paga toda a viagem.













Friday, June 16, 2017

Café e Bar Brasília ~ Cachambi



Conheci o Café e Bar Brasília em julho de 2011, eu nem tinha barba, depois de ter ido na finada Cervejaria Suingue Brasileiro com mãe e sobrinho. A cervejaria, que tinha cervejas maravilhosas e que tinha que lembrar no site que não estava ali para troca de casais, fechou, mas o Bar Brasília, com seu grande Nilton Bravo e azulejos rabo-de-pavão (aqui), aka rabo-de-galo, continua firme, pelo menos enquanto o ótimo casal Margarida e Ernesto estiverem vivos e com saúde, tocando-o.

O bar, aliás, já fez informalmente aquela troca de nomes que eu tanto repudio (aqui) e agora se apresenta como Bar do Ernesto e Margarida. Bar de nome Brasília tem tudo para ser de 1960, mas Ernesto jura que é de dez anos antes.

É pé-sujo clássico e formidável, sem unha feita. A combinação azulejo / Nilton Bravo o coloca num patamar difícil de ser alcançado hoje no Rio. Quando a esta combinação se soma o Vasco, ocupa um lugar no coração que nem falo.

Às sextas tem mocotó. Fui hoje atrás dele, mas não tinha. O feriado confundiu Dona Margarida que acordou achando que era sábado ou segunda. Está perdoada.

Dona Margarida tem preguiça de tombamento do Nilton Bravo que, segundo ela mesma, foi pintado pelos Bravo Pai e Bravo Filho em um só dia, que se encontraram bem no meio do quadro como se filme do Carlitos.

Essa preguiça temos que vencer ou já não haverá mais Bravo algum por estas plagas.