Wednesday, March 22, 2017

The Who ::: Face Dances



O The Who aproveitou diretamente o ótimo ainda que bizarro nome em dois trabalhos: Who's next e Who are you (The Who Sell Out e The Who by Numbers são um pouco diferente) : ambos perguntas porém sem o ponto de interrogação, de modo a melhor criar estranheza.

Who's Next, marco da discografia, vinha após período de exaustão com o Tommy. Por melhor que tenha sido, por mais que os tenha conduzido ao estrelato, por mais que tenha, enfim, tirado a banda do vermelho, depois de tantos palcos e instrumentos destruídos, era hora de olhar para frente e seguir: Who's next?, com a ótima ambiguidade: este é o próximo do The Who, pelo qual tanto se perguntou.

O título, no entanto, caberia também muito bem, talvez ainda melhor, no disco que se seguiu à morte de Keith Moon. A banda que tanto brigava entre si, inclusive fisicamente, fechou 15 anos juntos sem uma única mudança no line-up. Agora era inevitável. Era substituir o insubstituível ou pendurar a guitarra.

O disco, que não se chamou Who's Next 2, é o Face Dances (1981), título também apropriado e otimamente ilustrado na ótima capa: cumpria dar um sacode, cortar os cachos do Roger e adentrar os anos 80. Isso para uma banda nascida nos 60 e que atravessara espetacularmente os 70. Para a maioria da crítica e fãs, um disco fraco. Digo que fica, no mínimo, ao lado do By Numbers e acima do Who Are You.

A joia da coroa aqui é "You better you bet", nascida clássica, mas a que melhor ilustra a tese de que eles entravam de cabeça nos anos 80 (péssimo para o progressivo, mas cheio de coisas maravilhosas) é "Did you steal my money?". Para quem ouvir : se isso não parece The Police, em especial "King of Pain". (Er, só que a música do Police só viria à luz dois anos depois. Ou seja, a banda que tanto influenciara, das poucas respeitadas pelos punks, já adentrava os 80 criando outras infindas influências...)

PS: Eduardo Pereira, fera que tem inclusive uma banda cover do Police, a Badcops, lembrou de "Spirits in the Material World". Não duvido.




Tuesday, March 21, 2017

Na Paraty chuvosa, com Bishop



Na Paraty que chove Pampi pula
as poças o tempo os dias
E como carrego Bishop ora busco
símiles dignas da poeta
direi que o telhado é como o dorso de larga lagosta
as pedras da rua, a espinha de uma baleia
e teus seios pequenos, peitos de rolinhas assustadas
caídas no céu depois de se chocar
contra o azul
Pampi pula telhados e pedras
rolinhas
cai em mim como cai a chuva
por toda parte a tarde chove
em mim

Nossa Moqueca Caiçara



O melhor jeito de trazer lugares queridos para casa sempre foi com livros. E fotos, claro, muitas fotos. Haverá outros, mas um relativamente recente que incorporamos foi a culinária: trazer temperos, aprender um prato, uma técnica, incorporar à vida. Foi assim com o merkén chileno (aqui) e tantos outros já.

Voltar de Paraty tendo visitado os restaurantes Quintal Verde e a instituição Banana da Terra, onde voltei passados quinze anos, inspirou-nos de tal modo que já no dia seguinte à chegada estávamos fazendo nossa moqueca caiçara, com palmito pupunha (nada de conserva), leite de coco caseiro (nada de garrafinha) e banana da terra (nada de prata ou nanica). Parece ostentação? É rápido e barato. E qualquer coisa próximo ao nirvana.

Como estava tudo muito terra, contrabalançamos com uma estupenda  Interstellar, da Hocus Pocus, uma American IPA absurdamente lupulada, uma bomba de aromas de manga e maracujá. O vizinho do 402 subiu para perguntar sobre o cheiro e tivemos que acender incensos.

Trilha-sonora: "Interstellar Overdrive", Pink Floyd. 







