Wednesday, November 09, 2016

Valença (Um pouco de)



Sobre o Quilombo de São José já postei aqui e aqui; sobre a Clementina, aqui e sobre a casa dos Pentagna, aqui e aqui. (Dá vontade de dizer, sobre a senzala e a casa-grande.) Segue agora um apanhado geral de Valença, cidade histórica fluminense do Vale do Café.

Sem possuir um conjunto notável / compacto / hegemônico de construções históricas, a cidade tem muito a oferecer ao olhar atento.

Voltarei, Deus querendo, para ver as folias de Reis. E comer a feijoada com jongo no quilombo depois de fazer promessa à N. S. da Internet e abraçar o jequitibá.. Só então minha vida estará completa.





N.S. da Glória










Capela construída pelo pai de Clementina de Jesus, em Carambita


Rainha Quelé

Bar da Galinha








Casa Pentagna em Valença



Ela é conhecida oficialmente por Casa de Cultura Léa Pentagna, mas prefiro chamá-la de Casa Pentagna ou dos Pentagna, de modo que assim abarquemos os irmãos de Lea que também moraram ali.

Foi nesta casa que Lúcio Cardoso começou seu romance Crônica da Casa Assassinada (aqui), mas, embora não seja pouco, identificar o lindo palacete neoclássico como a casa assassinada seria tolo, mesmo porque respiram-se ali vida e beleza, em nada semelhante ao ambiente claustrofóbico, castrador e inóspito do romance do Lúcio.

Impossível escolher o ambiente mais bonito (Casa Cor no chinelo). Os quadros, incluindo o retrato de Léa e o de Vito, são do espanhol Timoteo Pérez Rubio, mas se você olhar com atenção pode se deparar com Iberês Camargos pendurados na sala. Ambos, Timoteo e Iberê, amigos da família.

Resumindo: uma casa-museu viva, exemplo de conservação, e até onde sei, sustentabilidade, a ser seguido por instituições similares Brasil adentro. 












Tuesday, November 08, 2016

A Casa da Crônica da Casa Assassinada


Sim, sou chegado a hipérboles, como força expressiva, para fazer um pouco de frente ao febeapá que rola por aí. Nesse espírito que escrevi, por exemplo, que o bairro de Todos os Santos deveria figurar com destaque na lista de pontos turísticos por nele ter morado Lima Barreto (aqui). Foi exagero? Nem acho.

Mais ou menos nesse espírito, afirmo: qualquer interessado em literatura brasileira deve reservar uma visita a Valença, onde poderá conhecer a casa onde Lúcio Cardoso escreveu as 40 primeiras páginas deste que é um dos nossos romances mais importantes e perturbadores: Cronica da Casa Assassinada (1959).

Em minha visita descobri que sua escrivaninha ficava justo no quarto de Vito Pentagna, a quem o romance é dedicado e sobre quem escrevi aqui, em um distante 2012.

Aliás, sobre Vito escreverei mais adiante. Como esta postagem é sobre a casa, uma descoberta, embora eu de ordinário seja avesso a interpretações biográficas: não se passa pela leitura do romance incólume. Não se passa por Nina, André, Ana, Valdo, Demétrio, Alberto sem sofrimento. Não se passa incólume por Timóteo, este que praticamente não tem voz própria na longa narrativa. E não é que na casa descubro que a frequentava um pintor espanhol de nome Timoteo Pérez Rubio? O qual, aliás, pintou praticamente todos os retratos da casa, incluindo o da Lea Pentagna e o de Vito? Será que?

Minha edição é a segunda, de 1963, da Editora Letras e Artes, comprada usada por meu pai em 1984.



Monday, November 07, 2016

Um boné pra Rainha Quelé



Quando visitei as estátuas do Drummond e do Nava, em Belo Horizonte, presenteei o Pedro com um par de óculos, para que assim ele melhor acompanhasse seu grande amigo Carlos, embora seja este que tenha os seus constantemente roubados e / ou quebrados naquela sua outra mais famosa estátua na Praia de Copacabana. Ele gostou.

Sabendo que encontraria o busto de Clementina de Jesus naquela praça principal, e que não é bem praça, em Valença, levei-lhe boné por que há anos ela pedia, nesta que é uma de suas músicas que gosto. 

"Ô, me dá meu boné
Que eu já vou me embora
Por quê?
Brincadeira tem hora."

Não é nada não é nada, sempre se faz uma estátua feliz. E brincadeira tem hora.




PS: Não se dá qualquer boné para a Clementina. Eu mesmo desgosto da maioria deles. O que levei é especial, presente que meu grande amigo Felipe trouxe de Cuba para o Dante.

Sunday, November 06, 2016

Quilombo São José da Serra :: a Capela



Gosto da mitologia católica como de outras. Gosto de São José, acho bonita a simbologia do carpinteiro, da carpintaria, da família. Depois, estudei no colégio de nome, a coisa faz raízes.

Acho tola toda vida essa história de que ele é pai de Jesus mas não foi ele quem engravidou Maria. Me poupem.

De qualquer modo, sigo gostando, ao meu modo. Como tiro muita foto de azulejo de santo, outro 19 de março publiquei pequena coletânea de São Josés por aí e aí Glaucia curtiu e perguntou não tem São José Operário?

Com atraso de alguns meses, segue a linda capelinha de São José no Quilombo São José da Serra, construída para substituir aquela do alto do Morro da Bocaina que ruiu em 1979. Pintados ali São José, operário e negro, ensinando o ofício ao seu menino.

Quem cuida são Maria da Carmo e Daniele. 

Tudo rescendia a manjericão... Como gostava de casar ali...



Maria do Carmo

Quilombo São José da Serra





Chovia muito em Valença e já não havia quem me levasse à Serra da Beleza. Tentei um, dois, três taxistas e, quando ia desistir, o quarto só perguntou se era pra agora. Era.

E assim chegamos debaixo de muita água às terras que desde 30 de abril de 2015 pertencem oficialmente aos quilombolas descendentes do casal Tertuliano e Miquelina, escravos do português José Gonçalves Roxo, que, na segunda metade do século XIX, tiveram os filhos Dionísio, João, Maria, Geraldo e Vitalina. 

Não se sabe se Tertuliano e Miquelina nasceram no Brasil ou na África (seriam angolas?, benguelas?, congos?, cabindas?, moçambiques?, quelimanes?), mas sabemos que todas as famílias que hoje habitam o Quilombo São José descendem do casal. De qualquer modo, é claro que as raízes dessa história encontram-se no outro lado do Atlântico. E o enorme mítico jequitibá simboliza isso. E algo mais. 

Eu e meu taxista Sidnei chegamos, pois, sob muita chuva. Quando percebemos estávamos já abrigados na casa da Luzia tomando café com o pão caseiro. Foi o suficiente pra estiar um pedaço.





Tia Tetê


Maria do Carmo cuida da capela de São José Operário


Thursday, November 03, 2016

60 Anos de Grande Sertão, 70 de Sagarana



Quase não vi nada sobre isso, mas eu não deixo passar. Ano terminado em 6 é para comemorar. Como o pessoal das gravadoras faz com o 7: comemora 30 anos do Sgt. Peppers e depois os 40 e ano que vem os 50. Acho merecidíssimo, ora. O mesmo com o Thick as a Brick e com o Close to the Edge. Então lembremos que este 2016, agora que é novembro e as cigarras gritam sobre meu ombro, é para lembrar os 70 anos de Sagarana e os 60 anos de Grande Sertão: Veredas. E mais: 60 anos do Corpo de Baile, que o doido do João lançou duas obras de peso no mesmo ano. E lembrar que 70 anos de Sagarana significa 70 anos de sua estreia literária. Não é pouco.

Até o fim do ano pretendo escrever alguns posts para celebrar, incluindo um com as minhas primeiras edições do Sagarana e outro sobre o Maria Perigosa, do Luís Jardim.