Monday, March 20, 2017

Quem vem aí? :: THE WHO no Grajaú



Confesso estar ainda incrédulo, mineiro de coração que sou, mas se garantiram mesmo o The Who no Brasil, o negócio é aproveitar um pouco a felicidade e expectativa.

O projeto aqui é fazer pequenas intervenções com os discos. O nome faz trocadilho inevitável "Quem vem aí?". Não critiquem, os próprios fizeram isso, e mui apropriadamente, em dois trabalhos.

O rapaz que segura o Sell Out (olha o privilégio que lhe concedi!, ter em mãos a edição original desta maravilha), quando lhe foi explicado que eu fazia isso por ser a primeira vez que o The Who vinha ao Brasil, pois então, esse rapaz perguntou "E você vai mostrar pra ele?". Rararará, nem debocho. Não cansaram de perguntar ao Roger e ao David quem era o Pink Floyd?













Painéis Azulejares em Higienópolis



Três belos painéis azulejares na Lanchonete Pastorinha, em Higienópolis. No indefectível azul cobalto, não são, entretanto, portugueses, mas da nossa Cerâmica Luiz Salvador, de Itaipava, conforme nos atesta um deles. Não me pareceram muito antigos, mas o dono da Pastorinha me garantiu serem dos anos 60 e que tinha um sujeito que vinha e sentava e admirava e lhe oferecia 30 mil pelos três painéis. Não acreditei, por óbvio, mas gostei que ele pudesse falar assim.

O painel central retrata a pastorinha purtuguesa que dá nome ao bar. Os que o ladeiam retratam cena gauchesca (que me lembrou o da Majórica, perdido em incêndio) e paulista (colheita do café). Assina-os Terson.








O Templo Budista do Humaitá



A noite anterior não fora muito típica muito menos tranquila: uma bomba de gás lacrimogêneo explodindo a um metro, a garganta fechada, os olhos ardendo, o susto, mais susto e indignação e nojo que propriamente dor. Que garganta e olhos logo se restabelecem, a intenção do governo golpista truculento não é outra senão intimidar, para na próxima manifestação o sujeito lembrar da bomba e se decidir por não ir. Eu me lembro da bomba e vejo que mais do que nunca é preciso ir, aliás, quando será a próxima?

A noite não fora tranquila, na manhã seguinte decido ter com Buda, ali no Centro Nyingma de Budismo Tibetano, no Humaitá. Nas palavras de Hugo Sukman, Humaitá é um "bairro pouco existente". Nas palavras de outros, ele nem existe, algo como a "perna da sereia", que foi como Aldir Blanc se referiu à Muda.

Sempre acreditei no Humaitá, depois de anos atravessando-o. Agora, depois dessa subida ao templo, ainda mais. Mas não descarto que seja apenas sonho, como aliás também o Jardim Botânico e Botafogo, e todo o Rio e o Brasil e o cosmos, um largo sonho de Sidarta que um dia deitou-se sob a figueira.

Falando em figueira, não se chega ao templo por ruas de nome feio (ver aqui ou aqui). Pega-se a Fonte da Saudade e em seguida a Casuarina e depois a Bogari. Pura poesia.













Sunday, March 19, 2017

Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!



Dona Dandô faz flores de escamas de peixe. Dona Dandô criou filho sozinha, dentro de um barco. Almir Tã é pintor, escultor. Também pescador, claro, todos eles. Os meninos jogam bola no estádio mais bonito que o Camp Nou, onde cabe um torcedor sentado. As meninas se encontram depois do almoço, fazem festas ao cachorro, atualizam os babados perto do emproadíssimo peru e depois vão brincar. Camila recebe o batismo do cachorro, que lhe pede que se demore mais um pedaço. Tenhamos paciência, andorinhas curtas!

As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!

Em dia assim, afinal, eu toparei comigo... 













PS: São caiçaras da Praia Grande e da Ilha do Araújo, tudo Paraty. Tem uns versos do Mário aí jogados.