Este fica só para registrar esta bela taturana que encontrei toda rebolante pela Rua Araxá. O meu tupi é escasso, mas o suficiente para lembrar que esta lagartinha / taturana tem muito a ver com o Grande Sertão (um dos nomes do Riobaldo não é Tatarana?) e com o Saga-Rana, hibridismo lindo das línguas nórdicas com o tupi.

Wednesday, November 02, 2016

A Destruição do Nilton Bravo do Sírio e Libanês



No dia 25 de outubro deste ano o jornal O Globo publicou, no caderno (ainda chama assim?) "Rio Gastronomia", pequena matéria acerca das pinturas de Nilton Bravo ainda existentes em restaurantes e principalmente botequins cariocas. Nesta lê-se que um pesaroso Jawad Ghazi, proprietário do restaurante Sírio e Libanês, "teve que aprender a viver sem" seu Nilton Bravo, que ele próprio encomendara em 1966.

O cronista João Antônio, que incluíra a obra em sua pesquisa sobre o pintor, assim o descreveu:

"Restaurante Sírio Libanês - Rua Senhor dos Passos, 217 - ESPETACULAR - Um Nilton Bravo enorme, na lateral, forma de retângulo, com motivos árabes. O mais comprido de todos os que vi".
No entanto, segundo Ghazi:

"A pintura estava toda velha, descascando. Chamamos uns pintores da igreja (Nossa Senhora do Terço e Senhor dos Passos, na Saara) para restaurar, mas eles disseram que, infelizmente, não dava para recuperar mais. Fiquei muito sentido. O mural tinha pontos turísticos da minha terra, como os templos de Baalbek e cedros do Líbano."

Assim, há um ano e meio, por ocasião da mais recente reforma do restaurante, Baalbek e cedros do Líbano, pilastras e poços, lago e barquinho foram cobertos de tinta.

Façamos as contas: um ano e meio atrás dá, sem erro, primeiro semestre de 2015. Ora, eu estive no Sírio e Libanês em junho de 2014, quando encontrei o painel de Bravo em excelente estado de conservação, tanto que escrevi, empolgado, esta postagem aqui.

Então, como interessado apaixonado pelo assunto, venho a público esclarecer que as declarações do Sr. Ghazi são bem pouco convincentes. Repito: o painel encontrava-se em excelente estado, podendo-se mesmo afirmar ser ele a joia de toda a obra de Nilton Bravo, pai e filho, que resistia na cidade.

Quando comuniquei minha descoberta a um amigo nilton-bravólogo, o Ivo Korytowski, este foi lá checar mas já não o encontrou. Isso em 2014 ainda.

Sua destruição constitui-se, portanto, exemplo claro de crime de lesa-patrimônio, mesmo que a obra de Bravo não haja sido, ainda, efetivamente tombada.

Abaixo seguem registros feitos em junho de 2014.








Dante, guarda-chuvas, vovó



É Mestre Cascudo quem ensina : "Nas saídas da Extrema-Unção, no nosso Pai Fora, o sacerdote é coberto pela umbela, guarda-sol vermelho, pobre ou rico, presente sem dispensa de auxilio. Por isso o chapéu-de-sol aberto dentro de casa é agouro. Sugere sua posição a cena triste do derradeiro Sacramento ministrado aos vivos e fiéis cristãos."

Dante ama os guarda-chuvas, aos quais faz referência espetando o indicador da mão direita  na palma da esquerda. Quando cisma de levar para rua, esteja o tempo que estiver, ninguém segura (disso Cascudo trata também: "O número de pessoas que usam o guarda-sol fechado, perfeitamente inútil sob o sol irradiante, é bem grande e notório por este Brasil."). Quando teima de abri-lo em casa (toc-toc-toc, nada de agouro), é impossível.

"Fica a superstição obstinada", conclui o mestre potiguar. Mas quem sabe, neste dia 2 de novembro, não ouvíssemos de repente um arrastarzinho de havaianas e não sentíssemos, ele e eu, uma mão macia nos fazendo cafuné. Se eu levantasse os olhos seria apenas para ouvir "Então, meu filho, não tem uma cervejinha?"



2013

2013